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ENTREVISTA: Eduardo Chinato Ribeiro,
26 anos, espírita, Promotor de Justiça em Navegantes, SC
Lori Marli
dos Santos (Instituto André Luiz)
Ser tratato de "Excelentíssimo Senhor Promotor de Justiça" ainda soa
estranho para este jovem que, a primeira vista,
é
igual aos demais jovens de sua geração. Cheio de vida, adora música ,
festas e futebol. Gosta um bocado também de Internet, tem
amigos (muitos) no MSN e sua página no Orkut é recheada com um número
significativo de pessoas que realmente o conhecem e o querem muito bem.
A semelhança, porém, cessa aí.
Numa idade em que a maioria dos jovens ainda permanece na casa dos
pais, concluindo a faculdade ou dando os primeiros passos
profissionais, Eduardo, distante do aconchego familiar e após um
período longo de exaustiva preparação, de estudos intermináveis, de
muita disciplina e de um primeiro lugar no concorrido concurso a
promotor de justiça em SC, já administra uma comarca pródiga em
problemas e dificuldades.
Uma comarca que, por isso mesmo, e no conselho de próprio pai, era local a ser evitado, como ele mesmo
revela na entrevista.
Um cargo que lhe exigiu algo além de um brilhante primeiro lugar:
exigiu idealismo, coragem, maturidade, poder de transformação e
imenso amor aos semelhantes; exigiu a inquebrantável decisão de
prosseguir, muito embora as dificuldades, muito embora o volume de serviço existente, sempre árduo, sempre exaustivo, porém não intransponível.
Nesta entrevista, que entregamos agora aos nossos amigos e
visitantes, é possível extrair um pouco da sua
personalidade , de seu pensamento. Por
conhecê-lo bem, e por privar de sua amizade, sempre doce e leal,
nada mais nos é possível dizer senão que é uma alegria imensa
apresentá-lo neste espaço. Deus o ampare e abençoe, querido amigo, hoje e sempre!
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CA
- Eduardo, você é espírita há quanto tempo?
R: Minha família é espírita desde 1985, mas
passei a estudar a literatura espírita em 1999, quando cursava a faculdade
de Direito.
CA - Como descobriu sua vocação
para as leis e a justiça?
R: Meu pai também é membro do Ministério Público.
Assim, desde criança sempre acompanhei com muita atenção e interesse
o trabalho por ele desenvolvido, sendo que me identifiquei com a ciência
jurídica, decidindo que faria vestibular para Direito já com 15 anos
de idade.
CA - Você se tornou Promotor de
Justiça aos 25 anos. Foi fácil?
R: A aprovação em um concurso público na área
jurídica é sempre muito difícil. O concurso para ingresso no Ministério
Público de Santa Catarina é dividido em cinco etapas eliminatórias,
tendo duração média de nove meses. Só quem é formado em Direito tem
noção exata da dificuldade do caminho percorrido durante os inúmeros
concursos a que nos submetemos até alcançarmos êxito. Atualmente,
sou promotor titular da comarca de Navegantes, no litoral norte de
Santa Catarina.
CA - Tinha idéia do que encontraria
pela frente trabalhando em uma comarca como Navegantes?
R: Curiosamente, enquanto prestava o concurso,
meu pai sempre disse que Navegantes era uma comarca a ser evitada,
pela dificuldade e pelo volume de serviço existente. Entretanto, o
“destino” acabou me levando a esta comarca. Ao assumir, assustei-me
com o volume de serviço existente, mas hoje estou perfeitamente habituado
com a comarca e tenho colhido valorosas lições dessa minha passagem
por lá.
CA - Como foi deixar a casa dos
pais e assumir um cargo de tão grande responsabilidade, simultaneamente?
R: Minha família é muito unida, o que tornou
a saída de casa uma momento muito difícil. Somada a responsabilidade
assumida, passei por momentos de profunda insegurança até a completa
adaptação. Felizmente, Navegantes é próxima a Florianópolis, minha
cidade natal, e posso visitar minha família com bastante freqüência.
