LUCIANO: "Espírito pseudossábio se caracteriza principalmente pela presunção de que sabe mais do que realmente sabe, como ensina O Livro dos Espíritos. Ora, relativamente aos subsídios técnico-científicos inseridos em Evolução em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade, André Luiz os recolheu de outros autores (vide a seguir a resposta 18). Resta a tese que, fosse ainda de um pseudossábio, é simplesmente extraordinária. Vamos lá. Façam outra igual para a gente ler!"

Instituto André Luiz: Luciano, é sempre um prazer conversar com você. Como está?
-  Deslumbrado com minhas netinhas. E ensinando-lhes, ao lado dos pais e sempre que oportuno, o Evangelho e a nossa doutrina. É importante evangelizar as crianças no lar, como recomendam Emmanuel e Joanna de Ângelis. Jamais irão parar numa escolinha de evangelho.

Instituto André Luiz: Quais as novidades? Há algum livro novo em perspectiva?
-  Sobre o movimento espírita (que prossegue com maiúsculas...), às vezes rio, às vezes choro. Por exemplo: num centro aqui do Rio, bem frequentado e rotulado de kardecista, existe agora um gato fluídico, que permanece na coleira, junto à mesa, enquanto os oradores falam. O médium da casa explicou – e o presidente endossou – que o bichano tem a faculdade de absorver os fluidos negativos do ambiente. Já sugeri, considerando que estamos em temporada febril de hinos espíritas, a elaboração de mais um: Atirei o Pau no Gato. E também que sejam compradas mais duas coleiras, uma para o médium e outra para o presidente, a fim de que não andem soltos por aí.

Essa novidade faz rir. Mas para chorar conto que caminhamos destrambelhados para a total igrejificação. As consciências se deixam dominar com incrível facilidade e as cúpulas (que adoram mandar e dar ordens) fazem o que bem querem. Ninguém pergunta, ninguém contesta, ninguém reage. Os espíritas estão acoelhados e acham que vai tudo muito bem e que, embora seguindo os passos da igreja católica, esse é o caminho. Não percebem que tomaram um atalho cujo fim é o abismo.
Sobre meus livros, há quatro para saírem: Carma e Livre-Arbítrio, Quem foi Quem, Fora do Centro Espírita não há Salvação e Jean-Baptiste Roustaing – O Missionário da Fé. O primeiro mostra como funciona a lei de Deus; o segundo é uma relação de conhecidas personalidades com suas diversas reencarnações; o terceiro é uma crítica ácida à mentalidade que frutificou dentro do movimento espírita (açulada pelos dirigentes) no sentido de que é imprescindível frequentar centro espírita; o quarto é a biografia do missionário de Bordeaux, com documentos inéditos e uma árvore genealógica montada por mim e que nem as instituições culturais da sua cidade natal conheciam.

Instituto André Luiz: Luciano dos Anjos continua polêmico?
-  Que foi que você achou da duas respostas anteriores? Nada obstante, é bom recordar que preeminentes figuras do espiritismo passaram à história exatamente como grandes polemistas, qualidade que até hoje é ressaltada nos textos de apresentação de suas obras: Bezerra de Menezes, Guillon Ribeiro, Leopoldo Machado, Carlos Imbassahy, Eurípedes Barsanulfo, Caírbar Schutel, Fred Fígner, Ismael Gomes Braga, Manuel Quintão, Sousa do Prado, Deolindo Amorim...

Instituto André Luiz: Temos visto ultimamente na imprensa espírita, notadamente no Jornal Espírita da FEESP, acusações contra a FEB e contra você, sem verificar, contudo, uma reação maior de sua parte. Por quê?
- Sou um incorrigível defensor da liberdade de imprensa, dada a minha irresistível vocação democrática. Acho que os órgãos de divulgação espíritas têm todo o direito de me criticar e às minhas ideias. Lamento apenas que, não sendo profissionais, desconheçam completamente a filosofia da boa e moderna imprensa, preocupada em informar com segurança e honestidade. Nesse sentido são sempre ouvidas as partes interessadas nos assuntos divergentes ou nos quais há citações nominais. Isso não implica omissão da opinião do órgão de comunicação, que deve se posicionar segundo sua linha editorial. Assim, sou assiduamente atacado enquanto nem se preocupam em ouvir minha versão ou ponto de vista. Como jornalista profissional lamento a falta de honestidade; como espírita tenho pena; como cidadão retiro-lhes a minha credibilidade. Mas um dia descobrirão que muitas vezes a razão esteve comigo e perderam a oportunidade de divulgá-la; e também que não conseguiram nem um pouco provocar a minha ira.

Instituto André Luiz: Pode explicar por que o ódio explícito ao roustanguismo (ou rustenismo) no meio espírita?
- Todo ódio é fruto da involução. Há três tipos de anti-rustenistas, que partem da falsa premissa de que Os Quatro Evangelhos são contrários a O Livro dos Espíritos. O que nunca estudou a obra (nem a leu sequer) e odeia porque outros lhe disseram que é uma mistificação. Esse tipo é um pobre coitado que merece compaixão e deve ser aconselhado a ler mais Kardec. Há o que leu e não entendeu nada do que leu. Apesar do ódio que baba, vale a pena talvez dar-lhe mais chances. E existem os que leram e pensam que entenderam. Acho que para esses só numa outra encarnação. No entanto, há ainda os que não entenderam, ou que pensam que entenderam, mas não odeiam os rustenistas. São pessoas sensatas, respeitáveis, dignas do nosso apreço. Afinal, ninguém é obrigado a pensar igual.

