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OS
ANJOS
Os anjos segundo a Igreja
1. - Todas as religiões têm tido anjos sob vários nomes, isto é, seres
superiores à Humanidade, intermediários entre Deus e os homens. Negando
toda a existência espiritual fora da vida orgânica, o materialismo
naturalmente classificou os anjos entre as ficções e alegorias. A crença
nos anjos é parte essencial dos dogmas da Igreja, que assim os define (1):
2. - "Acreditamos firmemente, diz um concílio geral e ecumênico (2), que
só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, que no começo dos tempos
tirou conjuntamente do nada as duas criaturas - espiritual e corpórea,
angélica e mundana - tendo formado depois, como elo entre as duas, a
natureza humana, composta de corpo e Espírito."
"Tal é, segundo a fé, o plano divino na obra da criação, plano majestoso e
completo como convinha à eterna sabedoria. Assim concebido, ele oferece
aos nossos pensamentos o ser em todos os seus graus e condições."
"Na esfera mais elevada aparecem a existência e a vida puramente
espirituais; na última ordem, uma e outra puramente materiais e,
intermediariamente, uma união maravilhosa das duas substâncias, uma vida
ao mesmo tempo comum ao Espírito inteligente e ao corpo organizado."
"Nossa alma é de natureza simples e indivisível, porém limitada em suas
faculdades. A idéia que temos da perfeição faz-nos compreender que pode
haver outros seres simples quanto ela, e superiores por suas qualidades e
privilégios."
"A alma é grande e nobre, porém, está associada à matéria, servida por
órgãos frágeis e limitada no poder e na ação. Por que não haver outras
ainda mais pobres, libertas dessa escravidão, dessas peias e dotadas de
uma força e atividade maiores e incomparáveis? Antes que Deus houvesse
colocado o homem na Terra, para conhecê-lo, servi-lo, e amá-lo, não teria
já chamado outras criaturas, a fim de compor-lhe a corte celeste e
adorá-lo no auge da glória? Deus, enfim, recebe das mãos do homem os
tributos de honra e homenagem deste universo: é, portanto, de admirar que
receba das mãos dos anjos o incenso e as orações do homem? Se, pois, os
anjos não existissem, a grande obra do Criador não patentearia o
acabamento e a perfeição que lhe são peculiares; este mundo, que atesta a
sua onipotência, não fora mais a obra-prima da sabedoria; nesse caso a
nossa razão, posto que fraca, poderia conceber um Deus mais completo e
consumado. Em cada página dos sagrados livros, do Velho como do Novo
Testamentos, se fez menção dessas inteligências sublimes, já em piedosas
invocações, já em referências históricas. A sua intervenção aparece
manifestamente na vida dos patriarcas e dos profetas. Serve-se Deus de tal
ministério, ora para transmitir a sua vontade, ora para anunciar futuros
acontecimentos, e os anjos são também quase sempre órgãos de sua justiça e
misericórdia. A sua presença ressalta das circunstâncias que acompanham o
nascimento, a vida e a paixão do Salvador; a sua lembrança é inseparável
da dos grandes homens, como dos fatos mais grandiosos da antiguidade
religiosa. A crença nos anjos existe no seio mesmo do politeísmo e nas
fábulas da mitologia, porque essa crença é tão universal e antiga quanto o
mundo. O culto que os pagãos prestavam aos bons e maus gênios não era mais
que falsa aplicação da verdade, um resto degenerado do primitivo dogma. As
palavras do santo concílio de Latrão contêm fundamental distinção entre os
anjos e os homens: - ensinam-nos que os primeiros são puros Espíritos,
enquanto que os segundos se compõem de um corpo e de uma alma, isto é, que
a natureza angélica subsiste por si mesma não só sem mistura como
dissociada da matéria, por mais vaporosa e sutil que se suponha, ao passo
que a nossa alma, igualmente espiritual, associa-se ao corpo de modo a
formar com ele uma só pessoa, sendo tal e essencialmente o seu destino."
"Enquanto perdura tão íntima ligação de alma e corpo, as duas substâncias
têm vida comum e se exercem recíproca influência; daí o não poder a alma
libertar-se completamente das imperfeições de tal condição: as idéias
chegam-lhe pelos sentidos na comparação dos objetos externos e sempre
debaixo de imagens mais ou menos aparentes. Eis por que a alma não pode
contemplar-se a si mesma, nem conceber Deus e os anjos sem atribuir-lhes
forma visível e palpável. O mesmo se dá quanto aos anjos, que para se
manifestarem aos santos e profetas hão de revestir formas tangíveis e
palpáveis. Essas formas no entanto não passavam de corpos aéreos que
faziam mover-se e identificar-se com eles, ou de atributos simbólicos de
acordo com a missão a seu cargo."
"Seu ser e movimentos não são localizados nem circunscritos a limitado e
fixo ponto do Espaço. Desligados integralmente do corpo, não ocupam
qualquer espaço no vácuo; mas assim como a nossa alma existe integral no
corpo e em cada uma de suas partes, assim também os anjos estão, e quase
que simultaneamente, em todos os pontos e partes do mundo. Mais rápidos
que o pensamento, podem agir em toda parte num dado momento, operando por
si mesmos sem outros obstáculos, senão os da vontade do Criador e os da
liberdade humana. Enquanto somos condenados a ver lenta e limitadamente as
coisas externas; enquanto as verdades sobrenaturais se nos afiguram
enigmas num espelho, na frase de S. Paulo, eles, os anjos, vêem sem
esforço o que lhes importa saber, e estão sempre em relação imediata com o
objeto de seus pensamentos. Os seus conhecimentos são resultantes não da
indução e do raciocínio, mas dessa intuição clara e profunda que abrange
de uma só vez o gênero e as espécies deles derivadas, os princípios e as
conseqüências que deles decorrem. A distância das épocas, a diferença de
lugares, como a multiplicidade de objetos, confusão alguma podem produzir
em seus espíritos."
"Infinita, a essência divina é incompreensível; tem mistérios e
profundezas que se não podem penetrar; mas em lhes serem defesos os
desígnios particulares da Providência, ela lhos desvenda quando em certas
circunstâncias são encarregados de os anunciarem aos homens. As
comunicações de Deus com os anjos e destes entre si, não se fazem como
entre nós por meio de sons articulados e de sinais sensíveis. As puras
inteligências não têm necessidade nem de olhos para ver, nem de ouvidos
para ouvir; tampouco possuem órgão vocal para manifestar seus pensamentos.
Este instrumento usual de nossas relações é-lhes desnecessário, pois
comunicam seus sentimentos de modo só a eles peculiar, isto é, todo
espiritual. Basta-lhes querer para se compreenderem. Unicamente Deus
conhece o número dos anjos. Este número não é, sem dúvida, infinito, nem
pudera sê-lo; porém, segundo os autores sagrados e os santos doutores, é
assaz considerável, verdadeiramente prodigioso. Se se pode proporcionar o
número de habitantes de uma cidade à sua grandeza e extensão, e sendo a
Terra apenas um átomo comparada ao firmamento e às imensas regiões do
Espaço, força é concluir que o número dos habitantes do ar e do céu é
muito superior ao dos homens.
E se a majestade dos reis se ostenta pelo brilhantismo e número dos
vassalos, dos oficiais e dos súditos, que haverá de mais próprio a dar-nos
idéia da majestade do Rei dos reis do que essa multidão inumerável de
anjos que povoam céus e Terra, mar e abismos, a dignidade dos que
permanecem continuamente prostrados ou de pé ante seu trono?"
"Os padres da Igreja e os teólogos ensinam geralmente que os anjos se
dividem em três grandes hierarquias ou principados, e cada hierarquia em
três companhias ou coros."
