Realização:
Instituto André Luiz
Curitiba, Paraná
1999 - 2005
.
.

ENTREVISTA: Eduardo Chinato Ribeiro, 26 anos, espírita, Promotor de Justiça em Navegantes, SC

Lori Marli dos Santos (Instituto André Luiz)

Ser tratato de "Excelentíssimo Senhor Promotor de Justiça" ainda soa estranho para este jovem que, a primeira vista, é igual aos demais jovens de sua geração. Cheio de vida, adora música, festas e futebol. Gosta um bocado também de Internet, tem amigos (muitos) no MSN e sua página no Orkut é recheada com um número significativo de pessoas que realmente o conhecem e o querem muito bem.
A semelhança, porém, cessa aí.
Numa idade em que a maioria dos jovens ainda permanece na casa dos pais, concluindo a faculdade ou dando os primeiros passos profissionais, Eduardo, distante do aconchego familiar e após um período longo de exaustiva preparação, de estudos intermináveis, de muita disciplina e de um primeiro lugar no concorrido concurso a promotor de justiça em SC, já administra uma comarca pródiga em problemas e dificuldades.
Uma comarca que, por isso mesmo, e no conselho de próprio pai, era local a ser evitado, como ele mesmo revela na entrevista.
Um cargo que lhe exigiu algo além de um brilhante primeiro lugar: exigiu idealismo, coragem, maturidade, poder de transformação e imenso amor aos semelhantes; exigiu a inquebrantável decisão de prosseguir, muito embora as dificuldades, muito embora o volume de serviço existente, sempre árduo, sempre exaustivo, porém não intransponível.

Nesta entrevista, que entregamos agora aos nossos amigos e visitantes, é possível extrair um pouco da sua personalidade, de seu pensamento. Por conhecê-lo bem, e por privar de sua amizade, sempre doce e leal, nada mais nos é possível dizer senão que é uma alegria imensa apresentá-lo neste espaço. Deus o ampare e abençoe, querido amigo, hoje e sempre!

