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FINAL DOS TEMPOS - JUÍZO FINAL
- Também ouvireis falar de guerra e de rumores de guerra; tratai de
não vos perturbardes, porquanto é preciso que essas coisas se dêem; mas,
ainda não será o fim - pois ver-se-á povo levantar-se contra povo e reino
contra reino; e haverá pestes, fomes e tremores de terra em diversos
lugares - todas essas coisas serão apenas o começo das dores. (S. Mateus,
cap. XXIV, vv. 6 a 8.)
- Então, o irmão entregará o irmão para ser morto; os filhos se
levantarão contra seus pais e suas mães e os farão morrer. - Sereis
odiados de toda a gente por causa do meu nome; mas, aquele que perseverar
até ao fim será salvo. (S. Marcos, cap. XIII, vv. 12 e 13.)
- Quando virdes que a abominação da desolação, que foi predita pelo
profeta Daniel, está no lugar santo (que aquele que lê entenda bem o que
lê); - fujam então para as montanhas os que estiverem na Judéia (1); - não
desça aquele que estiver no telhado, para levar de sua casa qualquer
coisa; - e não volte para apanhar suas roupas aquele que estiver no campo.
- Mas, ai das mulheres que estiverem grávidas ou amamentando nesses dias.
- Pedi a Deus que a vossa fuga não se dê durante o inverno, nem em dia de
sábado - porquanto a aflição desse tempo será tão grande, como ainda não
houve igual desde o começo do mundo até o presente e como nunca mais
haverá. - E se esses dias não fossem abreviados, nenhum homem se salvaria;
mas esses dias serão abreviados em favor dos eleitos. (São Mateus, cap.
XXIV, vv. 15 a 22.)
- Logo depois desses dias de aflição, o Sol se obscurecerá e a Lua
deixará de dar sua luz; as estrelas cairão do céu e as potestades dos céus
serão abaladas. Então, o sinal do Filho do homem aparecerá no céu e todos
os povos da Terra estarão em prantos e em gemidos e verão o Filho do homem
vindo sobre as nuvens do céu com grande majestade. Ele enviará seus anjos,
que farão ouvir a voz retumbante de suas trombetas e que reunirão seus
eleitos dos quatro cantos do mundo, de uma extremidade a outra do céu.
Aprendei uma comparação tirada da figueira. Quando seus ramos já estão
tenros e dão folhas, sabeis que está próximo o estio. - Do mesmo modo
quando virdes todas essas coisas, sabei que vem próximo o Filho do homem,
que ele se acha como que à porta.
Digo-vos, em verdade, que esta raça não passará, sem que todas essas
coisas se tenham cumprido. (S. Mateus, cap. XXIV, vv. 29 a 34.)
E acontecerá no advento do Filho do homem o que aconteceu ao tempo de Noé
- pois, como nos últimos tempos antes do dilúvio, os homens comiam e
bebiam, se casavam e casavam seus filhos, até ao dia em que Noé entrou na
arca; - e assim como eles não conheceram o momento do dilúvio, senão
quando este sobreveio e arrebatou toda a gente, assim também será no
advento do Filho do homem. (São Mateus, cap. XXIV, vv. 37 a 39.)
- Quanto a esse dia e a essa hora, ninguém o sabe, nem os anjos que
estão no céu, nem o Filho, mas somente o Pai. (S. Marcos, cap. XIII, v.
32.)
- Em verdade, em verdade vos digo: chorareis e gemereis, e o mundo se
rejubilará; estareis em tristeza, mas a vossa tristeza se mudará em
alegria. - Uma mulher, quando dá à luz, está em dor, porque é vinda a sua
hora; mas depois que ela dá à luz um filho, não mais se lembra de todos os
males que sofreu, pela alegria que experimenta de haver posto no mundo um
homem. - É assim que agora estais em tristeza; mas, eu vos verei de novo e
o vosso coração rejubilará e ninguém vos arrebatará a vossa alegria. (S.
João, cap. XVI, vv. 20 a 22.)
- Levantar-se-ão muitos falsos profetas que seduzirão a muitas
pessoas; - e, porque abundará a iniqüidade, a caridade de muitos esfriará;
- mas, aquele que perseverar até o fim será salvo. - E este Evangelho do
reino será pregado em toda a Terra, para servir de testemunho a todas as
nações. É então que o fim chegará. (S. Mateus, cap. XXIV, vv. 11 a 14.)
ALLAN KARDEC - É evidentemente alegórico este quadro do fim dos tempos, como a
maioria dos que Jesus compunha. Pelo seu vigor, as imagens que ele encerra
são de natureza a impressionar inteligências ainda rudes. Para tocar
fortemente aquelas imaginações pouco sutis, eram necessárias pinturas
vigorosas, de cores bem acentuadas. Ele se dirigia principalmente ao povo,
aos homens menos esclarecidos, incapazes de compreender as abstrações
metafísicas e de apanhar a delicadeza das formas. A fim de atingir o
coração, fazia-se-lhe mister falar aos olhos, com o auxílio de sinais
materiais, e aos ouvidos, por meio da força da linguagem.