"Os da primeira e mais alta hierarquia designam-se conformemente às
funções que exercem no céu:
- Os Serafins são assim designados por serem como que abrasados perante
Deus pelos ardores da caridade; outros, os Querubins, por isso que
refletem luminosamente a divina sabedoria; e finalmente Tronos os que
proclamam a grandeza do Criador, cujo brilho fazem resplandecer."
"Os anjos da segunda hierarquia recebem nomes consentâneos com as
operações que se lhes atribui no governo geral do Universo, e são:
- as Dominações, que determinam aos anjos de classes inferiores suas
missões e deveres; as Virtudes, que promovem os prodígios reclamados pelos
grandes interesses da Igreja e do gênero humano; e as Potências, que
protegem por sua força e vigilância as leis que
regem o mundo físico e moral."
"Os da terceira hierarquia têm por missão a direção das sociedades e das
pessoas, e são: os Principados, encarregados de reinos, províncias e
dioceses; os Arcanjos, que transmitem as mensagens de alta importância, e
os Anjos de guarda, que acompanham as criaturas a fim de velarem pela sua
segurança e santificação."
______________
(1) Extraímos este resumo da pastoral do Monsenhor Gousset, cardeal
arcebispo de Reims, para a quaresma de 1864. Por ele podemos, pois,
considerar os anjos, assim como os demônios, cujo resumo tiramos da mesma
origem e citamos no capítulo seguinte, como última expressão do dogma da
Igreja neste sentido.
(2) Concílio de Latrão.
TOPO
Refutação
3. - O princípio geral resultante dessa doutrina é que os anjos são seres
puramente espirituais, anteriores e superiores à Humanidade, criaturas
privilegiadas e votadas ã felicidade suprema e eterna desde a sua
formação, dotadas, por sua própria natureza, de todas as virtudes e
conhecimentos, nada tendo feito, aliás, para adquiri-los. Estão, por assim
dizer, no primeiro plano da Criação, contrastando com o último onde a vida
é puramente material; e, entre os dois, medianamente existe a Humanidade,
isto é, as almas, seres inferiores aos anjos e ligados a corpos materiais.
De tal sistema decorrem várias dificuldades capitais: - Em primeiro lugar,
que vida é essa puramente material? Será a da matéria bruta? Mas a matéria
bruta é inanimada e não tem vida por si mesma. Acaso referir-se-á aos
animais e às plantas? Neste suposto seria uma quarta ordem na Criação,
pois não se pode negar que no animal inteligente algo há de mais que numa
planta, e nesta, que numa simples pedra.
Quanto à alma humana, que estabelece a transição, essa fica diretamente
unida a um corpo, matéria bruta, aliás; porque sem alma o corpo tem tanta
vida como qualquer bloco de terra.
Evidentemente, esta divisão é obscura e não se compadece com a observação;
assemelha-se à teoria dos quatro elementos, anulada pelos progressos da
Ciência. Admitamos, entretanto, estes três termos:
- a criatura espiritual, a humana e a corpórea, pois que tal é, dizem, o
plano divino, majestoso e completo como convém à Eterna Sabedoria. Notemos
antes de tudo que não há ligação alguma necessária entre esses três
termos, e que são três criações distintas e formadas sucessivamente, ao
passo que em a Natureza tudo se encadeia, mostrando-nos uma lei de unidade
admirável, cujos elementos, não passando de transformações entre si, têm,
contudo, seus laços de união.
Mas essa teoria, incompleta embora, é, até certo ponto, verdadeira, quanto
à existência dos três termos; faltam-lhe os pontos de contacto desses
termos, como é fácil demonstrar.
4. - Diz a Igreja que esses três pontos culminantes da Criação são
necessários à harmonia do conjunto. Desde que lhe falte um só que seja, a
obra incompleta não mais se compadece com a Sabedoria Eterna. Entretanto,
um dos dogmas fundamentais diz que a Terra, os animais, as plantas, o Sol
e as estrelas e até a luz foram criados do nada, há seis mil anos. Antes
dessa época não havia, portanto, criatura humana nem corpórea - o que
importa dizer que no decurso da eternidade a obra divina jazia imperfeita.
É artigo de fé capital a criação do Universo, há seis mil anos, tanto que
há pouco ainda era a Ciência anatematizada por destruir a cronologia
bíblica, provando maior ancianidade da Terra e de seus habitantes.
Apesar disso, o concílio de Latrão, concílio ecumênico que faz lei em
matéria ortodoxa, diz: "Acreditamos firmemente num Deus único e
verdadeiro, eterno e infinito, que no começo dos tempos tirou
conjuntamente do nada as duas criaturas - espiritual e corpórea." Por
começo dos tempos só podemos inferir a eternidade transcorrida, visto ser
o tempo infinito como o Espaço, sem começo nem fim. Esta expressão, começo
dos tempos, antes uma figura que implica a idéia de uma anterioridade
ilimitada. O concílio de Latrão acredita, pois, firmemente, que as
criaturas espirituais como as corpóreas foram simultaneamente formadas e
tiradas em conjunto do nada, numa época indeterminada, no passado. A que
fica reduzido, assim, o texto bíblico que data a Criação de seis mil dos
nossos anos? E, ainda que se admita seja tal o começo do Universo visível,
esse não é seguramente o começo dos tempos. Em qual crer: - no
concílio ou na Bíblia?
5. - O concílio formula, além disso, uma estranha proposição: "Nossa alma,
diz, igualmente espiritual, é associada ao corpo de maneira a não formar
com ele mais que uma pessoa, e tal é, essencialmente, o seu destino." Ora,
se o destino essencial da alma é estar unida ao corpo, esta união
constitui o estado normal, o desígnio, o fim, por isso que é o seu
destino. Entretanto, a alma é imortal e o corpo não; a união daquela com
este só se realiza uma vez, segundo a Igreja, e ainda que durasse um
século, nada seria em relação à eternidade. E sendo apenas de algumas
horas para muitos, que utilidade teria para a alma união tão efêmera? Mas,
que se prolongue essa união tanto quanto se pode prolongar uma existência
terrena e, ainda assim, poder-se-á afirmar que o seu destino é estar
essencialmente integrada? Não, essa união mais não é na realidade do que
um incidente, um estádio da alma, nunca o seu estado
essencial.
Se o destino essencial da alma é estar ligada ao corpo humano; se por sua
natureza e segundo o fim providencial da Criação, essa união é necessária
às manifestações das suas faculdades, forçoso é concluir que, sem corpo, a
alma humana é um ser incompleto. Ora, para que a alma preencha os seus
desígnios, deixando um corpo preciso se faz que tome um outro - o que nos
conduz à pluralidade forçada das existências, ou, por outra, à
reencarnação, à perpetuidade. É verdadeiramente estranhável que um
concílio, havido por uma das luzes da Igreja, tenha a tal ponto
identificado os seres espiritual e material, de modo a não subsistirem por
si mesmos, pois que a condição essencial da sua criação é estarem unidos.
6. - O quadro hierárquico dos anjos nos mostra que várias ordens têm, nas
suas atribuições, o governo do mundo físico e da Humanidade, para cujo fim
foram criados. Mas, segundo a Gênese, o mundo físico e a Humanidade não
existem senão há seis mil anos; e o que faziam, pois, tais anjos,
anteriormente a essa era, durante a eternidade, quando não existia o
objetivo das suas ocupações? E teriam eles sido criados de toda a
eternidade? Assim deve ser, uma vez que servem à glorificação do
Todo-Poderoso. Mas, criando-os numa época qualquer determinada, Deus
ficaria até então, isto é, durante uma eternidade, sem adoradores.
7 - Diz ainda o concílio: "Enquanto dura esta união tão intima da alma com
o corpo." Há, por conseguinte, um momento em que a união se desfaz? Esta
proposição contradita a que sustenta a essencialidade dessa união. E diz
mais o concílio: "As idéias lhes chegam pelos sentidos, na comparação dos
objetos exteriores." Eis aí uma doutrina filosófica em parte verdadeira,
que não em sentido absoluto.
