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LUCIANO DOS ANJOS

No reino animal não faltam assembleias, reuniões, convocações para exame de eventos de maior ou menor repercussão que possam influenciar o presente ou o futuro das espécies. Uma das mais famosas está reportada por George Orwel sob o título A Revolução dos Bichos, em que todos eles resolveram se unir para lutar lado a lado contra os humanos. É claro que deu tudo errado. Culpa dos porcos, astutos e aproveitadores.
Numa assembleia recente (a narrada por Orwel é de 1930), as questões disseram respeito principalmente a uma entrevista concedida pelo atrevido grilo e que veio a ser severamente criticada. Afinal, que autoridade tem o grilo, que não é doutor, para estridular elogios às obras ditadas pelo periquito, um farsante, um pseudo sábio? Ademais o grilo é defensor dos quatro tomos da águia francesa. Seria preciso instaurar processo contra ele, condená-lo, por sentença, de volta ao ostracismo.
Bem, quem deixa tradicionalmente o rabo de fora é o gato. Mas desta vez foi o rabo do jumento que ficou exposto. Por isso não foi tão difícil, na atual assembleia, pegar o ilustre animal com o rabo de fora. A assembleia, pois, seguia seu curso e a pacífica pomba, que lhe presidia, autorizou:
- O prezado jumento pode azurrar, por favor.
- Jumento, não! Equus asinus. Exijo a titulação científica. Sou doutor!
- Que fique registrado o cientificismo, mas manteremos a identificação corrente no território em que vivemos. Tanto mais que é muito raro encontrar um jumento doutor.
O jumento se ofendera sem muita razão. Trata-se afinal de personagem bíblica. Três vezes aparece associado ao manso cordeiro: na viagem da divina ovelha até Belém, na fuga da família para o Egito e aclamado ao entrar triunfalmente em Jerusalém. Sem esquecer que foi com uma queixada de jumento que Sansão massacrou mil filisteus.
No entanto, o jumento estava bastante aborrecido, e aborrecido prosseguiu.
- Temos de calar o grilo falante, que defende ideias contrárias à pureza doutrinária. Seu vaidoso discurso favorável à bordeaux revelação da revelação, coordenada pela águia, tisna a verdade da alvíssima revelação leonina. Um absurdo. Um abuso intolerável.
- Apoiado! - interromperam em coro todos os crocodilos, moscas, burros, escorpiões, abutres, serpentes, pernilongos, lobos, gafanhotos, morcegos, chacais, etc., que também não suportam o fascínio que a laboriosa abelha de Curitiba, que acolheu a entrevista do grilo, tem pelo periquito.
Com tanto e tão dignificante apoio o jumento acrescentou mais empolgado:
- Ele não pode ficar estridulando bobagens por aí, perturbando os nossos ouvidos, dizendo por exemplo que conhece a verdadeira identidade do doutor periquito e mais: que o rouxinol baiano canta de ouvido, quando todos sabem que ele plagiou a pauta musical da pulga da juba do leão.
Ninguém desconhece que a pulga, na sua extrema humildade, ela mesma certa vez se auto-intitulou "a pulga da juba do leão".
- Mas não pode estridular por quê? - quis saber a pomba.
O jumento esclareceu:
- Em primeiro lugar porque está aposentado.
- Ah, entendo. Quer dizer que quando a gente se aposenta deixa de ser o que é?
- Claro. Sou entendido nessas questões de titularidade, passadas pelo meu infalível raio X de doutor.
- Respeito seu entendimento. Mas... e quem já desencarnou? Pode continuar sendo o que era?
- Não alcancei o espírito da coisa.
- Espírito da coisa, não, caro jumento; espírito nosso mesmo. (Em toda fábula bicho tem espírito, é óbvio...) Porque consta do libelo acusatório uma referência ao escorpião sendo-lhe mantido o título profissional, embora ele já tenha até desencarnado.
- Ah, mas o valente e herculano escorpião pode manter todos os títulos porque era genial. Foi ele quem denunciou o cavalo traidor.

Apanhado de surpresa o cavalo não gostou e lá de trás relinchou irritado:
- Eu? Traidor? Essa acusação é uma leviandade!
- Claro - completou o jumento -, o escorpião referiu-se à sua infiltração em meu reduto como se fora um presente, mas escondendo milhares de defensores da águia prontos para nos destruir.
