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Luciano dos Anjos

Houve um momento na secular e sepulcral história da Igreja Católica em que foi preciso imaginar meios e recursos para preservar o poder e substanciar a dominação sobre as consciências submetidas. O clero sempre foi fértil nesses planos cavilosos, haja vista a genial e tenebrosa ideia de Inácio de Loiola, engendrando a famigerada Companhia de Jesus, sempre pronta a siliconar os períodos menos exuberantes do perfil de Roma. Emmanuel nos fala dessa instituição com insuperável repulsa, na excelente obra -Emmanuel, ditada a Francisco Cândido Xavier. E em meu livro O Atalho, desenvolvo o assunto nas páginas do cap. IV, " O Preço do Desafio". Não sei quem é mais duro na linguagem, se eu ou Emmanuel. Confira o leitor, por favor. Depois, outras estratégias foram sendo maquinadas por todos esses séculos de religião suspicaz, visando à reafirmação da autoridade do pontífice. Esse esforço se acentua nos governos de Bento XV, Pio XI e Pio XII, assessorados pelas congregações da Cúria Romana. Então, recrudesce o controle sobre todos os negócios eclesiásticos. O Santo Ofício vigia a ortodoxia dos escritos católicos, catalogando num Índex os que contivessem erros em matéria de fé ou de moral, oferecendo perigos para os fiéis. A Congregação do Índex, fundada em 1542 por Paulo III, atuou com grande tenacidade do fim do século XIX até 1960. Os textos mais visados eram os que pudessem divulgar heresias modernistas. Em 1966, dada a sua total inópia e num raro momento de bom senso, Paulo VI aboliu esse tipo de controle. Na Congregação havia a Comissão Bíblica, que limitava com rigor os trabalhos dos exegetas e dos historiadores. As universidades católicas, os seminários e o ensino oficial católico eram severamente vigiados. Professores foram censurados ou expulsos do magistério, enquanto as questões de ordem litúrgica recebiam tratamento ditatorial. Até que, em 1917, o papa Bento XV promulgou a primeira codificação completa do direito canônico, poderosíssimo instrumento jurídico-religioso de interdições e punições, aprimorado à falta do extinto Tribunal Inquisitorial. Mais adiante, Pio XI preocupa-se com os problemas sociais (maneira vivaz de maior aproximação com as massas), divulgando a encíclica Quadragesimo Anno, por ocasião do quadragésimo aniversário da famosa Rerum Novarum, de Leão XIII. No entanto, era preciso um gesto mais amplo, mais espetacular para cabrestar os católicos. Movimento católico, ação católica, sempre existiu, desde a fundação do catolicismo. Mas a época passou e exigiu mais força, atuação mais poderosa, mais controlada. Pio XI tem então uma ideia jesuítica: coloca maiúsculas em ação católica e lança a Ação Católica, para impulsionar os leigos a participarem das atividades da Igreja nos próprios ambientes em que viviam: estudantes, universitários, operários, etc. Manobra tão inteligente quanto maquiavélica, pois dava outro sentido, outro corpo ao movimento e permitia maior controle sobre tudo e sobre todos, enquanto todos e tudo se julgavam enganosamente mais fortes e mais prestigiados. Agora, não seriam mais simples criaturas diluídas na ação católica; agora eram participantes de peso na Ação Católica, movidos e estimulados por diversas siglas (ah! as siglas, como são mágicas !) e ainda com a sensação de que o poder lhes fora estendido pela cúpula. Meu Deus, como é fácil iludir os ingênuos... De fato, esse movimento teve particular êxito entre os operários jovens (JOC), os casais (LOC), orientados principalmente pelo sacerdote belga (mais tarde cardeal, como prêmio) Joseph Cardijn. Essa manobra vai ajudar depois o trabalho de Pio XII (1939-1958), que consolidará a organização interna da Igreja e a expansão missionária. Sua principal encíclica, a Mediator Dei, consagra a restauração litúrgica, iniciada na França e na Alemanha pelos mosteiros beneditinos. E houve outros movimentos com maiúsculas, como o Movimento Litúrgico do Brasil, de 1875 (para renovação da vida da Igreja) e o Movimento Familiar Cristão, de 1953 (com questões que afetem a vida familiar).
