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O
Evangelho Segundo o Espiritismo
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
27. Deve alguém pôr termo
às provas do seu próximo quando o possa, ou deve, para respeitar os
desígnios de Deus, deixar que sigam seu curso?
Já vos temos dito e
repetido muitíssimas vezes que estais nessa Terra de expiação para
concluirdes as vossas provas e que tudo que vos sucede é conseqüência das
vossas existências anteriores, são os juros da dívida que tendes de pagar.
Esse pensamento, porém, provoca em certas pessoas reflexões que devem ser
combatidas, devido aos funestos efeitos que poderiam determinar.
Pensam alguns que, estando-se na Terra para expiar, cumpre que as provas
sigam seu curso. Outros há, mesmo, que vão até ao ponto de julgar que, não
só nada devem fazer para as atenuar, mas que, ao contrário, devem
contribuir para que elas sejam mais proveitosas, tornando-as mais vivas.
Grande erro! É certo que as vossas provas têm de seguir o curso que lhes
traçou Deus; dar-se-á, porém, conheçais esse curso? Sabeis até onde têm
elas de ir e se o vosso Pai misericordioso não terá dito ao sofrimento de
tal ou tal dos vossos irmãos: “Não irás mais longe?” Sabeis se a
Providência não vos escolheu, não como instrumento de suplício para
agravar os sofrimentos do culpado, mas como o bálsamo da consolação para
fazer cicatrizar as chagas que a sua justiça abrira? Não digais, pois,
quando virdes atingido um dos vossos irmãos: “É a justiça de Deus, importa
que siga o seu curso.” Dizei antes: “Vejamos que meios o Pai
misericordioso me pôs ao alcance para suavizar o sofrimento do meu irmão.
Vejamos se as minhas consolações morais, o meu amparo material ou meus
conselhos poderão ajudá-lo a vencer essa prova com mais energia, paciência
e resignação. Vejamos mesmo se Deus não me pôs nas mãos os meios de fazer
que cesse esse sofrimento; se não me deu a mim, também como prova, como
expiação talvez, deter o mal e substituí-lo pela paz.”
Ajudai-vos, pois, sempre, mutuamente, nas vossas respectivas provações e
nunca vos considereis instrumentos de tortura. Contra essa idéia deve
revoltar-se todo homem de coração, principalmente todo espírita, porquanto
este, melhor do que qualquer outro, deve compreender a extensão infinita
da bondade de Deus. Deve o espírita estar compenetrado de que a sua vida
toda tem de ser um ato de amor e de devotamento; que, faça ele o que fizer
para se opor às decisões do Senhor, estas se cumprirão. Pode, portanto,
sem receio, empregar todos os esforços por atenuar o amargor da expiação,
certo, porém, de que só a Deus cabe detê-la ou prolongá-la, conforme
julgar conveniente.
Não haveria imenso orgulho, da parte do homem, em se considerar no direito
de, por assim dizer, revirar a arma dentro da ferida? De aumentar a dose
do veneno nas vísceras daquele que está sofrendo, sob o pretexto de que
tal é a sua expiação? Oh! considerai-vos sempre como instrumento para
fazê-la cessar. Resumindo: todos estais na Terra para expiar; mas, todos,
sem exceção, deveis esforçar-vos por abrandar a expiação dos vossos
semelhantes, de acordo com a lei de amor e caridade." – Bernardino,
Espírito protetor. (Bordéus, 1863.) |