Receber as idéias pelos sentidos é, segundo o eminente teólogo, uma
condição inerente à natureza humana; mas ele esquece as idéias inatas, as
faculdades por vezes tão transcendentes, a intuição das coisas que a
criança traz do berço, não devidas a quaisquer ensinos. Por meio de quais
sentidos, jovens pastores, naturais calculistas, admiração dos sábios,
adquirem idéias necessárias à resolução quase instantânea dos mais
complicados problemas? Outro tanto pode dizer-se de músicos, pintores e
filólogos precoces.
"Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do raciocínio";
têm-nos porque são anjos, sem necessidade de aprendê-los, pois tais foram
por Deus criados: quanto à alma, essa deve aprender. Mas se a alma só
recebe as idéias por meio dos órgãos corporais, que idéias pode ter a alma
de uma criança morta ao fim de alguns dias, se admitirmos com a Igreja que
essa alma não renasce?
8. Aqui reponta uma questão vital, qual a de saber-se se a alma pode
adquirir conhecimentos após a morte do corpo. Se uma vez liberta do corpo
não pode adquirir novos conhecimentos, a alma da criança, do selvagem, do
imbecil, do idiota ou do ignorante permanecera tal qual era no momento da
morte, condenada à nulidade por todo o sempre. Mas se, ao contrário, ela
adquire novos conhecimentos depois da vida atual, então, é que pode
progredir.
Sem progresso ulterior para a alma, chega-se a conclusões absurdas, tanto
quanto admitindo-o se conclui pela negação de todos os dogmas fundados
sobre o estacionamento, a sorte irrevogável, as penas eternas, etc.
Progredindo a alma, qual o limite do progresso? Não há razão para não
atingir por ele ao grau dos anjos, ou puros Espíritos. Ora, com tal
possibilidade não se justificaria a criação de seres especiais e
privilegiados, isentos de qualquer labor, gozando incondicionalmente de
eterna felicidade, ao passo que outros seres menos favorecidos só obtêm
essa felicidade a troco de longos, de cruéis sofrimentos e rudes provas.
Sem dúvida que Deus poderia ter assim determinado, mas, admitindo-lhe o
infinito de perfeição sem a qual não fora Deus, força é admitir que coisa
alguma criaria inutilmente, desmentindo a sua justiça e bondade soberanas.
9. - "E se a majestade dos reis ostenta o seu brilhantismo pelo número dos
vassalos, oficiais e súditos, que haverá de mais próprio a dar-nos idéia
da majestade do Rei dos reis do que essa inumerável multidão de anjos que
povoam céu e terra, mar e abismos, a dignidade dos que permanecem
continuamente prostrados ou de pé ante seu trono?"
E não será rebaixar a Divindade confrontá-la com o fausto dos soberanos da
Terra? Essa idéia, inculcada no espírito das massas ignorantes, falseia a
opinião de sua verdadeira grandeza. Sempre Deus reduzido às mesquinhas
proporções da Humanidade! Atribuir-lhe, como necessidade, milhões de
adoradores, perenemente genuflexos, é emprestar-lhe vaidade e fraqueza
próprias dos orgulhosos déspotas do Oriente! E que é que engrandece os
soberanos verdadeiramente grandes? É o número e brilho dos cortesãos? não;
é a bondade, é a justiça, é o título merecido de pais do seu povo.
perguntareis se haverá algo de mais próprio a dar-nos a idéia da grandeza
e majestade de Deus do que a multidão de anjos que lhe compõem a corte...
Mas, certamente que há, e essa coisa melhor é apresentar-se Deus às suas
criaturas soberanamente bom, justo e misericordioso, que não colérico,
invejoso, vingativo, exterminador e parcial, criando para sua própria
glória esses seres privilegiados, cumulados de todos os dons e nascidos
para a felicidade eterna, enquanto a outros impõe condições penosas na
aquisição de bens, punindo erros momentâneos com eternos suplícios...
10. - A respeito da união da alma com o corpo, o Espiritismo professa uma
doutrina infinitamente mais espiritualista, para não dizer menos
materialista, tendo ao demais a seu favor a conformidade com a observação
e o destino da alma. Ele ensina-nos que a alma é independente do corpo,
não passando este de temporário invólucro: a espiritualidade é-lhe a
essência, e a sua vida normal é a vida espiritual. O corpo é apenas
instrumento da alma para exercício das suas faculdades nas relações com o
mundo material; separada desse corpo, goza dessas faculdades mais livre e
altamente.
11. - A união da alma com o corpo, em ser necessária aos seus primeiros
progressos, só se opera no período que poderemos classificar como da sua
infância e adolescência; atingido, porém, que seja, um certo grau de
perfeição e desmaterialização, essa união é prescindível, o progresso
faz-se na sua vida de Espírito. Demais, por numerosas que sejam as
existências corpóreas, elas são limitadas à existência do corpo, e a sua
soma total não compreende, em todos os casos, senão uma parte
imperceptível da vida espiritual, que é ilimitada.
TOPO
Os anjos segundo o Espiritismo
12. - Que haja seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos,
não restam dúvidas. A revelação espírita neste ponto confirma a crença de
todos os povos, fazendo-nos conhecer ao mesmo tempo a origem e natureza de
tais seres.
As almas ou Espíritos são criados simples e ignorantes, isto é, sem
conhecimentos nem consciência do bem e do mal, porém, aptos para adquirir
o que lhes falta. O trabalho é o meio de aquisição, e o fim - que é a
perfeição - é para todos o mesmo. Conseguem-no mais ou menos prontamente
em virtude do livre-arbítrio e na razão direta dos seus esforços; todos
têm os mesmos degraus a franquear, o mesmo trabalho a concluir. Deus não
aquinhoa melhor a uns do que a outros, porquanto é justo, e, visto serem
todos seus filhos, não tem predileções. Ele lhes diz: Eis a lei que deve
constituir a vossa norma de conduta; ela só pode levar-vos ao fim; tudo
que lhe for conforme é o bem; tudo que lhe for contrário é o mal. Tendes
inteira liberdade de observar ou infringir esta lei, e assim sereis os
árbitros da vossa própria sorte.
Conseguintemente, Deus não criou o mal; todas as suas leis são para o bem,
e foi o homem que criou esse mal, divorciando-se dessas leis; se ele as
observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho.
13. - Entretanto, a alma, qual criança, é inexperiente nas primeiras fases
da existência, e daí o ser falível. Não lhe dá Deus essa experiência, mas
dá-lhe meios de adquiri-la. Assim, um passo em falso na senda do mal é um
atraso para a alma, que, sofrendo-lhe as conseqüências, aprende à sua
custa o que importa evitar. Deste modo, pouco a pouco, se desenvolve,
aperfeiçoa e adianta na hierarquia espiritual até ao estado de puro
Espírito ou anjo. Os anjos são, pois, as almas dos homens chegados ao grau
de perfeição que a criatura comporta, fruindo em sua plenitude a prometida
felicidade. Antes, porém, de atingir o grau supremo, gozam de felicidade
relativa ao seu adiantamento, felicidade que consiste, não na ociosidade,
mas nas funções que a Deus apraz confiar-lhes, e por cujo desempenho se
sentem ditosas, tendo ainda nele um meio de progresso. (Vede 1ª Parte,
cap. III, "O céu".)
14. A Humanidade não se limita à Terra; habita inúmeros mundos que no
Espaço circulam; já habitou os desaparecidos, e habitará os que se
formarem. Tendo-a criado de toda a eternidade, Deus jamais cessa de
criá-la. Muito antes que a Terra existisse e por mais remota que a
suponhamos, outros mundos havia, nos quais Espíritos encarnados
percorreram as mesmas fases que ora percorrem os de mais recente formação,
atingindo seu fim antes mesmo que houvéramos saído das mãos do Criador. De
toda a eternidade tem havido, pois, puros Espíritos ou anjos; mas, como a
sua existência humana se passou num infinito passado, eis que os supomos
como se tivessem sido sempre anjos de todos os tempos.
