Realização:
Instituto André Luiz
Curitiba, Paraná
1999 - 2005
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Avaliação do livro "O Espírito de Chico Xavier " (Carlos Baccelli)

Cláudio Amaral

Dois anos após o desencarne do estimado Chico Xavier, lançou-se o livro “O Espírito de Chico Xavier “, através do médium Carlos Baccelli’(1º edição - editora LEEPP). O livro se propõe ser uma comunicação do espírito do referido médium, construído em diversos pensamentos esparsos. Pela própria natureza da Doutrina que professamos, é natural avaliarmos a coerência da obra em relação ao pensamento conhecido do proposto autor espiritual. Este trabalho é fruto desta avaliação, onde identificamos pontos discordantes da linha de pensamento central do saudoso médium.

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Considerações Iniciais - Baccelli foi alguém muito próximo de Chico, tendo absorvido muito das idiossincrasias do Chico, fato muito natural. Isto é uma constatação que não invalida a obra, mas que não pode deixar de ser considerado em conjunto com outras evidências.
Um fato relevante é a forma fragmentada de apresentação do conteúdo do livro. Dificultando ter–se maiores elementos identificadores como num texto corrido. Informações esparsas sem vínculo de concatenação, prejudicando a formação de estilo próprio característico do autor espiritual.

O prefácio é de imenso mau gosto. O médium se apresenta atingido por ataques diversos e aproveita para contra-atacar de forma pouco ética, pois refere-se genericamente ao movimento espírita quanto a seus “interesses menores” sem deixá-los claros.

Palavras do “Espírito”:

1) Nas palavras iniciais (pág 9) o espírito-autor diz: ”não saiba o que lhes dizer com exatidão”. Postura pouco provável para Chico Xavier, denunciando um espírito confuso nos seus objetivos.

2) O espírito diz (pág.11): “Em mim,...,continuam subsistindo muitos traços de treva...”. Chico sempre se humilhou para se apagar diante de elogios, porém não vemos Chico com traços de treva, nem tampouco afirmando fato que não lhe coubesse para expressar sua condição de humilde.

3) Na pág.15 a grosseria assusta. Fato nada peculiar à Chico Xavier. O espírito diz: ”No bicentenário de Allan Kardec , não nos lembremos tanto do Codificador, quanto nos compete lembrar de Jesus Cristo”. Resta a pergunta: qual o descompasso entre Allan Kardec e Jesus, se aquele revive este?

4) Na pág. 18 o espírito comunicante diminui a importância da missão de Chico através de uma confrontação descabida : “ Ah, quem me dera tivesse eu escrito menos e amado mais”. Como se uma coisa estivesse atrelada à outra. A dedicação religiosa de Chico , numa vida toda, ao trabalho junto ao livro foi uma prova inegável de amor em prol da humanidade.

5) Na pág. 55 é feita uma afirmação irresponsável por sua generalização: “Certos médiuns que andam fazendo escola no Espiritismo careceriam, eles mesmos, de melhor aprender a lição”. Inclusive contraditória em relação sua outra afirmação da pág.30/31 de que devemos evitar a censura e na pág.38 aconselhando a não julgarmos. Além de na pág.115 dizer que “jamais haveria de se posicionar contra um companheiro de Doutrina”.

6) Na pág.60, há a seguinte afirmação: ”os espíritas não fazem assistencialismo; os espíritas dão de comer a quem o governo não dá trabalho...”. É uma afirmação pouco respaldada na experiência do campo assistencial , que se depara não só com a falta de oportunidade de trabalho, mas também com a acomodação e a falta de iniciativa pessoal na busca de soluções. A visão coletiva do problema do emprego na atualidade está longe da ação paternalista do governo.

7) Uma frase de efeito, sem cabimento para a divulgação da doutrina: “Espiritismo é Kardec, mas Kardec não é Espiritismo” (pág.75). Mais uma tentativa (ver item 3) de depreciar esta figura central do Espiritismo, que deve ser preservada. E que foi tanto exaltada por Chico em vida e por suas psicografias. Espiritismo e Kardec se confundem.

8) Pág.76 – “O médium, em seu próprio benefício, deveria levar uma surra por dia.”. Figura infeliz e sem graça.

9) Pág.90 – “Se desde o princípio, eu tivesse idéia do caminho a ser percorrido, até hoje estaria pensando se daria o primeiro passo.” Chico apesar de sua aparente fragilidade, sempre foi dotado de uma decisão férrea e intimorata, ao seu estilo, em relação a sua missão junto ao Espiritismo. Custasse o quê custasse, concordassem com ele ou não.

10) Pág.91 – Terceira investida contra Kardec: “Na minha opinião, Allan Kardec deveria ter se apagado mais do que se apagou... Não lhe foi bastante adotar um pseudônimo”. Ataque menor. Kardec codificou nossa Doutrina de forma isenta e impessoal. Sem que em qualquer momento fosse omisso. Cabe-lhe sem qualquer favor a menção de o bom-senso encarnado.

11) Pág. 95 – Comparar Deus ao oceano está muito perto do panteísmo. As gotas (individualidades- espíritos) se perdem no contato com a imensidão. Nós não perdemos a individualidade. Pequeno e importante descuido do espírito comunicante.

12) O vaticínio do término da Igreja Católica (pág.95) é conflitante com a afirmação da pág. 122, que garante a importância da Igreja Católica por ser um grande pilar da civilização cristã, sem a qual a humanidade “mergulharia num caos sem precedentes”.

13) O espírito comunicante define a relação de Chico e Emmanuel como de dependência (pág.110). Dependência pressupõe perda do arbítrio próprio, o que depõem contra sua atuação como intermediário.

14) Pág.11 – “Com todo respeito aos nossos Maiores, só Jesus nos faz falta no coração”. Se esta afirmação inclui Emmanuel, não consigo ver Chico desconsiderando Emmanuel desta forma, gratuitamente. Nossa gratidão e carinho por nossos mentores não diminui nossa veneração ao Cristo.

15) Tanto quanto possível, as instituições espíritas devem conservar a sua independência do Movimento, mantendo-se fiéis à Codificação” (pág.94). Não fica claro o sentido de independência sugerido às casas espíritas em relação ao movimento espírita, se na prática as casas espíritas são autônomas. A dificuldade já é tão grande de agregar tantas diferenças, que tal colocação imprecisa só sugere a desunião, o afastamento entre elas.

16) Pág.133 – “Estar com os espíritos é uma tarefa cômoda, mesmo com os chamados obsessores; estar com os espíritas é que são elas, mesmo com os que se dizem companheiros”. Apesar de todos os seus sofrimentos passados na convivência com o movimento espírita, estas palavras pouco amáveis não se adequam a um espírito que lutou contra o ressentimento, a mágoa e outras mazelas que carregamos, e foi vitorioso, e ainda mais expressá-las em uma de suas primeiras psicografias.

É surpreendente o Chico que ressurge deste livro. Nada dócil e conciliador, mas muito mais consoante com a linha “pouco cordeira” do médium, conforme ele declara no prefácio (pág.9). As demais colocações aproveitáveis e sensatas não são suficientes para uma definição positiva pela identificação do autor espiritual como sendo o nosso saudoso Chico, em razão desses disparates, e o agravante apresentado nas considerações iniciais, pela vasta convivência do médium com o suposto autor espiritual.

Claudio Amaral
claudiofamaral@ig.com.br

 
       
         
   

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