Os anglicanos, apesar de cometerem também muitos erros e abusos na sua ação, foram mais sabidos. A Igreja anglicana ameaçava sucumbir ao racionalismo (reflexos da Revolução Francesa) e seus seguidores, na primeira metade do século XIX, se empenharam numa reaproximação com o catolicismo romano, por conta do chamado movimento de Oxford (Oxford movement). Equivalente a uma restauração, esse movimento eliminou do anglicanismo muitos elementos protestantes. Houve renhidas disputas teológicas, com violentas manifestações hostis e sucessivos processos eclesiásticos, que fortaleceram o antipapalismo.
Chamado também de anglo-catolicismo, o movimento de Oxford tinha seu bastião na Universidade de Oxford. O objetivo primordial seria restaurar a face medieval da Igreja anglicana. Seu principal líder era o teólogo inglês John Henry Newman (cognominado de "Platão de Oxford"), que acabou desistindo da luta e se converteu ao catolicismo.
Altamente significativo, porém, é notar que esse movimento foi, nos tempos modernos, o mais importante fator de reavivamento da Igreja anglicana. No entanto, por sabedoria mesmo ou por mero acaso, jamais ganhou maiúsculas. Seus líderes sustentaram a ação coletiva sem cometer o erro dos católicos. Isso evidencia que as ações ou os movimentos de qualquer natureza, principalmente os religiosos, não precisam e nem devem deixar de ser isso mesmo: gente em ação coletiva para mudar uma ideia, uma política, sem qualquer investimento de poder institucional.

A Ação Católica irá penetrar em campo importantíssimo da estrutura da Igreja, ou seja, em toda a metodologia da educação religiosa. Esse campo é fundamental para o domínio das consciências. A atual orientação da educação religiosa no catolicismo, através do estudo sistematizado, é resultado de longa evolução, intensificada a partir de 1900. Primeiramente, renovou-se o método didático por inspiração da pedagogia moderna, estabelecendo-se a sistematização; em seguida, reagiu-se contra uma separação exagerada entre a doutrina e a sua aplicação; finalmente, inaugurou-se a etapa em que a Ação Católica e outros movimentos contemporâneos da Igreja se infiltram em toda a metodologia da educação religiosa católica. Era a etapa gloriosa do retorno à completa dominação medieval, que vinha se volatizando por falta de melhores estratégias. Pio XI tem seu projeto vitorioso. Festejado fundador da Ação Católica (encíclica Ubi Arcano Dei, 1922), ficou conhecido como o "papa das missões", não apenas por ter consagrado os primeiros bispos chineses, mas principalmente por haver duplicado o número de missionários. Missionários que desenvolveriam e consolidariam o movimento católico, a se constituir cada vez mais de evangelizadores robotizados, de fiéis alienados e de alunos descerebrados, guiados pela cartilha clerical do Vaticano e dos bispados. Conhecedor do poder da comunicação, Pio XI criou em 1931 a Rádio Vaticana. O cerco era completo. Só faltou a televisão, que ainda não existia àquela época.
