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O pior de todos
os chefes seria o que se desse por eleito de Deus. Como não é
racional se admita que Deus confie tais missões a ambiciosos ou a
orgulhosos, as virtudes características de um verdadeiro messias têm
que ser, antes de tudo, a simplicidade, a humildade, a modéstia,
numa palavra, o mais completo desinteresse material e moral. -
Allan Kardec |
O chefe do Espiritismo - Mas quem será
encarregado de manter o Espiritismo nessa senda? Quem terá o lazer e a
perseverança necessários a se consagrar ao trabalho incessante que essa
tarefa exige? Se o Espiritismo for entregue a si mesmo, sem guia,
não será de temer que se desvie da sua rota? e que a malevolência, com a
qual ainda estará por longo tempo em luta, não procure desfigurar-lhe o
Espírito? É essa, com efeito, uma questão vital e cuja solução se reveste
do maior interesse para o futuro da Doutrina.
A necessidade de uma direção central superior, guarda vigilante da unidade
progressiva e dos interesses gerais da Doutrina, é tão evidente, que já
causa inquietação o não ser visto, a surgir no horizonte, o seu condutor.
Compreende-se que, sem uma autoridade moral, capaz de centralizar os
trabalhos, os estudos e as observações, de dar a impulsão, de estimular os
zelos, de defender os fracos, de sustentar os ânimos vacilantes, de ajudar
com os conselhos da experiência, de fixar a opinião sobre os pontos
incertos, o Espiritismo correria o risco de caminhar ao léu. Não somente
essa direção é necessária, como também preciso se faz que preencha
condições de força e de estabilidade suficientes para afrontar as
tempestades. Os que nenhuma autoridade admitem não compreendem os
verdadeiros interesses da Doutrina. Se alguns pensam poder dispensar toda
direção, a maioria, os que não se crêem infalíveis e não depositam
confiança absoluta em suas próprias luzes, se sentem necessitados de um
ponto de apoio, de um guia, ainda que apenas para ajudá-los a caminhar com
segurança. (Veja-se, na Revista de abril de 1866, pág. 111: «O Espiritismo
Independente».)
Reconhecida a necessidade de uma direção, de quem receberá poderes o chefe
para exercê-la? Será ele aclamado pela universalidade dos adeptos? Ë coisa
impraticável. Se se impuser por sua própria autoridade, uns o aceitarão,
enquanto que outros o recusarão, e podem surgir vinte pretendentes,
levantando bandeira contra bandeira. Fora ao mesmo tempo o despotismo e a
anarquia. Semelhante ato seria próprio de um ambicioso e ninguém conviria
menos do que um ambicioso, por isso mesmo orgulhoso, para chefiar uma
doutrina que se baseia na abnegação, no devotamento, no desinteresse, na
humildade. Colocado fora do princípio fundamental da Doutrina, outra coisa
não poderia fazer, senão falsear-lhe o espírito. Ë o que inevitavelmente
se daria, se de antemão se não adotassem medidas eficazes a prevenir esse
inconveniente.
Admitamos, no entanto, houvesse um homem com todas as qualidades
necessárias ao desempenho o seu mandato e que, por uma senda qualquer,
chegasse à direção suprema. Os homens se sucedem e não se assemelham;
depois de um bom, poderia vir um mau. Com o indivíduo, pode mudar o
espírito da direção; sem maus desígnios, pode ele ter modos de ver mais ou
menos justos; se entender de fazer que prevaleçam suas idéias pessoais,
pode levar a Doutrina a
transviar-se, suscitar dissidências e as mesmas dificuldades se renovarão
a cada mudança. Ë preciso não esquecer que o Espiritismo ainda não está na
plenitude da sua força. Do ponto de vista da organização, é uma criança
que mal começa a andar. Insta, pois, sobretudo no princípio, premuni-lo
contra os obstáculos do caminho.
Mas, dir-se-á, não virá estar à frente do Espiritismo um dos Espíritos
que, segundo foi anunciado, tem que tomar parte na obra de regeneração? É
provável; todavia, como esses Espíritos não trarão na fronte um sinal para
serem reconhecidos; como não se farão reconhecer como tais pela maioria,
senão depois de terem morrido, conformemente ao que houverem produzido
durante a vida; como, ao demais, não serão perpétuos, mister se torna
prever todas as eventualidades.É sabido que eles terão uma missão
multíplice; que serão de todos os graus da escala espiritual e se
encontrarão nos diversos ramos da economia social, onde cada um exercerá
influência a favor das novas idéias, conforme a particularidade da sua
posição; que todos, pois, trabalharão pelo ascendente da Doutrina, aqui e
ali, uns como chefes de Estado, outros como legistas, outros como
magistrados, sábios, literatos, oradores, industriais, etc.; que cada um
dará provas de si onde lhe caiba exercer sua atividade, desde o proletário
até o soberano, sem que qualquer coisa os distinga do comum dos homens, a
não serem suas obras. Se a um deles couber tomar parte na direção, é
provável que seja posto providencialmente na posição apropriada a fazê-lo
chegar lá pelos meios legais que forem adotados; circunstâncias
aparentemente fortuitas até lá o conduzirão, sem que de sua parte haja
desígnio premeditado, sem mesmo ter ele consciência de sua missão.
(Revista Espírita: «Os messias do Espiritismo», fevereiro-março de 1868,
páginas 45 e 65.)
Mas, dir-se-á, não virá
estar à frente do Espiritismo um dos Espíritos que, segundo foi anunciado,
tem que tomar parte na obra de regeneração? É provável; todavia, esses
Espíritos não trarão na fronte um sinal para serem reconhecidos... -
Allan Kardec
Em tal caso, o pior de todos os chefes seria o que se desse por eleito de
Deus. Como não é racional se admita que Deus confie tais missões a
ambiciosos ou a orgulhosos, as virtudes características de um verdadeiro
messias têm que ser, antes de tudo, a simplicidade, a humildade, a
modéstia, numa palavra, o mais completo desinteresse material e moral.
Ora, a só pretensão de ser um messias constituiria a negação dessas
qualidades essenciais; provaria, naquele que se prevalecesse de semelhante
título, ou tola presunção, em havendo boa-fé, ou insigne impostura. Não
faltarão intrigantes, pseudo-espíritas, que queiram elevar-se por orgulho,
ambição ou cupidez; outros que estadeiem pretensas revelações com o
auxilio das quais procurem salientar-se e fascinar as imaginações por
demais crédulas. É também de prever que, sob falsas aparências, indivíduos
haja que tentem apoderar-se do leme, com a idéia preconcebida de fazerem
soçobrar o navio, desviando-o da sua rota. O navio não soçobrará, mas
poderia sofrer prejudiciais atrasos que se devem evitar.
São esses, sem contestação, os maiores escolhos de que o Espiritismo
precisa preservar-se. Quanto maior consistência ele adquirir, tanto mais
ciladas lhe armarão seus adversários.
É, portanto, dever de todos os
espíritas sinceros anular as manobras da intriga que se possam urdir,
assim nos pequenos, como nos grandes centros. Deverão eles, em primeiro
lugar, repudiar, do modo mais absoluto, todo aquele que por si mesmo se
apresente qual messias, quer como chefe do Espiritismo, quer como simples
apóstolo da Doutrina. Pelo fruto é que se conhece a árvore; espere-se,
pois, que a árvore dê seu fruto, para decidir se ela é boa e veja-se
também se os frutos têm sabor. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap.
21º, nº 9: «Caracteres do verdadeiro profeta».)