- Ora, pare com isso. Eu só fiz o transporte. E nem cobrei a tarifa. Só queria entrar para beber um pouco da cachaça que estava rolando. Vocês viviam sempre bêbados de intolerância e ódio...
A pomba retomou a palavra:
- É, parece que todos nós já tínhamos visto esse filme troiano... No entanto, pior do que serem enganados é estarem de fato bêbados, não acha? Bem que o manso cordeiro advertira: vigiai e orai. Em compensação o escorpião sempre gostou de espalhar versões venenosas, como a gigantesca mentira do criptógamo carnudo que, sabemos todos, é bicho que nem existe no nosso reino...
- Ora, o comportamento venenoso é da natureza de qualquer escorpião. Temos de entender essa particularidade.
- Mas, para usar expressão bem animal, "revenons à nos moutons" sobre a acusação inicial. O caridoso bezerro, que também já desencarnou, até hoje não perdeu o título de doutor. Coelho advogado que se aposenta continua advogado. Elefante coronel que se reforma, lá na cruzada, continua coronel. Só o grilo - que afinal nem parou ainda de trabalhar - não tem esse direito?
- É, não tem porque ele continua revolucionário. Perturba a verdadeira unificação que está seguindo agora às maravilhas em nosso reino e não queremos nenhum bicho pensando diferente, falando de atalhos. O escorpião sempre pensou igualzinho ao nosso grupo e por isso pode tudo.
Como a pomba estranhasse bastante tais colocações o jumento arrematou, azurrando aborrecido:
- Sei muito bem o que digo porque não sou burro.
- Mas é claro que não. Burro é burro, jumento é jumento.
Num canto da assembleia o burro, geralmente conivente com o jumento, gostou no entanto da diferenciação e sorriu. O jumento fingiu não perceber e prosseguiu:
- É isso aí. Sou bom leitor de orelhas de livro. Li certa vez numa delas um bonito pensamento humano sobre os que sabem e os que pensam que sabem. Ninguém me pega com o rabo de fora. Orelhas, de todos os tipos e tamanhos, são o meu forte.
Influenciadas pela citação daquele tão profundo pensamento, agora eram as serpentes que apoiavam com euforia a zurrada do jumento.
- Apoiado! O grilo tem de voltar ao ostracismo, tem de parar de perturbar a gente e ir cuidar dos grilinhos netos, como recomendou o jumento!
- Apoiado! Apoiado! Além disso, o livro dele encalhou.
Como o grilo tivesse também alguns defensores, ouviu-se a ponderação do gato inglês (filósofo que nada tem a ver com o homônimo fluídico de Copacabana), gato famoso pela cultura vernaculista, tradutor das obras do leão e da águia. Além disso era uma espécie de mentor do grilo e já havia participado de aventuras humanas no País das Maravilhas. Do alto das árvores sabia, pois, indicar com autoridade o caminho, sempre que bem perguntado. E então ponderou, baseado no real conhecimento que Lewis Carroll lhe prodigalizara:
- Bem, se não me falha o conhecimento, que não foi haurido apenas nas orelhas editoriais, os quadros daquele atormentado novilho holandês da escola impressionista também encalharam. O único vendido por míseros 50 dólares foi comprado pelo irmão para consolá-lo. E os livros do escaravelho tcheco, que escrevia em alemão sobre metamorfoses, castelos e processos (como o processo que o jumento exige contra o grilo), também encalharam. Na música erudita a estreia da ópera do papagaio verdi, aliás, verde, sobre a dama das camélias foi considerada pelo público e pelo próprio compositor um fiasco, um verdadeiro fracasso. Ora, como já ficou definido que jumento não é burro ele deve saber desses fatos históricos e provavelmente aqueles autores não são o que são, mas apenas bestas quadradas no campo das artes. Devem ter acabado no ostracismo e ninguém mais falou deles por toda a vida...
- Talvez... Talvez... - arrulhou baixinho a pomba, querendo depois inteirar-se mais das acusações. - Além de perturbar com seus estrídulos, aconteceu alguma ofensa?
O jumento parou de sacudir a nervosa cauda e foi incisivo:
- Sim. Ele discorda de mim. E eu sou doutor. Sei a diferença entre câncer e sífilis!
- Mas ele estridulou alguma infâmia?