Instituto André Luiz: Luciano, como você vê o atual panorama espírita brasileiro?
- Quanto ao espiritismo, vejo-o com entusiasmo. Embora poucos, há livros muito bons que têm surgido, há estudos proveitosos, aprofundamento de pontos importantes feito por autores sérios; ao lado disso, vejo a ciência caminhando cada vez mais na direção de Deus e das verdades espíritas. Isso é alentador. Mas quanto ao movimento espírita, o panorama é de tragédia. Fortalecem a organização, otimizam a estrutura hierárquica, sedimentam a obediência aos que aparecem no ápice da pirâmide. E, então, tudo o que vamos pregueando no campo doutrinário vai se esgarçando porque vai sendo deturpado e se tornando de pouca importância. A massa está sendo manipulada e convencida, por exemplo, de que a frequência ao centro espírita (como a dos católicos à igreja) solucionará todos os problemas e trará a salvação. Por isso estou para lançar o Fora do Centro Espírita não há Salvação.

Instituto André Luiz: O movimento espírita prossegue no “atalho”?
- Em ritmo doidamente desembestado. Têm-me comunicado bizarrias ridículas e promoções fricoteiras. Está valendo tudo para atrair o incauto e sustentar os caprichos. Porém o mais grave, o mais sério, o mais deletério é essa estratégia mistificadora dos que estão no poder para dominar as consciências, principalmente através do chamado ensino sistematizado. Uma triste réplica da escolástica, que sufocou os cristãos durante séculos.

Instituto André Luiz: Quem é, ou quem são os responsáveis?
- As instituições cupulares que, a rigor, já são proprietárias do movimento, a título de unificação. E, no seu papel, trabalham para ampliar e aprofundar a tragédia, censurando, advertindo, ameaçando e até punindo quem não quer ser enquadrado. Quem esboça qualquer estranheza é acusado de fazer movimento paralelo e, obviamente, isso não pode ser tolerado, pois é risco para quem detém o poder.

Instituto André Luiz: Espiritismo é falar ou fazer?
- “Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que tem fé, e não tiver as obras? Porventura a fé pode salvá-lo?” (Paulo, epístola a Tiago, cap. 2, v. 14.) “Procurai os verdadeiros cristãos e os reconhecereis pelas suas obras.” (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVIII, nº 16.) “As palavras morrem no espaço sem chegar ao Senhor, quando não têm por apoio os atos.” (Os Quatro Evangelhos, vol. II, nº 108.)

DIVALDO PEREIRA FRANCO

Instituto André Luiz: Você é amigo de Divaldo Pereira Franco. Pode nos falar dele, de sua vida e obra, sob o seu ponto de vista?
- Amigo pelo menos há quinhentos anos. No século XVII eu era um vinagreiro muito carente e foi ele quem mandou providenciar o meu enterro, com toda a melhor celebração. Reencontro-o nessa lida maravilhosa, que poucos conhecem bem. Ouvem falar por exemplo da Mansão do Caminho, que ele e o Nílson criaram. Mas sequer lhe imaginam o primor. Trata-se de instituição sensacional. Já dormi lá. Desperta-se ao som de melodias doces que chegam até os aposentos oferecendo o primeiro bom-dia às crianças. Contudo, não é isso o mais importante. Acima de tudo está o caráter extraordinariamente moral e pedagógico que norteia todos os trabalhos. A Mansão do Caminho é um exemplo de obra beneficente, um empreendimento modelar, uma realização que encanta, um testemunho de amor que credencia o Divaldo ao nosso respeito e à nossa admiração.
Acrescente-se que a vida do Divaldo é a prática da doutrina espírita. É para ela que ele vive. E vive sob permanente pressão, tanto de espíritos trevosos (inteligentíssimos), que querem destruí-lo e à sua obra, como de espíritas invejosos que não são capazes de apresentar um único trabalho implementado pelo mesmo ideal.

Instituto André Luiz: Divaldo Pereira Franco é “superstar”?
-
Nós, jornalistas, lidamos com dois modelos de superstar: o artista de grande popularidade, exímio ou canastrão, e o rotulado. No meio espírita só existe o segundo, que se exibe por aí, de preferência fazendo turismo em festivais congressistas borrifados de muita purpurina. Divaldo não se inclui no elenco. É um homem sério, um espírita sincero, um médium correto. Se às vezes dá presença em certas montagens extravagantes é porque foi apanhado de surpresa ou não teve a menor chance de escapar. Mas então ele dá o recado e cai fora.
Agora, se querem censurá-lo por ser o centro das maiores atenções quando aparece em algum lugar, então terão de censurar todas as figuras carismáticas da humanidade, a começar por Allan Kardec e terminando por Jesus.

