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(Entrevista concedida em 2002 por Luciano dos Anjos ao extinto caderno jornalístico Voz Espírita, do Instituto André Luiz, e reproduzida aqui conforme original arquivado, com as devidas atualizações de links, datas, dados e layout de página.)

 
   

"Da mesma forma que o cristianismo foi deturpado e desembocou no catolicismo, com a infiltração na doutrina do Cristo dos velhos erros do paganismo, os espíritas estão infiltrando na nossa doutrina todos os piores erros do catolicismo." - Luciano dos Anjos

Jornalista profissional, Luciano dos Anjos nasceu no Rio de Janeiro em 14/02/1933, onde também desencarnou, em 03/05/2014. Trabalhou em "O Radical", "Gazeta de Notícias", "Diário de Notícias", "Visão", "O Cruzeiro", "O Mundo Ilustrado", "A Notícia" e outros órgãos, exercendo desde a função de repórter, de redator, editorialista, até a de secretário de redação e assessor de direção. Autor de obras de cunho literário, religioso, filosófico, foi sempre respeitado pelo profissionalismo e lisura com que há mais de 40 anos atua na imprensa, destacando-se sempre por suas posições firmes favor das liberdades democráticas. Essa intransigente postura lhe valeu, durante os regimes totalitários, três processos judiciais. Nas pesquisas de regressão da memória a que se submeteu com Hermínio C. Miranda, aflorou-lhe a personalidade do jornalista francês que, em 1789, conclamou o povo às armas para a tomada da Bastilha. As provas desse fato estão narradas em sua obra "Eu sou Camille Desmoulins". (LACHÂTRE) (Atualização de dados: Instituto André Luiz).

Meu primeiro contato com a figura singular de Luciano dos Anjos 1 aconteceu através do livro "Eu sou Camille Desmoulins", a mim emprestado pela querida Anísia, então nossa coordenadora do COEM (Centro de Orientação e Educação Mediúnica).
Impressionada pela crueza e pelo realismo da obra em si, desejei fortemente, muitas vezes, conhecer melhor os seus autores, notadamente o jornalista Luciano dos Anjos, reencarnação comprovada do idealista e corajoso revolucionário francês
.
Mas de que forma?
Confesso que tremo de medo só de pensar em retornar ao Rio de Janeiro, cidade que amo enormemente, e onde me casei e tive as duas primeiras filhas, mas que marcou-me de forma tristemente negativa em razão de um assalto violento sofrido na Tijuca, há alguns anos atrás.
Creio, no entanto, que estamos todos enredados por fios invisíveis qual teia magnética tecida caprichosamente, demonstrando que o passado age sobre nós à feição de polos de um imã, nos repelindo ou nos aproximando, uns dos outros, conforme os nossos desejos ou as nossas necessidades.
Foi assim que não precisei viajar até o Rio para conhecer Luciano. Através deste portal maravilhoso que é a Internet, Luciano veio até mim, via singelo e-mail dirigido ao jornal Voz Espírita.
E, após o estupor inicial, tive a certeza de que os fios do destino haviam sido acionados: agradecendo à Deus o ensejo, pus mãos à obra, sem delongas: meio timidamente, incrementei e mantive outros tantos contatos com ele, de forma que eis aqui, hoje, o resultado das conversas, em forma de entrevista, para que vocês, caros amigos do Instituto André Luiz, possam vislumbrar, como eu pude, um pouco da densa e sagaz inteligência de Luciano dos Anjos, inteligência esta acompanhada, invariavelmente, por um temperamento forte, sincero e cativante. (
Lori Marli dos Santos,
Instituto André Luiz)

LUCIANO DOS ANJOS

Instituto AL: Luciano dos Anjos é polêmico?
LUCIANO: Estou acostumado à ressalva de que sou polêmico. Entretanto, foram as polêmicas - SEMPRE - que motivaram o progresso da humanidade. E, se bem analisarmos a história do cristianismo, iremos verificar que foram elas também que sustentaram a sua consolidação. Enfim, não foi Jesus quem mais polemizou, a ponto de ele mesmo reconhecer que viria trazer a divisão entre os homens? Num aspecto porém me reconheço sempre: sou um democrata incorrigível e entendo perfeitamente o posicionamento dos que não comungam das minhas ideias.