15. Realiza-se assim a grande lei de unidade da Criação; Deus nunca esteve
inativo e sempre teve puros Espíritos, experimentados e esclarecidos, para
transmissão de suas ordens e direção do Universo, desde o governo dos
mundos até os mais ínfimos detalhes. Tampouco teve Deus necessidade de
criar seres privilegiados, isentos de obrigações; todos, antigos e novos,
adquiriram suas posições na luta e por mérito próprio; todos, enfim, são
filhos de suas obras.
E, desse modo, completa-se com igualdade a soberana justiça do Criador.
TOPO
OS
DEMÔNIOS
Origem da crença nos demônios
1. - Em todos os tempos os demônios representaram papel saliente nas
diversas teogonias, e, posto que consideravelmente decaídos no conceito
geral, a importância que se lhes atribui, ainda hoje, dá à questão uma tal
ou qual gravidade, por tocar o fundo mesmo das crenças religiosas. Eis por
que útil se torna examiná-la, com os desenvolvimentos que comporta.
A crença num poder superior é instintiva no homem. Encontramo-la, sob
diferentes formas, em todas as idades do mundo. Mas, se hoje, dado o grau
de cultura atingido, ainda se discute sobre a natureza e atributos desse
poder, calcule-se que noções teria o homem a respeito, na infância da
Humanidade.
2. - Como prova da sua inocência, o quadro dos homens primitivos
extasiados ante a Natureza e admirando nela a bondade do Criador é, sem
dúvida, muito poético, mas pouco real. De fato, quanto mais se aproxima do
primitivo estado, mais o homem se escraviza ao instinto, como se verifica
ainda hoje nos povos bárbaros e selvagens contemporâneos; o que mais o
preocupa, ou, antes, o que exclusivamente o preocupa é a satisfação das
necessidades materiais, mesmo porque não tem outras.
O único sentido que pode torná-lo acessível aos gozos puramente morais não
se desenvolve senão gradual e morosamente; a alma tem também a sua
infância, a sua adolescência e virilidade como o corpo humano; mas para
compreender o abstrato, quantas evoluções não tem ela de experimentar na
Humanidade! Por quantas existências não deve ela passar!
Sem nos remontarmos aos tempos primitivos, olhemos em torno a gente do
campo e perscrutemos os sentimentos de admiração que nela despertam o
esplendor do Sol nascente, do firmamento a estrelada abóbada, o trino dos
pássaros, o murmúrio das ondas claras, o vergel florido dos prados. Para
essa gente o Sol nasce por hábito, e uma vez que desprende o necessário
calor para sazonar as searas, não tanto que as creste, está realizado tudo
o que ela almejava; olha o céu para saber se bom ou mau tempo sobrevirá;
que cantem ou não as aves, tanto se lhe dá, desde que não desbastem da
seara os grãos; prefere às melodias do rouxinol, o cacarejar da galinhada
e o grunhido dos porcos; o que deseja dos regatos cristalinos, ou lodosos,
é que não sequem nem inundem; dos prados, que produzam boa erva, com ou
sem flores.
Eis aí tudo o que essa gente almeja, ou, o que é mais, tudo o que da
Natureza apreende, conquanto muito distanciada já dos primitivos homens.
3. - Se nos remontarmos a estes últimos, então, surpreendê-los-emos mais
exclusivamente preocupados com a satisfação de necessidades materiais,
resumindo o bem e o mal neste mundo somente no que concerne à satisfação
ou prejuízo dessas necessidades.
Acreditando num poder extra-humano e porque o prejuízo material é sempre o
que mais de perto lhes importa, atribuem-no a esse poder, do qual fazem,
aliás, uma idéia muito vaga. E por nada conceberem fora do mundo visível e
tangível, tal poder se lhes afigura identificado nos seres e coisas que os
prejudicam.
Os animais nocivos não passam para eles de representantes naturais e
diretos desse poder. Pela mesma razão, vêem nas coisas úteis a
personificação do bem: dai, o culto votado a certas plantas e mesmo a
objetos inanimados. Mas o homem é comumente mais sensível ao mal que ao
bem; este lhe parece natural, ao passo que aquele mais o afeta. Nem por
outra razão se explica, nos cultos primitivos, as cerimônias sempre mais
numerosas em honra ao poder maléfico: o temor suplanta o reconhecimento.
Durante muito tempo o homem não compreendeu senão o bem e o mal físicos;
os sentimentos morais só mais tarde marcaram o progresso da inteligência
humana, fazendo-lhe entrever na espiritualidade um poder extra-humano fora
do mundo visível e das coisas materiais. Esta obra foi, seguramente,
realizada por inteligências de escol, mas que não puderam exceder certos
limites.
4. - Provada e patente a luta entre o bem e o mal, triunfante este muitas
vezes sobre aquele, e não se podendo racionalmente admitir que o mal
derivasse de um benéfico poder, concluiu-se pela existência de dois
poderes rivais no governo do mundo. Daí nasceu a doutrina dos dois
princípios, aliás lógica numa época em que o homem se encontrava incapaz
de, raciocinando, penetrar a essência do Ser Supremo.
Como compreenderia, então, que o mal não passa de estado transitório do
qual pode emanar o bem, conduzindo-o à felicidade pelo sofrimento e
auxiliando-lhe o progresso? Os limites do seu horizonte moral, nada lhe
permitindo ver para além do seu presente, no passado como no futuro,
também não lhe permitia compreender que já houvesse progredido, que
progrediria ainda individualmente, e muito menos que as vicissitudes da
vida resultavam das imperfeições do ser espiritual nele residente, o qual
preexiste e sobrevive ao corpo, na dependência de uma série de existências
purificadoras até atingir a perfeição.
Para compreender como do mal pode resultar o bem é preciso considerar não
uma, porém, muitas existências; é necessário apreender o conjunto do qual
- e só do qual - resultam nítidas as causas e respectivos efeitos.
5. - O duplo princípio do bem e do mal foi, durante muitos séculos, e sob
vários nomes, a base de todas as crenças religiosas. Vemo-lo assim
sintetizado em Oromase e Arimane entre os persas, em Jeová e Satã entre os
hebreus. Todavia, como todo soberano deve ter ministros, as religiões
geralmente admitiram potências secundárias, ou bons e maus gênios. Os
pagãos fizeram deles individualidades com a denominação genérica de deuses
e deram-lhes atribuições especiais para o bem e para o mal, para os vícios
e para as virtudes. Os cristãos e os muçulmanos herdaram dos hebreus os
anjos e os demônios.
6. - A doutrina dos demônios tem, por conseguinte, origem na antiga crença
dos dois princípios. Compete-nos examiná-la aqui tão-somente no ponto de
vista cristão para ver se está de acordo com as noções mais exatas que
possuímos hoje, dos atributos da Divindade. Esses atributos são o ponto de
partida, a base de todas as doutrinas religiosas; os dogmas, o culto, as
cerimônias, os usos e a moral, tudo é relativo à idéia mais ou menos
justa, mais ou menos elevada que se forma de Deus, desde o fetichismo até
o Cristianismo. Se a essência de Deus continua a ser um mistério para as
nossas inteligências, compreendemo-la no entanto melhor que nunca, mercê
dos ensinamentos do Cristo. O Cristianismo racionalmente ensina-nos que:
Deus é único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo
e bom, infinito em todas as perfeições.
Foi por isso que algures dissemos - (1ª Parte cap. VI, "Doutrina das penas
eternas") "Se se tirasse a menor parcela de um só dos seus atributos, não
haveria mais Deus, por isso que poderia coexistir um ser mais perfeito."