Houve quem propusesse que os candidatos fossem designados pelos próprios
Espíritos em cada grupo ou sociedade espírita. Além de que este meio não
obviaria a todos os inconvenientes, apresentaria outros, peculiares a
semelhante modo de proceder, que a experiência já demonstrou e que fora
supérfluo lembrar aqui. Não se deve perder de vista que a missão dos
Espíritos consiste em nos instruir, para que nos melhoremos, porém não em
se sobreporem ao nosso livre-arbítrio. Eles nos sugerem idéias, ajudam com
seus conselhos, principalmente no que concerne às questões morais, mas
deixam ao nosso raciocínio o encargo da execução das coisas materiais,
encargo a que não lhes cabe poupar-nos. Contentem-se os homens com o serem
assistidos e protegidos por Espíritos bons; não descarreguem, porém, sobre
eles, a responsabilidade que incumbe ao encarnado.
Esse meio, aliás,
suscitaria maiores embaraços do que se poderia supor, pela dificuldade de
fazer-se que todos os grupos participassem de semelhante eleição. Seria
uma complicação nas rodagens e estas tanto menos suscetíveis se mostrarão
de desarranjar-se, quanto mais simplificadas forem.
O problema é, pois, o de constituir-se uma direção central em condições,
de força e estabilidade, que a ponham ao abrigo de todas as flutuações;
que correspondam a todas as necessidades da causa e oponham intransponível
barreira às tramas da intriga e da ambição. Tal o objetivo do plano de que
vamos dar um rápido esboço:
Comissão central - Durante
o período de elaboração, a direção do Espiritismo teve que ser individual; era
necessário que todos os elementos constitutivos da Doutrina, saídos, no estado
de embriões, de uma multidão de focos, se dirigissem para um centro comum, a fim
de serem aí examinados e cotejados, de sorte que um só pensamento presidisse à
coordenação deles, a fim de estabelecer-se a unidade no conjunto e a harmonia
entre todas as partes. Se não fosse assim, a Doutrina se teria assemelhado a um
mecanismo cujas rodas não se engrenam com precisão umas nas outras.
Já o temos dito, por ser verdade incontestável, hoje claramente demonstrada: a
Doutrina não podia sair, de um único centro, completamente estruturada, da mesma
maneira que toda a ciência astronômica não poderia sair, inteiramente
constituída, de um único observatório. Qualquer ‘centro que tentasse erguê-la
exclusivamente sobre as suas observações faria coisa incompleta e se acharia,
com relação a uma infinidade de pontos, em contradição com os outros. Se mil
centros quisessem fazer cada um a sua doutrina, não haveria duas iguais em todos
os pontos. Se estivessem de acordo quanto aos fundamentos, difeririam
inevitavelmente quanto à forma. Ora, como há muita gente que atenta mais na
forma do que na substância, tantas seriam as seitas quantas as formas
diferentes. Somente do conjunto e da comparação de todos os resultados parciais
podia resultar a unidade. Por isso é que era necessária a concentração dos
trabalhos. (A Gênese, cap. 1: «Caráter da revelação espírita», nºs 51 e
seguintes.)
Mas, o que era de vantagem por um certo tempo mais tarde se tornaria
inconveniente. Hoje, que o trabalho de elaboração se acha concluído, no que
concerne às questões fundamentais; que estabelecidos se encontram os princípios
gerais da Ciência, a direção, de individual que houve de ser em começo, tem que
se tornar coletiva, primeiramente, porque um momento há de vir em que o seu peso
excederá as forças de um homem e, em segundo lugar, porque maior garantia
apresenta um conjunto de indivíduos, a cada um dos quais caiba apenas um voto e
que nada podem sem o concurso mútuo, do que um só indivíduo, capaz de abusar da
sua autoridade e de querer que predominem as suas idéias pessoais.
Em vez de um chefe único, a direção será confiada a uma comissão central
permanente, cuja organização e atribuições se definam de maneira a não dar azo
ao arbítrio.
Essa comissão se comporá, no máximo, de doze membros titulares, que
deverão, para tal efeito, preencher certas condições indispensáveis, e de igual
número de conselheiros. Ela se completará a si mesma, segundo regras igualmente
determinadas, à medida que em seu seio se derem vagas por falecimentos ou por
outras causas. Uma disposição especial estabelecerá o modo por que serão
nomeados os doze primeiros.
A comissão nomeará o seu presidente por um ano. Puramente administrativa será a
autoridade do presidente. Ele dirigirá as deliberações da comissão, velará pela
execução dos trabalhos e pelo expediente; mas, fora das atribuições que os
estatutos constitutivos lhe conferirem, nenhuma decisão poderá tomar sem o
concurso da comissão. Portanto, não haverá possibilidade de abusos, nem
alimentos para a ambição, nem pretextos para intrigas ou ciúmes, nem supremacia
chocante.
A comissão central será, pois, a cabeça, o verdadeiro chefe do Espiritismo,
chefe coletivo, que nada poderá sem o assentimento da maioria. Suficientemente
numeroso para se esclarecer por meio da discussão, não o será bastante para que
haja confusão.
A autoridade da comissão central será temperada e seus atos fiscalizados pelos
congressos ou assembléias gerais, de que adiante falaremos.
Para a comunidade dos adeptos, a aprovação ou a desaprovação, o consentimento ou
a recusa, as decisões, em suma, de um corpo constituído, representando opinião
coletiva, forçosamente terão uma autoridade que jamais teriam, se emanassem de
um só indivíduo, que apenas representa uma opinião pessoal. É freqüente uma
pessoa rejeitar a opinião de outra, por entender que se humilharia, caso se
submetesse a essa opinião, e acatar sem dificuldades a de muitos.
Fica bem entendido que aqui se trata de autoridade moral, no que respeita à
interpretação e aplicação dos princípios da Doutrina, e não de um poder
disciplinar qualquer. Essa autoridade será, em matéria de Espiritismo, o que é a
de uma academia, em matéria de Ciência.
Para o público estranho, um corpo constituído tem maior ascendente e
preponderância; contra os adversários, sobretudo, apresenta uma força de
resistência e dispõe de meios de ação com que um indivíduo não poderia contar;
aquele luta com vantagens infinitamente maiores. Uma individualidade está
sujeita a ser atacada e aniquilada; o mesmo já não se dá com uma entidade
coletiva.
Semelhante entidade oferece garantias de estabilidade, que não existe, quando
tudo recai sobre uma cabeça única. Desde que o indivíduo se ache impedido por
uma causa qualquer, tudo fica paralisado. A entidade coletiva, ao contrário, se
perpetua incessantemente. Embora perca um ou vários de seus membros, nada
periclita.
A dificuldade, dirão, consistirá em reunir, de modo permanente, doze pessoas que
estejam sempre de acordo.
O essencial é que sejam acordes no tocante aos princípios fundamentais. Ora,
isso constituirá uma condição absoluta para que sejam admitidas à direção, como
para a de todos os que desta hajam de participar.
Sobre as questões pendentes de detalhes, pouco importa que divirjam, porquanto a
opinião da maioria é que prevalecerá. Àquele cuja maneira de ver for acertada,
não faltarão razões boas com que a justifique. Se algum, contrariado por não
conseguir que suas idéias predominem, se retirar, nem por isso deixariam as
coisas de seguir o seu curso e motivo não haveria para se lhe deplorar a saída,
pois que teria dado prova de uma suscetibilidade orgulhosa, pouco espírita, e
que poderia tornar-se origem de perturbações.
A causa mais comum de separatividade entre co-interessados é o conflito de
interesses e a possibilidade de uns suplantarem os outros, em proveito próprio.
Esta causa não pode existir, do momento em que o prejuízo de um em nada
aproveitará aos outros; desde que todos são solidários e somente podem perder,
em vez de ganhar, com a desunião. É esta uma questão de minúcia prevista na
organização.