CA - Houve solidão?
R: Não chegou a haver a sensação de solidão,
pois fui bem acolhido pelas pessoas que trabalham no Fórum, as quais
considero como grandes amigos. Entretanto, houve vários momentos de
medo e insegurança, felizmente superados com a ajuda da família e
de amigos.
CA - Há muitos jovens trabalhando
no Judiciário?
R: Hoje em dia os jovens tem que decidir muito cedo os rumos a
serem tomados para o futuro. Isso acarreta em um número grande de
jovens trabalhando como estagiários e bolsistas nos Fóruns, além de
haver cada vez mais ingressos de jovens nos quadros do Poder Judiciário
e do Ministério Público.
CA - Isso parece improvável, pois
os corredores da justiça hoje parecem pouco atraentes à juventude
em geral, que prefere corredores de hospitais, corredores financeiros,
passarelas ou campos de futebol... Como você vê isso?
R: Tal fato não tem impedido que muitos
jovens busquem as carreiras jurídicas. Muitos buscam a oportunidade
de servirem de instrumento para implementação de uma vida mais justa
para a sociedade. Infelizmente, outros tantos buscam as carreiras
jurídicas pelo poder e pelo status decorrente dos cargos de juiz e
promotor.
CA - Falando em juventude... jovem,
hoje, é sinônimo de confusão?
R: Pelo que posso perceber, atualmente a
confusão não é um atributo exclusivo dos jovens. Entretanto, é inegável
que a juventude é mais suscetível a conflitos decorrentes da quantidade
de informações e cobranças a que são submetidos, incompatíveis qual
o grau de maturidade e agravados pela crise moral vivida nesse período
de fim/início de século.
CA - As drogas são uma constante?
R: Infelizmente são. É cada vez mais comum
o uso de álcool e maconha entre jovens de todas as idades, inclusive
entre universitários, sendo que tal postura é vista como perfeitamente
normal entre os jovens. Entretanto, a maior preocupação é o aumento
do uso de drogas sintéticas por pessoas cada vez mais jovens, sendo
possível encontrar crianças na faixa etária de 10 anos de idade viciado
em crack.
CA - Houve época em que as gangues
dominavam. Hoje ouve-se falar bem menos sobre isso. Elas acabaram?
Ou hoje a delinqüência busca trabalhar em grupos pequenos ou mesmo
individualmente?
R: De fato, nos últimos anos ocorreu uma
profunda mudança no fenômeno da criminalidade. É inegável que a relações
interpessoais se tornaram muito mais complexas e dinâmicas, principalmente
com o advento da globalização. A criminalidade é fruto da sociedade
e como tal é diretamente influenciada pela conjuntura social existente.
Assim, a figura das “gangues” foi substituída pela figura do crime
organizado, cada vez mais sofisticado, profissional e impessoal.
Entretanto, entre os adolescentes infratores, ainda é possível
observar a existência de “gangues” nos moldes antigos.
CA - Quais os maiores problemas
encontrados em sua comarca?
R: A cidade de Navegantes tem seus maiores problemas decorrentes
do crescimento populacional desenfreado. É uma cidade com aproximadamente
45.000 habitantes, com uma grande quantidade de jovens e criança,
sem estrutura econômica suficiente para absorver a mão-de-obra existente.
Por ser uma cidade de litoral e diretamente influenciada pelo Porto
de Itajaí (cidade ao lado), possuí grande incidência de dependentes
químicos, usuários de crack, causando um grande número de crimes patrimoniais.
Além disso, a cidade de muitos problemas na área da infância e juventude,
com grande números de jovens viciados, além de muitos casos de maus
tratos e violência sexual doméstica. Já a cidade de Luis Alves, que
também faz parte da comarca, é pequena e relativamente tranqüila,
tendo como maior problema o grande números de crimes ambientais decorrentes
do desmatamento para o plantio de cana-de-açúcar (para a produção
de cachaça) e de bananeiras.