- Não interessa. Discordou de mim.
- Calma, jumento. Ele o injuriou?
- Não quero saber. Ele discordou de mim.
- Ele publicou alguma calúnia?
- Isso é de somenos. Importante é que ele discordou de mim.
- Mas você está parecendo ser o único dono da verdade.
- Nada de sofismas. Fui eu que o acusei de ser o dono da verdade. Não inverta os papéis, não mude de assunto. O que importa é que ele discordou de mim. Eu provei que o periquito é pseudo sábio e ele não concordou. E além disso exibiu toda a sua vaidade ao assegurar que possui informação privilegiada da verdadeira identidade do periquito, admitindo inclusive a minha tese, sem me citar, no que se refere aos nomes que eu descartei. Roubou minha tese! No mais, não publica a identificação que descobriu por causa da família, mas não considera antiética a outra identificação por todos reconhecida. Por tudo isso e muito mais esse grilo tem que voltar ao ostracismo.
Aquela questão do câncer e da sífilis era realmente de meter nos cascos. O jumento se referia à desencarnação do periquito, descrita em seu primeiro livro e em que dois aspectos diferentes das causas foram abordados. O jumento não entendera nada e misturara alhos com bugalhos. Então, a pomba procurou lembrar que um dos parceiros do periquito era médico e dentista e que os originais haviam sido revistos por dois médicos antes de serem publicados. Lembrou ainda que o periquito teve o seu livro prefaciado pelo condor, antigo senador romano celebrado desde há dois mil anos e que agora, com a envergadura de suas asas, tenta fraternalmente abraçar todos os seareiros. Quanto à informação privilegiada a pomba se reportou à entrevista do grilo e mostrou que a identificação era resultado de longo e esforçado trabalho pessoal de pesquisa. Em seguida recomendou docemente ao jumento que procurasse estudar pelo menos a cronologia simples dos calendários. A tal tese dele, como confessou, é de 2000, enquanto o grilo já havia descartado as falsas identificações, pela imprensa, desde 1978. Finalmente ponderou que uma família pode inclusive gostar da identificação, enquanto a outra poderia talvez se revoltar e até recorrer às leis. No entanto, como o efeito desses esclarecimentos fosse nenhum, a pomba prosseguiu:
- Alguma outra grave razão?
- Já expus. Ele é favorável à águia mistificadora da revelação bordeaux, a maior traidora do nosso reino, o "pomo da discórdia" entre nós. É o Judas do nosso reino! Existe até uma carta do leão de Lyon chamando-a de Judas.
- Mas nosso grande mestre leão chamaria alguém de Judas só porque não pensasse igual a ele? Acho que se essa carta existisse de verdade deixaria muito mal o leão...
- Minha amiga arara, niteroiense filha de uma famosa cacatua que fora brilhante advogada e polemista, contou que viu essa carta.
(Registre-se aqui que por mistérios genéticos que ninguém sabe até hoje explicar, nesse caso excepcional o pai da arara era uma cacatua culta e inteligente. Mutações que agora não vêm ao caso...)
- Bem, parece que só ela a viu... No mais, se a carta era para a águia, por que foi encontrada nos arquivos do leão? Não deveria estar nos arquivos do destinatário? Ou será que naquela época já havia xerox?
- Você está querendo dizer que sou mentiroso só porque sou jumento?
Nessa altura o próprio grilo falante pediu licença e interveio:

- Claro que não, ilustrado jumento. Afinal, podemos estar diante da reencarnação do jumento que levou o manso cordeiro até à entrada triunfal na cidade histórica.
- Ora, ninguém sabe dessas coisas. Já escrevi claramente, com base na pureza da doutrina, que as reencarnações como a sua, de grilo vinagreiro, não podem ser provadas.
- Com o que então também não devemos acreditar que o próprio leão de Lyon foi a reencarnação do tigre druida, na Gália antiga.
Como o jumento não gostasse da intervenção foi logo reafirmando que ele, o grilo, é um tolo e que facilmente se reconheceria num famoso programa, da mais alta erudição, do qual ele, o jumento, conhece com detalhes até os magníficos bordões de primorosa cultura. O grilo confessou honestamente que não conhecia o programa, já que sua preferência era por exibições de óperas, concertos, exposições políticas, jornalismo em geral. No entanto, concedeu:
- Seja como for, respeito suas preferências culturais. Mesmo porque esse tipo de programa tem excelente público e é visto pelos melhores jumentos do reino.