ATALHO PERIGOSO

Instituto AL: O que é O Atalho?
LUCIANO: Meu livro
O Atalho
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é um libelo contra todos os atuais desvios do movimento espírita. Estamos simplesmente nos repetindo, como católicos ou protestantes reencarnados que a grande maioria é. Da mesma forma que o cristianismo foi deturpado e desembocou no catolicismo, com a infiltração na doutrina do Cristo dos velhos erros do paganismo, os espíritas estão infiltrando na nossa doutrina todos os piores erros do catolicismo. O movimento espírita entrou por um atalho perigoso. Sair dele é difícil. Pode até acontecer que saia em tempo curto, num lampejo de coragem (que é o que espero com a publicação do meu livro); mas isso pode também só acontecer daqui a 1.000, 2.000 anos. O atalho tomado pelos cristãos começou no século IV e só veio a ser verdadeiramente revertido no século XIX, quando Allan Kardec voltou. Dolorosamente, no ritmo em que o movimento se embarafusta no atalho, Kardec terá talvez de se impor o sacrifício de uma nova reencarnação para começar tudo de novo... É triste.

Nota do Instituto AL: Julgamos conveniente, aqui, acrescentar este trecho do opúsculo "Maiúsculas em movimento minúsculo" , do próprio Luciano, por sublinhar e estender, com muita felicidade, a declaração acima: "Deixei para o arremate deste opúsculo a prova cabal de tudo quanto tenho dito e que aqui está sendo reafirmado. Venho denunciando que o movimento espírita entrou por um pedregoso atalho, desviou-se do caminho reto e sem lombadas traçado pelo Cristo e por Allan Kardec. Não é difícil adivinhar aonde irá desembocar. Os erros penumbram todos os horizontes. Como no catolicismo, a doutrina está cada vez menos importante do que o movimento. A organização, a estrutura, o formalismo, a igrejificação (neologismo que criei para bem definir o que tento dizer) já tomou conta da mentalidade dos espíritas de tal maneira e com tal cimentação que poucos são aqueles que se apercebem do que está acontecendo. Confira-se, por exemplo, nos órgãos de comunicação a centimetragem de matéria reservada ao movimento - que não interessa à grande maioria dos espíritas e que não raro atende apenas à vaidade dos dirigentes - em comparação com a matéria propriamente doutrinária. A infiltração é lenta e sub-reptícia, minando as sensações, as percepções, os conceitos e, por fim, os juízos e os raciocínios. Onde a maior prova? Está diante de todos e no entanto ninguém a vê, ninguém a percebe, salvo alguns mais atilados. Estes estão sempre alertas; aqueles, quando advertidos, acham até que não é grave. O número dos ingênuos cresce aritmeticamente, enquanto o de sabidos cresce logaritmicamente. A prova está em todos os jornais, revistas, folhetos, cartazes, prospectos, livros, vídeos, que passaram a grafar movimento espírita com letras maiúsculas. Escreve- se Movimento Espírita, contrariando a tendência da imprensa em geral pela restrição às maiúsculas, contrariando a praxe moderna das editoras de prestígio, contrariando o bom uso dos melhores autores espíritas e não espíritas, contrariando o cunho da informalidade da Codificação, da singularidade da terceira revelação, que não é apenas mais uma religião, mas a religião natural." (Instituto AL)
MAIÚSCULAS EM MOVIMENTO MINÚSCULO
Opúsculo, Luciano dos Anjos, Edição Grupo dos Oito
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CONGRESSOS:

Instituto AL: Os congressos espíritas contribuem para o desenvolvimento da doutrina?
LUCIANO: No atual movimento espírita qualquer assunto vira congresso. São dezenas a cada ano, muito bem estruturados econômica e turisticamente, enquanto a miséria cresce do lado de fora. Não conheço uma única tese que tenha merecido atenção mais duradoura dos espíritas de maior ou de menor discernimento. Como escrevi em meu livro O Atalho, "congresso, a rigor, é muito bom para se fazer turismo e exibir discutível cultura, entre um e outro gole de cafezinho e guaraná. Nunca escapa à conotação colorida e festiva do show business, com a explosão badalada dos superstars do espiritismo".