No Brasil, essa estratégia levou ao crescimento interno e à conquista do prestígio internacional. O cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra recebeu, em 1930, a honraria de ser membro do Sacro Colégio pertencente à América Latina. Figura de relevo nos meios intelectuais, eclesiásticos e políticos do seu tempo, preocupou-se com a instrução religiosa nas escolas, foi um dos pioneiros da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, fundou a Confederação Católica, a Liga Eleitoral Católica e iniciou aqui as atividades da Ação Católica, a mais moderna forma de apostolado com maiúsculas e vitaminada pelo novo conceito estrutural do movimento católico. A Ação Católica interessa-se por todos os problemas humanos, a fim de "promover o reino de Jesus-Cristo na família, nas instituições e na sociedade". Desenvolve-se no plano paroquial por células cujo conjunto constitui agrupamentos nacionais: Ação Católica Geral das Mulheres (ACGM), Liga Feminina de Ação Católica (LFAC), Juventude Operária Católica (JOC), Movimento Rural da Juventude Católica (antiga Juventude Agrícola Católica) (JEC), Juventude Independente Católica para a burguesia (JIC), Juventude Universitária Católica. Acrescentem-se os agrupamentos femininos correspondentes. E exclusivamente para os adultos, constituíram-se entre outros o Movimento Familiar Rural (MFR), a Ação Católica Operária (ACO) e a Ação Católica dos Meios Independentes (ACI). Um oceano de siglas que foram surgindo sob o estímulo da edificação orgânica do movimento católico, anteriormente existente com letras minúsculas e bem mais heterogêneo, mais complicado, mais difícil para ser conduzido debaixo do chicote. Isso tudo não sugere nada aos espíritas?...
Pois agora fica fácil descobrir as matrizes do nosso Movimento Espírita com letras maiúsculas. Talvez inspirados no mesmo ideal, os espíritas vivem hoje a imaginar meios e recursos para acoelhar os adeptos e sustentar o comando hierarquizado. É doloroso observar o que vem acontecendo no nosso movimento, dia a dia mais próximo de todos os atalhos que a Igreja Católica tomou em relação ao puro cristianismo e que a arrastou ao descrédito e à insolvência moral. Como rançosos católicos reencarnados, os espíritas estão repetindo os mesmos terríveis erros e as mesmas deploráveis deformações historicamente condenadas ao incenso da nostalgia. E, da mesma forma que no passado houve um processo de anestesiamento universal, criando resistências aos que reagiam às deturpações e estimulando os atos dos deturpadores, no movimento espírita de hoje já vivemos a mesmíssima situação. De um lado, os dirigentes inventando ideias cada vez mais esdrúxulas e bizarras, atolados nas catacumbas mentais da indigência, enquanto de outro lado já chegamos definitivamente à apatia que nasce da desinformação, do medo, da acomodação, da negligência, e que vive do desejo suicida de se submeter para escapar das responsabilidades diante da doutrina. Se se deseja promover qualquer iniciativa numa determinada região, são os próprios promotores que se sentem na obrigação de consultar antes os órgãos superiores para obter autorização... E vão cumprir direitinho seu dever hierárquico. É melhor e mais fácil não pensar, não agir e muito menos reagir, sob a consciente ou inconsciente alegação de que cabe aos cupulares determinar o caminho; comportamento que pelos séculos afora identificou os adeptos do catolicismo e do protestantismo. Católicos e protestantes não pensam - obedecem. Basta frequentar obedientemente a igreja ou o templo e o céu estará garantido. Essa perigosa e nefasta realidade se chama domínio das consciências, que é conseguido por exemplo através de um rígido sistema de controle dos textos religiosos, da seleção de pregadores, da utilização de meios alienadores de comunicação (como a televisão), da virtual ou sutil hierarquização e, principalmente, da bocejante sistematização do estudo religioso, mediante currículos, cursos, aulas, apostilas, formação, configuração da relação aluno-professor. Foi por aí que a escolástica enraizou nos seguidores sua teologia medieval e por mais de mil anos dominou completamente as consciências católicas de todos os níveis culturais e intelectuais. O papel que hoje os espíritas interpretam tem "mise-en-scène" de idêntica tragédia, mas me parece bem mais uma farsa, trivializando os riscos de o movimento se perder de vez no atalho, antes mesmo do último ato.
