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"Não pode minha consciência aprovar as desculpas que se buscam para capturar os Brasis*, porque nunca se achou pai no Brasil que vendesse filho verdadeiro, porque os amam grandissimamente. Os que dizem que se vendem a si mesmos, fazem-no ou porque não entendem que coisa é vender a liberdade, ou são induzidos com mentiras e enganos e às vezes com muitos açoites, e assim os pobres, achando-se alcançados, fogem e querem ir morrer por estes matos, entes de sofrer tão grave cativeiro à mão de tais inimigos." - Manoel da Nóbrega

 

INTRODUÇÃO - O Padre Manoel da Nóbrega, um dos primeiros civilizadores desta terra, representa papel muito importante na sociedade brasileira e exerceu tanta influência que seu nome será sempre lembrado. Sua fama era geral em todo o Brasil e também aos sertões do Paraguai chegou a fama de seus trabalhos, das suas virtudes.
Todos sabem o que fez em prol da terra que se rasgava aos olhos; e o movimento que imprimiu no Brasil entre os dois povos, o civilizado e o inculto, o invasor e o indígena, foi decerto superior a do Padre José de Anchieta, ainda que este falasse corretamente a língua dos índios, o que não alcançou Nóbrega, provavelmente pelo defeito natural que tinha (gagueira). Mas, apesar de gago, com a sua palavra soube conquistar portugueses e brasileiros (
Brasis). Tinha o coração generoso, era verdadeiro amigo da Humanidade. Desbastou a terra, ganhou-lhe amor, não temia o encontro de milhares de índios, falando-lhes com toda a energia e desassombro por meio de intérpretes.

CARTAS DE MANOEL DA NÓBREGA - Nas cartas de Nóbrega encontram-se elementos muito interessantes para a história do povo brasileiro, sob diversos pontos de vista. Entre os fatos que mais prendem a atenção pode-se destacar: a luta aguerrida entre cristãos e índios, o ódio dos cristãos e as calamidades que cometiam contra os índios, o desamor dos povoadores à terra, a guerra que sofriam os Jesuítas dos sacerdotes, que "tinham mais ofícios de demônios que de clérigos. Destaca-se ainda: a prejudicial população de degredados, a falta de mulheres brancas que eram tão desejadas "que quaisquer farão muito bem à terra". "ainda que fossem erradas porque casarão todas mui bem, contando que não sejam tais que de todo tenham perdido a vergonha, a Deus e ao mundo."
Quanto aos moradores não quererem bem a terra e que só desejavam ordenados do Estado ( ! ) e tudo usufruíam: "De quantos lá vieram nenhum tem amor a esta terra: todos querem fazer o que fazem em seu proveito; ainda que seja à custa da terra porque esperam poder ir embora." "... Não querem bem à terra pois tem sua afeição em Portugal; nem trabalham tanto para favorecer, mas para se aproveitar de qualquer maneira que puderem."
Pelo testemunho de Nóbrega vê-se que os índios eram dóceis, mostravam grande desejo de aprender, se relacionar com os brancos, e que eram "papel branco", para se escrever a vontade "as virtudes mais necessárias". Também não deixam de ser curiosas as perguntas que os índios muitas vezes faziam a Nóbrega sobre Deus, pois queriam saber se Deus tinha cabeça, mulher e se comia e com o que se vestia, e outras coisas semelhantes...

ROTEIRO DA PASSAGEM DE NÓBREGA PELO BRASIL: Chegando à Bahia a 29 de março de 1549, assistiu à fundação da nova cidade e em 1° de novembro foi aos Ilhéus e Porto Seguro, onde ainda se achava em janeiro de 1550. Dali voltou à Bahia e em junho de 1551 dirigiu-se a Pernambuco, tornando de novo à Bahia em 1552. Em fins deste ano, ou começo do seguinte, foi à Capitania de São Vicente, acompanhando a Tomé de Souza, a correr a costa, e aí demorou-se até maio de 1556, quando voltou de novo à Bahia, onde chegou a 30 de julho. A 16 de janeiro de 1560 saiu da Bahia com Men de Sá para a conquista do Rio de Janeiro, onde chegou a 21 de fevereiro. Pouco depois foi do Rio para São Vicente. Desta capitania veio em 1564 ao Rio ao encontro de Estácio de Sá, que iria reconquistar o lugar dos franceses e fundar a cidade do Rio de Janeiro; mas teve de voltar a São Vicente com Estácio de Sá, que não podendo entrar na baía (da Guanabara, hoje), foi ali receber novos socorros para a conquista.
Nóbrega não voltou depois de 1565 com Estácio de Sá, deixou-se antes ficar em São Vicente para dali melhor socorrer a armada e o povoamento do Rio. Ainda em junho de 1565, achava-se em São Vicente; depois veio ao Rio de Janeiro, onde morreu em 18 de Outubro de 1570.
Em todos os lugares que percorreu prestou tão bons serviços que ligou seu nome à história geral do país.
VALLE CABRAL, Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1886 (Cartas do Brasil, USP)