Nota do Instituto AL: Em "O Atalho", cap. 5, Luciano é ainda mais duro: "Alguns espíritas cismaram que vão resolver todos os problemas do movimento na base de congressos, simpósios, conclaves, sodalícios e quejandos. Pior ainda é quando pretendem enveredar pelas questões doutrinárias, despencando, então, no abismo dos absurdos! A doutrina espírita sujeita ao crivo dos "doutores", para depois ser oferecida à massa ignara!... A experiência já deveria ter mostrado sobejamente que todas essas iniciativas confinam a puro fogo de artifício. Falácias que até hoje não fizeram ninguém mais espírita e durante as quais apenas os retóricos de punhos de renda e os catedráticos frustrados na vida pública deitam falação, defendem complicadas teses e não conseguem esconder a tola pretensão de serem grandes tribunos ou respeitados líderes." (Instituto AL)

Instituto AL: O que você acha das "palestras-show" tão em voga ultimamente, reunindo às vezes milhares de espíritas, e onde o ápice da mesma é alguma historinha hilariante muito bem contada pelo orador?
LUCIANO: Querem fazer mimese de gente séria mas não têm nenhum talento para isso. Acabam incorporando o Arrelia...

TELEVISÃO, CHICO XAVIER E HONRARIAS:

Instituto AL: A televisão deve transmitir fenômenos espíritas?
LUCIANO: O espiritismo transformado em espetáculo foi condenado pelo próprio Allan Kardec (O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XXVIII, nº 308).

Instituto AL: O que se pode deduzir do prêmio (por votação) concedido a Chico Xavier pela rede Globo, como "O Mineiro do Século"?
LUCIANO: Uma grande mineirice dos meus colegas da rede Globo. A rigor, trata-se apenas de mais um Você Decide, com o qual, é de praxe, só os menos esclarecidos perdem tempo.

Instituto AL: Será do agrado de Chico Xavier ser escolhido como o melhor dentre Santos Dumont, Pelé, Betinho, Carlos Chagas, e outros?
LUCIANO: Guardo carta pessoal do Chico, que me enviou à época em que os políticos começaram a confeitá-lo com a enxurrada de títulos de cidadania. Confessava-me desolado as suas infrutíferas tentativas de fugir ao cerco, que lhe desagradava bastante.

Instituto AL: E quanto ao júbilo dos espíritas quando do resultado da votação?
LUCIANO: A massa espírita está cada vez mais catolizada e adora essas badalações de passarela.

HIERARQUIZAÇÃO, SOLENIDADES E IDEOLOGIAS

Instituto AL: Nas solenidades oficiais os representantes espíritas devem ser convidados e participar delas ao lado de católicos, protestantes e judeus?
LUCIANO: Essa é a reivindicação delirante de muitos espíritas desinformados. É a tão enganosa glória do poder. Já houve até quem defendesse a instituição oficial do capelão espírita... E, em última análise, quem disse que o espiritismo tem representantes?

Instituto AL: Você acha importante que o espiritismo se compatibilize com alguma ideologia extremista?
LUCIANO: Disse e repito: o espiritismo não se compatibiliza com nenhum extremismo, nem de direita e nem de esquerda. Ele não é sequer de centro, porque é, em última análise, tão somente do Alto. A História já comprovou que todos os extremismos - políticos ou religiosos - acabaram mergulhando na negação de tudo o que o Evangelho e a doutrina espírita nos ensinam.

Instituto AL: As instituições espíritas devem ser hierarquizadas, com a Federação Espírita Brasileira baixando normas e diretrizes para as federações estaduais e estas para os centros?
OBS.:
Aqui no Paraná é usual, em algumas Casas, o conselho para que as pessoas frequentem apenas os Centros filiados às Federações Espíritas de seu respectivo estado.
LUCIANO: Fui assistente do presidente da FEB, membro do seu Conselho Superior e do Grupo Ismael, além de editor-chefe do Reformador. Estou pois bastante à vontade para afirmar que a FEB, e nem nenhuma outra instituição, tem qualquer tipo de autoridade sobre os espíritas. É verdade que estão hierarquizando cada vez mais o espiritismo, com jurisdicionamentos ridículos e xerografados da igreja católica. As cúpulas espertas vão pouco a pouco dominando a consciência dos fiéis e lhes cerceando a liberdade. É tudo o que a doutrina espírita mais repudia, porém exatamente o que as lideranças mais desejam e executam. Quanto ao conselho em voga no Paraná, é conveniente contrapor o "anticonselho" de que as pessoas que seguem o espiritismo são absolutamente livres para frequentar a instituição que bem queiram; e se o quiserem, pois não é a frequência que faz o espírita verdadeiro.

