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Análise da trajetória
pessoal de André Luiz
através de trechos
do livro Nosso Lar.
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De Umbralino a Mensageiro da Luz -
Observemos alguns dos caminhos pelos
quais
Deus forja seus trabalhadores. |
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DESPERTANDO NO UMBRALO encontro com a própria consciência. |
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"Eu
guardava a impressão de haver perdido a idéia de tempo. A noção de
espaço esvaíra-se-me de há muito. Estava convicto de não mais
pertencer ao número dos encarnados no mundo e, no entanto, meus
pulmões respiravam a longos haustos. Desde quando me tornara joguete
de forças irresistíveis?" |
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"Cabelos
eriçados, coração aos saltos, medo terrível senhoreando-me, muita
vez gritei como louco, implorei piedade e clamei contra o doloroso
desânimo que me subjugava o espírito; mas, quando o silêncio
implacável não me absorvia a voz estentórica, lamentos mais
comovedores, que os meus, respondiam-me aos clamores. A paisagem, quando não
totalmente escura, parecia banhada de luz alvacenta, como que
amortalhada em neblina espessa, que os raios de Sol aquecessem de
muito longe." |
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"E a estranha viagem prosseguia... Com que fim? Quem o poderia
dizer? Apenas sabia que fugia sempre... O medo me impelia de roldão.
Onde o lar, a esposa, os filhos? Perdera toda a noção de rumo. O
receio do ignoto e o pavor da treva absorviam-me todas as faculdades
de raciocínio, logo que me desprendera dos últimos laços físicos, em
pleno sepulcro!" |
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"Reconhecia, agora, a esfera diferente a erguer-se da poalha do
mundo e, todavia, era tarde. Pensamentos angustiosos atritavam-me o
cérebro. Mal delineava projetos de solução, incidentes numerosos
impeliam-me a considerações estonteantes. Em momento algum, o
problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos." |
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"Em
verdade, não fora um criminoso, no meu próprio conceito. Mas, examinando atentamente a mim
mesmo, algo me fazia experimentar a noção de tempo perdido, com a
silenciosa acusação da consciência." |
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"- Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!" - gritos assim,
cercavam-me de todos os lados. Onde os sicários de coração
empedernido? Por vezes, enxergava-os de relance, escorregadios na
treva espessa e, quando meu desespero atingia o auge, atacava-os,
mobilizando extremas energias. Em vão, porém, esmurrava o ar nos
paroxismos da cólera. Gargalhadas sarcásticas feriam-me os ouvidos,
enquanto os vultos negros desapareciam na sombra." |
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"Por que a pecha de
suicídio, quando fora compelido a abandonar a casa, a família e o
doce convívio dos meus? O homem mais forte conhecerá limites à
resistência emocional. Firme e resoluto a princípio, comecei por
entregar-me a longos períodos de desânimo, e, longe de prosseguir na
fortaleza moral, por ignorar o próprio fim, senti que as lágrimas
longamente represadas visitavam-me com mais freqüência, extravasando
do coração. |
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"Para
quem apelar? Torturava-me a fome, a sede me escaldava. Crescera-me a barba, a roupa começava a romper-se com os
esforços da resistência, na região desconhecida. O assédio incessante de forças perversas que me
assomavam nos caminhos ermos e obscuros. Irritavam-me,
aniquilavam-me a possibilidade de concatenar idéias. Desejava
ponderar maduramente a situação, esquadrinhar razões e estabelecer
novas diretrizes ao pensamento, mas aquelas vozes, aqueles lamentos
misturados de acusações nominais, desnorteavam-me irremediavelmente.
- Que buscas, infeliz! Aonde vais, suicida?" |
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"A quem recorrer? Por maior que fosse a cultura intelectual
trazida do mundo, não poderia alterar, agora, a realidade da vida.
Meus conhecimentos, ante o infinito, semelhavam-se a pequenas bolhas
de sabão levadas ao vento impetuoso que transforma as paisagens. Eu
era alguma coisa que o tufão da verdade carreava para muito longe." |
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"Persistiam as necessidades fisiológicas, sem modificação.
Castigava-me a fome todas as fibras, e, nada obstante, o abatimento
progressivo não me fazia cair definitivamente em absoluta exaustão.
De quando em quando, deparavam-se-me verduras que me pareciam
agrestes, em torno de humildes filetes dágua a que me atirava
sequioso". |
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"Foi quando comecei a recordar que deveria existir um Autor da
Vida, fosse onde fosse. Essa idéia confortou-me. Eu, que detestara
as religiões no mundo, experimentava agora a necessidade de conforto
místico. Médico extremamente arraigado ao negativismo da minha
geração, impunha-se-me atitude renovadora. Tornava-se imprescindível
confessar a falência do amor-próprio, a que me consagrara orgulhoso." |
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"E, quando as energias me faltaram de todo, quando me senti
absolutamente colado ao lodo da Terra, sem forças para reerguer-me,
pedi ao Supremo Autor da Natureza me estendesse mãos paternais, em
tão amargurosa emergência. |
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"Ah! é preciso haver sofrido muito, para entender todas as
misteriosas belezas da oração; é necessário haver conhecido o
remorso, a humilhação, a extrema desventura, para tomar com eficácia
o sublime elixir de esperança." |
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Foi
nesse instante que as neblinas espessas se dissiparam e alguém
surgiu, emissário dos Céus. Um velhinho simpático me sorriu
paternalmente. Inclinou--se, fixou nos meus os grandes olhos
lúcidos, e falou: "Coragem, meu filho! O Senhor não te desampara."
Amargurado pranto banhava-me a alma toda. Emocionado, quis traduzir
meu júbilo, comentar a consolação que me chegava, mas, reunindo
todas as forças que me restavam, pude apenas inquirir: "Quem sois,
generoso emissário de Deus?" O inesperado benfeitor sorriu bondoso e
respondeu: "Chama-me Clarêncio, sou apenas teu irmão." |
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REAJUSTANDO A CONDUTA
Orientações para a Cura |
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"Embora transportado à maneira de ferido comum, lobriguei o quadro
confortante que se desdobrava à minha vista. Clarêncio, que se
apoiava num cajado de substância luminosa, deteve-se à frente de
grande porta encravada em altos muros, cobertos de trepadeiras
floridas e graciosas. Tateando um ponto da muralha, fez-se longa
abertura, através da qual penetramos, silenciosos. Branda claridade
inundava ali todas as coisas. Ao longe, gracioso foco de luz dava a
idéia de um pôr do sol em tardes primaveris. A medida que
avançávamos, conseguia identificar preciosas construções, situadas
em extensos jardins. Ao sinal de Clarêncio, os condutores depuseram,
devagarinho, a maca improvisada. A meus olhos surgiu, então, a porta
acolhedora de alvo edifício, à feição de grande hospital terreno." |
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"Amigos, por quem sois, explicai-me em que novo mundo me
encontro... De que estrela me vem, agora, esta luz confortadora e
brilhante?" "Estamos nas esferas espirituais vizinhas da Terra, e o Sol que nos
ilumina, neste momento, é o mesmo que nos vivificava o corpo físico.
Aqui, entretanto, nossa percepção visual é muito mais rica. A
estrela que o Senhor acendeu para os nossos trabalhos terrestres é
mais preciosa e bela do que a supomos quando no círculo carnal.
