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Logo no início do livro "Cartas do Brasil", seu autor lança um protesto mais que justo. Diz ele: " Não posso deixar de dar princípio à vida do padre Manoel da Nóbrega com uma justa queixa contra nossos antepassados: vem a ser que, sendo este padre um tal homem, e tão grande, como se vê na narração de sua vida e virtudes, fundador da nossa Província do Brasil, não nos ficou em memória qual fosse do nosso Portugal o lugar, vila, cidade ou província em que nasceu*. É um descuido digno de nota, ficando-nos em lembrança muitos indícios de sua nobreza porque seu pai foi desembargador e um seu tio chanceler-mor do Reino. São honra dos povos os varões santos e também em sua vida as circunstâncias da pátria é das que se tem em conta, pelo gosto que com isso costumam ter os que são nascidos no mesmo torrão e mais, se são parentes de semelhantes heróis. A maior clareza que pude descobrir foi com os livros da matrícula da Universidade de Coimbra, fl. 135, onde se diz ser ele filho do desembargador Balthazar de Nóbrega, já falecido. Também se diz nos mesmos livros que tomou grau de bacharel aos 14 de junho de 1541, lhe dado pelo Doutor Martin de Espilcoeta, após provar ter Manoel da Nóbrega 5 anos de Cânones (regras disciplinares e eclesiásticas da Igreja Católica) em Salamanca. No arquivo de Roma se fez também diligência por sua pátria e nada se achou. (Cartas do Brasil, USP)
Em Coimbra, Manoel da Nóbrega se
graduou Bacharel. Por ser gago, não conseguiu o primeiro
lugar, posto que seu diretor, o Doutor Navarro estava
inclinado a dá-lo a outro aluno. Desfez da prova de leitura do
Nóbrega, obrigando-o a ler mais pois sabia muito bem de seu
problema mas este refez sua lição com tanto gosto que a todos
pareceu ser justo merecedor do primeiro lugar. Mas porque o
Reitor estava realmente inclinado a premiar um outro
companheiro de Nóbrega, deu a ele esta honra perante o juízo
de todos os doutores examinadores. Este meio tomou a Providência Divina para o tirar do mundo e fazer dele um de seus grandes servos... Tristonho, Nóbrega considerou consigo como o mundo o tinha abatido quando dele esperava grandes honras. Então determinou de se vingar desprezando-o. Iria pisar no mundo que o havia pisado. Assim, pediu para entrar na Companhia de Jesus, nela entrando em 21 de novembro de 1544. Como naquele momento se lançavam os alicerces da Companhia em Coimbra, havia grande alegria e fervor em todos, e o desejo ardente de procurar a perfeição própria, como a salvação da alma; em ambas a coisas muito se empenhou Manoel da Nóbrega. Exercitava-se tanto em casa quanto fora dela nas práticas da humildade e mortificação, que naqueles primitivos e dourados tempos eram muito naturais e comum a quase todos. Em uma verificação do padre superior Mestre Simão, escreveu num papel como resposta a questão sobre a que se sentia inclinado na Companhia: "Quisera não saber o que quero, mas em todo o caso somente querer a Jesus Crucificado." Como voto de obediência, Nóbrega recebeu o encargo de fazer pregação, de ouvir em confissão, de visitar cárceres e hospitais e acudir necessidades corporais e espirituais de particulares e nisso se empenhou com tanto fervor e espírito de caridade que, depois que foi para o Brasil, no tempo que ainda estava fresca sua memória, não se flava em Coimbra senão de seus favores e virtudes. (Lori M. Santos, Instituto André Luiz, do livro Cartas do Brasil, USP) * As biografias de Manoel da Nóbrega dão como certo seu nascimento entre as províncias de Douro e Minho, a 18 de outubro de 1517. (Nota nossa) |
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