-------------- 0 0 --------------

CA - Eduardo, você é espírita há quanto tempo?
R: Minha família é espírita desde 1985, mas passei a estudar a literatura espírita em 1999, quando cursava a faculdade de Direito.
CA - Como descobriu sua vocação para as leis e a justiça?
R: Meu pai também é membro do Ministério Público. Assim, desde criança sempre acompanhei com muita atenção e interesse o trabalho por ele desenvolvido, sendo que me identifiquei com a ciência jurídica, decidindo que faria vestibular para Direito já com 15 anos de idade.
CA - Você se tornou Promotor de Justiça aos 25 anos. Foi fácil?
R: A aprovação em um concurso público na área jurídica é sempre muito difícil. O concurso para ingresso no Ministério Público de Santa Catarina é dividido em cinco etapas eliminatórias, tendo duração média de nove meses. Só quem é formado em Direito tem noção exata da dificuldade do caminho percorrido durante os inúmeros concursos a que nos submetemos até alcançarmos êxito. Atualmente, sou promotor titular da comarca de Navegantes, no litoral norte de Santa Catarina.
CA - Tinha idéia do que encontraria pela frente trabalhando em uma comarca como Navegantes?
R: Curiosamente, enquanto prestava o concurso, meu pai sempre disse que Navegantes era uma comarca a ser evitada, pela dificuldade e pelo volume de serviço existente. Entretanto, o “destino” acabou me levando a esta comarca. Ao assumir, assustei-me com o volume de serviço existente, mas hoje estou perfeitamente habituado com a comarca e tenho colhido valorosas lições dessa minha passagem por lá.
CA - Como foi deixar a casa dos pais e assumir um cargo de tão grande responsabilidade, simultaneamente?
R: Minha família é muito unida, o que tornou a saída de casa uma momento muito difícil. Somada a responsabilidade assumida, passei por momentos de profunda insegurança até a completa adaptação. Felizmente, Navegantes é próxima a Florianópolis, minha cidade natal, e posso visitar minha família com bastante freqüência.
CA - Houve solidão?
R: Não chegou a haver a sensação de solidão, pois fui bem acolhido pelas pessoas que trabalham no Fórum, as quais considero como grandes amigos. Entretanto, houve vários momentos de medo e insegurança, felizmente superados com a ajuda da família e de amigos.
CA - Há muitos jovens trabalhando no Judiciário?
R: Hoje em dia os jovens tem que decidir muito cedo os rumos a serem tomados para o futuro. Isso acarreta em um número grande de jovens trabalhando como estagiários e bolsistas nos Fóruns, além de haver cada vez mais ingressos de jovens nos quadros do Poder Judiciário e do Ministério Público.
CA - Isso parece improvável, pois os corredores da justiça hoje parecem pouco atraentes à juventude em geral, que prefere corredores de hospitais, corredores financeiros, passarelas ou campos de futebol... Como você vê isso?
R: Tal fato não tem impedido que muitos jovens busquem as carreiras jurídicas. Muitos buscam a oportunidade de servirem de instrumento para implementação de uma vida mais justa para a sociedade. Infelizmente, outros tantos buscam as carreiras jurídicas pelo poder e pelo status decorrente dos cargos de juiz e promotor.
CA - Falando em juventude... jovem, hoje, é sinônimo de confusão?
R: Pelo que posso perceber, atualmente a confusão não é um atributo exclusivo dos jovens. Entretanto, é inegável que a juventude é mais suscetível a conflitos decorrentes da quantidade de informações e cobranças a que são submetidos, incompatíveis qual o grau de maturidade e agravados pela crise moral vivida nesse período de fim/início de século.
CA - As drogas são uma constante?
R: Infelizmente são. É cada vez mais comum o uso de álcool e maconha entre jovens de todas as idades, inclusive entre universitários, sendo que tal postura é vista como perfeitamente normal entre os jovens. Entretanto, a maior preocupação é o aumento do uso de drogas sintéticas por pessoas cada vez mais jovens, sendo possível encontrar crianças na faixa etária de 10 anos de idade viciado em crack.
CA - Houve época em que as gangues dominavam. Hoje ouve-se falar bem menos sobre isso. Elas acabaram? Ou hoje a delinqüência busca trabalhar em grupos pequenos ou mesmo individualmente?
R: De fato, nos últimos anos ocorreu uma profunda mudança no fenômeno da criminalidade. É inegável que a relações interpessoais se tornaram muito mais complexas e dinâmicas, principalmente com o advento da globalização. A criminalidade é fruto da sociedade e como tal é diretamente influenciada pela conjuntura social existente. Assim, a figura das “gangues” foi substituída pela figura do crime organizado, cada vez mais sofisticado, profissional e impessoal. Entretanto, entre os adolescentes infratores, ainda é possível observar a existência de “gangues” nos moldes antigos.