CA - A televisão mostra seguidamente,
em forma de denúncia, o comércio sexual envolvendo menores de idade.
Isso é problema adstrito a áreas pobres de alguns estados ou capitais
brasileiras, ou é mal generalizado?
R: Infelizmente é um mal generalizado. Quanto
mais carente for o população local, mas sujeita à prostituição infantil.
É possível perceber também um grande número de meninas trazidas de
cidades do interior ou de outros estados, com a promessa de trabalho
nas cidades litorâneas, que acabam sendo trazidas para prostíbulos
dessas cidades.
CA - O que fazer para evitar-se a prostituição
infantil?
R: A solução da prostituição infantil passa
pela reestruturação familiar e pela própria reforma íntima das sociedade.
Enquanto houver famílias desestruturadas de valores morais e pessoas
que encontrem prazer no relacionamento sexual com infantes, a prostituição
infantil será uma mancha em nossa história. Não há como esperar que
o Estado solucione o problema: ou a sociedade se conscientiza dele
e tome as medidas para combatê-la, ou o problema persistirá sem solução
eficaz.
CA - O tráfico de drogas é cada
vez mais aberto, mais sucinto. Culpa da lei ou da sociedade?
R: A lei é apenas um texto, um conjunto
de regras mínimas de convivência. Ela, por si só, não tem o poder
de resolver nada. Temos uma das melhores legislações voltadas para
a infância, o que não impede que nossa infância esta sujeita a uma
sérias de privações. No caso das drogas, como já citado, existe uma
série de pessoas em diversas camadas sociais que acha perfeitamente
normal o uso de entorpecentes. Com um mercado consumidor forte, a
tendência é que a oferta só aumente. Sendo assim, é inegável que a
culpa é da sociedade. Entretanto, não podemos esquecer que esta é
composta por indivíduos e é estruturada a partir da família, instituição
em profunda crise estrutural e de identidade.
CA - O jornal Folha de São Paulo
noticiou há poucos dias a morte de uma adolescente de 14 anos, após aborto clandestino.
Na mesma reportagem, erguendo a bandeira da descriminalização da prática
do aborto, uma coordenadora das Jornadas pelo
Direito ao Aborto Seguro, afirmou que o fato era um "retrato
ao vivo e a cores" das conseqüências dos abortos inseguros. Como
espírita, qual a sua opinião sobre esta notícia? E como promotor?
R: Tendo em vista que é impossível ser neutro,
não há como separar o promotor da pessoa que exerce o cargo. Assim,
na condição de espírita, só tenho a lamentar que pessoas que
ocupam papel social relevante estejam preocupado em trabalhar com
efeito ao invés de trabalhar com a causa. Antes de se falar em aborto
seguro, não seria mais sensato falar em
uma política social efetiva em busca da conscientização dos jovens
por uma vida sexual responsável? Será que a ineficiência
do aparato estatal para combater o aborto clandestino deve servir
de justificativa para se legalizar o assassinato indiscriminado de
nascituros? Vale lembrar que a Constituição Federal, em seu artigo
5o, caput, prevê o direito a vida no rol dos direitos fundamentais,
tendo o Código Civil, em seu artigo 2o, considerado o nascituro como
sujeito de direitos, sendo que tanto do ponto de vista legal, quando
do ponto de vista moral, é inaceitável que a vontade da genitora possa
se sobressair ao direito do feto ao seu pleno desenvolvimento.
CA - A reportagem diz ainda que,
no Brasil, morrem por ano mais de 2.000 mulheres por complicações
na gravidez, aborto, parto ou período pós-parto. Então pergunto: por
que a mulher prossegue tão sujeita a riscos, principalmente na área
da saúde? Ignorância social ou descaso oficial?