Nosso Sol é a divina matriz da vida, e a claridade que irradia
provém do Autor da Criação." |
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"Meu ego, como que absorvido em onda de infinito respeito, fixou a
luz branda que invadia o quarto, através das janelas, e perdi-me no
curso de profundas cogitações. Recordei, então, que nunca fixara o
Sol, nos dias terrestres, meditando na imensurável bondade dAquele
que no-lo concede para o caminho eterno da vida. Semelhava-me assim
ao cego venturoso, que abre os olhos para a Natureza sublime, depois
de longos séculos de escuridão." |
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"Terminada a sublime oração, regressei ao aposento de enfermo,
amparado pelo amigo que me atendia de perto. Entretanto, não era
mais o doente grave de horas antes. A primeira prece coletiva, em
"Nosso Lar", operara em mim completa transformação. Conforto
inesperado envolvia-me a alma. Pela primeira vez, depois de anos
consecutivos de sofrimento, o pobre coração, saudoso e atormentado,
à maneira de cálice muito tempo vazio, enchera-se de novo das gotas
generosas do licor da esperança." |
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"Sorridente,
o velhinho amigo apresentou-me o companheiro. Tratava- se, disse, do
irmão Henrique de Luna, do Serviço de Assistência Médica da colônia
espiritual. Trajado de branco, traços fisionômicos irradiando enorme
simpatia, Henrique auscultou-me demoradamente, sorriu e explicou: "É de lamentar que tenha vindo pelo suicídio."
Enquanto Clarêncio permanecia sereno, senti que singular assomo de
revolta me borbulhava no íntimo.
Suicídio? Recordei as acusações dos seres perversos das sombras.
Não obstante o cabedal de gratidão que começava a acumular, não
calei a incriminação. "Creio haja engano - asseverei, melindrado -, meu regresso do mundo
não teve essa causa. Lutei mais de quarenta dias, na Casa de Saúde,
tentando vencer a morte. Sofri duas operações graves, devido a
oclusão intestinal..." |
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"Talvez o amigo não tenha ponderado bastante. O organismo espiritual
apresenta em si mesmo a história completa das ações praticadas no
mundo. Vejamos a zona intestinal. A oclusão derivava de
elementos cancerosos, e estes, por sua vez, de algumas leviandades
do meu estimado irmão, no campo da sífilis. A moléstia talvez não
assumisse características tão graves, se o seu procedimento mental
no planeta estivesse enquadrado nos princípios da fraternidade e da
temperança.
Entretanto, seu modo especial de conviver, muita vez exasperado e
sombrio, captava destruidoras vibrações naqueles que o ouviam. Nunca
imaginou que a cólera fosse manancial de forças negativas para nós
mesmos? A ausência de autodomínio, a inadvertência no trato com os
semelhantes, aos quais muitas vezes ofendeu sem refletir,
conduziam-no freqüentemente à esfera dos seres doentes e inferiores.
Tal circunstância agravou, de muito, o seu estado físico." |
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"Meditei nos problemas dos caminhos humanos, refletindo nas
oportunidades perdidas. Na vida humana, conseguia ajustar numerosas
máscaras ao rosto, talhando-as conforme as situações. Aliás, não
poderia supor, noutro tempo, que me seriam pedidas contas de
episódios simples, que costumava considerar como fatos sem maior
significação. Conceituara, até ali, os erros humanos, segundo os
preceitos da criminologia. Todo acontecimento insignificante,
estranho aos códigos, entraria na relação de fenômenos naturais. Deparava-se-me,
porém, agora, outro sistema de verificação das faltas cometidas. Não
me defrontavam tribunais de tortura, nem me surpreendiam abismos
infernais; contudo, benfeitores sorridentes comentavam-me as
fraquezas como quem cuida de uma criança desorientada, longe das
vistas paternas. Aquele interesse espontâneo, no entanto, feria-me a
vaidade de homem. Talvez que, visitado por figuras diabólicas a me
torturarem, de tridente nas mãos, encontrasse forças para tornar a
derrota menos amarga." |
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"Por
fim, abafando os impulsos vaidosos, reconheci a extensão de minhas
leviandades de outros tempos. A falsa noção da dignidade pessoal
cedia terreno à justiça. Perante minha visão espiritual só existia,
agora, uma realidade torturante: era verdadeiramente um suicida,
perdera o ensejo precioso da experiência humana, não passava de
náufrago a quem se recolhia por caridade." |
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"Como vai? Melhorzinho?"
Esbocei o gesto do enfermo que se vê acariciado na Terra, amolecendo
as fibras emotivas. No mundo, às vezes, o carinho fraterno é mal
interpretado.
Obedecendo ao velho vício, comecei a explicar-me, enquanto os dois
benfeitores se sentavam comodamente a meu lado: "Não posso negar que esteja melhor; entretanto, sofro intensamente.
Muitas dores na zona intestinal, estranhas sensações de angústia no
coração. Nunca supus fosse capaz de tamanha resistência, meu amigo.
Ah! como tem sido pesada a minha cruz!... Agora que posso concatenar
idéias, creio que a dor me aniquilou todas as forças disponíveis..." |
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"Meu amigo, deseja
você, de fato, a cura espiritual?"
Ao meu gesto afirmativo, continuou: "Aprenda, então, a não falar excessivamente de si mesmo, nem
comente a própria dor. Lamentação denota enfermidade mental e
enfermidade de curso laborioso e tratamento difícil. É indispensável
criar pensamentos novos e disciplinar os lábios. Somente
conseguiremos equilíbrio, abrindo o coração ao Sol da Divindade.
Classificar o esforço necessário de imposição esmagadora, enxergar
padecimentos onde há luta edificante, sói identificar indesejável
cegueira dalma. Quanto mais utilize o verbo por dilatar
considerações dolorosas, no círculo da personalidade, mais duros se
tornarão os laços que o prendem a lembranças mesquinhas.
O mesmo Pai que vela por sua pessoa, oferecendo-lhe teto generoso,
nesta casa, atenderá aos seus parentes terrestres. Devemos ter nosso
agrupamento familiar como sagrada construção, mas sem esquecer que
nossas famílias são seções da Família universal, sob a Direção
Divina.
Estaremos a seu lado para resolver dificuldades presentes e
estruturar projetos de futuro, mas não dispomos do tempo para voltar
a zonas estéreis de lamentação. Além disso, temos, nesta colônia, o
compromisso de aceitar o trabalho mais áspero como bênção de
realização, considerando que a Providência desborda amor, enquanto
nós vivemos onerados de dívidas. Se deseja permanecer nesta casa de
assistência, aprenda a pensar com justeza." |
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"Dor, para nós, significa possibilidade de enriquecer a alma; a
luta constitui caminho para a divina realização. Compreendeu a
diferença? As almas débeis, ante o serviço, deitam-se para se
queixarem aos que passam; as fortes, porém, recebem o serviço como
patrimônio sagrado, na movimentação do qual se preparam, a caminho
da perfeição. Ninguém lhe condena a saudade justa, nem pretende
estancar sua fonte de sentimentos sublimes. Acresce notar, todavia,
que o pranto da desesperação não edifica o bem. Se ama, em verdade,
a família terrena, é preciso bom ânimo para lhe ser útil." |
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"Noutro
tempo, talvez me sentisse ofendido com as observações aparentemente tão
ríspidas de Clarêncio; mas, naquelas circunstâncias, lembrava meus erros
antigos e sentia-me confortado. Os fluidos carnais compelem a alma a
profundas sonolências. Em verdade, apenas agora reconhecia que a
experiência humana, em hipótese alguma, poderia ser levada à conta
de brincadeira. A importância da encarnação na Terra surgia-me aos
olhos, evidenciando grandezas até então ignoradas." |
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"Então, como passa? Melhor?"
Contente por me sentir desculpado, à maneira da criança que deseja
aprender, respondi, confortado: "Vou bem melhor, para melhor compreender a Vontade Divina." |
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OBSERVANDO NOSSO LAR
Localização, Infra-estrutura e serviços
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"Sou
Lísias, seu irmão. Meu diretor, o assistente Henrique de Luna,
designou-me para servi-lo, enquanto precisar tratamento." "É
enfermeiro? - indaguei." "Sou visitador dos serviços de saúde. Nessa
qualidade, não só coopero na enfermagem, como também assinalo
necessidades de socorro, ou providências que se refiram a enfermos
recém-chegados." |
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"Nosso Lar" não é estância de espíritos
propriamente vitoriosos, se conferirmos ao termo
sua razoável acepção. Somos felizes, porque temos trabalho; e a
alegria
habita cada recanto da colônia, porque o Senhor não nos retirou o
pão abençoado do serviço." |
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"Deleitava-me, agora, contemplando os horizontes
vastos, debruçado às janelas espaçosas. Impressionavam-me,
sobretudo, os aspectos da Natureza.