CA - Quais os maiores problemas encontrados em sua comarca?
R: A cidade de Navegantes tem seus maiores problemas decorrentes do crescimento populacional desenfreado. É uma cidade com aproximadamente 45.000 habitantes, com uma grande quantidade de jovens e criança, sem estrutura econômica suficiente para absorver a mão-de-obra existente. Por ser uma cidade de litoral e diretamente influenciada pelo Porto de Itajaí (cidade ao lado), possuí grande incidência de dependentes químicos, usuários de crack, causando um grande número de crimes patrimoniais. Além disso, a cidade de muitos problemas na área da infância e juventude, com grande números de jovens viciados, além de muitos casos de maus tratos e violência sexual doméstica. Já a cidade de Luis Alves, que também faz parte da comarca, é pequena e relativamente tranqüila, tendo como maior problema o grande números de crimes ambientais decorrentes do desmatamento para o plantio de cana-de-açúcar (para a produção de cachaça) e de bananeiras.
CA - A televisão mostra seguidamente, em forma de denúncia, o comércio sexual envolvendo menores de idade. Isso é problema adstrito a áreas pobres de alguns estados ou capitais brasileiras, ou é mal generalizado?
R: Infelizmente é um mal generalizado. Quanto mais carente for o população local, mas sujeita à prostituição infantil. É possível perceber também um grande número de meninas trazidas de cidades do interior ou de outros estados, com a promessa de trabalho nas cidades litorâneas, que acabam sendo trazidas para prostíbulos dessas cidades.
CA - O que fazer para evitar-se a prostituição infantil?
R: A solução da prostituição infantil passa pela reestruturação familiar e pela própria reforma íntima das sociedade. Enquanto houver famílias desestruturadas de valores morais e pessoas que encontrem prazer no relacionamento sexual com infantes, a prostituição infantil será uma mancha em nossa história. Não há como esperar que o Estado solucione o problema: ou a sociedade se conscientiza dele e tome as medidas para combatê-la, ou o problema persistirá sem solução eficaz.
CA - O tráfico de drogas é cada vez mais aberto, mais sucinto. Culpa da lei ou da sociedade?
R: A lei é apenas um texto, um conjunto de regras mínimas de convivência. Ela, por si só, não tem o poder de resolver nada. Temos uma das melhores legislações voltadas para a infância, o que não impede que nossa infância esta sujeita a uma sérias de privações. No caso das drogas, como já citado, existe uma série de pessoas em diversas camadas sociais que acha perfeitamente normal o uso de entorpecentes. Com um mercado consumidor forte, a tendência é que a oferta só aumente. Sendo assim, é inegável que a culpa é da sociedade. Entretanto, não podemos esquecer que esta é composta por indivíduos e é estruturada a partir da família, instituição em profunda crise estrutural e de identidade.
CA - O jornal Folha de São Paulo noticiou há poucos dias a morte de uma adolescente de 14 anos, após aborto clandestino. Na mesma reportagem, erguendo a bandeira da descriminalização da prática do aborto, uma coordenadora das Jornadas pelo Direito ao Aborto Seguro, afirmou que o fato era um "retrato ao vivo e a cores" das conseqüências dos abortos inseguros. Como espírita, qual a sua opinião sobre esta notícia? E como promotor?
R: Tendo em vista que é impossível ser neutro, não há como separar o promotor da pessoa que exerce o cargo. Assim, na condição de espírita, só tenho a lamentar que pessoas que ocupam papel social relevante estejam preocupado em trabalhar com efeito ao invés de trabalhar com a causa. Antes de se falar em aborto seguro, não seria mais sensato falar em uma política social efetiva em busca da conscientização dos jovens por uma vida sexual responsável? Será que a ineficiência do aparato estatal para combater o aborto clandestino deve servir de justificativa para se legalizar o assassinato indiscriminado de nascituros? Vale lembrar que a Constituição Federal, em seu artigo 5o, caput, prevê o direito a vida no rol dos direitos fundamentais, tendo o Código Civil, em seu artigo 2o, considerado o nascituro como sujeito de direitos, sendo que tanto do ponto de vista legal, quando do ponto de vista moral, é inaceitável que a vontade da genitora possa se sobressair ao direito do feto ao seu pleno desenvolvimento.