Admitamos que entre os membros da comissão haja um irmão falso, um traidor, que
os inimigos da causa tenham ganho para si: que logrará ele fazer, não dispondo
senão do seu voto nas decisões? Suponhamos que, por impossível, toda a comissão
enverede por mau caminho: aí estarão os congressos para reconduzi-la à ordem.
A fiscalização dos atos da administração pertencerá aos congressos, que poderão
decretar a censura ou uma acusação contra a comissão central, por infração do
seu mandato, por violação dos princípios estabelecidos, ou por medidas
prejudiciais à Doutrina. Por isso é que se apelará da comissão para o congresso,
nas circunstâncias em que se julgue que a responsabilidade da primeira está
gravemente comprometida.
Sendo os congressos um freio para a comissão, na aprovação deles haure esta
última novas forças. É assim que o chefe coletivo depende, em definitivo, da
opinião geral e não pode, sem risco para si próprio, afastar-se do caminho reto.
Serão estas as atribuições
principais da comissão central:
| 01. |
Cuidar dos interesses
da Doutrina e da sua propagação; manter-lhe a utilidade, pela
conservação da integridade dos princípios firmados; prover ao
desenvolvimento de suas conseqüências; |
| 02. |
O estudo dos novos princípios,
suscetíveis de entrar no corpo da Doutrina;
(1) |
| 03. |
A concentração, em seu poder, de
todos os documentos e informações que interessem ao Espiritismo; |
| 04. |
A correspondência; |
| 05. |
A manutenção, a
consolidação e a extensão dos laços de fraternidade entre os adeptos
e as sociedades particulares dos diversos países; |
| 06. |
A direção da Revista, que será o
jornal oficial do Espiritismo e à qual se poderá juntar outra
publicação periódica; |
| 07. |
O exame e apreciação
das obras, dos artigos de jornais e de todos os escritos que
interessem à Doutrina: a refutação dos ataques, se aparecerem; |
| 08. |
A publicação das
obras fundamentais da Doutrina, nas condições mais favoráveis à sua
vulgarização; a elaboração e publicação das de que daremos o plano e
que não teremos tempo de executar em nossa atual existência; a
animação de que precisem as publicações que sejam de proveito para a
causa; |
| 09. |
A fundação e conservação da
biblioteca, dos arquivos e do museu; |
| 10. |
A administração da caixa de
socorros, do dispensário e do retiro; |
| 11. |
A administração dos negócios
materiais; |
| 12. |
A direção das sessões da Sociedade; |
| 13. |
O ensino oral; |
| 14. |
As visitas e instruções às reuniões
e sociedades particulares que se colocarem sob o seu patrocínio |
| 15. |
A convocação dos
congressos e assembléias gerais. Estas atribuições os membros da
comissão as distribuirão entre si, conforme a especialidade de cada
um, sendo eles, se for preciso, assistidos por certo número de
auxiliares ou de simples empregados. |
(1) Nota da
Editora: — Kardec parecia prever que muitos dos seus discípulos tenderiam para o
estacionamento. (voltar texto)
Instituições acessórias e complementares da comissão central - Muitas
instituições complementares serão anexadas à comissão central, como dependências
locais, à medida que as circunstâncias o permitirem, a saber:
1º - Uma biblioteca, onde
se encontrem reunidas todas as obras que interessem ao Espiritismo e que possam
ser consultadas no local, ou cedidas para leitura fora;
2º - Um museu, onde se achem colecionadas as primeiras obras de arte
espírita, os trabalhos mediúnicos mais notáveis, os retratos dos adeptos a quem
a causa muito deva pelo devotamento que lhe tenham demonstrado, os dos homens a
quem o Espiritismo renda homenagens, embora estranhos à Doutrina, como
benfeitores da Humanidade, grandes gênios missionários do progresso, etc.
3º - Um dispensário destinado às consultas médicas gratuitas e ao
tratamento de certas afecções, sob a direção de um médico diplomado;
4º - Uma caixa de socorros e de previdência em condições práticas;
5º - Um asilo;
6º - Uma sociedade de adeptos, que celebre sessões regulares.
Sem entrar num exame prematuro a
respeito, convém dizer algumas palavras acerca de dois artigos, com relação aos
quais poderão dar-se equívocos.
A criação de uma caixa geral de socorros é impraticável e apresentaria sérios
inconvenientes, como já o demonstramos em artigo especial. (Revista de julho de
1866, pág. 193.) A comissão não deve, pois, tomar um caminho que teria de
abandonar ao cabo de pouco tempo, nem empreender coisa alguma que não esteja
certa de poder realizar. Ela precisa ser positiva e não se embalar em ilusões
quiméricas. Esse o meio de caminhar longo tempo e com segurança. Para isso,
cumpre-lhe ficar sempre dentro dos limites do possível.
A caixa de socorros a criar-se não pode e não deve ser mais do que uma
instituição local, de ação circunscrita e cuja prudente organização sirva de
modelo às do mesmo gênero que as sociedades particulares venham a criar. Pela
sua multiplicidade é que elas prestarão serviços eficazes e não pela
centralização dos meios de ação.
Será alimentada: 1º pelas parcelas, que se lhe destinem, tiradas da renda da
caixa geral do Espiritismo; 2º pelos donativos especiais que lhe forem feitos.
Ela capitalizará as somas que receber, de maneira a constituir para si um
rendimento. Com essa renda é que prestará os socorros temporários ou vitalícios
e cumprirá as obrigações do seu mandato, estipuladas
no regulamento da sua constituição.
O projeto de um asilo, na acepção completa do termo, não poderá ter
execução logo de começo, pelos capitais que reclamaria semelhante fundação e, ao
demais, porque é preciso dar à administração tempo de se firmar e de atuar com
regularidade, antes de complicar suas atribuições com empreendimentos que possam
malograr-se. Fora imprudência tentar muitas coisas, antes de estar certa de
dispor dos meios de execução. É o que facilmente se compreenderá, desde que se
pense em todos os pormenores inerentes a estabelecimentos desse gênero.Convém,
sem dúvida, alimentar boas intenções, mas, antes de tudo, mister se faz poder
realizá-las.
O Espiritismo é uma questão
de fundo; prender-se à forma seria puerilidade indigna da grandeza do assunto.
Daí vem que os centros que se acharem penetrados do verdadeiro espírito do
Espiritismo deverão estender as mãos uns aos outros, fraternalmente, e unir-se
para combater os inimigos comuns:
a incredulidade e o fanatismo. - Allan Kardec
Amplitude de ação da comissão
central - No princípio, um centro de elaboração das idéias espíritas se
formou por si mesmo, sem desígnio premeditado, pela força das coisas, mas sem
nenhum caráter oficial. Ele era necessário, porquanto, se não existira, qual
seria o ponto de ligação dos espíritas disseminados por diferentes países? Não
podendo comunicar suas idéias, suas impressões, suas observações a todos os
outros centros particulares, esparsos a seu turno e não raro sem consistência,
ficariam insulados, com o que a difusão da Doutrina sofreria. Era, pois,
indispensável um ponto de concentração, donde tudo se irradiasse, O
desenvolvimento das idéias espíritas, longe de tornar inútil esse centro, ainda
melhor fará sentir a sua necessidade, porque tanto maior será a dos espíritas se
aproximarem e formarem feixe, quanto mais considerável for o número deles. A
constituição do Espiritismo, regularizando o estado das coisas, terá por efeito
fazê-lo produzir maiores vantagens e preencher as lacunas que apresente.
O
centro que essa •organização criará não será uma individualidade, mas um foco de
atividade coletiva, atuando no interesse geral e onde se apaga toda autoridade
pessoal.