Como conseqüência natural daquela disposição de espírito, à suprema
potestade, segundo a crença de então, não era possível manifestar-se, a
não ser por meio de fatos extraordinários, sobrenaturais. Quanto mais
impossíveis fossem esses fatos, tanto mais facilmente aceita era a
probabilidade deles.
O Filho do homem, a vir sobre nuvens, com grande majestade, cercado de
seus anjos e ao som de trombetas, lhes parecia de muito maior imponência,
do que a simples vinda de uma entidade investida apenas de poder moral.
Por isso mesmo, os judeus, que esperavam no Messias um rei terreno, mais
poderoso do que todos os outros reis, destinado a colocar-lhes a nação à
frente de todas as demais e a reerguer o trono de David e de Salomão, não
quiseram reconhecê-lo no humilde filho de um carpinteiro, sem autoridade
material. No entanto, aquele pobre proletário da Judéia se tornou o maior
entre os grandes; conquistou para a sua soberania maior número de reinos,
do que os mais poderosos potentados; exclusivamente com a sua palavra e o
concurso de alguns miseráveis pescadores, revolucionou o mundo e a ele é
que os judeus virão a dever sua reabilitação. Disse, pois, uma verdade,
quando, respondendo a esta pergunta de Pilatos: «És rei?» respondeu: «Tu o
dizes.»
- É de notar-se que, entre os antigos, os tremores de terra e o
obscurecimento do Sol eram acessórios forçados de todos os acontecimentos
e de todos os presságios sinistros. Com eles deparamos, por ocasião da
morte de Jesus, da de César e num sem-número de outras circunstâncias da
história do paganismo. Se tais fenômenos se houvessem produzido tão
amiudadas vezes quantas são relatados, fora de ter-se por impossível que
os homens não houvessem guardado deles lembrança pela tradição. Aqui,
acrescenta-se a queda de estrelas do céu, como que a mostrar às gerações
futuras, mais esclarecidas, que não há nisso senão uma ficção, pois que
agora se sabe que as estrelas não podem cair.
- Entretanto, sob essas alegorias, grandes verdades se ocultam. Há,
primeiramente, a predição das calamidades de todo gênero que assolarão e
dizimarão a Humanidade, calamidades decorrentes da luta suprema entre o
bem e o mal, entre a fé e a incredulidade, entre as idéias progressistas e
as idéias retrógradas. Há, em segundo lugar, a da difusão, por toda a
Terra, do Evangelho restaurado na sua pureza primitiva; depois, a do
reinado do bem, que será o da paz e da fraternidade universais, a derivar
do código de moral evangélica, posto em prática por todos os povos.
Será, verdadeiramente, o reino de Jesus, pois que ele presidirá à sua
implantação, passando os homens a viver sob a égide da sua lei. Será o
reinado da felicidade, porquanto diz ele que - «depois dos dias de
aflição, virão os de alegria».
- Quando sucederão tais coisas? «Ninguém o sabe, diz Jesus, nem mesmo
o Filho.» Mas, quando chegar o momento, os homens serão advertidos por
meio de sinais precursores. Esses indícios, porém, não estarão nem no Sol,
nem nas estrelas; mostrar-se-ão no estado social e nos fenômenos mais de
ordem moral do que físicos e que, em parte, se podem deduzir das suas
alusões.
É indubitável que aquela mutação não poderia operar-se em vida dos
apóstolos, pois, do contrário, Jesus não lhe desconheceria o momento.
Aliás, semelhante transformação não era possível se desse dentro de apenas
alguns anos. Contudo, dela lhes fala como se eles a houvessem de
presenciar; é que, com efeito, eles poderão estar reencarnados quando a
transformação se der e, até, colaborar na sua efetivação. Ele ora fala da
sorte próxima de Jerusalém, ora toma esse fato por ponto de referência ao
que ocorreria no futuro.
- Será que, predizendo a sua segunda vinda, era o fim do mundo o que
Jesus anunciava, dizendo: «Quando o Evangelho for pregado por toda a
Terra, então é que virá o fim?» Não é racional se suponha que Deus destrua
o mundo precisamente quando ele entre no caminho do progresso moral, pela
prática dos ensinos evangélicos. Nada, aliás, nas palavras do Cristo,
indica uma destruição universal que, em tais condições, não se
justificaria.
Devendo a prática geral do Evangelho determinar grande melhora no estado
moral dos homens, ela, por isso mesmo, trará o reinado do bem e acarretará
a queda do mal. É, pois, o fim do mundo velho, do mundo governado pelos
preconceitos, pelo orgulho, pelo egoísmo, pelo fanatismo, pela
incredulidade, pela cupidez, por todas as paixões pecaminosas, que o
Cristo aludia, ao dizer: «Quando o Evangelho for pregado por toda a Terra,
então é que virá o fim.» Esse fim, porém, para chegar, ocasionaria uma
luta e é dessa luta que advirão os males por ele previstos.