O processo é geralmente muito lento, vai acontecendo de forma imperceptível, transferindo-se na sua ação e nos seus objetivos de geração para geração, sempre apoiado pelos atalhistas com uma unção habitualmente reservada aos sacramentos. Quando a criança nasce, ela já escuta desde cedo que tem de ir para a escolinha de evangelização e vai desenvolvendo sua personalidade debaixo dessa estrutura formatada pelos teóricos da sistematização. Quando chega na idade adulta, é raro aquele que, mais inteligente e menos boboca, não reage e não repudia tudo o que lhe foi impingido por métodos farsantes e inquisitoriais. Então, descamba para a negação, ou desperta e vai em busca de outros caminhos, muitas vezes até mesmo espíritas, mas longe das imposições e dos métodos coercitivos (ainda que essa coerção seja tão astuciosa que pareça puro amor e desejo de educar). Frustrado, terá de rever tudo o que tentaram lhe ensinar, para que a assimilação agora seja espontânea e consciente. Só assim se sentirá realmente espírita e verdadeiramente livre, como o quer a doutrina codificada por Allan Kardec e como o quer Deus. Mas nessa hora é rispidamente censurado, já que seu despertamento acaba sacudindo uma área frequentemente anestesiada pelo pedagoguês verboso e vazio, e que não admite essas rebeldias. Vejam só! Querer ser espírita por conta própria, fora da área de influência dos doutores da lei... Eis a dura realidade. Modificar esse quadro-negro (desculpe o duplo sentido), romper com essas amarras, sair desse atalho é complicado? É difícil? Por certo que sim; mas nenhum paradigma se quebra senão com muita disposição e grande empenho. Pestalozzi, por exemplo, não encontrou facilidades. A atual luta para modificação das diretrizes do ensino, no chamado mundo laico, tem enfrentado resistências homéricas do sistema. Nem por exemplo a simples ideia de conceito (muito mais inteligente, mais lógica, mais justa, mais racional) conseguiu até hoje despejar no lixo das experiências escolares a absurda avaliação por nota. E o pouquíssimo que se conseguiu desembocou na mesma coisa, sem que muitos educadores se dessem conta disso: passaram a considerar o conceito mas, depois, transformam esse conceito em avaliação quantitativa e caem novamente na velha e tradicional nota... Tudo errado. Ora, um professor competente coloca o aluno diante de si e diz na hora se ele sabe ou não sabe, se aprendeu ou não, se seus erros serão levados em conta ou pura e simplesmente desconsiderados, já que errar nem sempre é sinal de ignorância. (Atenção: estou falando do ensino laico, pois em termos de religião - especificamente da religião espírita - tudo muda, devendo inexistir qualquer mentalidade escolar, tal essa deformação pedagógica - repito - em termos de professor, aluno, curso, aula, nota, currículo, apostila, avaliação, conceito, etc.)

Tudo quanto vem acontecendo com os espíritas está extensamente analisado em meu livro O Atalho. Esse aspecto do estudo da doutrina e muitos outros são por mim passados a limpo, na varredura da sujeira que produziu o fracasso dos movimentos religiosos antecedentes ao espiritismo. A dura verdade é que estamos apenas xerocando o que já não deu certo em outras épocas e em outras religiões vencidas pela História. Tal como o catolicismo copiou o paganismo que viera combater. No caso, supondo fosse esse o único caminho do sucesso, os prelados fizeram uma adaptação sutil e disfarçada. Pegaram todas as mazelas pagãs e as introduziram nas suas práticas e rituais. Assim é que o altar onde se celebravam os sacrifícios continuou a cumprir seu papel, no sacrifício da missa; as piras foram substituídas pelas velas, algumas de dois metros; os templos viraram igrejas; os deuses se transformaram nos santos, venerados nas mesmas compulsões; os cânticos, hinos e corais ecoam de novo no diapasão do cantochão, da matina, da ladainha; a queima dos incensos persiste no fumacê do turíbulo durante as missas; as vestes sacerdotais se recriam no mesmo desenho espalhafatoso dos paramentos de padres, bispos, cardeais, papas; o comércio, o escambo pela obtenção dos bons augúrios não mudou em nada; a tipificação protecionista é igual, com deuses e santos para cada tipo de profissão ou benefício suplicado, tais como o padroeiro dos médicos, dos jornalistas, o das causas impossíveis, o casamenteiro, o dos endividados, etc.; enfim, todo o aparato sinistro objetivando