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SOU TRABALHADORA
ESPÍRITA... MAS FIZ UM ABORTO
Lori Marli dos Santos
- Instituto André Luiz
Estamos
em minha sala, Isa*
e eu, para um atendimento fraterno especial. A tarde está quente e
o calor deixa o ar mais pesado, desconfortável. Os minutos escorrem,
enquanto espero a palavra dela.
Imagino o seu drama, a dificuldade que sente em se abrir comigo, em
verbalizar um erro que nunca teve coragem de relatar a ninguém, nem
ao marido e nem a ninguém no Centro Espírita em que trabalha.
Isa fez um aborto há alguns anos, antes de se tornar espírita.
Porque sei que está sofrendo, e porque sei o quanto é difícil colocar
para fora algo que fere e envergonha, profundamente, ligo o ventilador
e coloco uma música suave, para relaxar o ambiente. Mostro a ela a
página que estou fazendo, as imagens já selecionadas e ela ri, passando
a mão no rosto.
- Que lindo.
Depois de algum tempo tornamos a nos olhar, porque definitivamente
não estamos ali para ver belas paisagens.
- Melhor contar logo, - diz de repente.
- Tem certeza? - pergunto, quase mais constrangida que ela.
- Sim. Desde que...
- Desde que nada saia desta sala*.... Fique tranqüila, Isa!
Confie em mim!
- Tenho medo de que alguém saiba, que no Centro fiquem sabendo do
meu aborto. Com toda a certeza, se algo chegar aos ouvidos do presidente
e dos demais, não vou ter outra saída senão me retirar. E daquele
jeito, né?
"Daquele jeito", sem dúvida alguma, aqui significa de cabeça
baixa, humilhada e definitivamente inadequada para qualquer uma das
atividades que desenvolve hoje, rodeada pelo carinho e pela consideração
de todos: Isa é médium psicofônica, passista e evangelizadora infantil.
- Imagina se descobrem que já abortei! Talvez não me coloquem para
fora, afinal hoje em dia todo mundo precisa ser moderno, compreensivo,
ter a mente aberta... Mas, duvido que me deixem dar passes, a trabalhar
mediunicamente. Afinal, sou uma devedora, não sou? E toda devedora
é uma perturbada, ou um veículo de perturbação.
- Você se sente assim? Devedora?.... - questiono.
- Não como deveria.
_ Como assim?
- Olha... Penso que deveria estar arrancando os cabelos, ou pelo menos
sofrendo muito. Mas não me sinto assim, sei lá. Sinto aqui dentro,
as vezes, muita vontade de voltar no tempo, de poder estar grávida
de novo e ter este bebê. Isso eu sinto. Sei que ficaria feliz em ter
meu filho comigo agora, pois hoje penso diferente por causa do Espiritismo.
Mas, sabe, por outro lado a falta dele não me faz sofrer, pelo menos
não tanto como acho que deveria. Então também me culpo por isso, por
não sentir remorso, sei lá...
- Mas quem te disse que deve ser assim?
Isa ri, um sorriso meio amargo.
- Ontem mesmo, na palestra, foi dito algo semelhante. O dr. José frisou
várias vezes: crime, criminosa, criminosos. Fiquei péssima...
- Não vi a palestra ontem...
- Pois é... ele leu e comentou uma mensagem de André Luiz, chamada
"Aborto", senão me engano, e depois passou uns slides pavorosos,
com fetos destroçados...
Compreendo bem o que Isa está dizendo, já vi esses slides certa vez.
Naquela ocasião ajudei a socorrer uma jovem que assistia à palestra,
grávida de seis meses. A pobre ficou tão mal impressionada que desmaiou,
colocando a gestação em risco. Fico pensando, às vezes, o que teria
acontecido se ela tivesse perdido o bebê... Mais que complicações
morais, sobrariam complicações legais, para todos nós.
- O problema - prossegue ela, - é que, se eu não tinha remorso, agora
estou começando a ter... A ter remorso, sensação de culpa... De tanto
ouvir falar no crime do aborto, estou começando a me sentir criminosa,
de fato... Tenho tido sonhos ruins, é o começo da obsessão, eu sei...