Instituto André Luiz: Como é Divaldo na intimidade?
-
Em primeiro lugar é de uma saborosa simplicidade. É muito gostoso conversar com ele. Nos momentos dos assuntos graves podemos ouvir-lhe comentários inteligentes e ponderados; nas ocasiões mais descontraídas rimos bastante com algumas anedotas de espíritos que ele conta. Aliás, é bom lembrar que essas ocasiões, com muito riso e muita alegria, estão presentes também na biografia do austero Allan Kardec. Aos domingos, ele reunia os amigos íntimos na Villa Ségur para jantarem. Então, todos riam muito com as anedotas que o mestre contava. Leymarie depôs: “Muito fez rir a assistência.” É assim mesmo que devemos ser. Sérios na hora da seriedade; alegres na hora da alegria. Por outro lado, o Divaldo não é nenhum tolo, mas sendo francamente generoso às vezes levam-no na conversa. Pode-se dizer o mesmo do Chico. Nunca foi tolo. Mas com jeitinho chegaram até a colocá-lo de vela acesa na mão dentro de uma banheira para uma foto pedida por repórteres de O Cruzeiro. Pior é que quem pediu foi meu colega e amigo, já desencarnado, David Nasser. (Um dia conto como aconteceu e o que ele pensava sobre o espiritismo no final da vida.)

Instituto André Luiz: Divaldo é criticado severamente pelos livros que produz. Afinal de contas, Joanna de Ângelis é ou não é espiritismo?
-
Atacam seus livros. Deve ser porque são livros imorais, destrutivos, pornográficos, contrários a Kardec, negadores de Jesus. Mas, vivendo como vivo há mais de cinquenta anos no movimento espírita, posso informar que já disseram – e ainda dizem – o mesmo de livros do Chico Xavier, da Yvonne Pereira, da Zilda Gama, da Aura Celeste. Quando saiu a chamada série André Luiz, a Federação Espírita Brasileira registrou reações ferinas sobre a obsessão do Chico. Sobre o livro De Coração para Coração, da Maria Celeste (leia-se Elisabeth Barret Browning), chegou a ser dito que ocultava certa lascívia na disfarçada relação de mãe e filho (afinal, o médium Waldo Vieira é a reencarnação do poeta Robert Browning...). Sexo e Destino – e a essa época a grande maioria já havia aceitado a série – foi duramente criticado por sua tendência lúbrica, não faltando quem afirmasse que nem era do André Luiz. Desobsessão, também do André Luiz, quase não foi publicado (um dia conto por quê). Léon Tolstoi, pela Yvonne Pereira, foi considerado um escárnio. Gente indignada fez análise estilística do texto e assegurou que do autor de Guerra e Paz o livro da médium nada tinha. Ora, o pobre do Divaldo iria escapar dessas mesmas assacadilhas...?
Censura-se agora a Joanna de Ângelis porque resolveu ditar uma série sobre psicologia transpessoal visando ao autodescobrimento, à satisfação e ao controle emocional diante das circunstâncias cármicas. O humanismo está no cerne dessa série, que faz links frequentes com a doutrina espírita, com os ensinamentos do Cristo. Qual, pois, o busílis? Enfoca mais os ajustes psicológicos da criatura enquanto encarnada e menos as situações dela desencarnada? Bolas! Porventura não é importante saber vencer dificuldades terrenas para assegurar aqui uma vida de relativa paz e equilíbrio, a fim de melhor laborar no campo do amor e da caridade? Ou será que no fundo os reproches são por conta da carapuça que acaba lhes enterrando até às orelhas? Ademais, é bom não esquecer que Joanna de Ângelis ditou vários outros livros completamente fora dessa temática. Não contam? E só para meditarmos: Sexo e Vida, de Emmanuel, é ou não é espiritismo?

Instituto André Luiz: O Jornal Espírita declarou recentemente que Divaldo abandonou o roustanguismo, finalmente, reconhecendo-lhe a distorção. Perguntamos: antes disso o que era o Divaldo, já que roustanguismo não é espiritismo?
- Divaldo Pereira Franco sempre foi e continua a ser adepto de Roustaing, como registrei em meu livro Os Adeptos de Roustaing. Tenho com ele intimidade bastante para saber disso. Numa época em que a física quântica caminha veloz na direção de paradoxos incríveis, seria uma incrível cupinização neurônica do Divaldo repudiar Roustaing. (Ainda há pouco tempo o Hernani Guimarães Andrade, um verdadeiro cientista do espiritismo, me assegurava por telefone que diante dos últimos avanços da física não via nenhuma impossibilidade na constituição do corpo fluídico de Jesus.) Mas não me chocam essas publicações levianas. Um jornal de São José do Rio Preto também se saiu com o anúncio indireto dessa defecção, causando rebuliço. Em entrevista, o Divaldo concordava com as palavras elogiosas de Kardec à obra de Roustaing na Revue Spirite e, ao mesmo tempo, com as ressalvas feitas em A Gênese. Concluíram que o Divaldo era contra Roustaing. Logo expliquei que a ressalva de A Gênese tinha também o meu endosso, meu, que sou rustenista completo. Mas endosso nos termos da transcrição feita pelo Divaldo, que tratou de suprimir o último parágrafo, mantendo apenas a crítica de Kardec a uma eventual farsa do Cristo diante da dor. Com aquela supressão eu e todos os rustenistas apoiamos o que Kardec escreveu. Para nós, a dor de Jesus seria de fato uma farsa se ele não a tivesse sofrido. Até aí morreu Neves; ou melhor, Jesus. (Logo que saiu a matéria eu e o Divaldo nos falamos por telefone.)
Também viveram choramingando que o Chico não aceitava Roustaing, até ser publicado o Testemunhos de Chico Xavier, da Suely Caldas Schubert, com as cartas que ele enviou ao presidente da FEB. Foi uma ducha de zero graus célsius. Da Yvonne não disseram menor patetice, pois um dito-retro-cujo escreveu ter ouvido dela a confissão de que não era rustenista; porém, acrescentou que estava com um gravador a tiracolo mas... esqueceu de gravar a sensacional confissão!
Enfim, já cansaram igualmente de provar que Bezerra de Menezes havia renegado Roustaing antes de desencarnar (superna mentira), ou que ele chegou do lado de lá e mudou de ideia. Nessa hipótese posso também acreditar que todos os adversários de Roustaing chegaram do lado de lá e mudaram de ideia... Assim, esses argumentos contorcionistas não me surpreendem nem me abalam. Fazem parte do jogo dos malandros quando nada mais têm para acrescentar de verdadeiro em relação a justos e evoluídos posicionamentos doutrinários.