O JUÍZO FINAL
- Ora, quando o Filho do homem vier em sua majestade, acompanhado de
todos os anjos, assentar-se-á no trono de sua glória; - e, reunidas à sua
frente todas as nações, ele separará uns dos outros, como um pastor separa
dos bodes as ovelhas, e colocará à sua direita as ovelhas e à sua esquerda
os bodes. - Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde,
benditos de meu Pai, etc. (São Mateus, cap. XXV, vv. 31 a 46. - O
Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XV.)
ALLAN KARDEC - Tendo que reinar na Terra o bem, necessário é sejam dela excluídos
os Espíritos endurecidos no mal e que possam acarretar-lhe perturbações.
Deus permitiu que eles aí permanecessem o tempo de que precisavam para se
melhorarem; mas, chegado o momento em que, pelo progresso moral de seus
habitantes, o globo terráqueo tem de ascender na hierarquia dos mundos,
interdito será ele, como morada, a encarnados e desencarnados que não
hajam aproveitado os ensinamentos que uns e outros se achavam em condições
de aí receber. Serão exilados para mundos inferiores, como o foram outrora
para a Terra os da raça adâmica, vindo substituí-los Espíritos melhores.
Essa separação, a que Jesus presidirá, é que se acha figurada por estas
palavras sobre o juízo final: «Os bons passarão à minha direita e os maus
à minha esquerda.» (Cap. XI, nos 31 e seguintes.)
- A doutrina de um juízo final, único e universal, pondo fim para
sempre à Humanidade, repugna à razão, por implicar a inatividade de Deus,
durante a eternidade que precedeu à criação da Terra e durante a
eternidade que se seguirá à sua destruição. Que utilidade teriam então o
Sol, a Lua e as estrelas que, segundo a Gênese, foram feitos para iluminar
o mundo? Causa espanto que tão imensa obra se haja produzido para tão
pouco tempo e a beneficio de seres votados de antemão, em sua maioria, aos
suplícios eternos.
- Materialmente, a idéia de um julgamento único seria, até certo
ponto, admissível para os que não procuram a razão das coisas, quando se
cria que a Humanidade toda se achava concentrada na Terra e que para seus
habitantes fora feito tudo o que o Universo contém. É, porém,
inadmissível, desde que se sabe que há milhares de milhares de mundos
semelhantes, que perpetuam as Humanidades pela eternidade em fora e entre
os quais a Terra é dos menos consideráveis, simples ponto imperceptível.
Vê-se, só por este fato, que Jesus tinha razão de declarar a seus
discípulos: «Há muitas coisas que não vos posso dizer, porque não as
compreenderíeis», dado que o progresso das ciências era indispensável para
uma interpretação legítima de algumas de suas palavras. Certamente, os
apóstolos, S. Paulo e os primeiros discípulos teriam estabelecido de modo
muito diverso alguns dogmas se tivessem os conhecimentos astronômicos,
geológicos, físicos, químicos, fisiológicos e psicológicos que hoje
possuímos. Daí vem o ter Jesus adiado a finalização de seus ensinos e
anunciado que todas as coisas haviam de ser restabelecidas.
- Moralmente, um juízo definitivo e sem apelação não se concilia com a
bondade infinita do Criador, que Jesus nos apresenta de contínuo como um
bom Pai, que deixa sempre aberta uma senda para o arrependimento e que
está pronto sempre a estender os braços ao filho pródigo. Se Jesus
entendesse o juízo naquele sentido, desmentiria suas próprias palavras. Ao
demais, se o juízo final houvesse de apanhar de improviso os homens, em
meio de seus trabalhos ordinários, e grávidas as mulheres, caberia
perguntar-se com que fim Deus, que não faz coisa alguma inútil ou injusta,
faria nascessem crianças e criaria almas novas naquele momento supremo, no
termo fatal da Humanidade. Seria para submetê-las a julgamento logo ao
saírem do ventre materno, antes de terem consciência de si mesmas, quando,
a outros, milhares de anos foram concedidos para se inteirarem do que
respeita à própria individualidade? Para que lado, direito ou esquerdo,
iriam essas almas, que ainda não são nem boas nem más e para as quais, no
entanto, todos os caminhos de ulterior progresso se encontrariam desde
então fechados, visto que a Humanidade não mais existiria? (Cap. II, nº
19.) Conservem-nas os que se contentam com semelhantes crenças; estão no
seu direito e ninguém nada tem que dizer a isso; mas, não achem mau que
nem toda gente partilhe delas.
- O juízo, pelo processo da emigração, conforme ficou explicado acima
(nº 63), é racional; funda-se na mais rigorosa justiça, visto que conserva
para o Espírito, eternamente, o seu livre-arbítrio; não constitui
privilégio para ninguém; a todas as suas criaturas, sem exceção alguma,
concede Deus igual liberdade de ação para progredirem; o próprio
aniquilamento de um mundo, acarretando a destruição do corpo, nenhuma
interrupção ocasionará à marcha progressiva do Espírito. Tais as
conseqüências da pluralidade dos mundos e da pluralidade das existências.