Estes atributos, na sua plenitude absoluta, são, pois, o critério de todas
as religiões, estalão da verdade de cada um dos princípios que ensinam. E
para que qualquer desses princípios seja verdadeiro, preciso é que não
encerre um atentado às divinas perfeições. Vejamos se assim é, de fato, na
doutrina vulgar dos demônios.
TOPO
Os demônios segundo a Igreja
7 . Satanás, o chefe ou o rei dos demônios, não é, segundo a Igreja, uma
personificação alegórica do mal, mas uma entidade real, praticando
exclusivamente o mal, enquanto que Deus pratica exclusivamente o bem.
Tomemo-lo, pois, tal qual no-lo representam. Satanás existe de toda a
eternidade, como Deus, ou ser-lhe-á posterior? Existindo de toda a
eternidade é incriado, e, por conseqüência, igual a Deus. Este Deus, por
sua vez, deixará de ser único, pois haverá um deus do mal. Mas se lhe for
posterior? Neste caso passa a ser uma criatura de Deus. Como tal, só
praticando o mal por incapaz de fazer o bem e tampouco de arrepender-se,
Deus teria criado um ser votado exclusiva e eternamente ao mal. Não sendo
o mal obra de Deus, seria contudo de uma das suas criaturas, e nem por
isso deixava Deus de ser o autor, deixando igualmente de ser profundamente
bom. O mesmo se dá, exatamente, em relação aos seres maus chamados
demônios.
8. - Tal foi, por muito tempo, a crença neste sentido. Hoje dizem (1):
"Deus, que é a bondade e santidade por excelência, não os havia criado
perversos e maus. A mão paternal que se apraz imprimir em todas as suas
obras o cunho de infinitas perfeições, cumulara-os de magníficos
predicados. As qualidades eminentíssimas de sua natureza, juntara as
liberalidades da sua graça; em tudo os fizera iguais aos Espíritos
sublimes de glória e felicidade; subdivididos por todas as suas ordens e
adstritos a todas as classes, eles tinham o mesmo fim e idênticos
destinos. Foi seu chefe o mais belo dos arcanjos. Eles poderiam até ter
alcançado a confirmação de justos para todo o sempre, e serem admitidos ao
gozo da bem-aventurança dos céus.
Este último favor, que deverá ser o complemento de todos os outros,
constituía o prêmio da sua docilidade, mas dele desmereceram por insensata
e audaciosa revolta."
As citações seguintes são extraídas da pastoral de Monsenhor Gousset,
cardeal-arcebispo de Reims, para a quaresma de 1865:
"Qual foi o escolho da sua perseverança? Que verdade desconheceram? Que
ato de adoração, de fé, recusaram a Deus? A Igreja e os anais das santas
escrituras não no-lo dizem positivamente, mas certo parece que não
aquiesceram à mediação do Filho de Deus, nem à exaltação da natureza
humana em Jesus-Cristo."
"O Verbo Divino, criador de todas as coisas, é também o mediador e
salvador único, na Terra como no Céu. O fim sobrenatural não foi dado aos
anjos e aos homens senão na previsão de sua encarnação e méritos, pois não
há proporção alguma entre a obra dos Espíritos eminentes e a recompensa,
que é o próprio Deus. Nenhuma criatura poderia alcançar tal fim, sem esta
maravilhosa e sublime intervenção da caridade. Ora, para preencher a
distância infinita que separa a sua essência das suas obras, preciso fora
reunisse à sua pessoa os dois extremos, associando à divindade as
naturezas ou do anjo, ou do homem: e preferiu então a natureza humana.
Esse plano, concebido de toda eternidade, foi manifestado aos anjos muito
antes da sua execução: o Homem- Deus foi-lhes mostrado como Aquele que
deveria confirmá-los na graça e guiá-los à glória, sob a condição de o
adorarem durante a missão terrestre, e para todo o sempre no céu.
Revelação inesperada, arrebatadora visão para corações generosos e gratos,
mas - mistério profundo - humilhante para espíritos soberbos! Esse fim
sobrenatural, essa glória imensa que lhes propunham não seria unicamente a
recompensa de seus méritos pessoais. Nunca poderiam atribuir a si próprios
os títulos dessa glória! Uni mediador entre Deus e eles! Que injúria à sua
dignidade! E a preferência espontânea pela natureza humana? Que injustiça!
que afronta aos seus direitos!"
"E chegarão eles a ver esta Humanidade, que lhes é tão inferior, deificada
pela união com o Verbo, sentada à mão direita de Deus em trono
resplandecente? Consentirão enfim que ela ofereça a Deus, eternamente, a
homenagem da sua adoração?"
"Lúcifer e a terça parte dos anjos sucumbiram a tais pensamentos de inveja
e de orgulho. S. Miguel e com ele muitos exclamaram: "Quem é semelhante a
Deus? Ele é o dono de seus dons, o soberano Senhor de todas as coisas.
Glória a Deus e ao Cordeiro, que tem de ser imolado à salvação do mundo."
O chefe dos rebeldes, porém, esquecido de que a Deus devia a sua nobreza e
prerrogativas, raiando pela temeridade, disse: "Sou eu quem ao céu subirá;
fixarei residência acima dos astros; sentar-me-ei sobre o monte da
aliança, nos flancos do Aquilão, dominarei as nuvens mais elevadas e serei
semelhante ao Altíssimo." Os que de tais sentimentos partilharam,
acolheram essas palavras com murmúrios de aprovação, e partidários houve
em todas as hierarquias. A sua multidão, contudo, não os preserva do
castigo."
TOPO
9. - Está doutrina suscita várias objeções:
1ª - Se Satã e os demônios eram anjos, eles eram perfeitos; como, sendo
perfeitos, puderam falir a ponto de desconhecer a autoridade desse Deus,
em cuja presença se encontravam? Ainda se tivessem logrado uma tal
eminência gradualmente, depois de haver percorrido a escala da perfeição,
poderíamos conceber um triste retrocesso; não, porém, do modo por que
no-los apresentam, isto é, perfeitos de origem.
A conclusão é esta: - Deus quis criar seres perfeitos, porquanto os
favorecera com todos os dons, mas enganou-se: logo, segundo a Igreja, Deus
não é infalível! (1)
2ª - Pois que nem a Igreja e nem os sagrados anais explicam a causa da
rebelião dos anjos para com Deus e apenas dão como problemática (quase
certa) a relutância no reconhecimento da futura missão do Cristo, que
valor - perguntamos - que valor pode ter o quadro tão preciso e detalhado
da cena então ocorrente? A que fonte recorreram, para inferir se de fato
foram pronunciadas palavras tão claras e até simples colóquios? De duas
uma: ou a cena é verdadeira ou não é. No primeiro caso, não havendo dúvida
alguma, por que a Igreja não resolve a questão? Mas se a Igreja e a
História se calam se a coisa apenas parece certa, claro, não passa de
hipótese, e a cena descritiva é mero fruto da imaginação. (2)
3ª- As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância admirável num
arcanjo que, por sua natureza e grau atingido, não deve participar, quanto
à organização do Universo, dos erros e dos prejuízos que os homens têm
professado, até serem pela Ciência esclareci-
__________
(1) Esta doutrina monstruosa é corroborada por Moisés, quando diz (Gênese,
cap. VI, vv. 6 e 7): "Ele se arrependeu de haver criado o homem na Terra
e, penetrado da mais intima dor, disse: Exterminarei a criação da face da
Terra; exterminarei tudo, desde o homem aos animais, desde os que rastejam
sobre a terra até os pássaros do céu, porque me arrependo de os ter
criado." Ora, um Deus que se arrepende do que fez não é perfeito nem
infalível; portanto, não é Deus. E são estas as palavras que a Igreja
proclama! Tampouco se percebe o que poderia haver de comum entre os
animais e a perversidade dos homens, para que merecessem tal extermínio.
