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UM
CONTO SURPREENDENTE E UMA ANÁLISE FELIZ
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"O VINHO
BRANCO"
Belvedere Bruno * |
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Perigos do alcoolismo habitual
Aspectos existenciais da Senectude
Finalidade da encarnação
Dr. Iso Jorge Teixeira * |
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"No dia 20 de outubro/2005,
a escritora (cronista e poetisa) amiga BELVEDERE BRUNO repassou-nos “um
conto muito diferente” de sua lavra, publicado na sua página na Internet,
no endereço:
http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/visualizar.php?idt=61569,
intitulado “O Vinho Branco”, sendo publicado também no “Recanto das
Letras”, cujo endereço é:
http://www.recantodasletras.com.br/contoscotidianos/61569 .
Eis o que ela
nos disse no dia 24 de outubro em relação a ele: “Conto com vocês para ver o que faço com o resto, o que sobrou. Aceito
sugestões." Belvedere Bruno – Niterói – RJ.
Dissemos a ela que, pela riqueza de substância contida no seu interessante
conto, gostaríamos de desenvolver uma série de aspectos do ponto de vista
psiquiátrico, existencial e espírita e pedimos a sua autorização para
isso, no que ela concordou. Vamos, então, ao belíssimo conto: |
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O Vinho branco
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Belvedere Bruno
Sentado na cadeira que pertenceu a várias gerações da família, faço o
inventário de minha vida. O que fiz com ela? Percorri os caminhos que
deveria,ou preferi atalhos? Aos noventa anos, já não tenho como modificar
meus traçados, equívocos, rezas tortas...
Sozinho, miro o firmamento. O ser humano envelhece, se encarquilha, mas,
se não houver a mão do homem, os cenários da natureza nunca se desfiguram.
Gosto do vinho branco seco. Me traz paz à alma.
Meus filhos já se foram. Triste foi a morte da mais novinha, Mariazinha da
Conceição, que a tuberculose levou. Coloquei nela uma roupa branca com véu
cobrindo o rosto, e um terço entre as mãos. Nunca mais consegui sorrir
como antes. Meu riso ficou preso.
A mulher envelheceu antes do tempo, foi murchando, sequer notou a ida dos
filhos. Sofri a dor da morte dos cinco, enquanto ela ia se encolhendo na
cama, me deixando só. Uma tarde, sorriu , olhou para o teto suspirando e
morreu. Nem senti falta, porque, na verdade, ela já havia morrido há
trinta anos.
Fiquei neste casarão sozinho. Não gosto de estranhos, nem preciso que
cuidem de mim, pois tenho pernas e braços. Monto a cavalo, cozinho, lavo e
passo. Empregado é pra cuidar dos bichos, da terra e do trabalho pesado da
casa.
Cheguei a pensar numa nova companheira, mas desisti. Nasci pra ser só. Não
gosto de vozerios, confusões, e as pessoas sempre trazem essas coisas.
Os vizinhos moram longe. De quando em vez, recebo visita. Trazem compotas
de frutas , vinhos, pão de aveia. Não gosto de desfeitear, e aceito,
mas
digo que visita não pode passar de meia hora.
O que a vida ainda quer de mim?
Rasguei todas as fotos que havia por aqui. Quem ficaria com elas após
minha morte? Não tenho herdeiros, os vizinhos acham pecado queimar
lembranças , e as fotos ,dizem que têm alma... Já doei todos os objetos de
valor para a igreja. Meu maior apego é com aquele Sagrado Coração de Jesus
em louça que tenho na parede da sala. Ainda não sei o que fazer com a
casa. Tenho tempo pra pensar.
Leio muito bem, nenhum problema pra enxergar, nunca fui a médico, tenho
uma saúde de ferro, mas um dia virá o sono eterno.
Para onde vou ? Como
será a morte? Penso que acordarei no céu, vendo meus cinco filhos, mas por
conta do que Conchita me fez, peço a Deus Todo Poderoso que me livre dela
na outra vida. Que continue encolhida no além...
Vou tomar uma tacinha de vinho pra me ajudar a dormir. Os fantasmas às
vezes aparecem e me tiram o sono. Nunca matei ninguém, apenas dei
ordens. Cada cabra safado que encontrei na vida !... Chegaram a matar dois
de meus filhos. Dei idéia para queimarem eles. Sobrou só pó. Ri e joguei
no charco. Quem sabe eles agora cismaram? Deixa isso pra lá! Tô velho
demais pra me preocupar com esses assuntos.