"Nóbrega era para com os Irmãos muito benigno e piedoso e pelas entranhas de amor com que os amava, sempre conservou a santa sinceridade antiga de Coimbra, falando a todos por vós; e além de lhe ser muito trabalho pronunciar este nome Padre, pelo impedimento da língua, parece que o nome de Irmão lhe excitava mais amor e assim aos mesmos Padres falava por estes termos, dizendo: Irmão, vós tal e tal.  E posto que os homens de fora cuidavam que tratava com os irmãos asperamente, pelo zelo que nele conheciam, contudo a benignidade passava sempre pela severidade para com eles, assim nas repreensões e penitências como nas práticas espirituais, que fazia amiúdo com muita suavidade e lágrimas." - Padre José de Anchieta

 

BIOGRAFIA - Jesuíta português nascido em Entre-Douro-e-Minho em 1517, chefe da primeira missão jesuítica à América, cujas cartas que enviava para sua ordem servem como documentos históricos sobre o Brasil colonial e a ação jesuítica no século XVI. Estudou nas Universidades de Salamanca e Coimbra, bacharelando-se em direito canônico e filosofia pela Universidade de Coimbra (1541). Ordenado pela Companhia de Jesus (1544), embarcou na armada de Tomé de Sousa (1549), de quem foi amigo e conselheiro, como também o foi de Mem de Sá, a serviço da coroa portuguesa, com a missão de dedicar-se à catequese dos índios na colonização do Brasil.
Manuel da Nóbrega participou da fundação de Salvador e do Rio de Janeiro e também na luta contra os franceses como conselheiro de Mem de Sá. Na posse portuguesa sobre o novo continente seu maior mérito, além de constantes viagens por toda a costa, de São Vicente a Pernambuco, foi o de estimular a conquista do interior, ultrapassando e penetrando além da serra do Mar. Foi o primeiro a dar o exemplo, ao subir ao planalto de Piratininga, para fundar a cidade de São Paulo. Juntou-se (1563) a Anchieta e iniciaram o trabalho de pacificação dos tamoios, que retiraram seu apoio aos invasores franceses, sendo estes finalmente derrotados. Estácio de Sá, encarregado de fundar uma cidade, São Sebastião do Rio de Janeiro, construiu um colégio de jesuítas, do qual ele participou na fundação. Morreu na cidade do Rio de Janeiro em 18 de outubro (1570), no dia em que completava 53 anos de idade.

Os Escritos - Os escritos do Padre Manoel da Nóbrega formam um marco literário genuinamente produzido no Brasil. Nas cartas de Nóbrega encontra-se o início da história do povo brasileiro, dentro, é claro, do ponto de vista de um catequizador. Está ali, por exemplo, a luta entre cristãos e índios: os primeiros consideravam os segundos como “um papel branco” onde se podia escrever “as virtudes mais necessárias”. Ainda que Nóbrega não tenha a estatura lírica de José de Anchieta, seu Diálogo sobre a conversão do gentio, primeiro texto em prosa escrito no Brasil, tem grande valor literário.

Obras - O Diálogo sobre a Conversação do Gentio de 1557 o Caso de Consciência sobre a Liberdade dos Índios, de 1567; o Informação da Terra do Brasil, de 1549; o Informação das Coisas da Terra e Necessidade Que Há Para Bem Proceder Nela, de 1558; o Tratado Contra a Antropofagia, de 1559 são alguns testemunhos da sua vida e obra.

A CIDADE DE SÃO PAULO - A cidade de São Paulo originou-se de uma pequena aldeia indígena fundada entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, pelo jesuíta Manuel da Nóbrega, em 1554. A sua colonização se deu principalmente pelos padre jesuítas: Manuel da Nóbrega e José de Anchieta.
Os Jesuítas, ergueram um barracão que recebeu o nome de Colégio de São Paulo que prestava-se à catequese indígena. Ao seu redor formou-se uma povoação de índios convertidos. Aí se dava o início de uma grande cidade.