Mas, qual será a amplitude do círculo de atividade desse centro? Destinar-se-á a
reger o mundo e a tornar-se árbitro universal da verdade? Alimentar semelhante
pretensão fora compreender mal o espírito do Espiritismo que, pela razão mesma
de proclamar os princípios do livre exame e da liberdade de consciência, repele
a idéia de arvorar-se em autocracia; logo que o fizesse, teria enveredado por
uma senda fatal.
O Espiritismo sustenta princípios que, por se fundarem nas leis da Natureza e
não em abstrações metafísicas, tendem a tornar-se, e um dia certamente o serão,
os da universalidade dos homens; todos os aceitarão, porque encontrarão neles
verdades palpáveis e demonstradas, como aceitaram a teoria do movimento da
Terra; mas, pretender-se que o Espiritismo chegue a estar, por toda parte,
organizado da mesma forma; que os espíritas do mundo inteiro se sujeitarão a um
regime uniforme, a uma mesma forma de proceder; que terão de esperar lhes venha
de um ponto fixo a luz, ponto em que deverão fixar os olhos, fora utopia tão
absurda como a de pretender-se que todos os povos da Terra formem um dia uma
única nação, governada por um só chefe, regida pelo mesmo código de leis e
submetida aos mesmos usos. Há, é certo, leis gerais que podem ser comuns a todos
os povos, mas que sempre, quanto às minúcias da aplicação e da forma, serão
apropriadas aos costumes, aos caracteres, aos climas de cada um.
Outro tanto se dará com o Espiritismo organizado. Os espíritas do mundo todo
terão princípios comuns, que os ligarão à grande família pelo sagrado laço da
fraternidade, mas cujas aplicações variarão segundo as regiões, sem que, por
isso, a unidade fundamental se rompa; sem que se formem seitas dissidentes a
atirar pedras e lançar anátemas umas às outras, o que seria absolutamente
anti-espírita. Poderão, pois, formar-se, e inevitavelmente se formarão, centros
gerais em diferentes países, ligados apenas pela comunidade da crença e pela
solidariedade moral, sem subordinação de uns aos outros, sem que o da França,
por exemplo, nutra a pretensão de impor-se aos espíritas americanos e
vice-versa.
É perfeitamente justa a comparação, de que acima nos valemos, com os
observatórios. Há-os em diferentes pontos do globo; todos, seja qual for a nação
a que pertençam, se fundam em princípios gerais firmados pela Astronomia, o que,
entretanto, não os torna tributários uns dos outros. Cada um regula como entende
os respectivos trabalhos. Permutam suas observações
e cada um se utiliza da Ciência e das descobertas dos outros. Assim acontecerá
com os centros gerais do Espiritismo; serão os observatórios do mundo invisível,
que permutarão entre si o que obtiverem de bom e de aplicável aos costumes dos
países onde funcionarem, uma vez que o objetivo que eles colimam é o bem da
Humanidade e não a satisfação de ambições pessoais.
O Espiritismo é uma questão
de fundo; prender-se à forma seria puerilidade indigna da grandeza do assunto.
Daí vem que os centros que se acharem penetrados do verdadeiro espírito do
Espiritismo deverão estender as mãos uns aos outros, fraternalmente, e unir-se
para combater os inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo.
Os estatutos constitutivos
- A redação dos estatutos constitutivos deve preceder a toda execução. Se for
confiada a uma assembléia, preciso é que antecipadamente se determinem as
condições que devam preencher os que sejam encarregados do trabalho. A falta de
base prévia, a divergência de pontos de vista, possivelmente as pretensões
individuais, sem falar das intrigas dos adversários, poderiam produzir
dissídios. Trabalho de tão grande alcance não pode improvisar-se; demanda longa
elaboração, conhecimento das necessidades reais da Doutrina, conhecimento esse
adquirido por meio da experiência e de sérias meditações. Para que haja unidade
de vistas, harmonia e coordenação de todas as partes do conjunto, tem ele que
promanar da iniciativa individual, ressalvada a possibilidade de receber mais
tarde a sanção dos interessados. De princípio, porém, será necessária uma regra,
um rumo traçado, um objetivo determinado. Estabelecida a regra, caminha-se com
segurança, sem tateamentos, nem hesitações.
Todavia, como a ninguém é dado possuir a luz universal, nem fazer perfeito o que
quer que seja; como um homem pode equivocar-se acerca de suas próprias idéias,
enquanto que outros podem ver o que ele não vê; como seria abusiva a pretensão
de quem quisesse impor-se por qualquer título, os estatutos serão submetidos à
revisão do congresso que haja de reunir-se mais proximamente, o qual poderá
fazer-lhe as retificações que pareçam convenientes.Mas, uma constituição, por
muito boa que seja, não poderia ser perpétua. O que é bom para certa época pode
tornar-se deficiente em época posterior. As necessidades variam com as épocas e
com o desenvolvimento das idéias. Se não se quiser que com o tempo ela caia em
desuso, ou que venha a ser postergada pelas idéias progressistas, será
necessário caminhe com essas idéias. Dá-se com as doutrinas filosóficas e com as
sociedades particulares o que acontece em política e em religião: acompanhar ou
não o movimento propulsivo é uma questão de vida ou de morte. No caso de que
aqui se trata, fora grave erro acorrentar o futuro por
meio de uma regra que se declarasse inflexível. Não menos grave erro seria
introduzir com muita freqüência, na constituição orgânica, modificações que
acabariam por privá-la de estabilidade. Faz-se mister proceder com ponderação e
circunspeção. Só uma experiência de certa duração pode permitir se julgue da
utilidade real das modificações. Ora, quem pode em tal caso ser juiz? Não será
um único homem, que geralmente só do seu ponto de vista vê as coisas; tampouco
será o autor do trabalho primitivo, porque poderá ser demasiado complacente na
apreciação da sua obra. Serão os próprios interessados, porque experimentam de
modo direto e permanente os efeitos da instituição e podem perceber por onde ela
peca.
A revisão dos estatutos constitutivos se fará pelos congressos ordinários,
transformados para esse efeito em congressos orgânicos, em determinadas épocas,
e assim se prosseguirá indefinidamente, de maneira a conservá-los, sem
interrupção, ao nível das necessidades e do progresso das idéias, ainda que a
mil anos daqui. Sendo periódicas e conhecidas antecipadamente as épocas de
revisão, não haverá cabimento para se fazerem apelos, nem convocações especiais.
A revisão constituirá não apenas um direito, mas também um dever do congresso da
época indicada; inscrever-se-á, de antemão, na sua ordem do dia, de sorte que
não estará subordinada à boa-vontade de quem quer que seja e ninguém poderá
arrogar-se o direito de decidir, firmado na sua autoridade particular, se a
revisão é ou não oportuna. Se, depois de lidos os estatutos, o congresso julgar
desnecessária qualquer modificação, declará-los-á mantidos na íntegra. Sendo
forçosamente limitado o número dos membros dos congressos, atenta a
impossibilidade material de reunir neles todos os interessados, para que os que
se reúnam não fiquem privados das luzes dos ausentes, todos estes poderão,
qualquer que seja o lugar do mundo onde se encontrem, enviar à comissão central,
no intervalo de dois congressos orgânicos, suas observações, que serão postas em
ordem do dia do congresso vindouro. Nenhum movimento apreciável das idéias se
esboça em período menor do que um quarto de século. De vinte cinco em vinte
cinco anos, pois, é que a constituição orgânica do Espiritismo será submetida à
revisão. Sem ser demasiado longo, esse lapso de tempo é suficiente a permitir se
apreciem as necessidades novas e não se causem perturbações por efeito de
modificações muito freqüentes.