Não sei por que ainda estou por aqui. Acordo, fico o dia todo olhando a
paisagem, como, escuto rádio, ponho uns discos que já estão chiando de tão
velhos... Que cansaço anda batendo em mim ao cair da tarde! Me enrosco nas
cobertas e vou dormir.
São cinco horas e ainda há sol. Vou tomar meu vinhozinho branco, ler meu
livro de rezas, depois dormir na santa paz.
Nunca gostei de vinho tinto, por me lembrar sangue.
Que canseira me deu de repente, que sonolência estranha... Sinto frio,
arrepios. Meus olhos se embaçam, pareço ver vultos, mas nunca tive
problema de visão...
Estilhaços de garrafas e taças compunham o cenário final do inventário
daquele homem.
Belvedere
Publicado no Recanto das Letras em 20/10/2005 |
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Dr.
Iso Jorge Teixeira - Bem, não vamos analisá-lo do ponto de vista literário, até porque não
temos competência para tal, só diremos neste aspecto, que é um conto
vívido, muito real para ser ficção e muita introspecção e imagem da
personagem para ser real... Belíssimo conto... Vamos aproveitá-lo para
tocar em alguns pontos muito importantes da vida humana, do ponto de vista
existencial e espírita, isto é, vamos abordar a questão da transformação
alcoólica do modo-de-ser, alguns aspectos existenciais da senectude (da 3
ª idade) e, finalmente, aspectos doutrinários espíritas em relação à
finalidade da encarnação... Este conto propicia-nos abordá-los, embora de
maneira sucinta, sem esgotar os assuntos...
Perigos do alcoolismo habitual – Os “bebedores de vinho” – Transformação
alcoólica do modo-de-ser
Vamos resumir os vários tipos de Alcoolismo e destacar os efeitos do uso
habitual, mesmo moderado, de derivados alcoólicos...
Segundo a Classificação Internacional de Doenças, 10.ª revisão da
Organização Mundial de Saúde (OMS) – a CID-10 -, vigente, os Transtornos
Mentais provocados pelas bebidas alcoólicas são classificados como
“Transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de álcool”,
catalogados sob o código F10. Assim, haveria vários Tipos de Alcoolismo:
F10.0 – Intoxicação alcoólica aguda, que por sua vez pode ser: não
complicada; com trauma ou outra lesão corporal; com outras complicações
médicas; com “delirium”; com distorções perceptivas; com coma; com
convulsões e Intoxicação patológica;
F10.1 – Uso nocivo do álcool;
F10.2 – Síndrome de dependência alcoólica;
F10.3 – Estado de abstinência alcoólica, que pode ser:não complicado ou
com convulsões;
F10.4 – Estado de abstinência alcoólica com delirium, que pode ser: com ou
sem convulsões;
F10.5 - Transtorno psicótico alcoólico. Pode ser: esquizofreniforme;
predominantemente delirante; predominantemente alucinatório;
predominantemente polimórfico; predominantemente com sintomas depressivos;
predominantemente com sintomas maníacos e misto;
F10.6 – Síndrome amnéstica;
F10.7 – Transtorno psicótico residual e de início tardio. Podendo
apresentar-se com: flashbachs (revivescências) ; transtorno de
personalidade ou de comportamento;, transtorno afetivo residual; demência;
outro comprometimento cognitivo persistente e transtorno psicótico de
início tardio;
Aí está a classificação dos tipos de alcoolismo, resumidamente. Não
obstante, gostaríamos de trazer outra classificação para os nossos
leitores, útil, para endendermos melhor os riscos do alcoolismo. Trata-se
da classificação de JELLINEK (1960), sendo ela diferente em alguns
aspectos, ei-la:
A- O Bebedor dependente do álcool;
B- O ALCOÓLATRA QUE CONSOME VINHO. Este tipo é característico dos países
produtores de vinho. Raramente este tipo de alcoolista precisa beber a
ponto de chegar na intoxicação aguda, no entanto é incapaz de parar. Na
França este tipo de alcoolismo constituía um sério problema de saúde
pública;
C- O alcoólatra “descontrolado” ou “compulsivo”;
D- O alcoólatra sintomático;
E- O bebedor periódico ou “de veneta”;
F- O ALCOOLISMO CRÔNICO. Este pode ser considerado como estágio final para
o qual convergem TODOS os bebedores excessivos.