(2) Encontra-se em Isaías, cap. XIV, Vv. 11 e seguintes: "Teu orgulho foi
precipitado nos infernos; teu corpo morto baqueou par terra; tua cama
verterá podridão, e vermes tua vestimenta. Como caíste do Céu, Lúcifer, tu
que parecias tão brilhante ao romper do dia? Como foste arrojado sobre a
Terra, tu que ferias as nações com teus golpes; que dizias de coração:
Subirei aos céus, estabelecerei meu trono acima dos astros de Deus,
sentar-me-ei acima das nuvens mais altas e serei igual ao Altíssimo! E
todavia foste precipitado dessa glória no inferno, até o mais fundo dos
abismos. Os que te virem, aproximando-se, encarar-te-ão, dizendo: "Será
este o homem que turbou a Terra, que aterrou seus remos, que fez do mundo
um deserto, que destruiu cidades e reteve acorrentados os que se lhe
entregaram prisioneiros?" Estas palavras do profeta não se relerem à
revolta dos anjos,' são, sim, uma alusão ao orgulho e à queda do rei de
Babilônia, que retinha os judeus em cativeiro, como atestam os últimos
versículos. O rei de Babilônia é alegoricamente designado por Lúcifer, mas
não se faz aí qualquer menção da cena supra descrita.
Essas palavras são do rei que as tinha no coração e se colocava por
orgulho acima de Deus, cujo povo escravizara. A profecia da libertação do
povo judeu, da rainha de Babilônia e do destroço dos assírios é, ao
demais, o assunto exclusivo desse capítulo.
Como poderia, então, dizer que fixaria residência acima dos astros,
dominando as mais elevadas nuvens?!
É sempre a velha crença da Terra como centro do Universo, do céu como que
formado de nuvens estendendo-se às estrelas, e da limitada região destas,
que a Astronomia nos mostra disseminadas ao infinito no infinito espaço!
Sabendo-se, como hoje se sabe, que as nuvens não se elevam a mais de duas
léguas da superfície terráquea, e falando-se em dominá-las por mais alto,
referindo-se a montanhas, preciso fora que a observação partisse da Terra,
sendo ela, de fato, a morada dos anjos. Dado, porém, ser esta em região
superior, inútil fora alçar-se acima das nuvens. Emprestar aos anjos uma
linguagem tisnada de ignorância, é confessar que os homens contemporâneos
são mais sábios que os anjos. A Igreja tem caminhado sempre erradamente,
não levando em conta os progressos da Ciência.
10. - A resposta à primeira objeção acha-se na seguinte passagem: "A
escritura e a tradição denominam céu o lugar no qual se haviam colocado os
anjos, no momento da sua criação. Mas esse não era o céu dos céus, o céu
da visão beatifica, onde Deus se mostra de face aos seus eleitos, que o
contemplam claramente e sem esforço, porque aí não há mais possibilidade
nem perigo de pecado; a tentação e a dúvida são aí desconhecidas; a
justiça, a paz e a alegria reinam imutáveis, a santidade e a glória
imperecíveis. Era, portanto, outra região celeste, uma esfera luminosa e
afortunada, essa em que permaneciam tão nobres criaturas favorecidas pelas
divinas comunicações, que deveriam receber com fé e humildade até serem
admitidas no conhecimento da sua realidade essência do próprio Deus."
Do que precede se infere que os anjos decaídos pertenciam a uma categoria
menos elevada e perfeita, não tendo atingido ainda o lugar supremo em que
o erro é impossível. Pois seja: mas, então, há manifesta contradição nesta
afirmativa: - Deus em tudo os tinha criado semelhantes aos espíritos
sublimes que, subdivididos em todas as ordens e adstritos a todas as
classes, tinham o mesmo fim e idênticos destinos, e que seu chefe era o
mais belo dos arcanjos. Ora, em tudo semelhantes aos outros, não lhes
seriam inferiores em natureza; idênticos em categorias, não podiam
permanecer em um lugar especial. Intacta subsiste, portanto, a objeção.
11. - E ainda há uma outra que é, certamente, a mais séria e a mais grave.
Dizem: - "Este plano (a intervenção do Cristo), concebido desde toda a
eternidade, foi manifestado aos anjos muito antes da sua execução." Deus
sabia, portanto, e de toda a eternidade, que os anjos, tanto quanto os
homens, teriam necessidade dessa intervenção. Ainda mais: - o Deus
onisciente sabia que alguns dentre esses anjos viriam a falir, arcando com
a eterna condenação e arrastando a igual sorte uma parte da Humanidade. E
assim, de caso pensado, previamente condenava o gênero humano, a sua
própria criação. Deste raciocínio não há fugir, porquanto de outro modo
teríamos que admitir a inconsciência divina, apregoando a não presciência
de Deus. Para nós é impossível identificar uma tal criação com a soberana
bondade. Em ambos os casos vemos a negação de atributos, sem a plenitude
absoluta dos quais Deus não seria Deus.
12. - Admitindo a falibilidade dos anjos como a dos homens, a punição é
conseqüência, aliás justa e natural, da falta; mas se admitirmos
concomitantemente a possibilidade do resgate, a regeneração, a graça, após
o arrependimento e a expiação, tudo se esclarece e se conforma com a
bondade de Deus. Ele sabia que errariam, que seriam punidos, mas sabia
igualmente que tal castigo temporário seria um meio de lhes fazer
compreender o erro, revertendo ao fim em benefício deles. Eis como se
explicam as palavras do profeta Ezequiel: - "Deus não quer a morte, porém
a salvação do pecador." (1)
A inutilidade do arrependimento e a impossibilidade de regeneração, isso
sim, importaria a negação da divina bondade. Admitida tal hipótese,
poder-se-ia mesmo dizer, rigorosa e exatamente, que estes anjos desde a
sua criação, visto Deus não poder ignorá-lo, foram votados perpetuidade do
mal, e predestinados a demônios para arrastarem os homens ao mal.
13. - Vejamos agora qual a sorte desses tais anjos e o que fazem: "Mal
apenas se manifestou a revolta na linguagem dos Espíritos, isto é, no
arrojo dos seus pensamentos, foram eles banidos da celestial mansão e
precipitados no abismo. Por estas palavras entendemos que foram
arremessados a um lugar de suplícios no qual sofrem a pena de fogo,
conforme o texto do Evangelho, que é a palavra mesma do Salvador. Ide,
malditos, ao fogo eterno preparado pelo demônio e seus anjos. S. Pedro
expressamente diz: que Deus os prendeu às cadeias e torturas infernais,
sem que lá estejam, contudo, perpetuamente, visto como só no fim do mundo
serão para sempre enclausurados com os réprobos. Presentemente, Deus ainda
permite que ocupem lugar nesta criação, à qual pertencem, na ordem de
coisas idênticas à sua existência, nas relações enfim que deviam ter com
os homens, e das quais fazem o mais pernicioso abuso. Enquanto uns ficam
na tenebrosa
morada, servindo de instrumento da justiça divina contra as almas
infelizes que seduziram, outros, em número infinito, formam legiões e
residem nas camadas inferiores da atmosfera, percorrendo todo o globo.
Envolvem-se em tudo que aqui se passa, tomando mesmo parte muito ativa nos
acontecimentos terrenos." Quanto ao que diz respeito às palavras do Cristo
sobre o suplício do fogo eterno, já nos explanamos no cap. IV, "O
Inferno".
__________
(1) Vede 1ª' Parte, cap. VI, nº 25, citação de Ezequiel.