Contudo, como nos primeiros anos é que se verificará o maior trabalho de
elaboração; é que o movimento a operar-se nessa ocasião pode fazer surjam
necessidades imprevistas, até que a sociedade haja firmado seus passos; e é que
importa se aproveitem, sem grande demora, as lições da experiência, mais
aproximadas serão as épocas de revisão, porém sempre determinadas previamente,
até ao fim do século atual. No intervalo dos trinta primeiros anos, a
constituição se terá completado e retificado suficientemente, para gozar de
relativa estabilidade. Então é que, sem inconveniente, poderão começar os
períodos de vinte cinco anos. Desta maneira, a obra individual primitiva, que
abrira o caminho, se tornará obra coletiva de todos os interessados, com as
vantagens inerentes a esses dois modos, sem os seus inconvenientes. Ela se
modificará sob o império das idéias progressivas e da experiência, mas sem
abalos, sem precipitações, porque obedecerá ao princípio estabelecido na própria
constituição.
Do programa das crenças - A condição absoluta de vitalidade para toda
reunião ou associação, qualquer que seja o seu objetivo, é a homogeneidade, isto
é, a unidade de vistas, de princípios e de sentimentos, a tendência para um
mesmo fim determinado, numa palavra: a comunhão de idéias. Todas as vezes que
alguns homens se congregam em nome de uma idéia vaga jamais chegam a
entender-se, porque cada um apreende essa idéia de maneira diferente. Toda
reunião formada de elementos heterogêneos traz em si os germens da sua
dissolução, porque se compõe de interesses divergentes, materiais, ou de
amor-próprio, tendentes a fins diversos que se entrechocam e rarissimamente se
mostram dispostos a fazer concessões ao interesse comum, ou mesmo à razão; que
suportam a opinião da maioria, se outra coisa não lhes é possível, mas que nunca
se aliam francamente.
Assim foi sempre, até ao advento do Espiritismo. Formado gradativamente, como
todas as ciências, em conseqüência de observações sucessivas, sua aceitação tem
ganho pouco a pouco maior amplitude, O qualificativo de espírita, aplicado
sucessivamente a todos os graus de crença, comporta uma infinidade de matizes,
desde o da simples crença nas manifestações, até as mais altas deduções morais e
filosóficas; desde aquele que, detendo-se na superfície, não vê nas
manifestações mais do que um passatempo, até aquele que procura a concordância
dos seus princípios com as leis universais e a aplicação dos mesmos princípios
aos interesses gerais da Humanidade; enfim, desde aquele que não vê nas
manifestações senão um meio de exploração em proveito próprio, até o que haure
delas elementos para seu próprio melhoramento moral.
Dizer-se alguém espírita, mesmo espírita convicto, não indica, pois, de modo
algum, a medida da crença, essa palavra exprime muito, com relação a uns, e
muito pouco, relativamente a outros. Uma assembléia para a qual se convocassem
todos os que se dizem espíritas apresentaria um amálgama de opiniões
divergentes, que não poderiam assimilar-se reciprocamente, e nada de sério
chegaria a realizar, sem falar dos interessados a
suscitarem no seu seio as discussões a que ela abrisse ensejo.
Essa falta de precisão, inevitável no começo e durante o período de elaboração,
há
freqüentemente causado equívocos lamentáveis, fazendo se atribuísse à Doutrina o
que não
passava de abuso ou transviamento. Pela falsa aplicação que diariamente se faz
do
qualificativo de espírita, é que a crítica, pouco inquirindo do fundo das coisas
e ainda
menos do lado sério do Espiritismo, encontrou nele matéria para zombarias.
Diga-se espírita
um indivíduo, ou pretenda fazer Espiritismo como os prestidigitadores pretendem
fazer
física, embora seja um saltimbanco, e logo se considera representante da
Doutrina. Uma
distinção, é certo, se tem feito entre os bons e os maus, os verdadeiros e os
falsos
espíritas, os espíritas mais ou menos esclarecidos, mais ou menos convencidos,
os espíritas
de coração, etc. Mas, essas designações, sempre vagas, nada de autêntico
revelam, nada que
os caracterize, quando não se conhecem os indivíduos e ainda não se teve ocasião
de os
julgar por suas obras.
Pode-se, pois, ser enganado pelas aparências, donde resulta que a qualificação
de espírita,
não comportando mais que uma aplicação falha, não constitui recomendação
absoluta e essa
incerteza lança nos espíritas uma espécie de desconfiança, que impede se
estabeleça entre
os adeptos um laço sério de confraternização.
Hoje, quando nenhuma dúvida mais se legitima sobre os pontos fundamentais da
Doutrina, nem
sobre os deveres que tocam a todos os adeptos sérios, a qualidade de espírita
pode ter um
caráter definido, de que antes carecia. Ë possível estabelecer-se um formulário
de
profissão de fé e a adesão, por escrito, a esse programa será testemunho
autêntico da
maneira de considerar o Espiritismo. Essa adesão, comprovando a unidade dos
princípios,
será, além do mais, o laço que unirá os adeptos numa grande família, sem
distinção de
nacionalidades, sob o império de uma mesma fé, de uma comunhão de pensamentos,
de modos de
ver e de aspirações. A crença no Espiritismo já não será simples aquiescência,
muitas vezes
parcial, a uma idéia vaga, porém uma adesão motivada, feita com conhecimento de
causa e
comprovada por um título oficial, deferido ao aderente. Para evitar os
inconvenientes da
falta de precisão, quanto ao qualificativo de espírita, os signatários da
profissão de fé
tomarão o título de espíritas professos.
Assentando numa base precisa e definida, essa qualificação a nenhum equívoco dá
lugar,
permitindo que os adeptos que professem os mesmos princípios e caminhem pela
mesma senda se
reconheçam, sem outra formalidade mais do que a declaração de sua qualidade e,
se for
preciso, a apresentação do seu título.
Um formulário de profissão de fé, circunstanciado e claramente expresso será o
caminho
traçado; o título de espírita professo será a palavra de ligação.
Mas, perguntar-se-á, esse título constituirá garantia bastante contra os de
sinceridade
duvidosa?
É impossível obter-se garantia absoluta contra a má-fé, porquanto pessoas há que
tratam com
descaso os atos mais solenes; convenhamos, todavia, em que essa garantia vale
mais do que
qualquer outra que não exista. Aliás, aquele que, sem escrúpulos, se faz passar
pelo que
não é — quando a questão é só de palavras que voam muitas vezes recua diante de
uma
afirmação escrita, que deixa vestígios e que lhe pode ser apresentada no caso de
ele
afastar-se do caminho reto.
Se, entretanto, alguns haja que não se deixem deter
por essa
consideração, mínimo seria o número deles e nenhuma influência teriam. Ao
demais, essa
hipótese estará prevista nos estatutos, que lhe consagrarão um dispositivo
especial.
Tal providência inevitavelmente afastará das reuniões sérias as pessoas que aí
não estariam
em seus devidos lugares. Se ela tivesse por efeito o afastamento de alguns
espíritas de
boa-fé, estes seriam dos que não se acham bastante senhores de si mesmos, para
se
declararem tais, ou dos timoratos, que temem pôr-se em evidência, ou, ainda, dos
que jamais
são os primeiros a pronunciar-se, em quaisquer circunstâncias, antes de verem
que rumo
tomam as coisas. Com o tempo, uns se esclarecerão de modo mais completo e os
outros tomarão
coragem. Nem uns, nem outros, no entanto, poderão contar-se entre os firmes
defensores da
causa. Quanto àqueles cuja ausência fora verdadeiramente de lamentar, será
pequeno o número
deles e diminuirá continuamente.
Nada sendo perfeito neste mundo, as melhores coisas têm seus inconvenientes. Se
se houvesse
de rejeitar tudo o que não esteja isento de inconveniências, nada se admitiria.
Em tudo se
faz preciso contrapesar as vantagens e desvantagens.
Ora, é por demais evidente
que, aqui,
as primeiras sobrepujam as segundas.