Nota do Instituto AL: Eis o que nos diz André Luiz em um de seus livros:

  • O Espiritismo não pactua com interesses puramente terrenos." (Conduta Espírita, 10, FEB)

  • "A rigor, não há representantes oficiais do Espiritismo em setor algum da política humana." (Conduta Espírita, 10, FEB)

  • "O Espiritismo não tem chefes humanos e nenhum dos seareiros do seu campo de multiformes atividades é imprescindível no cenário de suas realizações." (Conduta Espírita, 46, FEB) (Instituto AL)

O PASSE:

Instituto AL: É certo o passe ser ministrado mesmo quando não se está doente?
LUCIANO: Os espíritas estão substituindo o hábito do papa-hóstia pelo papa-passe. Trata-se de um dos mais maravilhosos remédios com que podemos contar. Mas é muita falta de bom senso ocupar um espírito, um médium, quando não se está precisando de remédio. Na verdade, alguns espíritas estão apenas seguindo o raciocínio dos católicos. Tomar a hóstia sugere uma espécie de salvação, não implicando nenhuma transformação moral. Toma-se passe para fingir que assim se está protegido das doenças e das influências negativas. E então ninguém precisa fazer nenhum esforço de ordem interior para se melhorar.

Nota: Luciano aconselha, em "O Atalho": "Como é difícil saber se a criatura está mesmo necessitando dele (o passe), compete muito mais a esta que propriamente ao centro moderar nas suas solicitações, a fim de não encorpar a fila do papa-passes. O centro tem culpa se condiciona sistematicamente o passe às palestras. Afora isso, não vai negar água a quem lhe bate à porta dizendo-se com sede. Ao espírita cabe saber quando a está sentindo de fato. Quanto aos médicos da espiritualidade, muito menos, ainda, negariam seu concurso a quem quer que seja. Portanto, é o espírita o juiz da sua necessidade, preocupando-se em ser criterioso e em não abusar do remédio que lhe é ministrado graciosamente, em busca do qual há reais enfermos na fila de espera. Para conferir, perpassemos a lição do Alto, em torno da questão, contida em Conduta Espírita, de André Luiz, psicografia de Waldo Vieira, capítulo 28 ("Perante o Passe"): Esclarecer os companheiros quanto à inconveniência da petição de passes todos os dias, sem necessidade real, para que esse gênero de auxílio não se transforme em mania. É falta de caridade abusar da bondade alheia. (André Luiz)

MOCIDADE ESPÍRITA:

Instituto AL: O jovem espírita deve permanecer separado, departamentalizado, dentro dos centros?
LUCIANO: A invenção das mocidades foi a mais genial jogada dos adultos incompetentes para se livrar dos jovens. Têm medo da capacidade dos jovens, da sua inteligência, do seu dinâmico desejo de aprender. Então, submetem-nos a um mentor (que às vezes sabem menos do que eles) e os marginalizam estrategicamente. Ora, em termos de espiritismo e de evolução espiritual, ninguém é capaz de afirmar quem é o jovem e quem é o adulto. No entanto, nunca permitem, salvo exceções, que algum deles alcance por exemplo a diretoria de uma instituição. E se eles começam a fazer muitas indagações são logo tachados de obsidiados, necessitados de tratamento espiritual. Tal como a igreja sempre fez: discordou, atrapalhou, perguntou demais? Com certeza está endemoninhado. Sou contra a departamentalização dos jovens. Quero-os ao meu lado, junto a mim, seguindo comigo no mesmo aprendizado. Tal como nos lares. Numa reunião cristã do lar ninguém separa os jovens dos adultos. Todos estudam e oram juntos. Por que essa separação dentro dos centros espíritas?

ASSUNTOS DELICADOS:

Instituto AL: Existem assuntos, dentro do espiritismo, que não convém sejam discutidos para não dividir os adeptos?
LUCIANO: Todo e qualquer assunto deve ser estudado, examinado, discutido. Allan Kardec jamais excluiu qualquer assunto de suas cogitações. Se a preocupação em não dividir os adeptos tivesse algum fundamento, Jesus teria silenciado diante dos fariseus e dos saduceus. No entanto, ele mesmo afirmou que viera trazer a divisão. Os espíritas terão de aprender a divergir sem dissentir, como pregava o notável presidente da FEB Armando de Oliveira Assis, do qual fui assistente.

