O
HOMEM - André Luiz traça de si mesmo um perfil
comum, previsível, sem nuances ou grandezas espirituais.
Logo nas primeiras páginas de "Nosso Lar", diz,
referindo-se à sua personalidade de então: "Filho de
pais talvez excessivamente generosos, conquistara meus títulos
universitários sem maior sacrifício, compartilhara os vícios
da mocidade do meu tempo, organizara o lar, conseguira filhos,
perseguira situações estáveis que garantissem a tranqüilidade
econômica do meu grupo familiar, mas, examinando atentamente
a mim mesmo, algo me fazia experimentar a noção do tempo
perdido, com a silenciosa acusação da consciência. Habitara
a Terra, gozara-lhe os bens, colhera as bênçãos da vida,
mas não lhe retribuíra ceitil do débito enorme. Tivera pais,
cuja generosidade e sacrifícios por mim nunca avaliei; esposa
e filhos que prendera, ferozmente, nas teias rijas do egoísmo
destruidor. Possuí um lar que fechei a todos os que palmilhavam
o deserto da angústia. Deliciara-me com os júbilos da família,
esquecido de estender essa bênção divina à imensa família
humana, surdo a comezinhos deveres de fraternidade."
O APRENDIZ -
É possível acompanhar esta personalidade em André Luiz por
quase todo primeiro volume da série "Nosso Lar".
No Umbral, irrita-se com a pecha de suicida e tenta reunir
forças para esmurrar os agressores, sem sucesso; já em Nosso
Lar, ainda frágil, ofende-se com as verdades que o médico
espiritual lhe declara, analisando seu desencarne prematuro;
recuperado, quer trabalhar, ansiando pelo velho cargo de
médico, sem cogitar de suas reais possibilidades no campo
da medicina espiritual; junto à mãezinha, queixa-se choroso
de suas dores e dificuldades, infantilizando-se; nas Câmeras
de Retificação, como homem comum e de passado vicioso, é
levado a encarar, face a face, a mulher que infelicitou
um dia, na juventude distante; fiel e apegado egoisticamente
à esposa deixada na Terra, se abstrai de partilhar momentos
de lazer e amizade com o elemento feminino, deixando de
acompanhar Lísias e demais amigas ao Campo da Música.
É só a pouco e pouco que André se conscientiza de sua nova
posição e responsabilidades. Chora com freqüência, ouvindo
verdades que não toleraria na Terra, ali orgulhoso e arrogante;
aprende humildade a duros golpes; observa, ouve, pergunta,
medita...
Assim o vemos crescendo com as dificuldades e superando
desafios, no intuito sincero de se aprimorar. Auxilia Elisa,
a jovem infelicitada, serve aos doentes das Câmaras de Retificação
com redobrado carinho, sendo-lhes, não o médico, mas o irmão
dedicado e vigilante; aceita as recomendações de Genésio
e de sua mãe, vigiando pensamentos e sentimentos inferiores,
para aprender a calar queixas e mágoas improcedentes; e,
finalmente, buscando a integração perfeita com o clima harmonioso
e elevado de Nosso Lar, através do trabalho e da renovação
íntima, recebe a ansiada autorização para retornar ao lar
terrestre, o qual não mais pudera visitar.
O
NOVO HOMEM - Sentindo-se qual criança, na companhia
dos Mentores que lhe patrocinaram o regresso à casa, não
contém em si a alegria e o júbilo de retornar aos seus.
Adentra a antiga morada, estranhando a decoração e dando
por falta de detalhes, como um gracioso retrato da família
que adornava a entrada, embelezando-a singularmente. Ainda
assim, feliz e exultante, corre ao encontro de Zélia, sua
amada esposa, gritando-lhe sua saudade e seu amor, mas ela
não o ouve. Desapontado, abraça-se à ela, mas em vão: Zélia
parece completamente indiferente ao seu carinho e ao seu
abraço.
Então, ouvindo-a conversar com alguém, descobre-lhe o segundo
casamento: "Mas doutor, salve-o, por caridade! Peço-lhe!
Oh, não suportaria uma segunda viuvez."
André Luiz descreve assim sua decepção e seu sofrimento:
"Um corisco não me fulminaria com tamanha violência.
Outro homem se apossara de meu lar. A esposa me esquecera.
A casa não mais me pertencia. Valia a pena ter esperado
tanto para colher semelhantes desilusões?"
E prossegue, recordando os duros momentos de sua volta ao
lar terreno: "Corri ao meu quarto, verificando que
outro mobiliário existia na alcova espaçosa. No leito estava
um homem de idade madura, evidenciando melindroso estado
de saúde... De pronto, tive ímpetos de odiar o intruso com
todas as forças, mas já não era eu o mesmo homem de outros
tempos... Assentei-me decepcionado e acabrunhado, vendo
Zélia entrar no aposento e dele sair, acariciando o enfermo
com a ternura que me coubera noutros tempos... Minha casa
pareceu-me, então, um patrimônio que os ladrões e os vermes
haviam transformado. Nem haveres, nem títulos, nem afetos!
Somente uma filha ali estava de sentinela ao meu velho e
sincero amor."
À tardinha do dia seguinte, André recebe a visita de Clarêncio,
que, percebendo seu abatimento, lhe diz: "Compreendo
suas mágoas e rejubilo-me pela ótima oportunidade deste
testemunho... Apenas não posso esquecer que aquela recomendação
de Jesus para que amemos a Deus sobre todas as coisas e
ao próximo como a nós mesmos, opera sempre, quando seguida,
verdadeiros milagres de felicidade e compreensão, em nossos
caminhos."