Quase tudo, melhorada cópia da Terra. Cores mais harmônicas,
substâncias mais delicadas. Forrava-se o solo de vegetação. Grandes
árvores, pomares fartos e jardins deliciosos. Desenhavam-se montes
coroados de luz, em continuidade à planície onde a colônia
repousava.
Todos os departamentos apareciam cultivados com esmero. A pequena
distância, alteavam-se graciosos edifícios. Alinhavam-se a espaços
regulares, exibindo formas diversas. Nenhum sem flores à entrada,
destacando-se algumas casinhas encantadoras, cercadas por muros de
hera, onde rosas diferentes desabrochavam, aqui e ali, adornando o
verde de cambiantes variados. Aves de plumagens policromas cruzavam
os ares e, de quando em quando, pousavam agrupadas nas torres muito
alvas, a se erguerem retilíneas, lembrando lírios gigantescos, rumo
ao céu." |
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"Das janelas largas, observava, curioso, o movimento
do parque. Extremamente surpreendido, identificava animais domésticos, entre as
árvores frondosas, enfileiradas ao fundo.
Nas minhas lutas introspectivas, perdia-me em indagações de toda
sorte.
Não conseguia atinar com a multiplicidade de formas análogas às do
planeta, considerando a circunstância de me encontrar numa esfera
propriamente espiritual.
Lísias, o companheiro amável de todos os dias, não regateava
explicações. "A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculosas", dizia.
"Todo processo evolutivo implica gradação. Há regiões múltiplas para
os desencarnados, como existem planos inúmeros e surpreendentes para
as criaturas envolvidas de carne terrestre. Almas e sentimentos,
formas e coisas, obedecem a princípios de desenvolvimento natural e
hierarquia justa." |
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"Decorridas algumas semanas de tratamento ativo,
saí, pela primeira vez, em companhia de Lísias.
Impressionou-me o espetáculo das ruas. Vastas avenidas, enfeitadas
de árvores frondosas. Ar puro, atmosfera de profunda tranqüilidade
espiritual. Não havia, porém, qualquer sinal de inércia ou de
ociosidade, porque as vias públicas estavam repletas. Entidades
numerosas iam e vinham. Algumas pareciam situar a mente em lugares
distantes, mas outras me dirigiam olhares acolhedores. Incumbia-se o
companheiro de orientar-me em face das surpresas que surgiam
ininterruptas." |
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"Estamos no local do Ministério do Auxílio. Tudo o
que vemos, edifícios, casas residenciais, representa instituições e
abrigos adequados à tarefa de nossa jurisdição. Orientadores,
operários e outros serviçais da missão residem aqui. Nesta zona,
atende-se a doentes, ouvem-se rogativas, selecionam-se preces,
preparam-se reencarnações terrenas, organizam-se turmas de socorro
aos habitantes do Umbral, ou aos que choram na Terra, estudam-se
soluções para todos os processos que se prendem ao sofrimento." Há, então, em "Nosso Lar", um Ministério do Auxílio? - perguntei.
"Como não? Nossos serviços são distribuídos numa organização que se
aperfeiçoa dia a dia, sob a orientação dos que nos presidem os
destinos." |
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"A colônia, que é essencialmente de trabalho e
realização, divide-se em seis Ministérios, orientados, cada qual,
por doze Ministros. Temos os Ministérios da Regeneração, do Auxílio,
da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e da União Divina. Os
quatro primeiros nos aproximam das esferas terrestres, os dois
últimos nos ligam ao plano superior, visto que a nossa cidade
espiritual é zona de transição. Os serviços mais grosseiros
localizam-se no Ministério da Regeneração, os mais sublimes no da
União Divina. Clarêncio, o nosso chefe amigo, é um dos Ministros do
Auxílio." |
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"Mas "Nosso Lar" terá igualmente uma história,
como as grandes cidades planetárias?" "Sem dúvida. Os planos vizinhos da esfera terráquea possuem,
igualmente, natureza específica. "Nosso Lar" é antiga fundação de
portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no século XVI. A
princípio, enorme e exaustiva foi a luta, segundo consta em nossos
arquivos no Ministério do Esclarecimento.
Há substâncias ásperas nas zonas invisíveis à Terra, tal como nas
regiões que se caracterizam pela matéria grosseira. Aqui também
existem enormes extensões de potencial inferior, como há, no
planeta, grandes tratos de natureza rude e incivilizada. Os
trabalhos primordiais foram desanimadores, mesmo para os espíritos
fortes. Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres,
edifícios de fino lavor, misturavam-se as notas primitivas dos
silvícolas do país e as construções infantis de suas mentes
rudimentares. Os fundadores não desanimaram, porém. Prosseguiram na
obra, copiando o esforço dos europeus que chegavam à esfera
material, apenas com a diferença de que, por lá, se empregava a
violência, a guerra, a escravidão, e, aqui, o serviço perseverante,
a solidariedade fraterna, o amor espiritual." |
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"A essa altura, atingíramos uma praça de
maravilhosos contornos, ostentando extensos jardins. No centro da
praça, erguia-se um palácio de magnificente beleza, encabeçado de
torres soberanas, que se perdiam no céu." "Os fundadores da colônia começaram o esforço, partindo daqui, onde
se localiza a Governadoria" - disse Lisias.
Apontando o palácio, continuou: "Temos, nesta praça, o ponto de convergência dos seis ministérios a
que me referi. Todos começam da Governadoria, estendendo-se em forma
triangular" |
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"Esperemos o aeróbus(1)".Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro, suspenso do
solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de
passageiros.
Ao descer até nós, à maneira de um elevador terrestre, examinei-o
com atenção. Não era máquina conhecida na Terra. Constituída de
material muito flexível, tinha enorme comprimento, parecendo ligada
a fios invisíveis, em virtude do grande número de antenas na tolda.
Mais tarde, confirmei minhas suposições, visitando as grandes
oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte." (1)Carro aéreo, que
seria na Terra um grande funicular. |
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TRABALHANDO COM ALEGRIA
Reaprendendo a Medicina
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"Com as melhoras
crescentes, surgia a necessidade de movimentação e trabalho. Minha
posição ali, contudo, era assaz humilde para me atrever. Os médicos
espirituais eram detentores de técnica diferente. No planeta, sabia
que meu direito de intervir começava nos livros conhecidos e nos
títulos conquistados; mas, naquele ambiente novo, a medicina
começava no coração, exteriorizando-se em amor e cuidado fraternal."