CHICO XAVIER, EMMANUEL E ANDRÉ LUIZ

Instituto André Luiz: Chico Xavier não escapa, igualmente, da ira dos “puristas”. Onde enquadrar, portanto, Emmanuel e André Luiz?
-  Nunca escapou. Emmanuel é estereotipado por muitos como melosamente religioso, ainda influenciado pelo clericalismo do passado; André Luiz é ficcionista e adepto de noções orientalistas, a despeito de haver buscado terminologia diferente para falar das mesmas coisas. Ora, Emmanuel tem por missão, acima de tudo, cristianizar. E nesse objetivo ele vai ser repetitivo, vai historiar com emoções acentuadas, vai usar a linguagem do pastoreio, mas tudo sem deixar de ser duríssimo quando analisa os escândalos e os vandalismos da igreja católica. André  Luiz, por seu turno, não poderia desprezar algumas sensatas explicações do orientalismo, cujo conhecimento, escanhoado de certas complicações visivelmente desarrazoadas, é milenar e deve ser aprendido. Mas e daí? Quem não gostar que vá em busca desse sarrabulho mediúnico que tem aparecido a granel, narrado por ETs, por seres da quinta dimensão, por espíritos-espelhos, por interlocutores da transcomunicação e numerosos outros. Cada um escolhe o que lhe serve ao paladar. Especificamente sobre Emmanuel, André Luiz e Joanna de Ângelis, temos de resignar-nos com as limitações de cérebros enferrujados que só aceitam idolatricamente Allan Kardec. Tudo bem. Mais tarde voltamos para resgatá-los.

Instituto André Luiz: Um jornalista declarou recentemente no Jornal Espírita e também no Portal Millenium News (Internet) que André Luiz é um espírito pseudossábio. O que pensa disso?
- Li o artigo. O autor não é insipiente, bem se vê. Mas sua crítica é claudicante. Ele não se deu conta de que muitas palavras empregadas por André Luiz, na hora de costurar a tese (o que importa é a tese, não informações explicativas do conhecimento científico, que André Luiz foi buscar em livros especializados), valem por conotação habitualmente encontrada nas obras mediúnicas do Chico. O que às vezes parece errado ou contraditório de fato nunca o foi porque o vocábulo que aparece na contextualização tem valor semiótico pessoalizado ou doutra época. Veja como exemplo a questão 355 de O Livro dos Espíritos, tradução do grande vernaculista Guillon Ribeiro. Onde se lê vitais quer a pergunta significar viáveis. Mas viáveis com valor semiótico de passível de sobrevivência só com o tempo recebeu o aval dos filólogos e passou a ser dicionarizado. (Já sugeri ao presidente da FEB que fizesse a atualização ou apusesse uma nota de rodapé.)
Espírito pseudossábio se caracteriza principalmente pela presunção de que sabe mais do que realmente sabe, como ensina O Livro dos Espíritos. Ora, relativamente aos subsídios técnico-científicos inseridos em Evolução em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade, André Luiz os recolheu de outros autores (vide a seguir a resposta 18). Resta a tese que, fosse ainda de um pseudossábio, é simplesmente extraordinária. Vamos lá. Façam outra igual para a gente ler.