- Isa! - repreendo com ternura, mas também com firmeza. - Que obsessão
o que! Você tem desenvolvido suas tarefas corretamente, com empenho
e dedicação. Tem ajudado a muitos desencarnados, tem ministrado passes
com carinho e vem trabalhando com as crianças de uma forma que dá
gosto de ver! Por que haveria de ficar obsidiada, me diz?
- Ah, Lori, você sabe bem porque!... Está nos livros, nas palestras,
nas mensagens... Aborto é crime, eu fiz um, então eu sou criminosa.
E todo criminoso é um obsidiado...
Agora quem ri sou eu. Isa se assusta, mas acaba me acompanhando, sem
jeito.
- Você acha que não? - arrisca.
- Claro que não, minha criança! Acorda, alôôôuuuu!! Lembra do que estudamos
na semana passada, antes do trabalho?
- Claro que lembro, sobre sintonia.
- Então, meu bem, é isso. Mesmo marcado por uma grande dívida, mesmo
depois de um grande erro, só se torna obsidiado quem quer... Os espíritos
nos acompanham, alguns desejando realmente a desforra, mas é só você
quem vai permitir, ou não, que a sintonia aconteça... Na pior das
condições, Isa, mesmo que o pior aconteça, você ainda poderá,
sempre, escolher se quer olhar para o céu ou para o charco. E olha
só... isso é André Luiz também, o mesmo que escreveu sobre o Aborto
e cujo texto o dr. José interpretou de forma tão equivocada.
Isa me olha diferente, agora, como quem busca uma luz.
- Está certo, - prossigo - você fez um aborto, é fato
consumado, infelizmente. Mas não há porque você
botar o dedo na ferida de propósito ou deixar que alguém
bote o dedo, só porque se disse cobras e lagartos sobre o aborto
e a mulher que o pratica ou praticou. Um erro não é
motivo para se pensar que não há mais nada a ser feito,
que só resta esperar pelo pior, pela punição inclemente!... Apesar
das palestras meio agressivas e de algumas mensagens, acredito que
mal interpretadas, não perca a esperança em uma reparação
feliz! Você sabe que todo o dia é dia de refazer o destino,
não sabe? Aliás.... eis de novo André Luiz, pois essa frase também
é dele e consta igualmente na mensagem sobre o Aborto. O dr. José
não leu isso?
- Nem sei, sabe? Minha cabeça estava pegando fogo, lá no salão. Pensei
até em ir embora, em não dar passe em ninguém... Imaginei minhas mãos
cheias de sangue. Já pensou se, dando passe em alguém, começo a fornecer
fluidos maléficos? Essa pessoa pode sair da sala pior do que quando
entrou...
- Isa... Isso é um absurdo!...
- Sim, um absurdo, agora compreendo, porém
naquela hora me pareceu lógico, natural eu fornecer
maus fluidos por causa do aborto que fiz, eu estava
convicta de que era uma criminosa...
Isa silencia por alguns segundos, pensativa. Depois prossegue:
- Mas aí, de repente, pensei: vou dar passe sim, e que Deus
me perdoe e me ajude!
- E... sentiu alguma coisa diferente, durante o trabalho?
Isa pensa um pouco.
- Não, diz finalmente. - Foi como sempre, aquele calorzinho bom nas
mãos, a sensação de paz, de amparo espiritual...
- Então você já tem a resposta.
- Tenho, é? - pergunta ela, intrigada.
- Sim, tem. Ela lhe foi dada ontem à noite,
no Centro. A palestra ilustrou a ignorância humana, mesmo
a bem-intencionada como foi certamente a palestra do dr. José, e que, desejando acertar, mas por não ter desenvolvido
em si o amor integral, acaba sempre julgando, condenando e desajudando;
o passe foi a bondade e a misericórdia divina, que não tem
o que perdoar pois nunca julga ninguém.
Isa arregala os olhos, num transporte de felicidade.
- Com quem você quer sintonizar para rever sua falta? Com Deus ou
com o mundo? - pergunto.
- Claro que com Deus! Claro!...