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Minha mãe comentava o serviço como se fora uma bênção às dores e
dificuldades, levando-as a crédito de alegrias e lições sublimes. "A
esfera elevada, meu filho, requer, sempre, mais trabalho, maior
abnegação. Não suponhas que tua mãe permaneça em visões beatificas,
a distância dos deveres justos. Devo fazer-te sentir, no entanto,
que minhas palavras não representam qualquer nota de tristeza, na
situação em que me encontro. É antes revelação de responsabilidade
necessária. Desde que voltei da Terra, tenho trabalhado intensamente
pela nossa renovação espiritual. Muitas entidades, desencarnando,
permanecem agarradas ao lar terrestre, a pretexto de muito amarem os
que demoram no mundo carnal. Ensinaram-me aqui, todavia, que o
verdadeiro amor, para transbordar em benefícios, precisa trabalhar
sempre." |
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"Meu amigo" - disse
Clarêncio, afável -, "doravante está
autorizado a fazer observações nos diversos setores de nossos
serviços, com exceção dos Ministérios de natureza superior. Henrique
de Luna deu por terminado seu tratamento, na semana última, e é
justo, agora, aproveite o tempo observando e aprendendo." |
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"O bônus-hora
não é propriamente moeda, mas ficha de serviço individual,
funcionando como valor aquisitivo. Em "Nosso Lar" a
produção de vestuário e alimentação elementares pertence a todos em
comum. Há serviços centrais de distribuição na Governadoria e
departamentos do mesmo trabalho nos Ministérios. O celeiro
fundamental é propriedade coletiva." |
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"Todos cooperam no engrandecimento do patrimônio
comum e dele vivem. Os que trabalham,
porém, adquirem direitos justos. Cada habitante de "Nosso Lar"
recebe provisões de pão e
roupa, no que se refere ao estritamente necessário; mas os que se
esforçam na obtenção do
bônus-hora conseguem certas prerrogativas na comunidade social. O
espírito que ainda não
trabalha, poderá ser abrigado aqui; no entanto, os que cooperem
podem ter casa própria. O
ocioso vestirá, sem dúvida; mas o operário dedicado vestirá o que
melhor lhe pareça;
compreendeu? Os inativos podem permanecer nos campos de repouso, ou
nos parques de
tratamento, favorecidos pela intercessão de amigos; entretanto, as
almas operosas
conquistam o bônus-hora e podem gozar a companhia de irmãos
queridos, nos lugares
consagrados ao entretenimento, ou o contacto de orientadores sábios,
nas diversas escolas
dos Ministérios em geral. Precisamos conhecer o preço de cada nota
de melhoria e elevação.
Cada um de nós, os que trabalhamos, deve dar, no mínimo, oito horas
de serviço útil, nas
vinte e quatro de que o dia se constitui. Os programas de trabalho,
porém, são numerosos e
a Governadoria permite quatro horas de esforço extraordinário, aos
que desejem colaborar no
trabalho comum, de boa-vontade. Desse modo, há muita gente que
consegue setenta e dois
bônus-hora, por semana, sem falar dos serviços sacrificiais, cuja
remuneração é duplicada
e, às vezes, triplicada. Este é o padrão de pagamento a todos os
colaboradores da colônia,
não só na administração, como também na obediência." |
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"Sei que seu espírito de pesquisa intelectual é
muito forte. Médico estudioso, apaixonado de novidades e enigmas,
ser-lhe-á muito fácil deslizar na posição nova. Não esqueça que
poderá obter valores mais preciosos e dignos que a simples análise
das coisas. A curiosidade, mesmo sadia, pode ser zona mental muito
interessante, mas perigosa, por vezes. Dentro dela, o espírito
desassombrado e leal consegue movimentar-se em atividades
nobilitantes; mas os indecisos e inexperientes podem conhecer dores
amargas, sem proveito para ninguém. Clarêncio ofereceu-lhe ingresso
nos Ministérios, começando pela Regeneração. Pois bem: não se limite
a observar. Ao invés de albergar a curiosidade, medite no trabalho e
atire-se a ele na primeira ocasião que se ofereça. Surgindo ensejo
nas tarefas da Regeneração, não se preocupe em alcançar o espetáculo
dos serviços nos demais Ministérios. Aprenda a construir o seu
círculo de simpatias e não olvide que o espírito de investigação
deve manifestar-se após o espírito de serviço. Pesquisar atividades
alheias, sem testemunhos no bem, pode ser criminoso atrevimento.
Muitos fracassos, nas edificações do mundo, originam-se de
semelhante anomalia. Todos querem observar, raros se dispõem a
realizar. Somente o trabalho digno confere ao espírito o merecimento
indispensável a quaisquer direitos novos. O Ministério da
Regeneração está repleto de lutas pesadas, localizando-se ali a
região mais baixa de nossa colônia espiritual. Não se considere, porém,
humilhado por atender às tarefas humildes. Lembro-lhe que em todas
as nossas esferas, desde o planeta até os núcleos mais elevados das
zonas superiores, em nos referindo à Terra, o Maior Trabalhador é o
próprio Cristo e que Ele não desdenhou o serrote pesado de uma
carpintaria. O Ministro Clarêncio autorizou-o, gentilmente, a
conhecer, visitar e analisar; mas pode, como servidor de bom senso,
converter observações em tarefa útil. É possível receber alguém dos
que administram, quando peça determinado gênero de atividade
reservada, com justiça, aos que muito hão lutado e sofrido no
capítulo da especialização; mas ninguém se recusará a aceitar o
concurso do
espírito de boa-vontade, que ama o trabalho pelo prazer de servir." |
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"Quando o discípulo está preparado, o Pai envia o
instrutor. O mesmo se dá, relativamente ao
trabalho. Quando o servidor está pronto, o serviço aparece." |
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"O trabalho, enfim... Nunca poderia imaginar o
quadro que se desenhava agora aos meus olhos. Não era bem o hospital
de sangue, nem o instituto de tratamento normal da saúde orgânica.
Era uma série de câmaras vastas, ligadas entre si e repletas de
verdadeiros despojos humanos." |
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"Tobias começou a aplicar passes de
fortalecimento, sob meus olhos atônitos. Finda a operação nos dois
primeiros, começaram ambos a expelir negra substância pela boca,
espécie de vômito escuro e viscoso, com terríveis emanações
cadavéricas. "São fluidos venenosos que segregam" - explicou Tobias, muito calmo.
Narcisa fazia o possível por atender prontamente à tarefa de
limpeza, mas debalde. Grande número deles deixava escapar a mesma
substância negra e fétida. Foi então, que, instintivamente, me
agarrei aos petrechos de higiene e lancei-me ao trabalho com ardor." |
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"O serviço continuou por todo o dia, custando-me abençoado suor, e
nenhum amigo do mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico
que recomeçava a educação de si mesmo, na enfermagem rudimentar." |
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"Precisamos de pessoal de serviço noturno, porquanto os operários em
função com os Samaritanos chegarão extremamente fatigados."
"Ofereço-me, com prazer, para o que possa aproveitar" – exclamei
espontaneamente. Tobias endereçou-me um olhar de profunda simpatia,
mesclada de gratidão, fazendo-me experimentar cariciosa alegria
íntima. "Mas está resolvido a permanecer nas Câmaras, durante a
noite?" - perguntou, admirado. "Outros não fazem o mesmo?" -
indaguei por minha vez - "sinto-me disposto e forte, preciso
recuperar o tempo perdido." Abraçou-me o generoso amigo,
acrescentando: "Pois bem, aceito confiante a colaboração." |
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"Não
poderia explicar o que se passava comigo. Apesar da fadiga dos
braços, experimentava júbilo inexcedível no coração. Na oficina,
onde a maioria procura o trabalho, entendendo-lhe o sublime valor,
servir constitui alegria suprema. Não pensava, francamente, na
compensação dos bônus-hora, nas recompensas imediatas que me
pudessem advir do esforço; contudo, minha satisfação era profunda,
reconhecendo que poderia comparecer feliz e honrado, perante minha
mãe e os benfeitores que havia encontrado no Ministério do Auxílio." |
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OPORTUNIDADES
FELIZES
O coração se desculpa |
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"Vem,
assim, de tão longe?" Falando desse modo, afetei ares de profundo
interesse fraternal, como costumava fazer na Terra, olvidando por
completo, naquele instante, as sábias recomendações da mãe de Lísias.
A pobre criatura, percebendo o meu interesse, começou a explicar-se:
"De grande distância. Fui, na Terra, meu filho, mulher de muito bons
costumes; fiz muita caridade, rezei incessantemente como sincera
devota. Mas, quem pode com as artes de Satanás?" Ia responder mas
Narcisa aproximou-se e disse-me, bondosa: "André, meu amigo, você
esqueceu que estamos providenciando alívio a doentes e perturbados?