O conto da escritora BELVEDERE faz referência a um indivíduo que “gosta de
vinho branco” e “seco”, abstraindo-se do aspecto literário e psicológico
do protagonista, ele incluir-se-ia no tipo B de JELLINEK, acima
descrito... O “alcoólatra que consome vinho” é mais comum na Europa e nos
países mais frios, onde muitos usam normalmente o vinho, isto é,
HABITUALMENTE bebem vinho nas refeições, por exemplo. Este hábito,
aparentemente sem conseqüências, pode conduzir a pessoa à vala comum do
“alcoolismo crônico”, com comprometimento físico, mental e nas relações
sociais. “O Vinho branco” da BEL parece descrever um tipo de alcoolista
crônico, “bebedor de vinho”, com sinais inequívocos de “transformação
alcoólica do modo-de-ser”.
Transformação alcoólica do modo-de-ser
O alcoolista crônico corresponderia ao F10.2 da classificação da CID-10,
ele costuma apresentar uma série de características, que foram chamadas
inicialmente de “personalidade alcoólica”, que na realidade não existe,
preferimos a expressão “transformação alcoólica do modo-se-ser” , descrita
originariamente pelo grande psiquiatra suíço do passado EUGEN BLEULER, eis
a descrição de BLEULER em seu “Tratado de Psiquiatria”:
“(...) a transformação alcoólica do modo-se-ser constitui o resultado,
tanto do desenvolvimento psico-reativo mórbido à vivência das
conseqüências sociais do alcoolismo, como ao início de uma psico-síndrome
amnésico. Caracteriza-se por labilidade emocional e das tendências, e do
ponto de vista social tem importância a irascibilidade e a brutalidade que
implica. Caracteriza-se, assim, por perda de inibições, sugestionabilidade,
ausência de crítica e debilidade do juízo para focalizar a própria
situação vital, redução dos interesses, inexatidão e distorção egocêntrica
das recordações, substituições dos rendimentos autênticos por mentiras e
promessas vazias, atitude prejuízo frente ao meio ambiente, diminuição da
potência sexual e idéias de ciúmes.” (op. cit., Edit. Espasa-Calpe,
Madrid, 1967, p. 351).
Enfim, o álcool a médio e longo prazo deteriora a ÉTICA do indivíduo,
levando a tais características, tão bem descritas por um dos maiores
psiquiatras do início do século 20. O embotamento ético exibido por alguns
desses pacientes é muito semelhante ao da descrição do conto belvederiano...
Por tudo isso, sem querermos ser pedagógicos, alertamos para os perigos do
uso continuado de derivados alcoólicos, mesmo pequenas doses de um
“inocente” vinho branco...
Aspectos existenciais da Senectude (Terceira idade) – A solidão no idoso
“O Vinho branco” da BEL conta-nos as vivências de um homem de 90 (noventa)
anos, que preferiu “atalhos” em sua vida e que vive uma grande “solidão”.
Um homem que parece ter sido SEMPRE “seco”, como o vinho branco de sua
preferência; aliás, a confreira BELVEDERE foi muito feliz neste detalhe:
vinho branco SECO... Um homem cujos sentimentos mais nobres “secaram” ou
já eram “secos” originariamente. Não obstante, ainda conseguia realizar
algumas tarefas quotidianas...
Em síntese, um homem cuja aridez de sentimentos conseguiu levá-lo a ser o
mandante do assassinato de dois dos seus próprios filhos e recorda isto
sem sentimento de culpa. Seria conseqüência da “transformação alcoólica do
modo de ser” ou seria um indivíduo cruel, um psicopata frio de ânimo?
Ambas as condições são perfeitamente possíveis no mundo REAL.
Analisemos, então, os aspectos gerais referentes à idade avançada de uma
pessoa, e especialmente à do homem que bebia vinho branco seco...
Segundo a célebre frase de L. VAN DER HORST: “o fim da vida é sempre
conforme a nossa vida”, isto é, quando chega a nossa idade involutiva, a
chamada 3.ª idade, exacerbam-se aqueles traços dominantes que tínhamos em
nossa personalidade... Assim, uma pessoa que sempre foi excessivamente
preocupada com dinheiro, na senectude costuma revelar-se uma sovina. Uma
pessoa que sempre foi desconfiada, torna-se quase paranóide na idade
involutiva, ou seja, desconfia de tudo e de todos. Uma pessoa cujos traços
de personalidade foram de uma alegria inquebrantável, podem chegar à
velhice e demonstrarem uma alegria esfuziante, sem ser patológica,
obviamente; porque velhice não é doença, é uma fase vital muito propícia a
determinadas patologias, como a infância e a adolescência...