14. - Por esta doutrina,
apenas uma parte dos demônios está no inferno; a outra vaga em liberdade,
envolvendo-se em tudo que aqui se passa, dando-se ao prazer de praticar o
mal e isso até o fim do mundo, cuja época indeterminada não chegará tão
cedo, provavelmente. Mas, por que uma tal distinção? Serão estes menos
culpados? Certo que não, a menos que se não revezem, como se pode inferir
destas palavras:
"Enquanto uns ficam na tenebrosa morada, servindo de instrumento da
justiça divina contra as almas infelizes que seduziram."
Suas ocupações consistem, pois, em martirizar as almas que seduziram.
Assim, não se encarregam de punir faltas livre e voluntariamente
cometidas, porém as que eles próprios provocaram. São ao mesmo tempo a
causa do erro e o instrumento do castigo; e, coisa singular, que a justiça
humana por imperfeita não admitiria - a vitima que sucumbe por fraqueza,
em contingências alheias e porventura superiores à sua vontade, é tanto ou
mais severamente punida do que o agente provocador que emprega astúcia e
artifício, visto como essa vitima, deixando a Terra, vai para o inferno
sofrer sem tréguas, nem favor, eternamente, enquanto que o causador da sua
primeira falta, o agente provocador, goza de uma tal ou qual dilação e
liberdade até o fim do mundo.Como pode a justiça de Deus ser menos
perfeita que a dos homens?
15. - Mas, ainda não é tudo: "Deus permite que ocupem lugar nesta criação,
nas relações que com o homem deviam ter e das quais abusam
perniciosamente." Deus podia ignorar, no entanto, o abuso que fariam de
uma liberdade por ele mesmo concedida? Então, por que a concedeu? Mas
nesse caso é com conhecimento de causa que Deus abandona suas criaturas à
mercê delas mesmas, sabendo, pela sua onisciência, que vão sucumbir, tendo
a sorte dos demônios. Não serão elas de si mesmas bastante fracas para
falirem, sem a provocação de um inimigo tanto mais perigoso quanto
invisível? Ainda se o castigo fora temporário e o culpado pudesse remir-se
pela reparação!... Mas não: a condenação é irrevogável, eterna!
Arrependimento, regeneração, lamentos, tudo supérfluo!
Os demônios não passam portanto de agentes provocadores e de antemão
destinados a recrutar almas para o inferno, isto com a permissão de Deus,
que antevia, ao criar estas almas, a sorte que as aguardava. Que se diria
na Terra de um juiz que recorresse a tal expediente para abarrotar
prisões? Estranha idéia que nos dão da Divindade, de um Deus cujos
atributos essenciais são: - justiça e bondade soberanas!
E dizer-se que é em nome de Jesus, dAquele que só pregou amor, perdão e
caridade, que tais doutrinas são ensinadas! Houve um tempo em que tais
anomalias passavam despercebidas, porque não eram compreendidas nem
sentidas; o homem, curvado ao jugo do despotismo, submetia-se à fé cega,
abdicava da razão. Hoje, porém, que a hora da emancipação soou, esse homem
compreende a justiça, e, desejando-a tanto na vida quanto na morte,
exclama: - Não é, não pode ser tal, ou Deus não fora Deus.
16. - "O castigo segue por toda a parte os seres decaídos: o inferno está
neles e com eles: nem paz nem repouso, transformadas em amargores as
doçuras da esperança, que se lhes torna odiosa. A mão de Deus
desferiu-lhes o castigo no ato mesmo de pecarem, e sua vontade
galvanizou-se no mal.
"Tornados perversos, obstinam-se em o ser e sê-lo-ão para sempre.
"São, depois do pecado, o que é o homem depois da morte. A reabilitação
dos que caíram torna-se também impossível; a sua perda é, desde então,
irreparável, mantendo-se eles no seu orgulho perante Deus, no seu ódio
contra o Cristo, na sua inveja contra a Humanidade.
"Não tendo podido apropriar-se da glória celeste pelo desmesurado da sua
ambição, esforçam-se por implantar seu império na Terra, banindo dela o
reino de Deus. O Verbo encarnado cumpriu, apesar disso, os seus desígnios
para salvação e glória da Humanidade. Também por isso procuram por todos
os meios promover a perda das almas pelo Cristo resgatadas: o artifício e
a importunação, a mentira e a sedução, tudo põem em jogo para arrastá-las
ao mal e consumar-lhes a perda. "E como são infatigáveis e poderosos, a
vida do homem com inimigos tais não pode deixar de ser uma luta sem
tréguas, do berço ao túmulo.
"Efetivamente esses inimigos são os mesmos que, depois de terem
introduzido o mal no mundo, chegaram a cobri-lo com as espessas trevas do
erro e do vício; os mesmos que, por longos séculos, se fizeram adorar como
deuses e que reinaram em absoluto sobre os povos da antiguidade; os
mesmos, enfim, que ainda hoje exercem tirânica influência nas regiões
idólatras, fomentando a desordem e o escândalo até no seio das sociedades
cristãs. Para compreender todos os recursos de que dispõem ao serviço da
malvadez, basta notar que nada perderam das prodigiosas faculdades que são
o apanágio da natureza angélica. Certo, o futuro e sobretudo a ordem
natural têm mistérios que Deus se reservou e que eles não podem penetrar;
mas a sua inteligência é bem superior à nossa, porque percebem de um jacto
os efeitos nas causas e vice versa.
Esta percepção permite-lhes predizer acontecimentos futuros que escapam às
nossas conjeturas. A distância e variedade dos lugares desaparecem ante a
sua agilidade. Mais prontos que o raio, mais rápidos que o pensamento,
acham-se quase instantaneamente sobre diversos pontos do globo e podem
descrever, a distância, os acontecimentos na mesma hora em que ocorrem.
"As leis pelas quais Deus rege o Universo não lhes são acessíveis, razão
por que não podem derrogá-las, e, por conseguinte, predizer ou operar
verdadeiros milagres; possuem no entanto a arte de imitar e falsificar,
dentro de certos limites, as divinas obras; sabem quais os fenômenos
resultantes da combinação dos elementos, predizem com maior ou menor êxito
os que sobrevêm naturalmente, assim como os que por si mesmos podem
produzir. Daí os numerosos oráculos, os extraordinários vaticínios que
sagrados e profanos livros recolheram, baseando e acoroçoando tantas e
tantas superstições.
"A sua substância simples e imaterial subtrai-os às nossas vistas;
permanecem ao nosso lado sem que os vejamos, interessam-nos a alma sem que
nos firam o ouvido. Acreditando obedecer aos nossos pensamentos, estamos
no entanto, e muitas vezes, debaixo da sua funesta influência. As nossas
disposições, ao contrário, são deles conhecidas pelas impressões que delas
transparecem em nós, e atacam-nos ordinariamente pelo lado mais fraco.
Para nos seduzirem com mais segurança, costumam servir-se de sugestões e
engodos conformes com as nossas inclinações. Modificam a ação segundo as
circunstâncias e os traços característicos de cada temperamento. Contudo,
suas armas favoritas são a hipocrisia e a mentira."
17. - Afirmam que o castigo os segue por toda parte; que não sabem o que
seja paz nem repouso. Esta asserção de modo algum destrói a observação que
fizemos quanto ao privilégio dos que estão fora do inferno, e que
reputamos tanto menos justificado por isso que podem fazer, e fazem, maior
mal. É de crer que esses demônios extra-infernais não sejam tão felizes
como os bons anjos, mas não se deverá ter em conta a sua relativa
liberdade? Eles não possuirão a felicidade moral que a virtude defere, mas
são incontestavelmente mais felizes que os seus comparsas do inferno
flamífero. Depois, para o mau, sempre há um certo gozo na prática do mal,
de mais a mais livremente. Perguntai ao criminoso o que prefere: se ficar
na prisão, ou percorrer livremente os campos, agindo à vontade? Pois o
caso é exatamente o mesmo.