Que proveito lhe advém de semelhantes informações? Os dementes falam
de maneira incessante, e quem os ouve, gastando interesse
espiritual, pode não estar menos louco." Aquelas palavras foram
ditas com tanta bondade que corei de vergonha, sem coragem de a elas
responder. |
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"Guardavam-se petrechos da excursão e recolhiam-se animais de
serviço, quando a voz de alguém se fez ouvir carinhosamente, a meu
lado: "André! você aqui? Muito bem! Que agradável surpresa!..."
Voltei-me surpreendido e reconheci, no Samaritano que assim falava,
o velho Silveira, pessoa de meu conhecimento, a quem meu pai, como
negociante inflexível, despojara, um dia, de todos os bens. Justo
acanhamento dominou-me, então. Quis cumprimentá-lo, corresponder ao
gesto afetuoso, mas a lembrança do passado paralisava-me de súbito." |
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"Quis ensaiar algumas explicações relativamente ao passado, mas
não o consegui. No fundo, eu desejava pedir desculpas pelo
procedimento de meu pai, levando-o ao extremo de uma falência
desastrosa. Naquele instante, eu revia mentalmente o clichê do
pretérito. A memória exibia, de novo, o quadro vivo. Parecia-me
ouvir ainda a senhora Silveira, quando foi a nossa casa, suplicante,
esclarecer a situação. O marido estava acamado, havia muito,
agravando-se-lhes a penúria com a enfermidade de dois filhinhos. As
necessidades não eram reduzidas e os tratamentos exigiam soma
considerável." |
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"Queria
desculpar-me e todavia não encontrava frases justas, porque, na ocasião, também
encorajara meu pai a consumar o iníquo atentado; considerava minha mãe
excessivamente sentimentalista e induzira-o a prosseguir na ação, até ao fim.
Muito jovem ainda, a vaidade apossara-se de mim. Não queria saber se outros
sofriam, não conseguia enxergar as necessidades alheias. Via, apenas, os
direitos de minha casa, nada mais. E, nesse ponto, tinha sido inexorável." |
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"Aproveitou,
você, o belo ensejo?" - indagou Narcisa. "Que quer dizer?" -
indaguei. "Desculpou-se com o Silveira? Olhe que é grande felicidade
reconhecer os próprios erros. Já que você pode examinar-se a si
mesmo com bastante luz de entendimento, identificando-se como antigo
ofensor, não perca a oportunidade de se fazer amigo. Vá, meu caro, e
abrace-o de outra maneira. Aproveite o momento, porque o Silveira é
ocupadíssimo e talvez não se ofereça tão cedo outra oportunidade." |
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"Não
mais vacilei. Corri ao encontro de Silveira e falei-lhe abertamente,
rogando perdoasse a meu pai, e a mim, as ofensas e os erros
cometidos. "Você compreende, nós estávamos cegos. Em tal estado,
nada conseguíamos vislumbrar, senão o interesse próprio. Quando o
dinheiro se alia à vaidade, Silveira, dificilmente pode o homem
afastar-se do mau caminho." Silveira, comovidíssimo, não me deixou
terminar: "Ora, André, quem haverá isento de faltas? Acaso, poderia
você acreditar que vivi isento de erros? Além disso, seu pai foi meu
verdadeiro instrutor. Devemos-lhe, meus filhos e eu, abençoadas
lições de esforço pessoal. Sem aquela atitude enérgica que nos
subtraiu as possibilidades materiais, que seria de nós no tocante ao
progresso do espírito?" E fixando, emocionado, os meus olhos úmidos,
afagou-me paternalmente e rematou: "Não perca tempo com isso. Breve,
quero ter a satisfação de visitar seu pai, junto de
você." Abracei-o, então, em silêncio, experimentando alegria nova em
minhalma. Pareceu-me que, num dos escaninhos escuros do coração, se
me acendera divina luz para sempre." |
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"Eu
não sabia explicar a grande atração pela visita ao departamento
feminino das Câmaras de Retificação. Falei a Narcisa, do meu desejo,
prontificando-se ela a satisfazer-me. "Quando o Pai nos convoca a
determinado lugar - disse, bondosa, -, é que lá nos aguarda alguma
tarefa. Cada situação, na vida, tem finalidade definida... Não deixe
de observar este princípio em suas visitas aparentemente casuais.
Desde que nossos pensamentos visem à prática do bem, não será
difícil identificar as sugestões divinas.." |
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"Estudava
eu a fisionomia das enfermas, quando fixei alguém que me despertou
mais viva atenção. Quem seria aquela mulher amargurada, de aparência
original? Velhice que parecia prematura tipificava-lhe o semblante,
em cujos lábios pairava um ricto, misto de ironia e resignação. Os
olhos, embaciados e tristes, mostravam-se defeituosos. Memória
inquieta, coração oprimido, em poucos instantes localizei-a no
passado. Era Elisa. Aquela mesma Elisa que conhecera nos tempos de
rapaz..." |
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"Entretanto, estouvadamente, levara eu muito longe a nossa
camaradagem... Sob enorme angústia moral, abandonou Elisa, mais
tarde, a nossa casa, sem coragem de me lançar em rosto qualquer
acusação. E o tempo passou, reduzindo o fato, em meu pensamento, a
episódio fortuito da existência humana. No entanto, o episódio, como
alguma coisa da vida, estava também vivo. A minha frente tinha
Elisa, agora, vencida e humilhada! Por onde vivera a mísera
criatura, tão cedo atirada a doloroso capítulo de sofrimentos? Donde
vinha? Ah!... naquele caso, não me defrontava o Silveira, perto de
quem pudera repartir o débito com meu pai. A dívida, agora, era
inteiramente minha. Cheguei a tremer, envergonhado da exumação
daquelas reminiscências, mas, qual criança ansiosa de perdão pelas
faltas cometidas, dirigi-me a Narcisa, pedindo orientação." |
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"Não
tema. Aproxime-se dela e reconforte-a. Todos nós, meu irmão,
encontramos no caminho os frutos do bem ou do mal que semeamos. Esta
afirmativa não é frase doutrinária, é realidade universal. Tenho
colhido muito proveito de situações iguais a esta. Bem-aventurados
os devedores em condições de pagar." |
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"Comovidíssimo
até às lágrimas, perguntei: E ele? Como se chama o homem que a fez
tão infeliz?" Ouvia-a, então, pronunciar meu nome e de meus pais. "E
você o odeia?" indaguei, acabrunhado. Ela sorriu tristemente e
respondeu:" No período do meu sofrimento anterior, amaldiçoava-lhe a
lembrança, nutrindo por ele um ódio mortal; mas a irmã Nemésia
modificou-me. Para odiá-lo, tenho de odiar a mim mesma. No meu caso,
a culpa deve ser repartida. Não devo, pois, recriminar ninguém." |
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'Ouça, minha amiga" - falei com emoção forte -, "também eu me chamo
André e preciso ajudá-la. Conte comigo, doravante." "E sua voz -
disse Elisa, ingenuamente - parece a dele." "Pois bem" - continuei,
comovido -, "até agora, não tenho propriamente uma família em "Nosso
Lar". Mas você será aqui minha irmã do coração. Conte com o meu
devotamento de amigo." No semblante da sofredora, um grande sorriso
parecia uma grande luz. "Como lhe sou grata!" - disse ela enxugando
as lágrimas - "há quantos anos ninguém me fala assim, nesse tom
familiar, dando-me o consolo da amizade sincera!... Que Jesus o
abençoe." Nesse instante, quando minhas lágrimas se fizeram mais
abundantes, Narcisa tomou-me as mãos, maternalmente, e repetiu: "Que
Jesus o abençoe." |
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LAR, FAMÍLIA E AMOR
E seus Reais Valores
"O maior sustentáculo das criaturas é justamente o
amor. Todo sistema de alimentação, nas variadas
esferas da vida, tem no amor a base profunda. O alimento físico,
mesmo aqui, propriamente considerado, é simples problema de
materialidade transitória, como no caso dos veículos terrestres,
necessitados de colaboração da graxa e do óleo. A alma, em si,
apenas se nutre de amor. Quanto mais nos elevarmos no plano
evolutivo da Criação, mais extensamente conheceremos essa verdade.