Segundo essa interpretação, não é exata a qualificação de juízo final,
pois que os Espíritos passam por análogas fieiras a cada renovação dos
mundos por eles habitados, até que atinjam certo grau de perfeição. Não
há, portanto, juízo final propriamente dito, mas juízos gerais em todas as
épocas de renovação parcial ou total da população dos mundos, por efeito
das quais se operam as grandes emigrações e imigrações de Espíritos.
SÃO CHEGADOS OS TEMPOS
ALLAN KARDEC - São chegados os tempos, dizem-nos de todas as partes, marcados por
Deus, em que grandes acontecimentos se vão dar para regeneração da
Humanidade. Em que sentido se devem entender essas palavras proféticas?
Para os incrédulos, nenhuma importância têm; aos seus olhos, nada mais
exprimem que uma crença pueril, sem fundamento. Para a maioria dos
crentes, elas apresentam qualquer coisa de místico e de sobrenatural,
parecendo-lhes prenunciadoras da subversão das leis da Natureza. São
igualmente errôneas ambas essas interpretações; a primeira, porque envolve
uma negação da Providência; a segunda, porque tais palavras não anunciam a
perturbação das leis da Natureza, mas o cumprimento dessas leis.
- Tudo na criação é harmonia; tudo revela uma previdência que não se
desmente, nem nas menores, nem nas maiores coisas. Temos, pois, que
afastar, desde logo, toda idéia de capricho, por inconciliável com a
sabedoria divina. Em segundo lugar, se a nossa época esta designada para a
realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha do
conjunto. Isto posto, diremos que o nosso globo, como tudo o que existe,
esta submetido à lei do progresso. Ele progride, fisicamente, pela
transformação dos elementos que o compõem e, moralmente, pela depuração
dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam. Ambos esses
progressos se realizam paralelamente, porquanto o melhoramento da
habitação guarda relação com o do habitante. Fisicamente, o globo
terráqueo há experimentado transformações que a Ciência tem comprovado e
que o tornaram sucessivamente habitável por seres cada vez mais
aperfeiçoados. Moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da
inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes. Ao mesmo
tempo que o melhoramento do globo se opera sob a ação das forças
materiais, os homens para isso concorrem pelos esforços de sua
inteligência. Saneiam as regiões insalubres, tornam mais fáceis as
comunicações e mais produtiva a terra.
De duas maneiras se executa esse duplo progresso: uma, lenta, gradual e
insensível; a outra, caracterizada por mudanças bruscas, a cada uma das
quais corresponde um movimento ascensional mais rápido, que assinala,
mediante impressões bem acentuadas, os períodos progressivos da
Humanidade. Esses movimentos, subordinados, quanto às particularidades, ao
livre-arbítrio dos homens, são, de certo modo, fatais em seu conjunto,
porque estão sujeitos a leis, como os que se verificam na germinação, no
crescimento e na maturidade das plantas. Por isso é que o movimento
progressivo se efetua, às vezes, de modo parcial, isto é, limitado a uma
raça ou a uma nação, doutras vezes, de modo geral.
O progresso da Humanidade se cumpre, pois, em virtude de uma lei. Ora,
como todas as leis da Natureza são obra eterna da sabedoria e da
presciência divinas, tudo o que é efeito dessas leis resulta da vontade de
Deus, não de uma vontade acidental e caprichosa, mas de uma vontade
imutável. Quando, por conseguinte, a Humanidade está madura para subir um
degrau, pode dizer-se que são chegados os tempos marcados por Deus, como
se pode dizer também que, em tal estação, eles chegam para a maturação dos
frutos e sua colheita.
- Do fato de ser inevitável, porque é da natureza o movimento
progressivo da Humanidade, não se segue que Deus lhe seja indiferente e
que, depois de ter estabelecido leis, se haja recolhido à inação, deixando
que as coisas caminhem por si sós. Sem dúvida, suas leis são eternas e
imutáveis, mas porque a sua própria vontade é eterna e constante e porque
o seu pensamento anima sem interrupção todas as coisas. Esse pensamento,
que em tudo penetra, é a força inteligente e permanente que mantém a
harmonia em tudo. Cessasse ele um só instante de atuar e o Universo seria
como um relógio sem pêndulo regulador. Deus, pois, vela incessantemente
pela execução de suas leis e os Espíritos que povoam o espaço são seus
ministros, encarregados de atender aos pormenores, dentro de atribuições
que correspondem ao grau de adiantamento que tenham alcançado.
- O Universo é, ao mesmo tempo, um mecanismo incomensurável, acionado
por um número incontável de inteligências, e um imenso governo em o qual
cada ser inteligente tem a sua parte de ação sob as vistas do soberano
Senhor, cuja vontade única mantém por toda parte a unidade. Sob o império
dessa vasta potência reguladora, tudo se move, tudo funciona em perfeita
ordem. Onde nos parece haver perturbações, o que há são movimentos
parciais e isolados, que se nos afiguram irregulares apenas porque
circunscrita é a nossa visão. Se lhes pudéssemos abarcar o conjunto,
veríamos que tais irregularidades são apenas aparentes e que se harmonizam
com o todo.