Que nem todos os que se qualificam de espíritas se submeterão à constituição, é
certo; por
isso mesmo, ela existirá apenas para os que a aceitarem livremente e
voluntariamente,
porquanto não nutrirá a pretensão de impor-se a quem quer que seja.
Uma vez que o Espiritismo não é compreendido da mesma forma por toda a gente, a
constituição apela para os que o encaram do seu ponto de vista, com o objetivo
de lhe dar
apoio, quando se achem isolados, e de fortalecer os laços da grande família pela
unidade da
crença. Mas, fiel ao princípio de liberdade de consciência, que a Doutrina
proclama como
direito natura], ela respeitará todas as convicções sinceras e não anatematizará
os que
sustentem idéias diferentes das suas, nem deixará de aproveitar as luzes que
possam brilhar
fora do seu seio.
O essencial é, portanto, conhecer os que seguem a mesma trilha. Mas, como
sabê-lo com
exatidão? Ë materialmente impossível consegui-lo por meio de interrogatórios
individuais,
acrescendo que ninguém pode ser investido do direito de perscrutar as
consciências.
O único
meio, o mais simples, o mais legal, seria estabelecer um formulário de
princípios,
resumindo o estado dos conhecimentos atuais que ressaltam da observação e que
têm a
sancioná-los o ensino geral dos Espíritos, ensino a que cada um é livre de
aderir ou não. A
adesão escrita é uma profissão de fé, que dispensa qualquer outra investigação,
deixando a
cada um inteira liberdade.
Conseguintemente, a constituição do Espiritismo tem como complemento necessário,
no que
concerne à crença, um programa de princípios definidos, sem o qual seria obra
sem alcance e
sem futuro. Este programa, fruto da experiência adquirida, será o marco
indicador do
caminho. Para perlustrá-lo com segurança, a par da constituição orgânica, faz-se
necessária
uma constituição da fé, um credo, se o preferirem, que seja o ponto de
referência de todos
os adeptos.
Contudo, nem esse programa, nem a constituição orgânica podem ou devem
acorrentar o futuro,
sob pena de sucumbirem, cedo ou tarde, sob as coações do progresso. Fundado de
acordo com o
estado presente dos conhecimentos, tem ele que se modificar e completar à medida
que novas
observações lhe demonstrarem as deficiências ou os defeitos. As modificações,
entretanto,
não lhe devem ser introduzidas levianamente, nem com precipitação. Hão de ser
obra dos
congressos orgânicos que, à revisão periódica dos estatutos constitutivos,
acrescentará a
do formulário dos princípios.
Marchando constantemente de harmonia com o progresso, constituição e credo
subsistirão na
sucessão dos tempos.
Vias e meios -
É de lastimar, sem dúvida, que tenhamos de entrar em considerações de ordem
material, para
alcançarmos um objetivo todo espiritual. Cumpre, porém, observemos que a
espiritualidade
mesma da obra se prende à questão da Humanidade terrena e do seu bem-estar; que
já não se
trata somente da emissão de algumas idéias filosóficas, mas de fundar alguma
coisa de
positivo e de durável. Imaginar que ainda estamos nos tempos em que alguns
apóstolos podiam
pôr-se a caminho com um bastão de viagem, sem cogitarem de saber onde pousariam,
nem do que
comeriam, fora alimentar uma ilusão que bem depressa amarga decepção destruiria.
Para
alguém fazer qualquer coisa de sério, tem que se submeter às necessidades
impostas pelos
costumes da época em que vive e essas necessidades são muito diversas das dos
tempos da
vida patriarcal. O próprio interesse do Espiritismo exige, pois, que se apreciem
os meios
de ação, para não ser forçoso parar a meio do caminho. Apreciemo-los, portanto,
uma vez que
estamos num século em que é preciso calcular tudo.
São em grande número, como se vê, as atribuições da comissão central, para
necessitarem de
uma verdadeira administração. Tendo cada um de seus membros funções ativas e
assíduas, se
apenas a constituíssem homens de boa-vontade, os trabalhos seriam prejudicados,
porquanto
ninguém teria o direito de censurar os negligentes. Para regularidade dos
trabalhos e
normalidade do expediente, necessário se torna contar com homens de cuja
assiduidade se
possa estar certo e que não considerem suas funções como simples atos de
comprazer.
De
quanto mais independência eles forem senhores, pelos seus recursos pessoais,
tanto menos se
deixarão prender por ocupações quaisquer; se não dispuserem de tempo, não
poderão
consagrá-lo àquelas funções. Importa, pois, que sejam retribuídos, assim como o
pessoal
administrativo. A Doutrina com isso ganhará em força, em estabilidade, em
pontualidade, do
mesmo passo que constituirá um meio de prestar serviços a pessoas que dela
necessitem. Ponto essencial, na economia de toda administração previdente, é que sua
existência não
dependa de produtos eventuais que possam fazer falta, mas de recursos certos,
regulares, de
maneira que sua marcha, aconteça o que acontecer, não seja embaraçada. Insta,
pois, que as
pessoas que forem chamadas a lhe prestar concurso, não se sintam inquietas pelo
futuro que
as aguarde. Ora, a experiência demonstra que se devem considerar essencialmente
aleatórios
os recursos que apenas tenham por base o produto de cotas ou contribuições,
sempre
facultativas, quaisquer que sejam os compromissos contraídos, e de cobrança
sempre difícil. Assentar despesas permanentes e regulares sobre recursos eventuais, implicaria
falta de
previdência, que mais tarde se haveria de deplorar. Menos graves são, sem
dúvida, as
conseqüências, quando se trate de fundações temporárias, destinadas a durar
quanto possam;
aqui, porém, é uma questão de futuro. A sorte de uma administração como esta não
pode ficar
subordinada aos azares de um negócio comercial; precisa ser, desde o seu início,
senão tão
florescente, pelo menos tão estável quanto o será daqui a um século.
Em tal caso, a mais vulgar prudência manda se capitalizem, de forma inalienável,
os
recursos, à proporção que vão sendo obtidos, a fim de constituir-se uma renda
perpétua, a
coberto de todas as eventualidades. Regulando a administração a sua despesa pela
renda que
aufira, não pode a sua existência, em nenhum caso, achar-se comprometida, pois
que disporá
sempre de meios para funcionar. Pode, no começo, organizar-se em menor escala; o
número de
membros da comissão poderá ser limitado provisoriamente a cinco ou seis, o
pessoal e os
gastos administrativos reduzidos ao mínimo possível, sem prejuízo do
desenvolvimento dos
recursos.
A preparar o caminho para essa instalação é que consagramos até agora o fruto
dos nossos
trabalhos, conforme dissemos acima. Se os nossos recursos pessoais não nos
permitem fazer
mais, temos, pelo menos, a satisfação de haver colocado a primeira pedra.
Figuremos então que, de um modo ou doutro, a comissão central, em dado tempo,
esteja em
condições de funcionar, o que pressupõe uma renda de 25 a 30.000 francos.
Restringindo, em
começo, as suas despesas, os recursos de toda espécie de que disponha, em
capitais e
produtos eventuais, constituirão a Caixa Geral do Espiritismo, que será objeto
de uma
contabilidade rigorosa. Reguladas as despesas obrigatórias, o excedente da renda
irá
aumentar o capital comum. Proporcionalmente, com os recursos desse capital é que
a comissão
proverá às diversas despesas proveitosas ao desenvolvimento da Doutrina, sem que
jamais
faça dele aplicação pessoal, nem fonte de especulação para qualquer de seus
membros. Ao
demais, o emprego dos fundos e escrituração serão submetidos à verificação de
comissários
especiais, designados, para esse efeito, pelos congressos ou assembléias gerais.