Não lhe parece que o amor divino seja o cibo do Universo?" |
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"Tudo se equilibra no amor infinito de Deus, e,
quanto mais evolvido o ser criado, mais sutil o processo de
alimentação. O verme, no subsolo do planeta, nutre-se
essencialmente de terra. O grande animal colhe na planta os
elementos de manutenção, a exemplo da criança sugando o seio
materno. O homem colhe o fruto do vegetal, transforma-o segundo a
exigência do paladar que lhe é próprio, e serve-se dele à mesa do
lar. Nós outros, criaturas desencarnadas, necessitamos de
substâncias suculentas, tendentes à condição fluídica, e o
processo será cada vez mais delicado, à medida que se intensifique
a ascensão individual." |
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"E ninguém diga que o fenômeno é simplesmente
sexual. O sexo é manifestação sagrada desse amor universal e
divino, mas é apenas uma expressão isolada do potencial infinito.
Entre os casais mais espiritualizados, o carinho e a confiança, a
dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união
física, reduzida, entre eles, a realização transitória. A permuta
magnética é o fator que estabelece ritmo necessário à
manifestação da harmonia. Para que se alimente a ventura, basta a
presença e, às vezes, apenas a compreensão." |
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"A certa altura da palestra amável, Tobias
acrescentou, sorridente: "O meu amigo, a bem dizer, é ainda novato em nosso Ministério e
talvez desconheça o meu caso familiar."
Sorriam ao mesmo tempo as duas senhoras; e, observando-me a
silenciosa interpelação, o dono da casa continuou: "Aliás, temos numerosos núcleos nas mesmas condições. Imagine que
fui casado duas vezes..."
E, indicando as companheiras de sala, prosseguiu num gesto de bom
humor: "Creio nada precisar esclarecer quanto às esposas." "Ah! sim" - murmurei extremamente confundido -,
"quer dizer que as senhoras Hilda e Luciana compartilharam das
suas experiências na Terra." "Isso mesmo - respondeu tranqüilo." |
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"Há milhões de pessoas, nos círculos do planeta,
em estado de segundas núpcias. Como resolver tão alta questão
afetiva, considerando a espiritualidade eterna? Sabemos que a
morte do corpo apenas transforma sem destruir. Os laços da alma
prosseguem, através do Infinito. Como proceder? Condenar o homem
ou a mulher que se casaram mais de uma vez? Encontraríamos, porém,
milhões de criaturas nessas condições. Muitas vezes já lembrei,
com interesse, a passagem evangélica em que o Mestre nos promete a
vida dos anjos, quando se referiu ao casamento na Eternidade." |
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"Como se processa
o casamento aqui?" - indaguei. "Pela combinação vibratória" - esclareceu Tobias,
atencioso -, "ou então, para ser mais explícito -, pela afinidade máxima ou
completa." |
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"O caso Tobias é apenas um dos
inumeráveis que conhecemos aqui e noutros núcleos espirituais, que se
caracterizam pelo pensamento elevado." "Mas, choca-nos o sentimento, não é verdade?" - atalhei com interesse.
"Quando nos atemos aos pontos de vista propriamente humanos, essas coisas dão
até para escandalizar; entretanto, meu amigo, é necessário, agora, sobrepor-mos
a tudo os princípios de natureza espiritual.
Nesse sentido, André, precisamos compreender o espírito de seqüência que rege os
quadros evolutivos da vida. Se atravessamos longa escala de animalidade, é justo
que essa animalidade não desapareça de um dia para outro.
Empregamos muitos séculos para emergir das camadas inferiores. O sexo participa
do patrimônio de faculdades divinas, que demoramos a compreender.
Não será fácil para você, presentemente, a penetração, no sentido elevado, da
organização doméstica que visitou ontem; entretanto, a felicidade, ali, é muito
grande, pela atmosfera de compreensão que se criou entre as personagens do drama
terrestre. Nem todos conseguem substituir cadeias de sombra por laços de luz em
tão pouco tempo." "Mas temos nisso uma regra geral?" - indaguei. "Todo homem e toda mulher, que se
tenham casado
mais de uma vez, restabelecem aqui o núcleo doméstico, fazendo-se acompanhar de
todas as afeições que hajam conhecido?" |
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"Não seja tão radicalista. É indispensável seguir devagar. Muita gente pode ter
afeição e não ter compreensão. Não esqueça que nossas construções vibratórias
são muito mais importantes que as da Terra. O caso Tobias é o caso de vitória da
fraternidade real, por parte das três almas interessadas na aquisição de justo
entendimento. Quem não se adaptar à lei de fraternidade e compreensão,
logicamente não atravessará essas fronteiras. As regiões obscuras do Umbral
estão cheias de entidades que não resistiram a semelhantes provas. Enquanto
odiarem, assemelham-se a agulhas magnéticas sob os mais antagônicos influxos;
enquanto não entenderem a verdade, sofrerão o império da mentira e,
conseqüentemente, não poderão penetrar as zonas de atividade superior. São
incontáveis as criaturas que padecem longos anos, sem qualquer alívio
espiritual, simplesmente porque se esquivam à fraternidade legítima." |
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"E que acontece, então? - interroguei, valendo-me da pausa da interlocutora -
se não são
admitidas aos núcleos espirituais de aprendizado nobre, onde se localizarão as
pobres almas
em experiências dessa ordem?" "Depois de padecimentos verdadeiramente infernais, pelas criações inferiores
que inventam
para si mesmas" - redargüiu a mãe de Lísias" -, vão fazer na experiência carnal o
que não
conseguiram realizar em ambiente estranho ao corpo terrestre. Concede-lhes a
Bondade Divina
o esquecimento do passado, na organização física do planeta, e vão receber, nos
laços da
consangüinidade, aqueles de quem se afastaram deliberadamente pelo veneno do
ódio ou da
incompreensão. Daí se infere
a oportunidade, cada vez mais viva, da recomendação de Jesus, quando nos
aconselha imediata
reconciliação com os adversários. O alvitre, antes de tudo, interessa a nós
mesmos. Devemos
observá-lo em proveito próprio.
Quem sabe valer-se do tempo, finda a experiência terrena, ainda que precise
voltar aos
círculos da carne, pode efetuar sublimes construções espirituais, com relação à
paz da
consciência, regressando à matéria grosseira, suportando menor bagagem de
preocupações. Há
muitos espíritos que gastam séculos tentando desfazer animosidades e antipatias
na
existência terrestre e refazendo-as após a desencarnação. O problema do perdão,
com Jesus,
meu caro André, é problema sério. Não se resolve em conversas.
Perdoar verbalmente é questão de palavras; mas aquele que perdoa realmente,
precisa mover e
remover pesados fardos de outras eras, dentro de si mesmo." |
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REAJUSTANDO OS SENTIMENTOS
Ensaios para a libertação
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"Sentindo-me só, ponderei os acontecimentos que me sobrevieram,
desde o primeiro encontro com o Ministro Clarêncio. Onde estaria a
paragem de sonho? Na Terra, ou naquela colônia espiritual? Que
teria sucedido a Zélia e aos filhinhos? Por que razão me prestavam
ali tão grande esclarecimentos sobre as mais variadas questões da
vida, omitindo, contudo, qualquer notícia pertinente ao meu antigo
lar? Minha própria mãe me aconselhara o silêncio, abstendo-se de
qualquer informação direta." |
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"Tudo indicava a necessidade de esquecer os problemas carnais,
no sentido de renovar-me intrinsecamente, e, no entanto,
penetrando os recessos do ser, encontrava a saudade viva dos meus.