André pondera o alcance das palavras de Clarêncio e, sentindo-se
realmente renovado, um outro homem, a quem o Senhor havia
chamado aos ensinamentos do amor, da fraternidade e do perdão,
reflete com mais serenidade: "Afinal de contas, por
que condenar o procedimento de Zélia? E se fosse eu o viúvo
na Terra? Teria, acaso, suportado a prolongada solidão?
Não teria recorrido a mil pretextos para justificar novo
consórcio? E o pobre enfermo? Por que odiá-lo? Não era também
meu irmão na Casa de Nosso Pai? Precisava era, pois, lutar
contra o egoísmo feroz..."
De imediato, procura auxiliar a Ernesto, o novo esposo de
Zélia, mas sente-se enfraquecido, debilitado, compreendendo
então o valor do amor e da amizade, alimentos confortadores
absorvidos em Nosso Lar.
Em prece, clama o auxílio de Narcisa, sua grande amiga das
Câmaras de Retificação. Juntos dirigem-se à Natureza exuberante,
dali retirando os elementos curativos à enfermidade do doente.
Recuperado o enfermo, e restituindo a alegria à antiga morada,
André Luiz retorna a Nosso Lar, sentindo-se jubiloso e renovado.
Mas ao chegar, imensa surpresa o aguarda: Clarêncio, em
companhia de dezenas de amigos, vêm ao seu encontro, saudando-o,
generosos e acolhedores. O bondoso velhinho se adianta,e,
estendendo-lhe a mão, diz, comovido:
"Até hoje, André, você era meu pupilo na cidade; mas,
doravante, em nome da Governadoria, declaro-o cidadão de
Nosso Lar."
O
MENSAGEIRO - Imensa transformação opera-se no íntimo
de André. "Compelido a destruir meus castelos de exclusivismo
injusto, senti que outro amor se instalava em minhalma",
diz. Volta a freqüentar o ninho doméstico, não mais como
senhor, mas como alguém "que ama o trabalho da oficina
que a vida lhe designou"; auxilia a Zélia, o quanto
está em suas forças, ampara os filhos e evita encarar o
segundo marido como o intruso que lhe roubou o amor da companheira
do mundo.
Alegre esperança se lhe desenha no espírito, mas sente-se
vazio, de alguma forma, entediado. Compreendendo-lhe a transformação,
diz-lhe Narcisa: "André, meu amigo, você vem fazendo
a renovação mental. Em tais períodos, extremas dificuldades
espirituais nos assaltam o coração... Sei que você experimenta
intraduzível alegria ao contato da harmonia universal, após
o abandono de suas criações caprichosas, mas reconheço que,
ao lado das rosas de júbilo, defrontando os novos caminhos
que se descerram para sua esperança, há espinhos de tédio
nas margens das velhas estradas inferiores que você vai
deixando para trás. Seu coração é uma taça iluminada aos
raios do alvorecer divino, mas vazia dos sentimentos do
mundo que a encheram por séculos consecutivos."
"Não poderia, eu mesmo, formular tão exata definição
do meu estado espiritual", comove-se André Luiz. E
conhecendo-o bem, seu temperamento agitado, Narcisa sugere,
com felicidade: "Creio deve você aproveitar os novos
cursos de serviço, instalados no Ministério da Comunicação.
Muitos companheiros nossos habilitaram-se a prestar concurso
na Terra, nos campos visíveis e invisíveis ao homem, acompanhados,
todos eles, por nobres instrutores. Poderia você conhecer
experiências novas, aprender muito e cooperar com excelente
ação individual. Por que não tenta?"
André sente-se então dominado por esperanças diferentes,
relativamente às suas tarefas, conforme afirma. Levado por
Tobias até a residência de Aniceto, entidade que se ligaria
fundamente à sua vida espiritual, mantêm com ele fraterno
diálogo, cientificando-se do trabalho e das novas responsabilidades
porvindouras.
André aceita, jubiloso, a nova e fascinante etapa existencial.
E diz: "Misteriosa alegria dominava-me todo, sublimada
esperança iluminava-me os sentimentos. Aquele desejo ardente
de colaborar em benefício dos outros, que Narcisa me acendera
no íntimo, parecia encher, agora, a taça vazia do meu coração.
Trabalharia sim. Conheceria a satisfação dos cooperadores
anônimos da felicidade alheia. Procuraria a prodigiosa luz
da fraternidade, através do serviço às criaturas."
E olvidando o próprio nome, que deixa para trás por amor
à Deus e as criaturas, reveste-se transitoriamente de outra
personagem, para melhor ensinar e amparar.
Surge André Luiz.
SUA
OBRA: NOSSO LAR, OS MENSAGEIROS, MISSIONÁRIOS DA
LUZ, OBREIROS DA VIDA ETERNA, NO MUNDO MAIOR, AÇÃO E REAÇÃO,
LIBERTAÇÃO, ENTRE A TERRA E O CÉU, NOS DOMÍNIOS DA MEDIUNIDADE,
MECANISMOS DA MEDIUNIDADE, EVOLUÇÃO EM DOIS MUNDOS, CONDUTA
ESPÍRITA, SEXO E DESTINO, DESOBSESSÃO, E A VIDA CONTINUA,
AGENDA CRISTÃ, SOL NAS ALMAS, SINAL VERDE, ENDEREÇOS DE
PAZ, OPINIÃO ESPÍRITA, ESTUDE E VIVA (estes dois últimos
com Emmanuel).
Muitos outros livros ainda compõem este acervo, além de
centenas de mensagens distribuídas nos inúmeros livros de
Francisco Cândido Xavier.
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