A comissão terá por um de seus primeiros cuidados ocupar-se com as publicações,
desde que
seja possível, sem esperar que o possa fazer com o auxílio das rendas. Os fundos
a isso
destinados não serão, em realidade, mais que um adiantamento, pois que voltarão
à caixa, em
virtude da venda das obras, cujo produto reverterá ao capital comum. Ë um
negócio de
administração.
Allan Kardec e a nova constituição
-
Como prelúdio da nova constituição do Espiritismo, que ele elaborava, e a
externação da sua
maneira de ver com referência à sua posição pessoal, têm perfeito cabimento
neste preâmbulo
as considerações que passamos a reproduzir, extraídas da exposição que, a
propósito da
Caixa do Espiritismo, ele fez à Sociedade de Paris, em 5 de maio de 1865.
«Muito se há falado dos proventos que eu retirava das minhas obras. Certamente,
nenhuma
pessoa séria acredita nos meus milhões, a despeito da afirmação dos que diziam
saber de boa
fonte que eu mantinha um trem principesco, carruagens a quatro e que em minha
casa se
andava por cima de tapetes d’Aubusson. (Revista de junho de 1862, pág. 179.)
Além disso, não obstante o que disse o autor de uma brochura que conheceis,
provando, por meio de cálculos hiperbólicos, que o meu orçamento de receita
ultrapassa a lista civil do mais poderoso soberano da Europa, porquanto, só na
França, vinte milhões de espíritas são meus tributários (Revista de julho de
1863, pág. 175), há um fato mais autêntico do que os seus cálculos, isto é:
que eu nada nunca pedi a ninguém, que nunca ninguém me deu nada para mim
pessoalmente; numa palavra: que não vivo a expensas de quem quer que seja, pois
que, das somas que voluntariamente se me confiaram no interesse do Espiritismo,
nenhuma parcela foi desviada em meu proveito.
(1) «As minhas imensas riquezas proviriam, pois, das
minhas obras espíritas. Conquanto essas obras tenham alcançado inesperado êxito,
quem quer que esteja um pouco iniciado em negócios de livraria sabe que não é
com livros filosóficos que se ganham milhões em cinco ou seis anos, quando sobre
as vendas não se tem mais do que os direitos de autor, que não passam de alguns
cêntimos por exemplar. Mas, avultado ou mínimo, sendo esse lucro fruto do meu
trabalho, ninguém tem o direito de se imiscuir no emprego que lhe dou."
(1) Essas
somas se elevavam naquela época ao total de 14.100 francos, cujo emprego, a
favor exclusivamente da Doutrina, se acha justificado pelas contas. (voltar
texto)
«Comercialmente falando, estou
na posição de qualquer homem que colha o fruto de seu trabalho; corro os azares
de todo escritor que tanto pode ser bem sucedido, como pode sofrer um malogro.
«Quem quer que tenha visto a nossa habitação outrora e a veja hoje poderá
atestar que nada mudou na nossa maneira de viver, depois que entrei a ocupar-me
com o Espiritismo; ela é agora absolutamente tão simples quanto o era
antigamente. É, portanto, manifesto que meus lucros, quaisquer que tenham sido,
não deram para nos proporcionar os gozos do luxo. Que se segue daí? «Tirando-me
da obscuridade, o Espiritismo me lançou num novo rumo; em pouco tempo, vi-me
arrastado por um movimento que me achava longe de prever. Quando concebi a idéia
de O Livro dos Espíritos, era minha intenção não me pôr de modo algum em
evidência e permanecer desconhecido; mas, para logo ultrapassados os limites que
eu imaginara, isso não me foi possível; tive de renunciar ao meu gosto pelo
insulamento, sob pena de abdicar da obra empreendida e que crescia de dia para
dia; foi-me preciso ceder à impulsão e tomar-lhe as rédeas. À proporção que ela
se desenvolvia, mais vasto horizonte se desdobrava diante de mim e lhe
distanciava os lindes. Compreendi então a imensidade da minha tarefa e a
importância do trabalho que me restava fazer para completá-la. As dificuldades e
os obstáculos, longe de me atemorizarem, redobraram as minhas energias. Divisei
o fim objetivado e resolvi atingi-lo, com a assistência dos bons Espíritos.
Sentia que não tinha tempo a perder e não perdi, nem em visitas inúteis, nem em
cerimônias estéreis. Foi a obra de minha vida. Dei-lhe todo o meu tempo,
sacrifiquei-lhe o meu repouso, a minha saúde, porque diante de mim o futuro
estava escrito em letras irrecusáveis. «Sem me afastar do meu gênero de vida,
nem por isso essa posição excepcional deixou de criar-me necessidades a que só
os meus recursos pessoais, muito limitados, não me permitiam prover. Seria
difícil a outrem imaginar a multiplicidade das despesas que aquela posição
acarreta e que, sem ela, eu teria evitado. «Pois bem! senhores, o que me
proporcionou suprimento aos meus recursos foi o produto das minhas obras. Digo-o
com satisfação, foi com o meu próprio trabalho, com o fruto das minhas vigílias
que provi, em sua maior parte pelo menos, às necessidades materiais da
instalação da Doutrina. Levei assim uma larga contribuição à Caixa do
Espiritismo; os que ajudam a propagação das obras não poderão, conseguintemente,
dizer que trabalham para me enriquecer, porque o produto da venda de todo livro,
de toda assinatura da Revista redunda em proveito da Doutrina e não do
indivíduo. «Mas, prover ao presente não era tudo; importava também pensar no
futuro e preparar uma fundação que, depois de mim, pudesse auxiliar aquele que
me substituísse na grande tarefa que terá de desempenhar. Essa fundação, a cujo
respeito ainda devo guardar silêncio, se prende à propriedade que possuo e é em
vista disso que aplico, em melhorá-la, uma parte do que ganho. Como estou longe
dos milhões com que me gratificaram, duvido muito que, sem embargo das minhas
economias, os meus recursos me permitam jamais dar a essa fundação o complemento
que eu desejara ela tivesse, ainda em minha vida. Uma vez, porém, que a sua
realização está nos desígnios dos meus guias espirituais, se eu próprio não o
fizer, é provável que, um dia ou outro, isso se fará. Enquanto aguardo, vou
elaborando os planos a que ela obedecerá. «Longe de mim, senhores, a idéia de me
envaidecer, ainda que de leve, com o que acabo de expor-vos. Foi necessária a
pertinácia de certas diatribes, para que eu me decidisse, embora a contragosto,
a quebrar o silêncio acerca de alguns fatos que me concernem. Mais tarde, todos
aqueles que à malignidade aprouve desnaturar serão evidenciados, por meio de
documentos autênticos. Ainda não chegou a oportunidade para essas explicações. A
única coisa que por enquanto me importava era que ficásseis esclarecidos com
relação ao destino dos fundos que a Providência faz que passem pelas minhas
mãos, qualquer que seja a proveniência deles. Não me considero mais do que um
depositário, até mesmo do que ganho; portanto, com mais forte razão, daquilo que
me é confiado. (Perguntou-me alguém certo dia, sem curiosidade, bem
entendido, por mero interesse pela coisa em si, o que eu faria de um milhão de
francos, se o tivesse. Respondi-lhe que, presentemente, o emprego dessa soma
teria de ser totalmente diverso do que houvera sido no princípio. Outrora, eu
com ela teria feito a propaganda, mediante larga publicidade; agora, reconheço
que isso seria inútil, pois que os nossos adversários se encarregaram de
custeá-la. Não me pondo então à disposição grandes recursos, os Espíritos
quiseram provar que o Espiritismo devia seus triunfos à sua própria força.