- A Humanidade tem realizado, até ao presente, incontestáveis
progressos. Os homens, com a sua inteligência, chegaram a resultados que
jamais haviam alcançado, sob o ponto de vista das ciências, das artes e do
bem-estar material. Resta-lhes ainda um imenso progresso a realizar: o de
fazerem que entre si reinem a caridade, a fraternidade, a solidariedade,
que lhes assegurem o bem-estar moral. Não poderiam consegui-lo nem com as
suas crenças, nem com as suas instituições antiquadas, restos de outra
idade, boas para certa época, suficientes para um estado transitório, mas
que, havendo dado tudo o que comportavam, seriam hoje um entrave. Já não é
somente de desenvolver a inteligência o de que os homens necessitam, mas
de elevar o sentimento e, para isso, faz-se preciso destruir tudo o que superexcite neles o egoísmo e o orgulho.
Tal o período em que doravante vão entrar e que marcará uma das fases
principais da vida da Humanidade. Essa fase, que neste momento se elabora,
é o complemento indispensável do estado precedente, como a idade viril o é
da juventude. Ela podia, pois, ser prevista e predita de antemão e é por
isso que se diz que são chegados os tempos determinados por Deus.
- Nestes tempos, porém, não se trata de uma mudança parcial, de uma
renovação limitada a certa região, ou a um povo, a uma raça. Trata-se de
um movimento universal, a operar-se no sentido do progresso moral. Uma
nova ordem de coisas tende a estabelecer-se, e os homens, que mais opostos
lhe são, para ela trabalham a seu mau grado. A geração futura,
desembaraçada das escórias do velho mundo e formada de elementos mais
depurados, se achará possuída de idéias e de sentimentos muito diversos
dos da geração presente, que se vai a passo de gigante. O velho mundo
estará morto e apenas viverá na História, como o estão hoje os tempos da
Idade Média, com seus costumes bárbaros e suas crenças supersticiosas.
Aliás, todos sabem quanto ainda deixa a desejar a atual ordem de coisas.
Depois de se haver, de certo modo, considerado todo o bem-estar material,
produto da inteligência, logra-se compreender que o complemento desse bem
estar somente pode achar-se no desenvolvimento moral. Quanto mais se
avança, tanto mais se sente o que falta, sem que, entretanto, se possa
ainda definir claramente o que seja: é isso efeito do trabalho íntimo que
se opera em prol da regeneração. Surgem desejos, aspirações, que são como
que o pressentimento de um estado melhor.
- Mas, uma mudança tão radical como a que se está elaborando não pode
realizar-se sem comoções. Há, inevitavelmente, luta de idéias. Desse
conflito forçosamente se originarão passageiras perturbações, até que o
terreno se ache aplanado e restabelecido o equilíbrio. É, pois, da luta
das idéias que surgirão os graves acontecimentos preditos e não de
cataclismos ou catástrofes puramente materiais. Os cataclismos gerais
foram conseqüência do estado de formação da Terra. Hoje, não são mais as
entranhas do planeta que se agitam: são as da Humanidade.
- Se a Terra já não tem que temer os cataclismos gerais, nem por isso
deixa de estar sujeita a periódicas revoluções, cujas causas, do ponto de
vista científico, se encontram explicadas nas instruções seguintes, promanantes de dois Espíritos eminentes: (1) «Cada corpo celeste, além das
leis simples que presidem à divisão dos dias e das noites, das estações,
etc., experimenta revoluções que demandam milhares de séculos para sua
realização completa, porém que, como as revoluções mais breves, passam por
todos os períodos, desde o de nascimento até o de um máximo de efeito,
após o qual há decrescimento, até o limite extremo, para recomeçar em
seguida o percurso das mesmas fases. «O homem apenas apreende as fases de
duração relativamente curta e cuja periodicidade ele pode comprovar.
Algumas, no entanto, há que abrangem longas gerações de seres e, até,
sucessões de raças, revoluções essas cujos efeitos, conseguintemente, se
lhe apresentam com caráter de novidade e de espontaneidade, ao passo que,
se seu olhar pudesse projetar-se para trás alguns milhares de séculos,
veria, entre aqueles mesmos efeitos e suas causas, uma correlação de que
nem sequer suspeita. Esses períodos que, pela sua extensão relativa,
confundem a imaginação dos humanos, não são, contudo, mais do que
instantes na duração eterna.
«Num mesmo sistema planetário, todos os corpos que o constituem reagem uns
sobre os outros; todas as influências físicas são nele solidárias e nem um
só há, dos efeitos que designais pelo nome de grandes perturbações, que
não seja conseqüência da componente das influências de todo o sistema.