TRANSCOMUNICAÇÃO:

Instituto AL: Você acha que a chamada transcomunicação vai trazer alguma contribuição à evolução do espiritismo e da humanidade?
LUCIANO: Provavelmente, mas nos limites da realidade que, para mim, não foi nem irá além de casos esporádicos, como o foram os das fotografias de espíritos, os das comunicações telefônicas, das gravações em fita magnética. Essa suspeitíssima onda de imagens pela televisão, de cópias em vídeos e, já agora, até pelo fax e pelo computador, isso é muita fantasia para o meu senso de espírita e de jornalista...

REGRESSÃO, DESMOULINS E A REVOLUÇÃO FRANCESA:

Instituto AL: A TVP (Terapia de Vidas Passadas), ou TRVP (Terapia Regressiva a Vivências Passadas), é recurso válido na busca de soluções para problemas psíquicos?
LUCIANO: A lei é muito clara e está em O Livro dos Espíritos: o passado é para ficar esquecido. Rasgar essa cortina é assumir todos os riscos de um presente muitíssimo mais amargo e mais sofrido. Abstração feita de alguns casos excepcionalíssimos, somente a regressão espontânea é válida, porque permitida pelo Alto. O que temos visto por aí afora é muita gente sabida enriquecendo à custa da ingenuidade ou da aflição de espíritas que desconhecem a doutrina e os riscos que estão correndo. Conheço vários casos de pessoas que tentaram a regressão, chegaram até a obtê-la e estão hoje pagando um alto preço pela imprudência. Muito mais alto do que o altíssimo preço que também pagaram pela consulta do terapeuta esperto. Os conflitos de alma não podem ser solucionados senão mediante a aplicação do Evangelho e da doutrina espírita. A solução está no presente e não no passado.

Instituto AL: Poderia nos contar algo acerca do livro "Eu sou Camille Desmoulins"? - como se sentiu durante o período da regressão: muito bem, aliviado, triste, sobressaltado, feliz, infeliz - enfim, qual era o seu estado de espírito, na ocasião?
LUCIANO: O fenômeno apresentou fases diversas, do desespero à euforia. É impossível resumir tudo o que se passou na ocasião. Mas uma coisa sobressaiu: a gente se deslumbra com a certeza da imortalidade, enquanto se amargura por todas as bobagens que fez. E é preciso muito equilíbrio para não se deixar arrastar pelo exagerado desapego a esta vida e muito menos pela empolgação ante as glórias já vividas.

Instituto AL: A história oficial da revolução Francesa condiz, em seu íntimo, com a realidade?
LUCIANO: Há muitos fatos que teriam de ser revistos, principalmente no que respeita ao comportamento humano e aos perfis psicológicos. A leitura do livro Eu Sou Camille Desmoulins (escrito em parceria com o Hermínio C. Miranda5 e já traduzido e apresentado aos franceses) revela isso.

Instituto AL: Emmanuel, em seu brilhante "A Caminho da Luz" (psicografia de Francisco C. Xavier), nos comove narrando a trajetória de Louis XVI e que, segundo o autor, devido à sua pouca experiência dos homens e do mundo, acabou pagando, juntamente com sua família (esposa e filhos) por todos os abusos cometidos nos reinados anteriores. Você concorda?
LUCIANO: A Caminho da Luz, na minha opinião, é um dos dez mais importantes livros do espiritismo. A opinião de Emmanuel, pelo Chico, é de muito peso. Mas não se trata de um fato histórico, senão uma avaliação generosa daquele grande espírito. Acho, sinceramente, que Emmanuel, na sua insuperável bondade cristã, dourou um pouco a pílula, embora não seja incorreto reconhecer que Louis XVI pagou bastante pelos abusos de seus antecessores no trono. Afinal, é de Louis XV a famosa profecia: "Depois de mim, o dilúvio". Mas a culpa e responsabilidade de seu sucessor foi pesada.