Instituto André Luiz: Carlos Chagas ou Oswaldo Cruz? Afinal de contas você deve saber algo a respeito...
- Nem Carlos Chagas, nem Oswaldo Cruz, nem Miguel Couto, nem Francisco de Castro e muito menos a hipótese aventada de que André Luiz nunca existiu, sendo uma falange de espíritos dado o seu amplo conhecimento. Sei, sim, quem ele foi e, quando trinta anos atrás eu ainda fazia minhas pesquisas e meus contatos, cheguei inclusive a ser procurado por membros da sua família durante palestra que eu proferia num centro de Botafogo. Depois, na década de 90, li o anúncio de uma missa pela morte de certo parente.A indicação mais divulgada de que seria Carlos Chagas nasceu de um episódio curioso. O Chico psicografava mensagem de André Luiz na presença da médium psicopictógrafa Dinorah Simas (médium por sinal respeitável). Enquanto acontecia a captação ela viu o Carlos Chagas junto ao Chico. Desenhou-lhe a figura. E a partir dali ninguém mais conseguiu desmanchar a versão. Ora, aparecer ao lado do médium no momento duma comunicação não quer significar autoria. E basta ler a vida do sanitarista para conferir que não há nenhum ponto de sustentação. O Chico, por sua vez, jamais virá a público confirmar ou desmentir. Se perguntado em conversa particular, abrirá largo sorriso e não descartará qualquer nome que lhe seja suscitado. Já o Waldo Vieira, que não é mais espírita, deverá ser refugado como boa fonte, pois atualmente renega sua produção mediúnica e não terá escrúpulo em dizer que André Luiz nunca existiu, nem como encarnado nem como desencarnado. O que sei sobre André Luiz está num envelope lacrado e destinado a meu filho, também espírita. Há ali fotos microfilmadas de um médico brasileiro, alguns documentos em xerox e páginas fotocopiadas de um livro. Trata-se de alguém sobre quem ninguém até hoje falou. (Numa cidade longe do Rio deparei, certa vez, com uma referência precisa, mas preferi não comentar nada.) Meu filho saberá agir a respeito, quando o tempo e a hora forem próprios à identificação pública. Assim o fiz por recomendação do próprio Chico, ou seja: enquanto algumas pessoas estivessem encarnadas nada deveria ser divulgado.
Sobre esse assunto, transcrevo resposta que o inesquecível tribuno Newton Boechat deu ao Anuário Allan Kardec – 79, lançado em dezembro de 1978:
“N.B. – Aqui respondo o que posso e até onde sei. Ignoro quem tenha sido historicamente André Luiz, todavia, sei que o jornalista Luciano dos Anjos, através de exaustivas pesquisas em instituições e acervos, cotejando dados extraídos dos próprios livros de André Luiz, convergentes, indutivos e dedutivos, aliando tudo isso a busca de notícias e avisos de velhos jornais empoeirados em arquivo de redação, chegou àquilo que pode e deve ser a prova crucial. Para completar, xerografou documentos e extraiu filmes, guardando tudo zelosamente, sem até agora dizer o que fará com o resultado do seu exaustivo labor. Sou mesmo propenso a acreditar que dificilmente o identificará publicamente, dadas certas implicações de natureza íntima a que se envolvera André Luiz na leviandade de outrora, numa despoliciada vida física, segundo ele mesmo esclareceu nos livros. A tal ponto chegou a pesquisa que Luciano dos Anjos apurou também a desencarnação de outras pessoas da família do ex-médico, agora escritor espiritual, servindo-se do Chico Xavier. Entrou, de resto, em contato telefônico com membros da família, daí talvez a razão por que não pôde ou não quis até agora falar a respeito. Muitos espíritas admitiram e admitem ser André Luiz um nome coletivo todavia isto parece sem fundamento, pois entidade perispirítica materializada pela mediunidade de Peixotinho e Fábio Machado, os dois mais conhecidos médiuns de materializações e efeitos físicos, em reuniões especializadas, dirigiu-se aos assistentes e identificou-se como sendo o autor de Nosso Lar, além do que existem nas obras de André Luiz elementos de identificação pessoal. De uma coisa estou certo: Ele não foi Oswaldo Cruz, Miguel Couto, Carlos Chagas ou Francisco de Castro, como também cientifiquei-me de que 211 médicos foram pesquisados entre 1920/30 no Rio e adjacências, segundo me informou Luciano dos Anjos.”
Devo anotar, agora que meu amigo Newton Boechat partiu: ele era muito, muito, muito íntimo de Chico Xavier e, na verdade, também sabia quem era André Luiz... Por outro lado, anoto também que há em Nosso Lar uma importante informação que não confere. Suponho que André Luiz fez de propósito.

Instituto André Luiz: Qual a explicação para o conhecimento enciclopédico do médico André Luiz?
- Vou resumir matéria que escrevi para a edição de outubro de 1977 do Jornal Espírita, p. 3, na qual expliquei que o que André Luiz conhece bem é medicina. Tendo sido médico, prosseguiu no espaço a aplicar seus conhecimentos e até os aprimorou. Mesmo assim, no próprio campo da medicina ele se valeu de trabalhos de colegas e mestres, o que é muito normal. Toda matéria tem especializações, pesquisas pessoais, etc. Saber tudo ex-cathedra sobre todos os assuntos é pretensão, truque ou supergenialidade. Acreditar que alguém conheça em profundidade a sua especialidade e várias outras altamente heterogêneas é perfilhar a fantasia. Não é o caso de André Luiz. Em princípio ele não poderia dominar o campo da medicina e mais o da física, da química, da eletrônica, da biologia, da genética, da sociologia, da psicologia, da pedagogia, enfim, de ramos tão variados quanto complexos da cultura universal. Seria um enciclopedismo fantástico. É óbvio que, mormente para escrever livros como Evolução em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade, ele se socorreu de outros autores. E antes que algum padre ou pastor o digam de má-fé, eu mesmo direi: sei, inclusive, de que livros André Luiz retirou os elementos contidos nesses trabalhos. Digo mais: ele nem se preocupou em alterar os textos copiados; quase usou as mesmas palavras. Eu, por exemplo, teria modificado um pouco mais, dentre outras razões para evitar problemas de direitos autorais, já que ele sequer usou aspas. Mas isso prova apenas que André Luiz não estava preocupado em esconder o que fez. E para acentuar bem essa despreocupação, escreveu no introito de Mecanismos da Mediunidade, p. 19 da 3ª edição:
“Prevenindo qualquer observação da crítica construtiva, lealmente declaramos haver recorrido a diversos trabalhos de divulgação científica do mundo contemporâneo para tornar a substância espírita deste livro mais seguramente compreendida pela generalidade dos leitores, como quem se utiliza da estrada de todos para atingir a meta em vista, sem maiores dificuldades para os companheiros de excursão.”
“Assim, as notas dessa natureza, neste volume, tomadas naturalmente ao acervo de informações e deduções dos estudiosos da atualidade terrestre, cabem aqui por vestimenta necessária, mas transitória, da explicação espírita da mediunidade, que é, no presente livro, o corpo de ideias a ser apresentado.”
E Emmanuel, na p. 15 do mesmo livro, advertia em forma de Prefácio:
“Compreendemos, assim, a validade permanente do esforço de André Luiz, que, servindo-se de estudos e conclusões de conceituados cientistas terrenos, tenta, também aqui, colaborar na elucidação dos problemas da mediunidade, cada vez mais inquietantes na vida conturbada do mundo moderno.”
Isto posto, o que conta na obra de André Luiz não é o conjunto de informações, possível de ser encontrado em compêndios de outros autores. O que conta é a sua tese, a sua colocação notável no contexto do espiritismo. Finalmente devo dizer que acho Evolução em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade as duas melhores obras da série André Luiz.