A adaptação à velhice é coisa delicada e depende muito da personalidade
anterior, e um pensamento semelhante ao de VAN DER HORST também ficou
célebre em relação à senectude, disse o grande psiquiatra do passado
AJURIAGUERRA: “Envelhece-se como se viveu”...
Vejamos o que nos diz sobre o pensamento de VAN DER HORST, acima aludido,
o nosso mestre da Psiquiatria brasileira, já desencarnado, prof. A. L.
NOBRE DE MELO em seu livro PSIQUIATRA (vol. I):
“(...) Quer-se dizer com isso, naturalmente, que o modo-de-ser-no-mundo de
cada um, condicionando suas atitudes anímicas, diante da vida, não pode
deixar de exercer poderosa e decisiva influência em seu modo-de-adoecer,
de estar enfermo e de morrer. A enfermidade e a morte não são, pois,
acontecimentos fortuitos, desvinculados do sentido mesmo da existência.
São antes acontecimentos ainda ligados, íntima e profundamente, ao curso
da vida, com que formam, não raro, um todo absoluto.” (op. cit., Edit.
MEC/Civ. Brasileira, 1979, Rio de Janeiro, p. 273).
Assim, o idoso do conto da BELVEDERE, aos 90 anos, estaria
transmitindo-nos, através de suas vivências, o que provavelmente ele
sempre foi? É bem possível no mundo real!
Vamos acrescentar aqui um trecho, que consideramos muito bonito, embora
dramático, dos “fundamentos ontológicos da ancianidade”, abordado pelo
prof. NOBRE DE MELO, na mesma obra PSIQUIATRIA, em seu vol. II (pág. 334),
que nos fala da SOLIDÃO, fenômeno que está provado cientificamente NÃO
DEPENDER do abandono familiar, condições sociais, etc., diz o mestre
NOBRE:
“Embora compreendendo haver chegado à última etapa de sua trajetória, o
Homem recebe, entretanto, o advento da velhice, não como prenúncio
consciente do aniquilamento irrecorrível, mas como uma nova modalidade de
existência , a que, ainda assim, precisa e se esforça por ajustar-se.
Certo, não ignora, por seu estado orgânico, psíquico, e, sobretudo, pela
mudança da atitude dos que o cercam, a proximidade em que se encontra de
sua extinção biológica inapelável. Percebe, a cada passo, que o seu mundo
se estreita e se esvazia. Foram-se-lhe, um a um, os antigos companheiros,
os parentes mais idosos, os amigos mais diletos. (...) Sente, dia a dia,
que o seu horizonte, outrora amplo e distante, esbate-se e limita-se, mais
e mais à sua frente, como para advertir-lhe de que já não poderá estar
longe aquela outra limitação, derradeira, RADICAL E DEFINITIVA o sempre
adiado amplexo dos horizontes, de que nos fala Jaspers”.
E complementa o nosso mestre:
“(...) Sabe que algo de ameaçador o vem espreitando de mais perto, em cada
curva, aos caprichos do acaso ou da fortuna um monstro, que se chamará
carcinoma, trombose cerebral, cor pulmonale, ou não importa que outro nome
tenha, mas que, a qualquer momento, acabará por interceptar-lhe a
caminhada.”
E concluímos, o pensamento do mestre com o que ele fala de “solidão”:
“(...) Morrerá só, como nasceu, no dizer de Pascal. E essa SOLIDÃO, que
constitui uma NECESSIDADE EXISTENCIAL DA VELHICE, é já, sem dúvida, um
começo de morte. Porque expressa a quebra da coexistência e da
comunicação, que alimentam a tensão vitral recíproca entre o eu e a
comunidade.
O ancião é sempre, pois, e antes de tudo, um solitário.
Não encontrando, entre os circunstantes quem comungue dos anseios e
aspirações do mundo arcaico, a que pertence, é um insulado, em meio da
multidão. Os jovens emudecem à sua presença. Sentem-se como que embargados
ou inibidos, diante dele. Ouvem-no, às vezes, por curiosidade,
consideração, respeito ou complacência. Mas, no fundo, não o compreendem.”
– destaques nossos, grifos do autor (op. cit., p. 334-335).