Desejava ardentemente rever a esposa muito amada, receber de novo
o beijo dos filhinhos... Por que decisões do destino estávamos
agora separados, como se eu fosse um náufrago em praia
desconhecida? Simultaneamente, idéias generosas confortavam-me o
íntimo." |
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"Em verdade, muito amara a companheira de lutas e, sem dúvida,
dispensara aos filhinhos ternuras incessantes; mas, examinando
desapaixonadamente minha situação de esposo e pai, reconhecia que
nada criara de sólido e útil no espírito dos meus familiares.
Tarde verificava esse descuido. Quem atravessa um campo sem
organizar sementeira necessária ao pão e sem proteger a fonte que
sacia a sede, não pode voltar com a intenção de abastecer-se. Tais
pensamentos instalavam-se-me no cérebro com veemência irritante." |
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"O que me diz das quedas? Verificam-se apenas na Terra?
Somente os encarnados são suscetíveis de precipitação no
despenhadeiro das Trevas?"
Lísias pensou um minuto e respondeu: "Sua observação é oportuna. Em qualquer lugar, o espírito pode
precipitar-se nas furnas do mal, salientando-se, porém, que nas
esferas superiores as defesas são mais fortes, imprimindo-se,
conseqüentemente, mais intensidade de culpa na falta cometida." Entretanto" - objetei -,
"a queda sempre me pareceu impossível nas
regiões estranhas ao corpo terreno. O ambiente divino, o
conhecimento da verdade, o auxílio
superior figuravam-se-me antídotos infalíveis ao veneno da vaidade
e da tentação."
O companheiro sorriu e esclareceu: "O problema da tentação é mais complexo. As paisagens do planeta
terrestre estão cheias de ambiente divino, conhecimento da verdade
e auxílio superior. Não são poucos os que compartem, ali, de
batalhas destruidoras entre as árvores acolhedoras e os campos
primaveris; muitos cometem homicídios ao luar, insensíveis à
profunda sugestão das estrelas; outros exploram os mais fracos,
ouvindo elevadas revelações da verdade superior. Não faltam, na
Terra, paisagens e expressões essencialmente divinas." |
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"Qual acontece a nós outros, que trazemos em nosso íntimo o
superior e o inferior, também o planeta traz em si expressões
altas e baixas, com que corrige o culpado e dá passagem ao
triunfador para a vida eterna.
Você sabe, como médico humano, que há elementos no cérebro do
homem que lhe presidem o senso diretivo. Hoje, porém, reconhece
que esses elementos não são propriamente físicos e sim
espirituais, na essência.
Quem estime viver exclusivamente nas sombras, embotará o sentido
divino da direção. Não será demais, portanto, que se precipite nas
Trevas, porque o abismo atrai o abismo e cada um de nós chegará ao
local para onde esteja dirigindo os próprios passos." |
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"Lísias, a meu lado, logo que deixamos o aeróbus numa das
praças do Ministério da Elevação, disse carinhoso: "Finalmente, vai você conhecer minha noiva, a quem tenho falado
muitas vezes a seu respeito." "É curioso - observei, intrigado - encontrarmos noivados, também
por aqui..." "Como não? Vive o amor sublime no corpo mortal, ou na alma
eterna?
Lá, no círculo terrestre, meu caro, o amor é uma espécie de ouro
abafado nas pedras
brutas. Tanto o misturam os homens com as necessidades, os desejos
e estados inferiores, que raramente se diferenciará a ganga do
precioso metal." |
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"O noivado é muito mais belo na espiritualidade. Não existem
véus de ilusão a obscurecer-nos o olhar. Somos o que somos.
Lascínia e eu já fracassamos muitas vezes nas experiências
materiais. Devo confessar que quase todos os desastres do
pretérito tiveram origem na minha imprevidência e absoluta falta
de autodomínio. A liberdade que as leis sociais do planeta
conferem ao sexo masculino, ainda não foi devidamente compreendida
por nós outros. Raramente algum de nós a utiliza no mundo em
serviço de espiritualização. Amiúde, convertemo-la em resvaladouro
para a animalidade. As mulheres, ao contrário, têm tido, até
agora, a seu favor, as disciplinas mais rigorosas. Na existência
passageira, sofrem-nos a tirania e suportam o peso das nossas
imposições; aqui, porém, verificamos o reajustamento dos valores.
Só é verdadeiramente livre quem aprende a obedecer." |
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"Antes que pudesse manifestar minha profunda admiração, Lisias
recomendou bem-humorado: "Lascínia sempre se faz acompanhar de duas irmãs, às quais,
espero faça você as honras de
cavalheiro. "Mas, Lísias..." - respondi, reticencioso, considerando minha
antiga posição conjugal - "você deve compreender que estou ligado a Zélia."
O enfermeiro amigo, nesse instante, riu a valer, acrescentando: "Era o que faltava! Ninguém quer ferir seus sentimentos de
fidelidade.
Não creio, no entanto, que a união esponsalícia deva trazer o
esquecimento da vida social.
Não sabe mais ser o irmão de alguém, André?" |
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|
"Em
palestras numerosas, recolhia referências a Jesus e ao Evangelho,
e, no entanto, o que
mais me impressionava era a nota de alegria reinante em todas as
conversações.
Ninguém recordava o Mestre com as vibrações negativas da tristeza
inútil, ou do
injustificável desalento, Jesus era lembrado por todos como
supremo orientador das
organizações terrenas, visíveis e invisíveis, cheio de compreensão
e bondade, mas também
consciente da energia e da vigilância necessárias à preservação da
ordem e da justiça.
Aquela sociedade otimista encantava-me. Diante dos olhos, tinha
concretizadas as esperanças
de grande número dos pensadores verdadeiramente nobres, na Terra..." |
|
"Não concordo. Voltar a senhora à carne? Por quê?
Internar-se, de novo, no caminho escuro, sem necessidade imediata?"
Mostrando nobre expressão de serenidade, minha mãe ponderou: "Não consideras a angustiosa condição de teu pai, meu filho? Há
muitos anos trabalho para reerguê-lo e meus esforços têm sido improfícuos." |
|
"E essas mulheres?" - indaguei. "Que será feito dessas infelizes?"
Minha mãe sorriu e respondeu: "Serão minhas filhas daqui a alguns anos. É preciso não
esqueceres que irei ao mundo em auxílio de teu pai. Teu pai é hoje um céptico e essas
pobres irmãs suportam pesados fardos na lama da ignorância e da
ilusão. Em futuro não distante, colocarei todos eles em meu regaço
materno, realizando minha nova experiência. E mais tarde... quem sabe? talvez regresse a "Nosso Lar",
cercada de outros afetos sacrossantos, para uma grande festividade
de alegria, amor e união..." |
|
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AMANDO FRATERNALMENTE
Vencendo a Si Mesmo
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"Um ano se passou em trabalhos construtivos,
com imensa alegria para mim. Aprendera a ser útil, encontrara o
prazer do serviço, experimentando crescente júbilo e confiança. Até ali, não voltara ao lar terrestre, apesar
do imenso desejo que me espicaçava o coração. As vezes, intentava
pedir concessões, nesse particular, mas alguma coisa me tolhia.
Não recebera auxílio adequado, não contava, ali, com o carinho e
apreço de todos os companheiros?
|
|
"André, amanhã acompanharei nossa irmã Laura à esfera carnal." -
disse Clarêncio - "Se
lhe apraz, poderá vir conosco para visitar sua família."
Não podia ser maior a surpresa. Profunda sensação de alegria me
empolgou, mas lembrei instintivamente o serviço das Câmaras.