Parece que o jumento não entendeu muito bem o que acabara de ouvir e partiu para nova acusação no sentido de que o grilo estridulava não gostar de hinos mas tocaram para ele, certa vez, a Marselhesa (informação dos mais bem treinados espiões da cocheira). O grilo, mesmo sem muita vontade, esclareceu o óbvio:
- É verdade. Da mesma maneira que, noutras ocasiões, entoaram vários outros hinos. Mas, além de falante sempre fui educado. Na posição de convidado não posso mandar as arapongas calarem. Já tive até de suportar hino ao periquito, por sinal com letra e música horrorosas. Que fazer?
Noblesse oblige, meu aristocrático jumento.
Seguiu-se pequena discussão e a pomba achou de bom alvitre intervir. Não apenas para acalmar os zurros que se ouviam, mas para pedir que lhe fosse explicada melhor aquela acusação de que o rouxinol baiano plagiou alguma coisa recebida pela pulga. Essa acusação era deveras estranhíssima. Afinal, a mentora do rouxinol é o belíssimo cisne branco, um antigo e abnegado habitante dos lagos do casal Cusa ao tempo do cordeiro divino. Já havia ditado ele mesmo maravilhosas mensagens, o que não justificaria tolos plágios pelo mesmo representante ornitológico. Então, o jumento tentou explicar que no livro de testemunhos da pulga publicados pela instruída gazela (livro que é uma verdadeira serenata schubertiana), havia carta incriminando o rouxinol. Foi quando o galo entrou em cena, representando a instituição centenária que já fora um dia presidida pelo bondoso bezerro (os dirigentes atuais vêm sendo assediados pelos porcos, amigos do jumento):
- Vejo no raciocínio do jumento uma orelhuda contradição. As cartas da pulga merecem crédito para acusar o rouxinol de plágio, mas nada valem para provar que a instituição - como alega noutro ponto o jumento - não adulterou a obra do sapo maranhense (apesar de ser de Campos) sobre o coração do mundo. Neste caso as cartas da pulga frisam em definitivo que não houve nenhuma adulteração, mas em vez de engolir o sapo o jumento insiste na mentira. Ora, quais são afinal as cartas que merecem crédito? Como entender esse tipo de honestidade acusatória? Ou é burrice?
O jumento que, como já alertara, sabia muito bem diferenciar câncer de sífilis, ficou furibundo, mas foi o burro que novamente reclamou:
- Burrice como?! Não me metam nas coiceiras do jumento. Aprecio muito o fraterno jumento, mas já ficou aclarado aqui pela paciente pomba que burro é burro, jumento é jumento.
O jumento tentou se salvar:
- Contudo somos ambos Equus asinus, caro irmão.
- Sim, mas a voz popular, que é sábia, repete sempre que ser burro é ser mais inteligente. Faça pois as suas jumentices que eu me atenho às minhas burrices.
A pomba percebeu que os dois iam acabar se escoiceando e tratou de interromper as identificações genéticas com nova indagação:
- Acalmem os justos elogios. Vamos em frente. O libelo jumental acusa ainda o grilo falante de estar fazendo a apologia do plagiato, o que não lhe ficaria bem como jornalista, mesmo aposentado. Que tem a dizer o falante grilo?
- Sensata pomba, a acusação é digna dos orelhões do nosso impagável jumento. Referi-me a informações científicas, que constam de qualquer compêndio. Podemos copiá-las
ipsis litteris aplicando aspas, ou escrever a mesma coisa com outras palavras. Neste último caso não é sequer obrigatório indicar a fonte. Informações - meras informações de qualquer natureza - constam de milhões de obras espalhadas pelos reinos. Podem ser usadas à vontade, desde que não se copie a forma redacional doutro autor.
A assembleia entendeu com facilidade, tanto que a pomba passou logo a outra questão:
- Comenta-se, insigne jumento, que sua intenção era de que o grilo se enforcasse e até lhe ofertou a corda.
- Não era uma corda qualquer - justificou em tom empolado o inquirido.