«Hoje, ampliado como está o horizonte e quando, sobretudo, o futuro se
desdobrou, são de ordem muito diferente as necessidades que se fazem sentir. Um
capital, como o figurado, teria emprego mais útil. Sem entrar em pormenores que
seriam prematuros, direi apenas que uma parte se destinaria a converter a minha
propriedade numa casa especial de retiro espírita, cujos habitantes colheriam os
benefícios da nossa doutrina moral; outra a constituir uma renda inalienável,
destinada: 1º a manter o estabelecimento; 2º a assegurar uma existência
independente àquele que me sucedesse e aos que o ajudassem no desempenho da sua
missão; 39 a atender às necessidades correntes do Espiritismo, sem os riscos de
auxílios eventuais, como sou obrigado a fazer, pois que a maior parte de seus
recursos decorrem do meu trabalho, que terá termo. «Aí está o que eu faria; mas,
se tal satisfação não me é dada, sei que, de um modo ou de outro, os Espíritos
que dirigem o movimento proverão a todas as necessidades em tempo oportuno. Por
isso, de forma nenhuma me inquieto e só me ocupo com o que, para mim, é o
essencial: o acabamento dos trabalhos que me restam por terminar.» * Ao que ele
então dizia, acrescentou recentemente "Allan Kardec: Quando a comissão estiver
organizada, dela faremos parte como simples membro seu, dando-lhe a nossa
colaboração, sem reivindicar, para nós, nem supremacia, nem título, nem qualquer
privilégio. Embora membro ativo da comissão, não pesaremos de forma alguma no
seu orçamento, nem por honorários, nem por despesas de viagens, nem por qualquer
outra causa. Se nunca a ninguém nada pedimos para nós, ainda menos o faríamos
nesta circunstância. Nosso tempo, nossa vida, todas as nossas forças físicas e
intelectuais pertencem à Doutrina. Declaramos, pois, formalmente, que nenhuma
parcela dos recursos de que dispuser a comissão será desviada em proveito nosso.
Dar-lhe-emos, ao contrário, a nossa contribuição: 1º abrindo mão, em seu favor,
do que produzam as nossas obras, feitas e por fazer; 2º doando-lhe valores
mobiliários e imobiliários. Em se achando organizado o Espiritismo pela
constituição da comissão central, nossas obras se tornarão propriedade do
Espiritismo, na pessoa dessa mesma comissão, que as gerirá e cuidará da
publicação delas, pelos meios mais apropriados a popularizá-las. Ela também
deverá cuidar de que sejam traduzidas nas principais línguas estrangeiras. A
Revista foi, até agora, e não podia deixar de ser, uma obra pessoal, visto que
fazia parte das nossas obras doutrinárias, constituindo os anais do Espiritismo.
Por seu intermédio é que todos os princípios novos foram elaborados e entregues
ao estudo. Era, pois, necessário que conservasse seu caráter individual, para
que se estabelecesse a unidade. Fomos, por diversas vezes, solicitados a fazê-la
circular mais amiúde; por muito lisonjeiro, porém, que nos fosse esse desejo,
não pudemos atendê-lo, primeiramente, porque o tempo material não nos consentia
esse acréscimo de trabalho e, em segundo lugar, porque importava não perdesse
ela o seu caráter essencial, que não é o de um jornal propriamente dito. Hoje,
que a nossa obra pessoal se aproxima do seu termo, as necessidades já não são as
mesmas; a Revista se tornará, como as nossas outras obras, feitas e por fazer,
propriedade coletiva da comissão, que lhe tomará a direção, para maior vantagem
do Espiritismo, sem que, por isso, renunciemos a lhe prestar a nossa
colaboração. Para completar a obra doutrinária, falta-nos publicar vários
trabalhos, que não formam a parte menos difícil, nem menos penosa. Conquanto já
disponhamos de todos os elementos para os executar e o programa de cada um
esteja traçado até o último capítulo, poderíamos dispensar-lhes mais acurada
atenção e ativá-los, se, por instituída a comissão central, estivéssemos livres
de outros cuidados que nos absorvem grande parte do tempo. * O primeiro período
do Espiritismo foi consagrado ao estudo dos princípios e das leis, que em seu
conjunto tinham de constituir a Doutrina; numa palavra: a preparar os materiais,
ao mesmo tempo que à vulgarização da idéia. Foi o do plantio da semente que,
semelhante à da parábola do Evangelho, não frutificaria igualmente por toda
parte. A criança cresceu; tornou-se adulto e chegado é o momento em que,
amparado por adeptos sinceros e devotados, tem que avançar para o objetivo que
lhe está posto, sem ser obstado pelos retardatários. Mas, como fazer essa
seleção? Quem ousaria assumir a responsabilidade de um julgamento a incidir
sobre as consciências individuais? O melhor seria que a seleção se fizesse por
si mesma e o meio era bem simples: bastava desfraldar um estandarte e dizer —
sigam-no os que o adotem. Tomando a iniciativa da constituição do Espiritismo,
usamos de um direito comum, o que todo homem tem de completar, como o entender,
a obra que haja começado e de ser juiz da oportunidade. Desde o instante em que
cada um é livre de aderir ou não a essa obra, ninguém se pode queixar de sofrer
uma pressão arbitrária. Criamos a palavra Espiritismo, para atender às
necessidades da causa; temos, pois, o direito de lhe determinar as aplicações e
de definir as qualidades e as crenças do verdadeiro espírita. (Revista Espírita,
de abril de 1866, pág. 111.) Depois de tudo o que fica dito, facilmente se
compreenderá quão impossível e prematuro fora estabelecer essa constituição logo
no princípio. Se a Doutrina Espírita se houvera formado em conjunto, como toda
concepção pessoal, teria sido completada desde o primeiro dia e, então, nada
mais simples do que constituí-la. Mas, tendo ela surgido gradualmente, em
conseqüência de aquisições sucessivas, a sua constituição teria congregado todos
os amantes de novidades; em breve, porém, estaria abandonado pelos que não lhe
aceitassem todas as conseqüências. Entretanto, alguns porventura dirão: não
estais assim provocando uma cisão entre os adeptos? Abrindo dois campos, não
enfraqueceis a falange? Nem todos os que se dizem espíritas pensam do mesmo
modo sobre todos os pontos; a divisão existe, de fato, e é muito mais
prejudicial, porque pode acontecer que não se saiba se, num espírita, está um
aliado ou um antagonista, O que faz a força é a universalidade: ora, uma união
franca não poderia existir entre pessoas interessadas, moral ou materialmente,
em não seguir o mesmo caminho e que não objetivam o mesmo fim. Dez homens unidos
por um pensamento comum são mais fortes do que cem que não se entendam. Em tal
caso, a miscelânea de vistas divergentes tira a força de coesão entre os que
desejariam andar juntos, exatamente como um líquido que, infiltrando-se num
corpo, ergue obstáculo a agregação das moléculas desse corpo. Se a constituição
tem por efeito diminuir momentaneamente o número aparente dos espíritas, terá,
por outro lado, como conseqüência, dar mais força aos que caminharem de comum
acordo para a realização do grande objetivo humanitário que o Espiritismo há de
alcançar. Eles se conhecerão e se estenderão mutuamente as mãos, de um extremo a
outro do mundo. Terá, além disso, por efeito opor barreira às ambições que, se
se impusessem, tentariam desviá-lo em proveito próprio. Tudo está calculado,
visando esse resultado, pela supressão de toda autocracia ou supremacia pessoal.
(Allan Kardec - OBRAS PÓSTUMAS, cap. 90 até 98)
Assim
acontecerá com os centros gerais do Espiritismo; serão os observatórios do mundo
invisível, que permutarão entre si o que obtiverem de bom e de aplicável aos
costumes dos países onde funcionarem, uma vez que o objetivo que eles colimam é
o bem da Humanidade e não a satisfação de ambições pessoais. - Allan Kardec
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