CA - A reportagem diz ainda que, no Brasil, morrem por ano mais de 2.000 mulheres por complicações na gravidez, aborto, parto ou período pós-parto. Então pergunto: por que a mulher prossegue tão sujeita a riscos, principalmente na área da saúde? Ignorância social ou descaso oficial?
R: Poderíamos dizer que são duas faces da mesma moeda. O descaso oficial existente é fruto da ignorância social. Se a sociedade civil fosse mais organizada e consciente no exercício da cidadania certamente o erário seria melhor aplicado. Infelizmente no Brasil, a maioria das conquistas da área da cidadania são fruto do trabalho abnegado de membros do Ministério Público, respaldados pelo Poder Judiciário, obrigando o Estado a uma melhor prestação do serviço público. Ademais, em alguns casos, o Estado até oferece o acompanhamento, mas a ignorância social, que decorrer do descaso oficial nas políticas voltadas à educação, faz com que as gestantes não procurem o atendimento neonatal, por exemplo.
CA - Mais respeito, dignidade e direitos aos homossexuais: mito ou realidade?
R: É inegável que já se avançou muito no campo dos direitos e do respeito ao fenômeno da homoafetividade, principalmente nas decisões dos Tribunais pátrios, mas ainda há muito para se avançar, principalmente no que concerne a regulamentação legal de alguns direitos. Pouco importa se consideramos tal situação como normal ou não. São pessoas iguais a todos nós e têm os mesmos direitos à felicidade, ao respeito e a tratamento digno.
CA - Entre tantas mudanças sociais e morais, algumas consideradas impossíveis até há poucos anos, eu pergunto: diante disso a família brasileira está mais forte ou está mais frágil?
R: a família está passando por uma fase de profunda transformação, decorrente da forte crises de valores que estamos passando. No momento, a desestrutura familiar é uma triste realidade que termina nos corredores dos Fóruns. Entretanto, tenho esperança que os núcleos familiares consigam se adequar a nova realidade sócio-econômica vigente, e consigam retornar ao seu papel fundamental de base de nossa sociedade.
CA - Muito trabalho com menores transgressores?
R: Sim. Enquanto não houver uma preocupação política de se implementar de forma eficaz o disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente, nossas crianças continuarão cada vez mais expostas ao uso de entorpecentes e ao ingresso nas fileiras do crime organizado, o que só faz aumentar o número de adolescentes em conflito com a lei.
CA - Há conflito entre a aplicação da lei e os ensinamentos da Doutrina Espírita?
R: Não me parece haver grandes conflitos entre a aplicação da lei e os ensinamentos da doutrina espírita. A legislação brasileira é muito influenciada pelos postulados da Igreja Católica, a qual possuí base moral muito semelhante a do espiritismo. É certo, contudo, que sempre haverá algum conflito, já que a legislação é fruto do trabalho de homens, carregando em seu seio as imperfeições inerentes à própria condição humana.
CA - Alguma estória para contar? Este espaço é seu, fique à vontade.
R: Não teria nenhum fato específico para contar, já que o cotidiano forense é repleto de pequenos casos, todos de relevância para a vida de alguém. Ademais, acredito que a ação divina em nossas vidas não se dá em grandes e marcantes acontecimentos e sim em pequenos detalhes, direcionando o rumo de nossas ações.
Entretanto, não poderia deixar passar a oportunidade para lembrar a todos que as instituições atuantes na manutenção da Justiça são formadas por pessoas, sujeitas à falhas e imperfeições decorrentes da natureza humana. Entretanto, a grande maioria dos operadores jurídicos é abnegada no exercício de suas funções e se a prestação jurisdicional não é tão célere quanto o desejado é pelo fato das limitações materiais existentes e pelo grande aumento no volume de processos, decorrente do aumento da complexidade das relações interpessoais. Ademais, a existência de estruturas estatais voltadas para a administração da Justiça é indispensável para que haja harmonia no convívio social, justamente pelas imperfeições existentes em nossa sociedade.
Agradeço ao Canal Aberto a oportunidade de dividir com todos um pouco de minhas opiniões e desejo que Deus abençoe seus lares! Obrigado.

Lori Marli dos Santos
Instituto André Luiz
lori@institutoandreluiz.org
 
       
         
   

DISCUTA ESTE TEMA EM NOSSO FÓRUM!
Para participar é necessário registro.
Registro significa segurança para todos.
É rápido e fácil. Link no Fórum.

   
         
Canal Aberto

Homepage