impressionar o povaléu e fortalecendo o poder pessoal e institucional da casta sacerdotal. Diante desse quadro se constata que a doutrina de Jesus, que viera para acabar com o mistifório do paganismo, não durou, na sua pureza, mais do que dois séculos; logo estava contaminada. A poderosa tendência à repetição (facílima de ser entendida por quem acredita na reencarnação) levou os pagãos reencarnados a buscarem o caminho mais fácil e mais cômodo, e eles acabaram introduzindo no cristianismo, disfarçadamente, os rituais do seu tempo e do seu gosto, então com o nome de catolicismo. Pois bem; quando depois de quase dezoito séculos o catolicismo desmorona e ressurge na Terra o cristianismo redivivo na feição da terceira revelação, do espiritismo, do consolador prometido, eis que agora são os católicos e protestantes reencarnados que, diante das endêmicas deficiências do sistema, usam do mesmo artifício para introduzir na doutrina espírita, de maneira disfarçada, os mesmos rituais do seu tempo e do seu gosto. Por isso já temos o espiritismo com a sua escolástica própria, com seus hinos, sua hierarquia, suas paróquias (que outra coisa não são os tais CREs?), com sua hóstia papada na forma do passe, sua organicidade cada vez mais ajustada ao organograma clerical, seu Índex, seu controle sobre os oradores, seus seminaristas (esses evangelizadores espíritas que vêm sendo formados por aí afora), com os endemoninhados agora acusados de obsidiados (basta discordar da cúpula ou do tal mentor da mocidade e logo é tachado de obsidiado, coitado, necessitado de ajuda...), com a juventude católica equiparada em tudo à mocidade espírita, com os retiros. (Ah! os ridículos retiros espíritas, em que os pais e os ingênuos centros têm de assinar compromisso junto aos CREs assumindo a responsabilidade pelas derrapadas monásticas que aconteçam durante os ditos cujos... E os mandatários hierárquicos por acaso seriam trouxas de assumir tal responsabilidade penal?...) Sinceramente, pretender impingir essas ideias como puras e corretas não passa de um flagrante para a Delegacia do Consumidor...
As mais recentes adaptações espirradas das zonas mentais miasmáticas de corifeus enfermos são o Índex e o Controle de Qualidade dos oradores. No primeiro caso, a nova ameaça aconteceu com a criação de duas associações dos editores de livros espíritas. A intenção era óbvia: censurar. Felizmente - ao que eu soube, de fonte segura - , a Federação Espírita Brasileira e a Publicações Lachâtre reagiram na reunião de fundação e não permitiram que evoluísse a péssima e perigosa ideia inicial. Pretendeu-se montar um esquema para a análise e aprovação dos originais, evitando-se assim a impressão de obras que, segundo cada interpretação, destoassem da doutrina. Patético. Simplesmente patético, se não fora policialesco. Cada editora, é claro, tem pleno direito de agir dessa forma, publicando apenas o que lhe convém. Quanto a isso, não há dúvida. Não se trata de censura, mas de critério seletivo. Imagine-se a Federação Espírita Brasileira sendo impedida de divulgar Os Quatro Evangelhos, de J.-B. Roustaing, obra em que seu Conselho Superior e sua diretoria acreditam e que têm o dever moral e estatutário de estudar, difundir, imprimir e recomendar. Imagine-se, por outro lado, uma editora contrária a essa mesma revelação não podendo lançar livros de crítica e até de acusações, ainda que absolutamente infundadas, às teses rustenistas. Vingasse a estapafúrdia ideia e, mercê do bom senso e da liberdade de expressão, logo surgiriam outras editoras verdadeiramente sérias, independentes e fora do esquema do Índex, sem o que ninguém mais teria a menor possibilidade de estudar livremente o espiritismo. Conclusão: as tais associações acabaram sendo fundadas e estão por aí, não sei bem fazendo o quê. Se são para reconhecer e recomendar, em última análise, que todos continuam podendo publicar o que queiram (como convém a uma democracia e a uma religião do padrão de liberdade espírita), então, bolas, para que inventaram mais essa excrescência no nosso meio? Ah... como gostam de uma associação, de um cargo, de uma comissãozinha, de um título, de um congresso, de uma ata, de uma votaçãozinha, de um rapapé qualquer. Não vai demorar muito mais tempo e logo teremos os chefes e os chefinhos ostensivos do Movimento Espírita; porque mascarados (em mais de uma acepção) eles já existem...