De fato não era. Supunham que o jumento houvesse oferecido aquela mesma cordinha que o prendia quando o manso cordeiro mandou que o buscassem para entrar em Jerusalém (a cordinha é referida no texto sagrado). Mas como ela não pudesse ser trazida para esta encarnação, o jumento lançou mão de uma outra. Não era mesmo uma corda qualquer.
- Pensei inclusive que ele já se tinha suicidado. É preciso fazer calar de vez esse maldito que não concorda comigo.
Se fosse outro o bicho poder-se-ia pensar que o jumento acabara de fazer um brilhante trocadilho do verbo com o substantivo. Mas, conhecido o número dos seus neurônios, a pomba não aplaudiu e deixou para lá, continuando:
- Afinal, que corda era essa?
- Para minha maior realização pessoal ofereci-lhe um bom pedaço da minha extensa cauda.
No fundo queria mesmo era se livrar daquela malfalada cauda, ainda que lhe fosse útil. Vocalizava os seus iguais que, desde a revolução fracassada de 1930, emitiam cínica preferência. Conta George Orwel que era comum ouvir-se que "Deus lhe dera uma cauda para espantar as moscas e que, no entanto, seria mais do seu agrado não ter nem a cauda nem as moscas". Talvez - aspirava esperançoso - a misericórdia do Criador o atendesse na próxima encarnação... Lembrando-se disso o porco, que se mantivera até ali calado, resolveu grunhir solidarizando-se com o jumento. Anote-se que o porco era o representante de todas as vozes raivosas contra a revelação da revelação bordeaux e seu sonho era primeiramente tomar conta da mais prestigiosa instituição religiosa do reino (os planos estão prontos) e depois, com a ajuda dos gafanhotos devoradores da seara, dominar as consciências do reino inteiro. Enganando todo mundo, viraria ditador e censuraria definitivamente a obra da águia. Por isso não teve dúvida de apoiar o jumento e grunhiu:
- Quanta abnegação do nosso querido jumento...! Sacrificou a própria cauda nessa jornada de moralidade doutrinária...
A pomba desconfiou da performance suína e interrompeu rápido:
- Sugiro que o porco não se manifeste. Não queremos que se repita aqui aquela estória da revolução dos bichos, de 1930...
O receio fazia sentido. Naquele ensejo - contou George Orwel -, os astuciosos porcos, usando da técnica de pequenas alterações de textos e do que era falado, conseguiram, com manobras sub-reptícias e pela mentira dissimulada, enganar todos os demais. Consagrou-se a dura realidade de que "todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros"... Começara ali o domínio das consciências, que agora tomava corpo frisante e que vem sendo denunciada pelo grilo falante.
Bem, as discussões não tiveram fim. E então, como seria impossível uma conclusão que agradasse a todos - embora a tese do grilo falante fosse sempre nesse sentido, ou seja, que não se tentasse acabar com a diversidade das opiniões -, a pomba encerrou a assembleia recomendando aos participantes que, a exemplo do cordeiro divino, procurassem ser mais tolerantes uns com os outros e que se amassem até quanto pudessem. No entanto, como acontece em todos os reinos da natureza, os bichos foram pouco a pouco desencarnando. E cada qual voltou com suas culpas e seus resgates. Vale apenas registrar o retorno das duas figuras principais daquela memorável assembleia. O grilo, por haver resistido ao suicídio e ter lutado pela liberdade plena de todos os semelhantes, voltou novamente como grilo, jornalista, porém sujeito ao novo e espoliador regime de previdência que fora implantado no reino para que não pudesse se aposentar cedo demais. O jumento, porém, pagou bem mais caro pelas suas jumentadas. Ainda que não acreditasse na queda das formas e nem em parasitas ovóides, sofreu na erraticidade por haver decepado com más intenções bom pedaço da cauda. Mas como o grilo o houvesse perdoado e acima de tudo porque o Criador é misericordioso, atendeu-lhe às aspirações e permitiu que voltasse sem a longa cauda e até sem as orelhas famosas e expressivas. Porém, perdeu a visão e passou a viver no fundo de buracos. E como ainda não houvesse abandonado a mania de querer ser celebridade, único doutor capaz de diferenciar câncer de sífilis, deixaram-no ostentar a titularidade científica: Talpa europaea. Ou seja: toupeira mesmo.

Moral da estória: Quem reencarna para jumento nunca passa de toupeira...
(Luciano dos Anjos, Rio de Janeiro, 21 de junho de 2002).