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Numerosas explicações do orientador atendiam-me às indagações
naturais; no entanto, restava aprender alguma coisa. Por que motivo
se reuniam ali tantos desencarnados? Já que recebiam assistência
espiritual, não poderiam congregar-se em lugares igualmente
espirituais?
Respeitosamente, interroguei Aniceto nesse sentido.
- De fato, André — respondeu o generoso mentor —, a maioria dos
desencarnados recebe esclarecimentos justos em nossa esfera de ação.
Você mesmo, nos primórdios da nova experiência espiritual, não foi
conduzido ao ambiente de nossos amigos corporificados para o
necessário encaminhamento. Grande número de criaturas, porém, na
passagem para cá, sentem-se possuidas de “doentia saudade do
agrupamento”, como acontece, noutro plano de evolução, aos animais,
quando sentem a mortal “saudade do rebanho”. Para fortalecer as
possibilidades de adaptação dos desencarnados dessa ordem ao novo
“habitat”, o serviço de socorro é mais eficiente, ao contacto das
forças magnéticas dos irmãos que ainda se encontram envolvidos nos
círculos carnais. Esta sala, em momentos como este, funciona como
grande incubadora de energias psíquicas, para os serviços de aclimação
de certas organizações espirituais à vida nova.
E, designando a grande assembleia de necessitados, continuou:
— Os irmãos, nas condições a que me refiro, ouvem-nos a voz,
consolam-se com o nosso auxilio, mas o calor humano está cheio dum
magnetismo de teor mais significativo, para eles. Com semelhante
contacto, experimentam o despertar de forças novas. Por isso, o
trabalho de cooperação, em templos desta espécie, oferece proporções
que você, por agora, não conseguiria imaginar. Não observou os
preguiçosos, os dorminhocos e invigilantes que vieram colher
benefícios nesta casa? Pois eles também deram alguma coisa de si...
Deram calor magnético, irradiações vitais proveitosas aos benfeitores
deste santuário doméstico, que manipulam os elementos dessa natureza,
distribuindo-os em valiosas combinações fluídicas às entidades
combalidas e inadaptadas.
E, sorrindo, concluiu, bondoso:
— Tudo tem algum proveito, André. Nosso Pai nada cria em vão.
Terminada a reunião com benefícios gerais, que não me cabe descrever
pormenorizadamente, atendeu Aniceto ao facultativo desejoso de
aproveitar-lhe o concurso nobre, junto aos clientes.
— Grande número de vezes — exclamou o receitista do grupo de Dona
Isabel, como a prestar informações a Vicente e a mim — não só
ministramos medicação aos corpos doentes, mas também orientamos os
desencarnados que, no curso da moléstia, se encontram sob nossa
assistência.
— E são sempre muitos? — indaguei.
— Número crescente — elucidou, atencioso. Há ocasiões em que contamos
com a cooperação de amigos ou parentes espirituais dos enfermos; mas,
na maioria dos casos, somos forçados a agir por nós mesmos.
Felizmente, quase nunca estamos sem auxiliares dedicados e ativos. Há
companheiros que se consagram a cuidar de tuberculosos, cegos,
aleijados, leprosos, perturbados e moribundos, isolada-mente. São eles
nossos devotados colaboradores em todas as situações.
Puséramo-nos a caminho e, a breves minutos, estacionávamos diante dum
edifício de vastas proporções.
O colega, gentil, conduziu-nos ao interior de espaçoso necrotério,
onde defrontamos um quadro interessante, O cadáver de uma jovem, de
menos de trinta anos, ali jazia gelado e rígido, tendo a seu lado uma
entidade masculina, em atitude de zelo. Com assombro, notei que a
desencarnada estava unida aos despojos. Parecia recolhida a si mesma,
sob forte impressão de terror. Cerrava as pálpebras, deliberadamente,
receosa de olhar em torno.
— Terminou o processo de desligamento dos laços fisiológicos —
exclamou o facultativo atento —, mas a pobrezinha há seis horas que
está dominada por terrível pavor.