R: Poderíamos dizer que são duas faces da mesma
moeda. O descaso oficial existente é fruto da ignorância social. Se
a sociedade civil fosse mais organizada e consciente no exercício
da cidadania certamente o erário seria melhor aplicado. Infelizmente
no Brasil, a maioria das conquistas da área da cidadania são fruto
do trabalho abnegado de membros do Ministério Público, respaldados
pelo Poder Judiciário, obrigando o Estado a uma melhor prestação do
serviço público. Ademais, em alguns casos,
o Estado até oferece o acompanhamento, mas a ignorância social, que
decorrer do descaso oficial nas políticas
voltadas à educação, faz com que as gestantes não procurem o atendimento
neonatal, por exemplo.
CA - Mais respeito, dignidade
e direitos aos homossexuais: mito ou realidade?
R: É inegável que já se avançou muito no
campo dos direitos e do respeito ao fenômeno da homoafetividade, principalmente
nas decisões dos Tribunais pátrios, mas ainda há muito para se avançar,
principalmente no que concerne a regulamentação legal de alguns direitos.
Pouco importa se consideramos tal situação como normal ou não. São
pessoas iguais a todos nós e têm os mesmos direitos à felicidade,
ao respeito e a tratamento digno.
CA - Entre tantas mudanças sociais
e morais, algumas consideradas impossíveis até há poucos anos, eu
pergunto: diante disso a família brasileira está mais forte ou está
mais frágil?
R: a família está passando por uma fase
de profunda transformação, decorrente da forte crises de valores que
estamos passando. No momento, a desestrutura familiar é uma triste
realidade que termina nos corredores dos Fóruns. Entretanto, tenho
esperança que os núcleos familiares consigam se adequar a nova realidade
sócio-econômica vigente, e consigam retornar ao seu papel fundamental
de base de nossa sociedade.
CA - Muito trabalho com menores
transgressores?
R: Sim. Enquanto não houver uma preocupação
política de se implementar de forma eficaz o disposto no Estatuto
da Criança e do Adolescente, nossas crianças continuarão cada vez
mais expostas ao uso de entorpecentes e ao ingresso nas fileiras do
crime organizado, o que só faz aumentar o número de adolescentes em
conflito com a lei.
CA - Há conflito entre a aplicação
da lei e os ensinamentos da Doutrina Espírita?
R: Não me parece haver grandes conflitos
entre a aplicação da lei e os ensinamentos da doutrina espírita. A
legislação brasileira é muito influenciada pelos postulados da Igreja
Católica, a qual possuí base moral muito semelhante a do espiritismo.
É certo, contudo, que sempre haverá algum conflito, já que a legislação
é fruto do trabalho de homens, carregando em seu seio as imperfeições
inerentes à própria condição humana.
CA - Alguma estória para contar?
Este espaço é seu, fique à vontade.
R: Não teria nenhum fato específico para
contar, já que o cotidiano forense é repleto de pequenos casos, todos
de relevância para a vida de alguém. Ademais, acredito que a ação
divina em nossas vidas não se dá em grandes e marcantes acontecimentos
e sim em pequenos detalhes, direcionando o rumo de nossas ações.
Entretanto, não poderia deixar passar a oportunidade para lembrar
a todos que as instituições atuantes na manutenção
da Justiça são formadas por pessoas, sujeitas à falhas e imperfeições
decorrentes da natureza humana. Entretanto, a grande maioria dos operadores
jurídicos é abnegada no exercício de suas
funções e se a prestação jurisdicional não é tão célere quanto o desejado
é pelo fato das limitações materiais existentes e pelo grande aumento
no volume de processos, decorrente do aumento da complexidade das
relações interpessoais. Ademais, a existência de estruturas estatais
voltadas para a administração da Justiça é indispensável para que
haja harmonia no convívio social, justamente pelas imperfeições existentes
em nossa sociedade.
Agradeço ao Canal Aberto a oportunidade de dividir com todos um pouco
de minhas opiniões e desejo que Deus abençoe seus lares! Obrigado.
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