«Vou mais longe: digo que os sistemas planetários reagem uns sobre os
outros, na razão da proximidade ou do afastamento resultantes do movimento
de translação deles, através das miríades de sistemas que compõem a nossa
nebulosa. Ainda vou mais longe: digo que a nossa nebulosa, que é um como
arquipélago na imensidade, tendo também seu movimento de translação
através das miríades de nebulosas, sofre a influência das de que ela se
aproxima. «De sorte que as nebulosas reagem sobre as nebulosas, os
sistemas reagem sobre os sistemas, como os planetas reagem sobre os
planetas, como os elementos de cada planeta reagem uns sobre os outros e
assim sucessivamente até ao átomo. Daí, em cada mundo, revoluções locais
ou gerais, que não parecem perturbações porque a brevidade da vida não
permite se lhes percebam mais do que os efeitos parciais. «A matéria
orgânica não poderia escapar a essas influências; as
perturbações que ela sofre podem, pois, alterar o estado físico dos seres
vivos e
determinar algumas dessas enfermidades que atacam de modo geral as
plantas, os animais e os homens, enfermidades que, como todos os flagelos,
são, para a inteligência humana, um estimulante que a impele, por forca da
necessidade, a procurar meios de os combater e a descobrir leis da
Natureza.
«Mas a matéria orgânica, a seu turno, reage sobre o Espírito. Este, pelo
seu contacto e sua ligação íntima com os elementos materiais, também sofre
influências que lhe modificam as disposições, sem, no entanto, privá-lo do
livre arbítrio,
que lhe sobreexcitam ou atenuam a atividade e que, pois, contribuem
para o seu desenvolvimento. A efervescência que por vezes se manifesta em
toda uma população, entre os homens de uma mesma raça, não é coisa
fortuita,
nem resultado de um capricho; tem sua causa nas leis da Natureza. Essa
efervescência, inconsciente a princípio, não passando de vago desejo, de
aspiração indefinida por alguma coisa melhor, de certa necessidade de
mudança, traduz-se por uma surda agitação, depois por atos que levam às
revoluções sociais, que, acreditai-o, também têm sua periodicidade, como
as
revoluções físicas, pois que tudo se encadeia. Se não tivésseis a visão
espiritual
limitada pelo véu da matéria, veríeis as correntes fluídicas que, como
milhares
de fios condutores, ligam as coisas do mundo espiritual às do mundo
material.
«Quando se vos diz que a Humanidade chegou a um período de
transformação e que a Terra tem que se elevar na hierarquia dos mundos,
nada
de místico vejais nessas palavras; vede, ao contrário, a execução da uma
das
grandes leis fatais do Universo, contra as quais se quebra toda a
má-vontade
humana.
ARAGO.»
- Sim, decerto, a Humanidade se transforma, como já se transformou
noutras épocas, e cada transformação se assinala por uma crise que é, para
o
gênero humano, o que são, para os indivíduos, as crises de crescimento.
Aquelas se tornam, muitas vezes, penosas, dolorosas, e arrebatam consigo
as
gerações e as instituições, mas, são sempre seguidas de uma fase de
progresso material e moral.
«A Humanidade terrestre, tendo chegado a um desses períodos de
crescimento, está em cheio, há quase um século, no trabalho da sua
transformação, pelo que a
vemos agitar-se de todos os lados, presa de uma espécie de febre e como
que
impelida por invisível força. Assim continuará, até que se haja outra vez
estabilizado em novas bases. quem a observar, então, achá-la-á muito
mudada
em seus costumes, em seu caráter, nas suas leis, em suas crenças, numa
palavra: em todo o seu estado social.
«Uma coisa que vos parecerá estranhável, mas que por isso não deixa de
ser rigorosa verdade, é que o mundo dos Espíritos, mundo que vos rodeia,
experimenta
o contrachoque de todas as comoções que abalam o mundo dos encarnados.
Digo mesmo que aquele toma parte ativa nessas comoções. Nada tem isto de
surpreendente, para quem sabe que os Espíritos fazem corpo com a
Humanidade; que eles saem dela e a ela têm de voltar, sendo, pois, natural
se
interessem pelos movimentos que se operam entre os homens. Ficai,
portanto,
certos de que, quando uma revolução social se produz na Terra, abala
igualmente o mundo invisível, onde todas as paixões, boas e más, se
exacerbam, como entre vós. Indizível efervescência entra a reinar na
coletividade dos Espíritos que ainda pertencem ao vosso mundo e que
aguardam o momento de a ele volver.
«À agitação dos encarnados e desencarnados se juntam às vezes, e
freqüentemente mesmo, já que tudo se conjuga em a Natureza, as
perturbações
dos elementos físicos. Dá-se então, durante algum tempo, verdadeira
confusão
geral, mas que passa como furacão, após o qual o céu volta a estar sereno,
e a
Humanidade, reconstituída sobre novas bases, imbuída de novas idéias,
começa a percorrer nova etapa de progresso.
«É no período que ora se inicia que o Espiritismo florescerá e dará
frutos.
Trabalhais, portanto, mais para o futuro, do que para o presente. Era,
porém,
necessário que esses trabalhos se preparassem antecipadamente, porque eles
traçam as sendas da regeneração, pela unificação e racionalidade das
crenças.
Ditosos os que deles
aproveitam desde já. Tantas penas se pouparão esses, quantos forem os
proveitos que deles aufiram.
Doutor BARRY.»