Instituto André Luiz: Os Espíritos que se comunicam e ditam livros devem identificar-se completamente, para evitar aborrecimentos tanto para si quanto para os médiuns que os transmitem?
- Eis uma questão que há de ser da alçada exclusiva dos espíritos. Em qualquer circunstância pode haver desdobramentos imprevisíveis. Veja o caso de Humberto de Campos. Ditou alguns livros com seu próprio nome e deu no que deu. A família entrou na Justiça exigindo os direitos autorais (se fossem mesmo textos do Humberto) ou indenização moral (se não fossem). Ainda bem que a Justiça deu ganho de causa à Federação Espírita Brasileira, sem entrar no mérito filosófico da demanda. Mas o próprio espírito, para não magoar a família, passou a assinar-se Irmão X (em vida, Humberto de Campos usava o pseudônimo Conselheiro XX). Outra questão é que os espíritos em geral costumam manter seu canal mediúnico por variadas razões técnicas e pessoais. Todavia, se por qualquer motivo desejarem ou precisarem utilizar outro canal é muito provável que assinem nome diferente. Afinal, para que criar problemas de dúvidas quando o objetivo é construir? Às vezes pensa-se que algum médium ou algum espírito está plagiando e, no entanto, o autor espiritual foi o mesmo, apenas utilizando outro nome ou um titlônimo qualquer.

MEDIUNIDADE

Instituto André Luiz: Há, no meio espírita, uma tendência a se dar mais credibilidade ao escritor encarnado que ao desencarnado. É o começo do fim do exercício mediúnico?
- A tendência é explicável, ainda que tanto um como outro possa ser honesto ou mistificador. Não faltam, é verdade, os que se mantêm armados contra escritores do Além porque podem estar mentindo, fantasiando, usando nome falso. Mas as mesmas dúvidas cabem em relação aos autores encarnados. Tudo portanto vai depender – como ensinou Kardec – do conteúdo do texto, submetido à nossa razão. Porém isso não implica absolutamente o fim do exercício mediúnico, que de repente nos oferece obras como o Parnaso d’Além-Túmulo, como o Párias em Redenção, como o Memórias de Um Suicida. Diante desses monumentos literários quem irá descartar o crescente valor da mediunidade?

Instituto André Luiz: Pode o espiritismo sobreviver sem mediunidade?
- “Para que o fenômeno se produza, faz-se mister a intervenção de uma ou muitas pessoas dotadas de especial aptidão, que se designam pelo nome de médiuns.” (O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, cap. II, nº 61.)
Toda e qualquer manifestação necessita de um médium. Com a evolução da humanidade é provável que os contatos venham a acontecer de mente a mente, mas apenas devido à potencialização da própria mediunidade. Estaremos, então – concedo –, diante do chamado channelling (comunicações sem a conhecida incorporação, emanadas de espíritos de altíssima evolução) que, entretanto, não exclui a faculdade mediúnica; muito ao contrário, torna-a mais potente e mais intelectualizada. A concepção se aproxima bastante das noúres (correntes de pensamento), de Pietro Ubaldi, que aceito e estão explicadas em sua magnífica obra As Noúres – Técnica e Recepção das Correntes de Pensamento. Os channelles (médiuns) captariam inclusive entidades extraterrenas, incorpóreas. Vá lá que seja, mas – como ressalvo em meu livro O Atalho, cap. V, tópico 31 – nessa curva não quero entrar senão em marcha reduzida, com muita cautela. Receio derrapar diante dum venusiano ou dum jupiteriano perdido por aí. Prefiro enxergar melhor a estrada antes de acelerar... Estamos pois falando do futuro bem futuro. Por enquanto, e ainda por longo tempo, ET não passa com certeza de espírito galhofeiro ludibriando a boa-fé dos ingênuos.
Porém a pergunta fala em sobrevivência do espiritismo sem mediunidade. Respondo: o espiritismo sobreviverá sempre porque a mediunidade não precisa da autorização dos homens para ocorrer, tal como acontecia antes de 1857; mas ainda que o espiritismo por esse ou qualquer outro motivo pudesse morrer, a doutrina espírita sobreviverá ab aeternum porque independe do fenômeno.