MARIE ANTOINETTE E LOUIS XVI

Instituto AL: Você pode explicar a intensa animosidade nutrida por Camille Desmoulins contra Marie Antoinette (a quem ele chamava de "a detestável austríaca")?
LUCIANO: Camille Desmoulins foi um republicano convicto, defensor intransigente das liberdades individuais (ainda hoje o é). Por elas perdeu a cabeça, no momento em que Robespierre, seu amigo e compadre, fez da Revolução um regime de terror. Assim, a animosidade contra a monarquia era insopitável. E, naturalmente, Desmoulins não perderia a oportunidade de fazer de uma estrangeira o alvo de sua pena rebelada. Tanto mais que Marie Antoinette era irmã de Leopoldo II, rei da Áustria, que havia reunido os Estados-Gerais para aprovação da Circular de Pádua, convocando os reis de toda a Europa a prestarem assistência a Louis XVI. Contudo, nesta atual encarnação Luciano dos Anjos felizmente reencontrou Marie Antoinette e se davam maravilhosamente bem. Perdoaram-se mutuamente. Nesse sentido, guardo dela um cartão muito carinhoso, no qual ainda fazia blague com a expressão "détestable autrichienne".

Instituto AL: Salientam alguns historiadores que Marie Antoinette foi o grande bode expiatório da Revolução Francesa, por ser mulher e estrangeira. Você concorda?
LUCIANO: A mulher que irônica e insensivelmente mandou o povo faminto comer brioches e que subiu ao cadafalso com altivez provocadora nunca me parecera um simples "bouc émissaire". É claro que sendo mulher e estrangeira ensejou mais ainda a dureza da crítica. Não obstante, isso foi nos idos do século XVIII; o século XX revelou outra mulher, ainda destemida, mas generosa e evoluída espiritualmente.

Nota do Instituto AL: Algumas biografias sérias de Marie Antoinette sustentam que é improvável que ela tenha dito: "Se o povo não tem pão, que coma brioche!", ou "o povo que morra de fome!" Outras vão mais longe: afirmam que a célebre frase originou-se de uma conversa entre Marie Antoinette e sua empregada, quando esta disse à rainha que as migalhas que sobravam no fundo do cesto seriam uma alegria para o povo. O que Marie Antoinette terá respondido, verdadeiramente, e com que intenção? É de sobejo conhecimento de que qualquer fato relacionado à ela se transformava para logo em boato maldoso (quando morreu seu filho mais velho imediatamente espalharam que ela o havia matado!). Concluímos daí que existem ainda alguns pontos obscuros sobre a realidade dos fatos historicamente grafados, pois que, consta igualmente nos estudos acerca da revolução, que Marie Antoinette, após cruel cativeiro, foi executada sem provas concretas para os crimes de que foi acusada (traição à França, corrupção, lesbianismo e sodomia). (Instituto AL)

Instituto AL: Você considera a hipótese de outros personagens da Revolução Francesa estarem, igualmente reencarnados no Brasil?
LUCIANO: Não se trata de mera hipótese, mas de identificações claras e comprovadas, como algumas que aparecem em meu livro com o Hermínio Miranda. No mais, sabemos por Chico Xavier que reencarnaram no Brasil cerca de 200 mil franceses, egressos do período que vai da Revolução à era napoleônica. A grande maioria esteve ou está envolvida no movimento espírita.

Instituto AL: Você gostaria de reencontrar, na presente vida, Louis XVI e Marie Antoinette?
LUCIANO: Como já disse, Marie Antoinette eu já a reencontrara (está desencarnada agora) e tivemos um ótimo relacionamento. (Sua identificação fora feita por Francisco Cândido Xavier.) Louis XVI nunca o vi, mas creio que não me provocaria nenhuma grande perturbação, ainda que eu tenha votado pela sua cabeça numa votação que - transparece das fitas magnéticas - me oprimiu bastante. Robespierre, sim, se eu o reencontrasse sei que ficaria abalado. Ele me mandou para a guilhotina, fez o mesmo com minha jovem e inocente mulher, e ainda deixou meu filho de 2 anos órfão. Foi cruel. "Malgré tout", sei que tenho de perdoá-lo, como outros terão de me perdoar pelos erros que também cometi. Faço aqui uma confissão: parece que ele quase foi meu neto, num ovo-cego (óvulo fecundado sem embrião) que minha nora teve de curetar.

Nota do Instituto AL: Segundo algumas revelações (que aqui colocamos prudentemente à guisa de curiosidade apenas, pois não sabemos se foram confirmadas algum dia por Chico Xavier), Louis XVI pode ser o abnegado mensageiro André Luiz.