- Do que precede resulta que, em conseqüência do movimento de
translação que executam no espaço, os corpos celestes exercem, uns sobre
os
outros, maior ou menor influência, conforme a proximidade em que se achem
entre si e as suas respectivas posições; que essa influência pode
acarretar uma
perturbação momentânea aos seus elementos constitutivos e modificar as
condições de vitalidade dos seus habitantes; que a regularidade dos
movimentos determina a volta periódica das mesmas causas e dos mesmos
efeitos; que, se demasiado curta é a duração de certos períodos para que
os
homens os apreciem, outros vêem passar gerações e raças que deles não se
apercebem e às quais se afigura normal o estado de coisas que observam. Ao
contrário, as gerações contemporâneas da transição lhe sofrem o
contrachoque
e tudo lhes parece fora das leis ordinárias. Essas gerações vêem uma causa
sobrenatural, maravilhosa, miraculosa no que, em realidade, mais não é do
que
a execução das leis da Natureza.
Se, pelo encadeamento e a solidariedade das causas e dos efeitos, os
períodos de renovação moral da Humanidade coincidem, como tudo leva a
crer,
com as revoluções físicas do globo, podem os referidos períodos ser
acompanhados ou precedidos de fenômenos naturais, insólitos para os que
com
eles não se acham familiarizados, de meteoros que parecem estranhos, de
recrudescência e intensificação desusadas dos flagelos destruidores, que
não
são nem causa, nem presságios sobrenaturais, mas uma consequência do
movimento geral que se opera no mundo físico e no mundo moral.
Anunciando a época de renovação que se havia de abrir para a
Humanidade e determinar o fim do velho mundo, a Jesus, pois, foi lícito
dizer
que ela se assinalaria por fenômenos extraordinários, tremores de terra,
flagelos diversos, sinais no céu, que mais não são do que meteoros, sem
ab-rogação
das leis naturais. O vulgo, porém, ignorante, viu nessas palavras a
predição de fatos miraculosos. (1)
- A previsão dos movimentos progressivos da Humanidade nada
apresenta de surpreendente, quando feita por seres desmaterializados, que
vêem o fim a que tendem todas as coisas, tendo alguns deles conhecimento
direto do pensamento de Deus. Pelos movimentos parciais, esses seres vêem
em que época poderá operar-se um movimento geral, do mesmo modo que o
homem pode calcular de antemão o tempo que uma árvore levará para dar
frutos, do mesmo modo que os astrônomos calculam a época de um fenômeno
astronômico, pelo tempo que um astro gasta para efetuar a sua revolução.
- A Humanidade é um ser coletivo em quem se operam as mesmas
revoluções morais por que passa todo ser individual, com a diferença de
que
umas se realizam de ano em ano e as outras de século em século.
Acompanhe-se
a Humanidade em suas evoluções através dos tempos e ver-se-á a vida das
diversas raças marcada por períodos que dão a cada época uma fisionomia
especial.
- De duas maneiras se opera, como já o dissemos, a marcha
progressiva da Humanidade: uma, gradual, lenta, imperceptível, se se considerarem as épocas consecutivas, a traduzir-se por sucessivas melhoras
nos costumes, nas leis, nos usos, melhoras que só com a continuação se
podem perceber, como as mudanças que as correntes dágua ocasionam na
superfície do globo; a outra, por movimentos relativamente bruscos,
semelhantes aos de uma torrente que, rompendo os diques que a continham,
transpõe nalguns anos o espaço que levaria séculos a percorrer. É, então,
um
cataclismo moral que traga em breves instantes as instituições do passado
e ao
qual sobrevém uma nova ordem de coisas que pouco a pouco se estabiliza, à
medida que se restabelece a calma, e que acaba por se tornar definitiva.
Àquele que viva bastante para abranger com a vista as duas vertentes da
nova fase, parecerá que um mundo novo surgiu das ruínas do antigo. O
caráter,
os costumes, os usos, tudo está mudado. É que, com efeito, surgiram homens
novos, ou, melhor, regenerados. As idéias, que a geração que se extinguiu
levou
consigo, cederam lugar a idéias novas que desabrocham com a geração que se
ergue.
- Tornada adulta, a Humanidade tem novas necessidades, aspirações
mais vastas e mais elevadas; compreende o vazio com que foi embalada, a
insuficiência de suas instituições para lhe dar felicidade; já não
encontra, no
estado das coisas, as satisfações legítimas a que se sente com direito.
Despoja-se,
em consequência, das faixas infantis e se lança, impelida por irresistível
força, para as margens desconhecidas, em busca de novos horizontes menos
limitados,
É a um desses períodos de transformação, ou, se o preferirem, de
crescimento moral, que ora chega a Humanidade. Da adolescência chega ao
estado viril. O passado já não pode bastar às suas novas aspirações, às
suas
novas necessidades; ela já não pode ser conduzida pelos mesmos métodos;
não mais se deixa levar por ilusões, nem fantasmagorias; sua razão
amadurecida reclama alimentos mais substanciosos. É demasiado efêmero o
presente; ela sente que mais amplo é o seu destino e que a vida corpórea é
excessivamente restrita para encerrá-lo inteiramente. Por isso, mergulha o olhar no passado e no futuro,
a fim
de descobrir num ou noutro o mistério da sua existência e de adquirir uma
consoladora certeza.