Tais palavras do prof. NOBRE poderão escandalizar muitas pessoas, mas ele
fez um estudo profundo da ancianidade do ponto de vista EXISTENCIAL,
ôntico, da velhice, que não caberia aqui esmiuçar pela sua extensão e
complexidade... Não obstante, o mestre NOBRE não era espírita, embora
também não fosse materialista. A propósito, analisemos a questão da
“religiosidade”, contida no conto da BEL...
Religiosidade nem sempre significa “salvação” – Finalidade da encarnação
Vemos no conto da amiga BELVEDERE, um homem que apresentava uma
religiosidade, mas sem nenhum sentimento que buscasse a proximidade de
DEUS ou de um Espírito Superior... Ele se mantém, aos 90 anos, ligado
simplesmente a coisas materiais: rasgou todas as fotos de pessoas por quem
deveria ter afeição, mas manteve um “Sagrado Coração de Jesus em louça”,
fria, que é “o seu maior apego” e pensa que com isso, e com seu “livro de
rezas”, estará salvo, “acordará no céu”, como ele diz; apesar de ter
perfeita consciência dos crimes que praticou, tanto assim que “nunca
gostou do vinho tinto, por lembrar-lhe sangue”...
Conhecemos algumas pessoas que assim procedem em relação às suas crenças,
embora não sejam más, perversas, como o homem de 90 anos da BEL... Uns vão
à missa todos os domingos, outros não faltam aos cultos semanais no templo
da sua religião e outros freqüentam as sessões dos Centros Espíritas
“religiosamente”, mas, a maioria não procura modificar-se em suas
imperfeições. Todos, com muito misticismo, acreditam terem ”encontrado
JESUS”, mesmo os “espíritas”, isto é, os “espiritólicos”. Julgam-se
“eleitos”, “salvos pela fé”, como diria PAULO DE TARSO; embora na seara
espírita apareçam os falsos humildes com ares de santarrões, que dizem:
Não estou salvo não, ainda preciso de muitos passes e muita água
fluidificada... Ora, quem espera a salvação somente através do recebimento
de passes e da ingestão de água, supostamente magnetizada, está
redondamente enganado; como está enganado o velho bebedor de vinho da
BELVEDERE, porque não basta orar, é preciso orar bem e AGIR na seara do
Bem...
Apesar da Espiritualidade Maior demonstrar, em todas as épocas da
humanidade, a realidade da vida após a morte, através do mediunismo
natural, que todos possuem (não o mediunato), a maioria das pessoas não
consegue modificar-se.
No caso do homem de 90 anos da BEL, também chama-nos a atenção os tais
“fantasmas”, que ele veria... Embora em alguns casos de alcoolismo os
pacientes possam apresentar pseudo-alucinações, a ocorrência destas é mais
freqüente sob forma de zoopsias, isto é, visão de animais minúsculos
(micropsias). No caso contado pela confreira BEL, os “fantasmas” lhe tiram
o sono, e tais fantasmas seriam provavelmente daqueles a quem mandou matar
e de outros que deve ter prejudicado com sua vida desviante, que voltam
para o assustar, demonstrando assim que não estão mortos, isto é, morreram
fisicamente, mas a alma é imortal... Mesmo assim, os fantasmas da criação
belvederiana não conseguem assustar o homem de 90 anos, porque há muito
está afastado das coisas espirituais...
Não temos dúvida de que há uma finalidade da nossa encarnação na Terra,
que o tal homem de 90 anos está totalmente esquecido dela... Disseram os
Espíritos Superiores em resposta à pergunta 167 de “O Livro dos
Espíritos”, de ALLAN KARDEC, em relação à FINALIDADE da reencarnação:
“Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isso, onde estaria
a justiça?”
Muitos, como o homem de 90 anos da BEL, passam por uma longa existência
terrena e, em vez de buscarem uma melhora, um reajuste dos seus débitos
passados, aumentam ainda mais os débitos, são os maus pagadores, pensam
que aqui estão para a vida material, sensual, e só se lembram da vida
espiritual quando desejam levar alguma vantagem material e, aí, utilizam o
“livro de reza”, mas são capazes de, antes da “reza”, tomarem um trago,
uma taça de vinho branco, seco...