Adivinhando-me, porém, o pensamento, o generoso Ministro voltou a
dizer: "Você tem regular quantidade de horas de trabalho extraordinário
a seu favor. Não será difícil a Genésio conceder-lhe uma semana de
ausência, depois do primeiro ano de cooperação ativa."
Possuído de júbilo intenso, agradeci, chorando e rindo ao mesmo
tempo. Ia, enfim, rever a esposa e os filhos amados." |
|
"Você tem uma semana ao seu dispor. Passarei aqui
diariamente para revê-lo, atento aos cuidados que devo consagrar
aos problemas da reencarnação de nossa irmã. Se quiser ir a "Nosso
Lar", aproveitará minha companhia. Passe bem, André!"
Último adeus à dedicada mãe de Lísias e me vi só, respirando o ar
de outros tempos, a longos haustos.
Não me demorei a examinar pormenores. Atravessei celeremente
algumas ruas, a caminho de casa. O coração
me batia descompassado, à medida que me aproximava do grande
portão de entrada. O vento, como outrora, sussurrava carícias no
arvoredo do pequeno parque. Desabrochavam azáleas e rosas,
saudando a luz primaveril. Em frente ao pórtico, ostentava-se,
garbosa, a palmeira que, com Zélia, eu havia plantado no primeiro
aniversário de casamento." |
|
"Gritei minha alegria com toda a força dos
pulmões, mas as palavras pareciam reboar pela casa sem atingir os
ouvidos dos circunstantes.
Compreendi a situação e calei-me, desapontado. Abracei-me à
companheira, com o carinho da minha saudade imensa, mas Zélia
parecia totalmente insensível ao meu gesto de amor." |
|
"Zélia chorava e torcia as mãos, demonstrando
imensa angústia.
Um corisco não me fulminaria com tamanha violência. Outro homem se
apossara do meu lar. A esposa me esquecera. A casa não mais me
pertencia.
Valia a pena de ter esperado tanto para colher semelhantes
desilusões?
Corri ao meu quarto, verificando que outro mobiliário existia na
alcova espaçosa. No leito, estava um homem de idade madura,
evidenciando melindroso estado de saúde." |
|
"De pronto, tive ímpetos de odiar o intruso com
todas as forças, mas já não era eu o mesmo homem de outros tempos.
O Senhor me havia chamado aos ensinamentos do amor, da
fraternidade e do perdão. Verifiquei que o doente estava cercado
de entidades inferiores, devotadas ao mal; entretanto, não
consegui auxiliá-lo imediatamente.
Assentei-me, decepcionado e acabrunhado, vendo Zélia entrar no
aposento e dele sair, várias vezes, acariciando o enfermo com a
ternura que me coubera noutros tempos, e, depois de algumas horas
de amarga observação e meditação, voltei, cambaleante, à sala de
jantar, onde encontrei as filhas conversando." |
|
"Afinal, via-me em face de singular conjuntura!
Compreendia, agora, o motivo pelo qual meus verdadeiros
amigos haviam procrastinado, tanto, o meu retorno ao lar terreno.
Angústias e decepções sucediam-se de tropel. Minha casa
pareceu-me, então, um patrimônio que os ladrões e os vermes haviam
transformado.
Nem haveres, nem títulos, nem afetos! Somente uma filha ali estava
de sentinela ao meu velho e sincero amor." |
|
|
"Nem os longos anos de sofrimento, nos primeiros dias de
além-túmulo, me haviam proporcionado lágrimas tão amargas.
Chegou a noite e voltou o dia, encontrando-me na mesma situação de
perplexidade, a ouvir conceitos e a surpreender atitudes que nunca
poderia ter suspeitado." |
|
"Compreendo suas mágoas e rejubilo-me pela ótima
oportunidade deste testemunho" ,- exclamou Clarêncio. "Não tenho
diretrizes novas. Qualquer conselho de minha parte, portanto,
seria intempestivo. Apenas,
meu caro, não posso esquecer que aquela recomendação de Jesus para
que amemos a Deus sobre
todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, opera sempre,
quando seguida, verdadeiros
milagres de felicidade e compreensão, em nossos caminhos." |
|
"Em face da realidade, absolutamente só no
testemunho, comecei a ponderar o alcance da recomendação
evangélica e refleti com mais serenidade.
Afinal de contas, por que condenar o procedimento de Zélia? E se
fosse eu o viúvo na Terra? Teria, acaso, suportado a prolongada
solidão? Não teria recorrido a mil pretextos
para justificar novo consórcio? E o pobre enfermo? Como e por que
odiá-lo? Não era também meu irmão na Casa de Nosso Pai? Não
estaria o lar, talvez, em piores condições, se Zélia não lhe
houvesse aceitado a aliança afetiva?" |
|
|
"Preciso era, pois, lutar contra o egoísmo feroz. Jesus
conduzira-me a outras fontes. Não podia proceder como homem da
Terra.
Minha família não era, apenas, uma esposa e três filhos na Terra.
Era, sim, constituída de centenas de enfermos nas Câmaras de
Retificação e estendia-se, agora, à comunidade universal. Dominado
de novos pensamentos, senti que a linfa do verdadeiro amor
começava a brotar das feridas benéficas que a realidade me abrira
no coração." |
|
"Compreendia, finalmente, as necessidades humanas.
Não era proprietário de Zélia, mas seu irmão e amigo. Não era dono
de meus filhos e, sim, companheiros de luta e realização." |
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"Concentrei-me em fervorosa oração ao Pai e, nas
vibrações da prece, dirigi-me a Narcisa encarecendo socorro.
Contava-lhe, em pensamento, minha experiência dolorosa,
comunicava-lhe meus propósitos de auxílio e insistia para que me
não desamparasse...
Aconteceu, então, o que não poderia esperar.
Passados vinte minutos, mais ou menos, quando ainda não havia
retirado a mente da rogativa, alguém me tocou de leve no ombro.
Era Narcisa que atendia, sorrindo:" "Ouvi seu apelo, meu amigo, e vim ao seu encontro." |
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"Antes de tudo, aplicou passes de reconforto ao doente, isolando-o
das formas escuras, que se afastaram como por encanto. Em seguida,
convidou-me com decisão: "Vamos à Natureza." Acompanhei-a sem
hesitação, e ela, notando-me a estranheza, acentuou: "Não só o
homem pode receber fluidos e emiti-los. As forças naturais fazem o
mesmo, nos reinos diversos em que se subdividem. Para o caso do
nosso enfermo, precisamos das árvores. Elas nos auxiliarão
eficazmente." |
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"Narcisa
manipulou, em poucos instantes, certa substância com as emanações
do eucalipto e da mangueira e, durante toda a noite, aplicamos o
remédio ao enfermo, através da respiração comum e da absorção
pelos poros." |
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"Verificou-se esta noite extraordinária reação!
Verdadeiro milagre da
Natureza!
Zélia estava radiante. Encheu-se a casa de alegria nova. Por minha
vez, experimentava grande júbilo nalma. Profundo alento e belas
esperanças revigoravam-me o ser. Reconhecia, eu mesmo, que
vigorosos laços de inferioridade se haviam rompido dentro de mim,
para sempre.
Nesse dia, voltei a "Nosso Lar" em companhia de Narcisa e, pela
primeira vez, experimentei a capacidade de volitação. Num momento,
ganhávamos grandes distâncias. A bandeira da alegria
desfraldara-se em meu íntimo." |
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"Ao fim da semana, chegara ao termo de minha
primeira licença nos serviços das Câmaras de Retificação. A
alegria tornara aos cônjuges, que passei a estimar como irmãos.
Era preciso, pois, regressar aos deveres justos.
A luz dormente e cariciosa do crepúsculo, tomei o caminho de
"Nosso Lar", totalmente modificado. Naqueles rápidos sete dias,
aprendera preciosas lições práticas no culto vivo da compreensão e
da fraternidade legítimas." ( Realização Instituto André Luiz
- 1999/2006) |
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