Instituto André Luiz: O que é mediunidade, em sua opinião?
- A definição é de Allan Kardec: “Medianimidade – Faculdade dos médiuns. Sinônimo de mediunidade.” “Médium – Pessoa que pode servir de intermediária entre os espíritos e os homens.” (O Livro dos Médiuns, cap. XXXII.).
No entanto, há aspectos que requerem estudos. Por exemplo: o médium clarividente ou de desdobramento que visita e observa o plano espiritual estará agindo como médium? Mas não existe nenhum espírito se comunicando por ele. Então, cumpre hoje em dia ampliar o conceito de mediunidade, definindo-a como a faculdade que permite estabelecer relações com o plano espiritual independente de haver ou não um espírito comunicante. Generalizando: é médium todo aquele que possui alto desenvolvimento psíquico e consegue fazer qualquer tipo de contato com o mundo espiritual, abstração é claro dos contatos que fazemos durante o sono e que são acessíveis a qualquer pessoa. Há a respeito trabalhos interessantes, como o do Hermínio C. Miranda A Diversidade dos Carismas, editado pela Publicações Lachâtre. A certa altura o autor aborda precisamente essa questão.
Apenas para juntar outros detalhes: mediunidade é carma, é missão, e é tecnicamente o desvio do eixo do perispírito em relação ao corpo físico.

Instituto André Luiz: Discute-se muito, ultimamente, no meio espírita, o desaparecimento gradual dos trabalhos de desobsessão nos centros espíritas, por falta de médiuns e doutrinadores. É uma tendência natural ou simples acomodação?
- Os trabalhos de desobsessão nos centros espíritas são, em grande número, desastrosamente conduzidos. O plano espiritual é muito misericordioso, muito paciente, e, considerando as boas intenções dos grupos, vai suprindo da melhor maneira possível as barbaridades que fazem aqui por baixo durante as reuniões. Já vi de tudo, principalmente o despreparo absoluto de doutrinadores que não sabem o que é uma doutrinação. Brigam com os espíritos, ameaçam, se impacientam, não os deixam falar, ironizam, “amarram” (?!) os espíritos, aplicam choques em forma de passes, mandam voltar noutro dia, enfim, uma antidoutrinação que nada vale. Os espíritos vêm e vão sem nenhuma conquista. Ou então tapeiam o doutrinador dando graças a Deus e em dez minutos de conversa abandonam o ódio pelo amor. Um lindo engodo, uma linda mágica. Eles querem é cair fora e o ingênuo doutrinador acredita na milagrosa transformação. Haja paciência dos mentores para contornar esses desconchavos. Assim, não é a falta de médiuns que deve preocupar. Às vezes, um ou dois são mais eficientes do que um batalhão deles. Aliás, essa tem sido a mentalidade dos nossos dias: multiplicar o número de médiuns. Há aqui no Rio um centro, na ilha do Governador, que trabalha com 250 médiuns! E o centro se orgulha disso. Todo mundo quer ser médium. Ora, o centenário Grupo Ismael, da Federação Espírita Brasileira, do qual fiz parte, nunca teve mais do que um ou dois médiuns. No meu Grupo dos Oito, apenas dois médiuns funcionam. A quantidade, portanto, nada significa. Assim, talvez devido a essas distorções que acontecem por aí, os mais sensatos vão de fato desanimando, parecendo que se acomodam. Entretanto, isso é fase. Vai passar. Nesse campo há muito trabalho pela frente e os médiuns cordatos e estudiosos, mesmo em pequeno número, acabarão impondo a sua confiabilidade.

Instituto André Luiz: No entanto, é grande a afluência aos centros de pessoas potencialmente médiuns e de criaturas francamente necessitadas de terapêutica desobsessiva. O que dizer disso?
- É verdade. Os médiuns em potencial (os que o são mesmo!) deveriam receber boa orientação, o que raramente acontece. A falta de conhecimento vem de cima e a orientação é péssima. Mas é bom notar que não existe tanta afluência como apregoam os centros. Na verdade está havendo uma banalização por conta das distorções dos dirigentes. Se alguém procura o centro porque está triste, está nervoso, está depressivo, logo lhe asseguram que é médium e que tem de praticar a mediunidade... Surgem então médiuns que nunca o foram, ou outros despreparados, cheios de cacoetes, de exibicionismos, de posturas extravagantes.
Bem, isso é mesmo muito mau e mostra um quadro geral extremamente negativo. Estará tudo perdido? Busquemos um paralelo. Não é assim que no momento vemos acontecer em nossos hospitais? Médicos despreparados, desinteressados, diretores incapazes, falta de leitos, falta de profissionais, de atenção, de tudo? Se o Alto suporta essas mazelas, que não podem ser superadas da noite para o dia, por que não suportaria as outras, no campo da desobsessão? Afinal, todos são pacientes, tanto encarnados como desencarnados. Há, pois, que estudar, estudar muito para modificar essa realidade cruel que assinala o momento terrestre. Não obstante, tudo no futuro terá valido como um grande aprendizado, explicável naturalmente como circunstâncias em que múltiplos e dolorosos carmas foram resgatados. Nada é perdido nos planos da espiritualidade.

Instituto André Luiz: Existe dentro do movimento espírita, mesmo que de forma sub-reptícia, a esperança de que surja um novo médium, nos moldes de Chico ou Divaldo, para reacender o entusiasmo e a euforia de outrora. Perguntamos: o espiritismo não pode sobreviver sem grandes figuras, ou grandes médiuns?
-
Pode e sobreviverá. Esses pretensos continuadores e legítimos macaqueadores que se exibem por aí fazem papel circense. Deveriam exercer sua faculdade com mais dignidade, deixando que suas obras lhes indiquem o quilate. Afora isso, não vejo no momento ninguém à altura de Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco e Yvonne Pereira. Acredito mesmo que durante muito tempo não contaremos com médium algum dessa qualidade. Prosseguirão os que aí estão nos oferecendo bons trabalhos, mas jamais comparáveis aos daqueles três. Com a desencarnação deles estará encerrado um importante capítulo na história do espiritismo e o que nos caberá – assim espera o Alto – é que doravante estudemos o manancial maravilhoso que então nos terão deixado. Será a hora do estudo, da assimilação. As obras aí estão. Vamos ler e praticar as lições recebidas. Convém lembrar que depois dos grandes médiuns do apostolado de Jesus somente após dezoito séculos foram-nos ofertados novos trabalhos realmente de peso e dentro dum planejamento especial.