- Então prossiga em suas tarefas com coração leve, com alegria. Jesus
mesmo disse que aquele estivesse sem pecados que apedrejasse primeiro.
Isso significa que somos todos uns endividados, desta ou de vidas
passadas... Temos faltas atuais, das quais lembramos, e faltas antigas
que já esquecemos, mas que prosseguem conosco,
exigindo trabalho e perseverança para a sua quitação... Olha que eu
disse trabalho e perseverança, não disse dor, desespero e lágrimas...
Isso só irá acontecer com você se você deixar, se você permitir que
as zonas baixas da vida te alcancem...
_ Mas e meu filho? Ele não vai me perseguir? Sim, porque "eles"
se vingam sempre....
- O que você sente por ele?
- Muito amor... queria que ele me perdoasse, que não me odiasse pela
droga do aborto que eu fiz. Eu não tinha muita consciência do que
estava fazendo, na época. Era boba, imatura, vaidosa. E já tinha muito
trabalho com a Bibi, para que outra criança?
Isa suspira profundamente e prossegue:
- Na época, a gravidez me irritou, me senti coagida a fazer algo que
não queria. Não pensei em meu filho, pensei só em mim. Então por isso
acho que ele está com ódio e vai se vingar.
- Caso seu filho queira se vingar, e se você persistir na boa conduta,
se persistir em seus trabalhos no Centro, poderá não só ajudá-lo a
mudar de idéia como recebê-lo, renovado, em seu lar novamente, como
filho ou neto, Deus é quem sabe...
Isa se surpreende e ri, alegre ante esta perspectiva.
- Será que ele aceitaria ser meu filho novamente? - arrisca, comovida.
- Por que não tenta? - encorajo. Porque não tentar? - Assim você poderá
aliviar a culpa, retirar esta sombra do coração e trabalhar com mais
entusiasmo na Seara Espírita. É um conselho que dou à você e à todas
as mulheres que já fizeram aborto. Nunca deixem de trabalhar, não
se afastem do Espiritismo porque ouviram condenações e outras coisas
desagradáveis acerca do ato que praticaram, mas também que procurem,
de alguma forma, consertar o mal-feito, seja engravidando novamente,
seja adotando uma criança ou dedicando-se à causas nobres, preferencialmente
na área infantil. Deus não pune a mulher que fez o aborto, assim como
não pune quem pratica outros atos reprováveis. É a pessoa quem se
pune e tanto maior é o seu sofrimento quanto maior o desajuste
causado pela auto-punição. Remorso desequilibrado,
provação ampliada, entende? O sofrimento dura o tempo da correção,
não apenas do gesto infeliz, mas também da mente que se desequilibrou,
distante da confiança em Deus e em sua misericórdia...
Isa me olha com lágrimas nos olhos. Mas não há dor neles, há esperança,
fé, coragem... Vejo-a erguer a cabeça, a assumir uma postura ereta,
cheia de suave dignidade, muito diferente da postura de quando entrou
em minha sala, algo curvada, os olhos baixos, envergonhados.
Parece-me que Isa tornou a reencarnar e digo isso a ela.
- É, Lori, acho que nasci de novo sim... - diz, rindo. Estou me sentindo
super bem agora! Com a alma leve, tranquila... Nossa... que alívio!...
- Deus jamais abandona seus filhos, lembre-se disso. Seja responsável
sempre; porém, errando, não se acredite
abandonada por Ele, só por isso. Talvez seja este momento em que Deus
esteja mais próximo, mais atento! O importante é não se afastar dele...
Não se soltar de suas mãos compassivas!...
- A culpa é uma coisa horrível, diz Isa, num último desabafo.
- A falta de fé também! - retruco.
Isa se vai, na alegria dos trinta e poucos anos, a vida ainda plena
no corpo ágil e contente. Sei não... mas acho que daqui a alguns meses
teremos um bebezinho novo na área. (Obrigada, meu Deus!)
Relato verídico de um
atendimento fraterno, em junho de 2005.
*Este
relato foi autorizado posteriormente por Isa, para divulgação no Canal
Aberto.
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Nome fictício
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