Quanto ao Controle de Qualidade, é a mais católica das celebrações. Oradores são vigiados e julgados por uma antiga instituição (estou falando de casos concretos, recentemente havidos) que pretende decretar se eles são mesmo bons ou não, conforme naturalmente a batida na bigorna pessoal do grupo da casa. Por sinal, na minha opinião, um grupo hoje muito fraco em matéria de cultura espírita, salvante é claro alguns convidados que lá comparecem. Basta considerar que os fatos concretos de que falo tiveram como porta-voz um chapliniano canhoneiro de "flashes" e biografias mutiladas (adeptos de Roustaing nunca têm essa posição registrada), e que é tido como tão suspeito na competência doutrinária quanto na correção ética. Tipo esquisito, não passa de um compêndio ambulante de neurologia. "À bon chat, bon rat". Pois bem; se o orador em julgamento pensa conforme a tal instituição acha ser correto, ele é considerado "privilegiado" (expressão realmente empregada) e então será sorbonicamente indicado para poder falar nos centros espíritas. Seu nome segue pomposo numa lista de recomendação. Aprovado com louvores. Pode pregar espiritismo com autoridade de catedrático. Percebe-se logo que o desarranjo mental não tem limite. A inconveniência vai subindo à cabeça e esses pobres coitados, verdadeiros contrabandos espíritas, não têm mais noção da ridicularia que passam a exprimir. Primeiro, dão-se ares de alguém capaz de pontificalmente ser o crivo do que é bom ou mau para os centros (pior é que alguns centros às vezes se submetem...); depois, consideram-se cultos bastante de maneira a julgar se um orador presta ou não presta para eles mesmos (o que seria justo), mas também se presta para os outros; e, finalmente, querem interferir naquilo que há de mais substancial na doutrina espírita, ou seja, o direito de alguém falar o que bem queira e o mesmo direito que outro alguém tem de ouvir o que quiser ouvir. Ponto final. A questão aqui se repete quanto ao que seja de fato conveniente: cada instituição se reserva até mesmo o dever de controlar a qualidade dos oradores a quem abre sua tribuna. Não tem realmente lógica que eu ocupe o microfone duma instituição para defender Roustaing se ali Roustaing não é aceito. Claro que seus dirigentes não me farão o convite ou então sabem que não pretendo fazer abordagens rustenistas. Tudo bem. Isso é normal e justificado. Mas, surgir das brumas da insensatez uma entidade para dizer aos outros quem pode ou quem não pode falar, quem deve ou quem não deve pregar... isso já é Controle Clerical de Qualidade. E em termos de espiritismo sério não passa de disparatada pretensão mixada com total falta de semancol. No entanto, atitude de tão grave aluamento não condiz com a respeitabilidade de alguns nomes que já passaram por essa instituição. E quando agora conseguiu, para sobreviver, uma cadeira extra de consolação no Conselho Federativo Nacional da FEB, seria mais natural que não contribuísse para o descrédito do espiritismo. Desde que optou pelo sadio convívio com a Casa-Máter do Espiritismo - a mais respeitável e respeitada referência espírita do mundo religioso - já podia ter aprendido, "sponte sua", a impropriedade desse patrulhamento imoral, que a FEB não faz, nunca fez. É pois a FEB que nos sinaliza, buscando o caminho, tentando acertar sempre. Centenariamente iluminada no seu posicionamento doutrinário, pode até, às vezes, se equivocar numa ou noutra tratativa metodológica; mas tem grandeza e responsabilidade para voltar atrás quando lembrada. Eis por que é difícil compreender como outras instituições a ela ligadas conseguem industriar tanto dislate, ainda que todas sejam absolutamente livres e independentes para fazê-lo. É por tudo isso que publiquei O Atalho. A situação é gravíssima e o movimento espírita se transmuda cada vez mais em Ação Católica.