Afirmam, outrossim, que o remorso os persegue sem tréguas nem
misericórdia, esquecidos de que o remorso é o precursor imediato do
arrependimento, quando não é o próprio arrependimento. "Tornados
perversos, obstinam-se em o ser, e sê-lo-ão para sempre." Mas desde que se
obstinam em ser perversos, é que não têm remorsos; do contrário, ao menor
sentimento de pesar, renunciariam ao mal e pediriam perdão.
Logo, o remorso não é para eles um castigo.
18. - "São, depois do pecado, o que é o homem depois da morte. A
reabilitação dos que caíram torna-se, portanto, impossível."
Donde provém essa impossibilidade? Não se compreende que ela seja a
conseqüência de sua similitude com o homem depois da morte, proposição
que, ao demais, é muito ambígua.
Acaso provirá da própria vontade dos demônios? Porventura da vontade
divina? No primeiro caso a pertinácia denota uma extrema perversidade, um
endurecimento absoluto no mal, e nem mesmo se compreende que seres tão
profundamente perversos pudessem jamais ter sido anjos de virtude,
conservando por tempo indefinido, na convivência destes, todos os traços
da sua péssima índole e natureza.
No segundo caso, ainda menos se compreende que Deus inflija como castigo a
impossibilidade da reparação, após uma primeira falta. O Evangelho nada
diz que com isso se pareça.
19. - "A sua perda é desde então irreparável, mantendo-se eles no seu
orgulho perante Deus." E de que lhes serviria não manterem tal orgulho,
uma vez que é inútil todo o arrependimento? O bem só poderia interessá-los
se eles tivessem uma esperança de reabilitação, fosse qual fosse o seu
preço. Assim não acontece, no entanto, e pois se perseveram no mal é
porque lhes trancaram a porta da esperança. Mas por que lhes trancaria
Deus essa porta? Para se vingar da ofensa decorrente da sua insubmissão.
E, assim, para saciar o seu ressentimento contra alguns culpados, Deus
prefere não somente vê-los sofrer, mas agravar o mal com mal maior;
impelir à perdição eterna toda a Humanidade, quando por um simples ato de
demência podia evitar tão grande desastre, aliás previsto de toda a
eternidade!
Trata-se, no caso vertente, de um ato de demência, de uma graça pura e
simples que pudesse transformar-se em estimulo do mal? Não, trata-se de um
perdão condicional, subordinado a uma regeneração sincera e completa. Mas,
ao invés de uma palavra de esperança e misericórdia, é como se Deus
dissera: "Pereça toda a raça humana antes que minha vingança." E com
semelhante doutrina ainda muita gente se admira de que haja incrédulos e
ateus! E é assim que Jesus nos representa seu Pai?
Ele que nos deu a lei expressa do esquecimento e do perdão das ofensas,
que nos manda pagar o mal com o bem, que prescreve o amor dos nossos
inimigos como a primeira das virtudes que nos conduzem ao céu, quereria
desse modo que os homens fossem melhores, mais justos, mais indulgentes
que o próprio Deus?
TOPO
Os demônios segundo o Espiritismo
20. Segundo o Espiritismo, nem anjos nem demônios são entidades distintas,
por isso que a criação de seres inteligentes é uma só. Unidos a corpos
materiais, esses seres constituem a Humanidade que povoa a Terra e as
outras esferas habitadas; uma vez libertos do corpo material, constituem o
mundo espiritual ou dos Espíritos, que povoam os Espaços. Deus criou-os
perfectíveis e deu-lhes por escopo a perfeição, com a felicidade que dela
decorre. Não lhes deu, contudo, a perfeição, pois quis que a obtivessem
por seu próprio esforço, a fim de que também e realmente lhes pertencesse
o mérito. Desde o momento da sua criação que os seres progridem, quer
encarnados, quer no estado espiritual. Atingido o apogeu, tornam-se puros
espíritos ou anjos segundo a expressão vulgar, de sorte que, a partir do
embrião do ser inteligente até ao anjo, há uma cadeia na qual cada um dos
elos assinala um grau de progresso.
Do expresso resulta que há Espíritos em todos os graus de adiantamento,
moral e intelectual, conforme a posição em que se acham, na imensa escala
do progresso. Em todos os graus existe, portanto, ignorância e saber,
bondade e maldade. Nas classes inferiores destacam-se Espíritos ainda
profundamente propensos ao mal e comprazendo-se com o mal. A estes pode-se
denominar demônios, pois são capazes de todos os malefícios aos ditos
atribuídos. O Espiritismo não lhes dá tal nome por se prender ele à idéia
de uma criação distinta do gênero humano, como seres de natureza
essencialmente perversa, votados ao mal eternamente e incapazes de
qualquer progresso para o bem.
21. - Segundo a doutrina da Igreja os demônios foram criados bons e
tornaram-se maus por sua desobediência: são anjos colocados primitivamente
por Deus no ápice da escala, tendo dela decaído. Segundo o Espiritismo os
demônios são Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e que,
colocados na base da escala, hão de nela graduar-se. Os que por apatia,
negligência, obstinação ou má-vontade persistem em ficar, por mais tempo,
nas classes inferiores, sofrem as conseqüências dessa atitude, e o hábito
do mal dificulta-lhes a regeneração. Chega-lhes, porém, um dia a fadiga
dessa vida penosa e das suas respectivas conseqüências; eles comparam a
sua situação à dos bons Espíritos e compreendem que o seu interesse está
no bem, procurando então melhorarem-se, mas por ato de espontânea vontade,
sem que haja nisso o mínimo constrangimento. "Submetidos à lei geral do
progresso, em virtude da sua aptidão para o mesmo, não progridem, ainda
assim, contra a vontade." Deus fornece-lhes constantemente os meios,
porém, com a faculdade de aceitá-los ou recusá-los. Se o progresso fosse
obrigatório não haveria mérito, e Deus quer que todos tenhamos o mérito de
nossas obras. Ninguém é colocado em primeiro lugar por privilégio; mas o
primeiro lugar a todos é franqueado à custa do esforço próprio.
Os anjos mais elevados conquistaram a sua graduação, passando, como os
demais, pela rota comum.
22. - Chegados a certo grau de pureza, os Espíritos têm missões adequadas
ao seu progresso; preenchem assim todas as funções atribuídas aos anjos de
diferentes categorias. E como Deus criou de toda a eternidade, segue-se
que de toda a eternidade houve número suficiente para satisfazer às
necessidades do governo universal. Deste modo uma só espécie de seres
inteligentes, submetida à lei de progresso, satisfaz todos os fins da
Criação.
Por fim, a unidade da Criação, aliada à idéia de uma origem comum, tendo o
mesmo ponto de partida e trajetória, elevando-se pelo próprio mérito,
corresponde melhor à justiça de Deus do que a criação de espécies
diferentes, mais ou menos favorecidas de dotes naturais, que seriam outros
tantos privilégios.
23. - A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das
almas, não admitindo a lei do progresso, mas vendo todavia seres de
diversos graus, concluiu que seriam produto de outras tantas criações
especiais. E assim foi que chegou a fazer de Deus um pai parcial, tudo
concedendo a alguns de seus filhos, e a outros impondo o mais rude
trabalho. Não admira que por muito tempo os homens achassem justificação
para tais preferências, quando eles próprios delas usavam em relação aos
filhos, estabelecendo direitos de primogenitura e outros privilégios de
nascimento. Podiam tais homens acreditar que andavam mais errados que
Deus?
Hoje, porém, alargou-se o circulo das idéias: o homem vê mais claro e tem
noções mais precisas de justiça; desejando-a para si e nem sempre
encontrando-a na Terra, ele quer pelo menos encontrá-la mais perfeita no
Céu. E aqui está por que lhe repugna à razão toda e qualquer doutrina, na
qual não resplenda a Justiça Divina na plenitude integral da sua pureza.
(Allan Kardec, "O Céu e o Inferno", edição LAKE)
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