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O texto foi escrito em 1865,
mas é espantosamente atual.
Para reflexão de todos os espíritas.


Jamais uma doutrina filosófica dos tempos modernos causou tanta emoção
quanto o Espiritismo e nenhuma foi atacada com tamanha obstinação. É prova
evidente de que lhe reconhecem mais vitalidade e raízes mais profundas que
nas outras, já que não se toma de uma picareta para arrancar um pé de
erva. Longe de se apavorarem, os espíritas devem regozijar-se com isto,
pois prova a importância e a verdade da Doutrina. (...)
Vide, na história do mundo, se uma única idéia grande e verdadeira deixou
de triunfar, o que quer que tenham feito para entravá-la. (...)
Entretanto, a luta está longe de terminar; ao contrário, é de esperar que
tome maiores proporções e um outro caráter. Seria por demais prodigioso e
incompatível com o estado atual da Humanidade que uma doutrina, que traz
em si o germe de toda uma renovação, se estabelecesse pacificamente em
alguns anos.
Ainda uma vez, não nos lamentemos; quanto mais rude for a luta, mais
estrondoso será o triunfo. (...)
Já tentaram muitas vezes, e o farão ainda, comprometer a Doutrina,
impelindo-a por uma via perigosa ou ridícula, para a desacreditar. Hoje é
semeando a divisão de modo sub-reptício, lançando o pomo de discórdia, na
expectativa de fazer germinar a dúvida e a incerteza nos espíritos,
provocar o desânimo, verdadeiro ou simulado e levar a perturbação moral
entre os adeptos. Mas não são adversários confessos que assim agiriam. O
Espiritismo, cujos princípios têm tantos pontos de semelhança com os do
Cristianismo, também deve ter os seus Judas, para que tenha a glória de
sair triunfando dessa nova prova. (...)
Nosso dever é premunir os espíritas sinceros contra as armadilhas que lhes
são estendidas. Quanto aos que nos abandonaram, para os quais esses
princípios eram muito rigorosos, neste como em vários outros pontos, é que
sua simpatia era superficial e não do fundo do coração, não havendo
nenhuma razão para nos prendermos a eles. Temos que nos ocupar com coisas
mais importantes que a sua boa ou má vontade a nosso respeito. (...)
Quem quer que ponha o seu ponto de vista fora da estreita esfera do
presente não é mais perturbado pelas mesquinhas intrigas que se agitam à
sua volta. É o que nos esforçamos para fazer, e é o que aconselhamos aos
que querem ter a paz da alma neste mundo. (O Evangelho segundo o
Espiritismo, cap. II, n. 5.)
Como todas as idéias novas, a idéia espírita não podia deixar de ser
explorada por gente que, não tendo alcançado êxito em nada por má conduta
ou por incapacidade, estão à espreita do que é novo, na esperança de aí
encontrar uma mina mais produtiva e mais fácil; se o sucesso não
corresponde à sua expectativa, não o atribuem a si mesmos, mas à coisa,
que declaram má. Tais pessoas só têm de espíritas o nome. Melhor do que
ninguém, pudemos ver essa manobra, tendo sido muitas vezes o alvo dessas
explorações, às quais não quisemos dar a mão, o que não nos valeu amigos.
(...) O Espiritismo, repetimos, ainda tem de passar por rudes provas e é
aí que Deus reconhecerá seus verdadeiros servidores, por sua coragem,
firmeza e perseverança. Os que se deixarem abalar pelo medo ou por uma
decepção são como esses soldados, que só têm coragem nos tempos de paz e
recuam ao primeiro tiro. Entretanto, a maior prova não será a perseguição,
mas o conflito das idéias que será suscitado, com cujo auxílio esperam
romper a falange dos adeptos e a imponente unidade que se faz na Doutrina.
Esse conflito, embora provocado com má intenção, venha dos homens ou dos
maus Espíritos, é, contudo, necessário e, ainda que causasse uma
perturbação momentânea em algumas consciências fracas, terá por resultado
definitivo a consolidação da unidade. Como em todas as coisas, não se deve
julgar os pontos isolados, mas ver o conjunto. É útil que todas as idéias,
mesmo as mais contraditórias e as mais excêntricas, venham à luz;
provoquem o exame e o julgamento, e, se forem falsas, o bom senso lhes
fará justiça. (...)
(...) Os impacientes, que não sabem esperar o momento propício,
comprometem a colheita como comprometem a sorte das batalhas.
Entre os impacientes, sem dúvida alguns há de muito boa-fé e que gostariam
que as coisas andassem ainda mais depressa; assemelham-se a essas
criaturas que julgam adiantar o tempo adiantando o relógio.(...)
(...) O Espiritismo marcha em meio a adversários numerosos que, não o
tendo podido tomar à força, tentam tomá-lo pela astúcia; insinuam-se por
toda parte, sob todas as máscaras e até nas reuniões íntimas, na esperança
de aí surpreender um fato ou uma palavra que muitas vezes terão provocado,
e que esperam explorar em seu proveito. Comprometer o Espiritismo e
torná-lo ridículo, tal é a tática, com o auxílio da qual esperam
desacreditá-lo a princípio, para mais tarde terem um pretexto para mandar
interditar, se possível, o seu exercício público. É a armadilha contra a
qual devemos nos precaver, porque é estendida de todos os lados, e na
qual, sem o querer, são apanhados os que se deixam levar pelas sugestões
dos Espíritos enganadores e mistificadores.
O meio de frustrar essas maquinações é seguir o mais exatamente possível a
linha de conduta traçada pela Doutrina; sua moral, que é a sua parte
essencial, é inatacável, não dá ensejo a nenhuma crítica fundada e a
agressão se torna mais odiosa. Achar os espíritas em falta e em
contradição com seus princípios seria uma boa sorte para os seus
adversários; assim, vede como se empenham em acusar o Espiritismo de todas
as aberrações e de todas as excentricidades pelas quais não poderia ser
responsável. A Doutrina não é ambígua em nenhuma de suas partes; é clara,
precisa, categórica nos mínimos detalhes; só a ignorância e a má-fé podem
enganar-se sobre o que ela aprova ou condena. É, pois, um dever de todos
os espíritas sinceros e devotados repudiar e desaprovar abertamente, em
seu nome, os abusos de todo gênero que pudessem comprometê-la, a fim de
não lhes assumir a responsabilidade. Pactuar com os abusos seria
acumpliciar-se com eles e fornecer armas aos adversários.
Os períodos de transição são sempre difíceis de passar. O Espiritismo está
nesse período; atravessa-o com tanto menos dificuldade quanto mais os seus
adeptos forem prudentes. Estamos em guerra; lá está o inimigo a espiar,
prestes a explorar o menor passo em falso em seu proveito, e disposto a
meter o pé na lama, se o puder.
Contudo, não nos apressemos em lançar pedras e suspeições com muita
leviandade, sobre aparências que poderiam ser enganosas; a caridade,
aliás, faz da moderação um dever, mesmo para os que estão contra nós. A
sinceridade, todavia, mesmo em seus erros, tem atitudes de franqueza com
as quais não é possível equivocar-se, e que a falsidade jamais simulará
completamente, porquanto, mais cedo ou mais tarde, deixa cair a máscara.
Deus e os bons Espíritos permitem que ela se traia por seus próprios atos.
Se uma dúvida atravessa o Espírito, deve ser apenas um motivo para se
guardar reserva, o que pode ser feito sem faltar às conveniências. (Fonte:
KARDEC, Allan. Revista Espírita, junho de 1865, ed. Feb, p. 254-260, Nova
tática dos adversários do Espiritismo, Allan Kardec.)
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