Deixei para o arremate deste opúsculo a prova cabal de tudo quanto tenho dito e que aqui está sendo reafirmado. Venho denunciando que o movimento espírita entrou por um pedregoso atalho, desviou-se do caminho reto e sem lombadas traçado pelo Cristo e por Allan Kardec. Não é difícil adivinhar aonde irá desembocar. Os erros penumbram todos os horizontes. Como no catolicismo, a doutrina está cada vez menos importante do que o movimento. A organização, a estrutura, o formalismo, a igrejificação (neologismo que criei para bem definir o que tento dizer) já tomou conta da mentalidade dos espíritas de tal maneira e com tal cimentação que poucos são aqueles que se apercebem do que está acontecendo. Confira-se, por exemplo, nos órgãos de comunicação a centimetragem de matéria reservada ao movimento - que não interessa à grande maioria dos espíritas e que não raro atende apenas à vaidade dos dirigentes - em comparação com a matéria propriamente doutrinária. A infiltração é lenta e sub-reptícia, minando as sensações, as percepções, os conceitos e, por fim, os juízos e os raciocínios. Onde a maior prova? Está diante de todos e no entanto ninguém a vê, ninguém a percebe, salvo alguns mais atilados. Estes estão sempre alertas; aqueles, quando advertidos, acham até que não é grave. O número dos ingênuos cresce aritmeticamente, enquanto o de sabidos cresce logaritmicamente. A prova está em todos os jornais, revistas, folhetos, cartazes, prospectos, livros, vídeos, que passaram a grafar movimento espírita com letras maiúsculas. Escreve- se Movimento Espírita, contrariando a tendência da imprensa em geral pela restrição às maiúsculas, contrariando a praxe moderna das editoras de prestígio, contrariando o bom uso dos melhores autores espíritas e não espíritas, contrariando o cunho da informalidade da Codificação, da singularidade da terceira revelação, que não é apenas mais uma religião, mas a religião natural.
Aliás, aproveito para comentar que não faltou quem me censurasse por escrever doutrina espírita com minúsculas. Coitado. Não conhece jornalismo e muito menos a doutrina que quer ver e ler engrandecida pelas letrinhas mais gordas e mais altaneiras. Se houvesse lido Allan Kardec no original francês e nas competentes traduções, como a da FEB, teria sabido que, em toda a Introdução, nos Prolegômenos e em algumas questões de O Livro dos Espíritos, doutrina espírita está com minúsculas. Sábio esse Allan Kardec. Pena que alguns de seus seguidores o leiam tão pouco...
Em suma, movimento espírita maiusculizado define exatamente o que venho denunciando: virou instituição, virou órgão, virou entidade, na cola da deplorável estratégia de Pio XI. Os homens, as pessoas, os espíritas já não querem se movimentar apenas; querem se instituir, querem se constituir num poder formal, numa estrutura de força e de peso materiais. No caso, desce da abstração, do universal filosófico que convém (uso de propósito um conceito escolástico), para ir corporificar o ente concreto, individualizado, inconveniente e espúrio. Mas é prudente que se conscientizem de que tal movimento, ao contrário de ser grande, é nanico, é insignificante, é minúsculo. Movimento espírita com maiúsculas é movimento minúsculo, cuja principal consequência é sempre a alienação das criaturas (e aqui Marx tinha lá suas razões) e a submissão ao poder religioso. É movimento maiúsculo na forma das intenções materiais, porém minúsculo na substância dos propósitos espirituais.
Isto posto espero, antes de desencarnar (será que vai dar?), ver caírem essas maiúsculas indecentes e podermos todos participar do enterro desse movimento mal orquestrado, desafinado, fora do tom. Nesse dia, tocarei uma suntuosa pavana para mais um farsante morto que tropeçou no atalho da evolução.

LUCIANO DOS ANJOS
Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1998

Reprodução ipsis literis de opúsculo do mesmo título
Edição do Grupo dos Oito
Rio de Janeiro, 1998