Instituto André Luiz: Falando nisso: o movimento espírita tem-se mostrado ultimamente apático, decepcionante. O que deve ser feito, urgentemente, para que se lhe restaure o vigor?
- Apático está, realmente, dada a submissão total ao comando dos que lideram. Com os fiéis orientados para que cegamente baixem a cabeça e obedeçam, essa situação é boa para os dois lados. Os espíritas copiam a acomodação dos católicos, convencendo-se (e enganando-se) de que os dirigentes, os cupulares é que têm o dever de salvá-los. Com isso se livram de toda a responsabilidade. Tal como aconteceu sempre com os católicos. Para que se preocupar com a auto-reforma se os líderes é que sabem e resolvem tudo? Eles estarão cuidando da salvação do rebanho, fazendo reuniões, congressos, simpósios, seminários, massificando a aplicação do passe, agitando os centros espíritas com atrações artísticas, engessando o interesse cultural dos jovens, ofertando balinhas para as crianças, impondo o ensino sistematizado, decidindo o que deve ser lido, dogmatizando o que é e o que não é doutrina espírita, etc., etc., etc.
O adequado vigor do movimento espírita somente será restaurado quando lhe retirarem as indecentes maiúsculas e devolverem aos espíritas a liberdade de agir e de pensar. (Sugiro a leitura de meu opúsculo Maiúsculas em Movimento Minúsculo, edição do Grupo dos Oito.)

Instituto André Luiz: Luciano, o espaço é seu, para o que deseje acrescentar aqui.
- Talvez valha a pena acrescentar algo sobre meu ânimo interior diante de todo esse quadro, que vislumbro desastroso. Será o fim da linha? Em meu livro O Atalho procuro analisar criticamente os fundamentos e desdobramentos do movimento espírita, inspirando-me no pensamento do notável filósofo inglês Arnold Toynbee. Disse ele, no que respeita à morte das civilizações, que “qualquer civilização perece se não dá resposta adequada ao desafio mortal em que sua época a coloca”. Procurei ajustar essa sentença de ordem universal ao pequeno mundo do movimento espírita. Acho então que ou os espíritas dão resposta adequada ao desafio mortal em que sua época os coloca, ou o movimento perece. Assim, se houver uma resposta adequada a tudo isso que vem acontecendo, então nossa esperança vai reacender e a chance de recuperação é quase total. Mas se continuarmos nesse atalho sem nada fazer, sem reagir, sem querer ser livres, sem protestar contra os comandantes que, no poder, não querem um espiritismo nos termos em que Allan Kardec codificou – nesse caso mergulharemos noutro longo período de obscurantismo e o Codificador terá de se impor o sacrifício de nova encarnação para começar tudo de novo. De qualquer forma, minha esperança não está morta. Confio especialmente nos jovens, cuja rebeldia respeitosa tem força revolucionária. Ainda é possível fazer alguma coisa, a começar por uma reação verdadeira contra essa lavagem cerebral em andamento, contra o sistema de ensino que foi implantado sem consulta a ninguém, na base de apostilas, cursos, currículos, aulas, avaliações, exagerado didatismo, escolas, salas de aula, seriações, ano letivo, etc. Tudo o que só convém a quem ensina e a quem manda, mas não levará ninguém a ser livre e espírita de verdade, transformando-se moralmente e buscando o comprometimento com o bem e o amor autêntico, à  luz dos ensinamentos cristãos. (Lori Marli dos Santos)

Jornalista profissional, Luciano dos Anjos trabalhou em "O Radical", "Gazeta de Notícias", "Diário de Notícias", "Visão", "O Cruzeiro", "O Mundo Ilustrado", "A Notícia" e outros órgãos, exercendo desde a função de repórter, de redator, editorialista, até a de secretário de redação e assessor de direção. Autor de obras de cunho literário, religioso, filosófico, foi sempre respeitado pelo profissionalismo e lisura com que há mais de 40 anos atua na imprensa, destacando-se sempre por suas posições firmes favor das liberdades democráticas. Essa intransigente postura lhe valeu, durante os regimes totalitários, três processos judiciais. Nas pesquisas de regressão da memória a que se submeteu com Hermínio C. Miranda, aflorou-lhe a personalidade do jornalista francês que, em 1789, conclamou o povo às armas para a tomada da Bastilha.
As provas desse fato estão narradas em sua obra "Eu sou Camille Desmoulins".
(Biografia gentileza da Editora LACHÂTRE http://www.lachatre.com.br/)

Obs.: a foto de Luciano dos Anjos, ao alto, e que ilustra a matéria, possui um detalhe muito significativo: ao fundo está o rio Sena e, à margem, a famosa Conciergerie, onde Camille Desmoulins ficou preso até ser conduzido na carroça para a guilhotina.

Curitiba, 30/10/2003