MAIÚSCULAS, MINÚSCULAS...

Instituto AL: Para finalizar, uma curiosidade nossa: por que você colocou em maiúsculas apenas as siglas TVP e TRVP e seus respectivos nomes por extenso, quando Espiritismo, Doutrina (espírita) você grafou em minúsculas?
LUCIANO: A imprensa das grandes metrópoles não aceita, nessa questão, as regras da gramática oficial. Títulos profissionais e de autoridades políticas ou religiosas (dr., professor, general, presidente, governador, prefeito, ministro, deputado, rei, papa, arcebispo, etc.) jamais aparecerão grafados com maiúsculas. Da mesma forma os logradouros públicos (rua, beco, avenida, viaduto, ponte, etc.), os altos conceitos políticos e religiosos (nação, pátria, espírito, fé, etc.), as designações religiosas (cristianismo, espiritismo, catolicismo, budismo, etc.). Quanto aos títulos de livros, embora nesse ponto a imprensa não seja unânime, há uma tendência, que não me atrai, para colocar maiúscula apenas na primeira palavra (O livro dos espíritos, Os quatro evangelhos, Grande sertão: veredas, etc.). Ora, como jornalista profissional, acompanho meus colegas, pela simples razão de que concordo plenamente com esse critério estabelecido pela imprensa. Assim, escrevo espiritismo e doutrina espírita com inicial minúscula, valendo registrar, por oportuno, que em toda a obra de Allan Kardec, inclusive em O Livro dos Espíritos, ele escreveu doutrina espírita também com minúscula.

1) Jornalista profissional, Luciano dos Anjos trabalhou em "O Radical", "Gazeta de Notícias", "Diário de Notícias", "Visão", "O Cruzeiro", "O Mundo Ilustrado", "A Notícia" e outros órgãos, exercendo desde a função de repórter, de redator, editorialista, até a de secretário de redação e assessor de direção. Autor de obras de cunho literário, religioso, filosófico, foi sempre respeitado pelo profissionalismo e lisura com que há mais de 40 anos atua na imprensa, destacando-se sempre por suas posições firmes favor das liberdades democráticas. Essa intransigente postura lhe valeu, durante os regimes totalitários, três processos judiciais. Nas pesquisas de regressão da memória a que se submeteu com Hermínio C. Miranda5, aflorou-lhe a personalidade do jornalista francês que, em 1789, conclamou o povo às armas para a tomada da Bastilha.
As provas desse fato estão narradas em sua obra "Eu sou Camille Desmoulins".
(Biografia gentileza da Editora LACHÂTRE)

http://www.lachatre.com.br

3) Camille Desmoulins, publicista e político francês (Guise, 1760 - Paris, 1794). Advogado do Parlamento de Paris (1785), publicou violentos panfletos contra a monarquia, especialmente La France Libre (1789). Orador popular, levou a multidão reunida no jardim do Palácio Real a tomar as armas (12 de julho de 1879). Em agosto de 1792, foi eleito deputado por Paris à Convenção Nacional, onde tomou lugar entre os montanheses. Desaprovando os excessos do Segundo Terror, , fundou, sob a influência de Danton, Le Vieux Cordelier (dezembro de 1793). Comprometido nos concluios dos indulgentes, foi preso (março de 1794) e guilhotinado com Danton (5 abril ). (Fonte: Enciclopédia Larousse)

4) O Atalho - Análise crítica do movimento espírita.
Autor: Luciano dos Anjos.
Edição: Publicações Lachâtre Editora Ltda.

5) Hermínio C. Miranda se destacou por muitas décadas como investigador do psiquismo humano, particularmente no que diz respeito às pesquisas sobre a regressão da memória e a paranormalidade. Além disso, revelou-se exímio artífice do vernáculo, colaborando com revistas e jornais especializados, através de artigos e ensaios de notável qualidade.
(Biografia gentileza da Editora LACHÂTRE)

" Não foi à toa que o Cristo lembrou a importância da prece e da vigilância. Os desafios são muitos e estonteantes.
É preciso, porém, aceitá-los corajosamente, dar-lhes respostas adequadas. Na atual fase do Espiritismo, o seu movimento está sendo desafiado mortalmente e perecerá se não responder à altura." - LUCIANO DOS ANJOS - (O Atalho, 33)