E apontando o cavalheiro desencarnado, que permanecia junto dela,
cuidadoso, o receitista esclareceu:
— Aquele é o noivo que a espera, há muito.
Aproximamo-nos um tanto e ouvimo-lo exclamar carinhosamente:
— Cremilda! Cremilda! vem! abandona as vestes. rotas. Fiz tudo para
que não sofresse mais... Nossa casinha te aguarda, cheia de amor e
luz!...
A jovem, todavia, cerrava os olhos, demonstrando não querer vê-lo.
Notava-se, perfeitamente, que seu organismo espiritual permanecia
totalmente desligado do vaso físico, mas a pobrezinha continuava
estendida, copiando a posição cadavérica, tomada de infinito horror.
Aniceto, que tudo pareceu compreender num abrir e fechar de olhos, fêz
leve sinal ao rapaz desencarnado, que se aproximou comovido.
— É preciso atendê-la doutro modo — disse o nosso orientador, resoluto
—, vejo que a pobrezinha não dormiu no desprendimento e mostra-se
amedrontada por falta de preparação espiritual. Não convém que o amigo
se apresente a ela já, já... Não obstante o amor que lhe consagra, ela
não poderia revê-lo sem terrível comoção, neste instante em que a
mente lhe flutua sem rumo...
— Sim — considerou ele, tristemente —, há seis horas chamo-a sem
cessar, identificando-lhe o terror.
Redargüiu Aniceto, conselheiral:
— Ausência de preparação religiosa, meu irmão. Ela dormirá, porém, e,
tão logo consiga repouso, entregá-la-emos aos seus cuidados. Por
enquanto, conserve-se a alguma distância.
E fazendo-se acompanhar do facultativo, que assistira espiritualmente
a jovem nos últimos dias, aproximou-se da recém-desencarnada, falando
com inflexão paternal:
— Vamos, Cremilda, ao novo tratamento.
Ouvindo-o, a moça abriu os olhos espantadiços e exclamou:
— Ah, doutor, graças a Deus! que pesadelo horrível! Sentia-me no reino
dos mortos, ouvindo meu noivo, falecido há anos, chamar-me para a
Eternidade!...
— Não há morte, minha filha! — objetou Aniceto, afetuoso — creia na
vida, na vida eterna, profunda, vitoriosa!
— É o senhor o novo médico? — indagou, confortada.
— Sim, fui chamado para aplicar-lhe alguns recursos em bases
magnéticas. Torna-se indispensável que durma e descanse.
— É verdade... — tornou ela de modo comovente —, estou muito cansada,
necessitando de repouso...
Recomendou-nos o instrutor, em voz baixa, prestássemos auxílio, em
atitude íntima de oração, e, depois de conservar-se em silêncio por
instantes, ministrou-lhe o passe reconfortador. A jovem dormiu quase
imediatamente.
Deslocou-a Aniceto, afastando-a dos despojos, com o zelo amoroso dum
pai, e, chamando o noivo reconhecido, entregou-a carinhosamente.
— Agora, poderá encaminhá-la, meu irmão.
O rapaz agradeceu com lágrimas de júbilo e vi-o retirar-se de
semblante iluminado, utilizando a volitação, a carregar consigo o
fardo suave do seu amor.
Nosso mentor fixou um gesto expressivo e falou:
— Pela bondade natural do coração e pelo espontâneo cultivo da
virtude, não precisará ela de provas purgatoriais. É de lamentar,
contudo, não se tivesse preparado na educação religiosa dos
pensamentos. Em breve, porém, ter-se-á adaptado à vida nova, Os bons
não encontram obstáculos insuperáveis.
E, desejoso talvez de consubstanciar a síntese da lição, rematou:
— Como vêem, a ideia da morte não serve para aliviar, curar ou
edificar verdadeiramente. É necessário difundir a ideia da vida
vitoriosa. Aliás, o Evangelho já nos ensina, há muitos séculos, que
Deus não é Deus de mortos, e, sim, o Pai das criaturas que vivem para
sempre.
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