VISÃO DE ESTADISTA - Manuel da Nóbrega nasceu em Portugal. Mas foi em Salamanca, na Espanha, que realizou seus estudos superiores. Foi trazido de volta a Coimbra com promessas de conclusão do curso de direito, por um professor que nele reconheceu grande capacidade. Nesta cidade tornou-se sacerdote e mais tarde ingressou para a Companhia de Jesus.
Manuel da Nóbrega tinha qualidade de estadista, conseguia ver adiante. Por ele foi fundada a cidade de São Paulo, e evitada uma guerra em larga escala entre nativos e colonos. Estava sempre em ação. Várias vezes foi solicitado a interceder junto aos índios para que soltassem determinado refém prestes a ser devorado. Ou então denunciava as arbitrariedades das autoridades colonizadoras contra os índios. Isto, em condições sempre adversas, foi minando sua saúde. Muito doente morreu em 1570 com a tristeza de não ver assegurada aos Brasis o respeito por sua cultura.
No meio de sua colonização, São Paulo recebeu um enorme numero de habitantes, já que em 1560, a população da vila de Santo André Da Borda do Campo, situada no caminho do mar, mudou-se para a povoação do colégio, por ordem de Mem de Sá.
Como ajudante de Nóbrega, se destacou o Padre José de Anchieta, colaborando com a catequese dos índios.

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Agradecimento devido aos evangelizadores do Brasil - Bem lembrou a ex-deputada Sandra Cavalcanti, hoje secretária de Projetos Especiais da Prefeitura do Rio de Janeiro, diante da confusão espalhada pela imprensa sobre um possível "pedido de perdão" que a CNBB faria pela evangelização do Brasil: "Se foi crime colonizar o Brasil, buscar melhores condições de vida, implantar hábitos de higiene etc., então o pedido de desculpas não é só da Igreja Católica. É dos médicos, que desmoralizaram os curandeiros. É dos engenheiros, que construíram estradas de ferro e pontes. É dos professores, que ensinaram a ler e a escrever. É das famílias que não aceitaram mais matar velhos e crianças aleijadas. É dos cozinheiros europeus, que tiraram, de nosso cardápio, os saborosos churrascos de brancos, bispos e desafetos..."
E concluiu: "Nunca será demais exaltar as figuras de Nóbrega, Anchieta e seus companheiros. Pedir desculpas pela ação evangelizadora desses padres, definindo o seu comportamento como cruel, colonialista, desrespeitador, é dar prova de total desconhecimento dos fatos e de total cegueira diante da realidade."

No mesmo sentido se pronunciou o Papa João Paulo II em 1992: "Como sucessor de Pedro, desejo proclamar hoje diante dos senhores que a História é dirigida por Deus. (...) Face aos novos horizontes que se abriram a 12 de outubro de 1492, a Igreja, fiel ao mandato recebido de seu Divino Fundador (cfr. Mt. 28, 19) sentiu o dever peremptório de implantar a Cruz de Cristo nas novas terras e de pregar a Mensagem evangélica a seus moradores. (...) O que celebramos este ano é precisamente o nascimento desta esplêndida realidade: a chegada da Fé através da proclamação e difusão da Mensagem evangélica no continente. E o celebramos no sentido mais profundo e teológico do termo: como se celebra a Jesus Cristo, (...) o primeiro e maior Evangelizador, já que Ele próprio é o ‘Evangelho de Deus’ " (L’ Osservatore Romano, 15 de maio de 1992)

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* Brasis, ou Língua: Em suas cartas Manoel da Nóbrega fazia freqüentes referências aos "brasis", ou "língua", e que significa nativos da terra, brasileiros, índios, povo do Brasil, povo que falava a língua primitiva do Brasil.

 
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Este background é uma tentativa nossa em reproduzir  o tecido, ampliado algumas vezes
e em tom mais claro, do hábito ou batina utilizada por Manoel da Nóbrega enquanto padre jesuíta.
Para ter uma idéia mais precisa,
clique aqui e veja imagens do filme  "A MIssão",
com o ator Jeremy Irons ostentando o hábito em questão.

(Clique com o botão direito do mouse para copiar o fundo)
         
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