Está bem claro, do ponto de vista doutrinário, qual seja a “finalidade da
encarnação”, não obstante, também é preciso ressaltar que OPTAMOS pelo
gênero de provas, ANTES de reencarnarmos... Se nos afastamos, pelo nosso
livre-arbítrio, daquelas provas que optamos, aqui voltaremos com provas
mais dolorosas, certamente; não é KARMA, nem “lei de causa e efeito” é
COMPROMISSO REENCARNATÓRIO DE REAJUSTE, que nós próprios assumimos,
LIVREMENTE, isto pode ser facilmente conferido e inferido nas respostas
das questões 258, 258-A e 259 e mais detalhado nas respostas das questões
seguintes até a 273 de O Livro dos Espíritos, às quais remetemos os nossos
leitores.
Epílogo
Concluindo, disséramos à confreira BELVEDERE, respondendo à sua pergunta
em relação ao que fazer com o resto, com o que sobrou, no seu conto, que
juntasse os “estilhaços de garrafas e taças” e concedesse a morte física a
esse desgraçado de 90 anos, para que, após uma reflexão na erraticidade
aqui voltasse com duras provas, regeneradoras, de reajuste e evolução.
Obviamente, a nossa sugestão é no plano da ficção da BEL, pois ela foi a
Criadora da personagem e só ela pode conduzir o homem de 90 anos à morte;
pois, a ninguém é dado o direito de tirar a vida física de outrem, pois
seria contrariar uma Lei Natural, Divina, inscrita na consciência de todos
por DEUS – Inteligência Suprema, Causa primária de toda a Criação...
A partir da leitura deste conto da escritora BELVEDERE, convidamos os
nossos leitores e leitoras a fazerem um inventário de sua própria
existência, no recesso de seus lares, como um exercício do
autoconhecimento... Obviamente, não indicaremos uma fórmula mágica para o
“Conhece-te a ti mesmo” socrático, no entanto, quando KARDEC insistiu na
forma de realizarmos esse autoconhecimento, o Espírito SANTO AGOSTINHO deu
a sua experiência que usou quando encarnado, eis um trecho de sua reposta
à questão 919-A de “O Livro dos Espíritos”:
“Fazei o que eu fazia quando vivi na Terra: no fim de cada dia,
interrogava a minha consciência, passava em revista o que havia feito e me
perguntava a mim mesmo se não tinha faltado ao cumprimento de algum dever,
se ninguém teria motivo para ser queixar de mim. Foi assim que cheguei a
me conhecer e a ver o que em mim necessitava de reforma. Aquele que todas
as noites lembrasse todas as suas ações do dia e se perguntasse o que fez
de bem e de mal, pedindo a Deus e ao seu anjo guardião que o
esclarecessem, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar, porque,
acreditai-me, Deus o assistirá. (...)”.
Se houvesse somente uma ÚNICA encarnação e depois o Juízo, como dizem
vários religiosos, baseados nas palavras de PAULO DE TARSO aos Hebreus,
que seria deste desgraçado do conto da BEL ? Que seria de tantos homens e
mulheres com problemática semelhante? Velhice, solidão? Todos nós a
teremos, mas que a nossa ancianidade e solidão sejam tranqüilas, sem
desespero, com autenticidade. Nós levamos alguma vantagem em relação aos
materialistas e alguns espiritualistas de determinadas crenças, que não
são espíritas - acreditamos na continuidade da vida depois da morte.
Parabéns BELVEDERE pela sua criatividade no seu conto! Brindemo-lo com
água pura, cristalina. Vamos sorver o seu “vinho branco”, ele não é
seco...
Ao chegarmos na senectude (aliás, eu tô ficando véio), Srs. leitores, que
possamos enfrentar a nossa consciência face-a-face, sem “fantasmas” e na
hora do passamento possamos dizer tranqüilamente, sem desespero - como
CHICO XAVIER deve ter dito –, pronunciando palavras do mestre JESUS:
Consummatus est...
Que tal outra rodada de vinho branco, caríssima BEL?"
Dr. Iso Jorge Teixeira *
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* Belvedere Bruno é escritora,
cronista e poetisa.
Espírita de berço e de coração, alia talento a uma rara
sensibilidade para captar nuances da alma humana, propiciando aos seus leitores momentos deliciosos
quais o que é possível verificar no pequeno conto "Vinho
Branco", transcrito acima. |
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* Dr. Iso Jorge Teixeira é médico,
psiquiatra e prof.
livre -
docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências
Médicas (FCM) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
É também coordenador do Curso de Especialização em Psiquiatria (FCM - UERJ) |
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