E é no momento em que ela se encontra muito apertada na esfera
material, em que transbordante se encontra de vida intelectual, em que o
sentimento da espiritualidade lhe desabrocha no seio, que homens que se
dizem filósofos pretendem encher o vazio com as doutrinas da nadismo e do
materialismo! Singular aberração! Esses mesmos homens, que intentam
impelir
para a frente a Humanidade, se esforçam por circunscrevê-la no acanhado
círculo da matéria, donde ela anseia por escapar-se. Velam-lhe o aspecto
da
vida infinita e lhe dizem, apontando para o túmulo: Nec plus ultra!
- Quem quer que haja meditado sobre o Espiritismo e suas
conseqüências e não o circunscreva à produção de alguns fenômenos terá
compreendido que ele abre à Humanidade uma estrada nova e lhe desvenda os
horizontes do infinito. Iniciando-a nos mistérios do mundo invisível,
mostra-lhe o
seu verdadeiro papel na criação, papel perpetuamente ativo, tanto no
estado
espiritual, como no estado corporal. O homem já não caminha às cegas: sabe
donde vem, para onde vai e por que está na Terra. O futuro se lhe revela
em
sua realidade, despojado dos prejuízos da ignorância e da superstição. Já
na se
trata de uma vaga esperança, mas de uma verdade palpável, tão certa como a
sucessão do dia e da noite. Ele sabe que o seu ser não se acha limitado a
alguns instantes de uma existência transitória; que a vida espiritual não
se
interrompe por efeito da morte; que já viveu e tornará a viver e que nada
se
perde do que haja ganho em perfeição; em suas existências anteriores
depara
com a razão do que é hoje e reconhece que: do que ele é hoje, qual se fez
a si
mesmo, poderá deduzir o que virá a ser um dia.
- Com a idéia de que a atividade e a cooperação individuais na obra
geral da civilização se limitam
à vida presente, que, antes, a criatura nada foi e nada será depois, em
que
interessa ao homem o progresso ulterior da Humanidade? Que lhe importa que
no futuro os povos sejam mais bem governados, mais ditosos, mais
esclarecidos, melhores uns para com os outros? Não fica perdido para ele
todo
o progresso, pois que deste nenhum proveito tirará? De que lhe serve
trabalhar para os que hão de vir depois, se nunca lhe será dado
conhecê-los, se os seus
pósteros serão criaturas novas, que pouco depois voltarão por sua vez ao
nada?
Sob o domínio da negação do futuro individual, tudo forçosamente se
amesquinha às insignificantes proporções do momento e da personalidade.
Entretanto, que amplitude, ao contrário, dá ao pensamento do homem a
certeza da perpetuidade do seu ser espiritual! Que de mais racional, de
mais
grandioso, de mais digno do Criador do que a lei segundo a qual a vida
espiritual e a vida corpórea são apenas dois modos de existência, que se
alternam para a realização do progresso! Que de mais justo há e de mais
consolador do que a idéia de estarem os mesmos seres a progredir
incessantemente, primeiro, através das gerações de um mesmo mundo, de
mundo em mundo depois, até à perfeição, sem solução de continuidade! Todas
as ações têm, então, uma finalidade, porquanto, trabalhando para todos,
cada
um trabalha para si e reciprocamente, de sorte que nunca se podem
considerar
infecundos nem o progresso individual, nem o progresso coletivo. De ambos
esses progressos aproveitarão as gerações e as individualidades
porvindouras,
que outras não virão a ser senão as gerações e as individualidades
passadas,
em mais alto grau de adiantamento.
- A fraternidade será a pedra angular da nova ordem social; mas, não
há fraternidade real, sólida, efetiva, senão assente em base inabalável e
essa
base é a fé, não a fé em tais ou tais dogmas particulares, que mudam com
os
tempos e os povos e que mutuamente se apedrejam, porquanto,
anatematizando-se uns aos outros, alimentam o antagonismo, mas a fé nos princípios fundamentais que toda a
gente
pode aceitar e aceitará: Deus, a alma, o futuro, o progresso individual
indefinido,
a perpetuidade das relações entre os seres. Quando todos os homens
estiverem convencidos de que Deus é o mesmo para todos; de que esse Deus,
soberanamente justo e bom, nada de injusto pode querer; que não dele,
porém
dos homens vem o mal, todos se considerarão filhos do mesmo Pai e se
estenderão as mãos uns aos outros.
Essa a fé que o Espiritismo faculta e que doravante será o eixo em torno
do qual girará o gênero humano, quaisquer que sejam os cultos e as crenças
particulares.
- O progresso intelectual realizado até ao presente, nas mais largas
proporções, constitui um grande passo e marca uma primeira fase no avanço
geral da Humanidade; impotente, porém, ele é para regenerá-la. Enquanto o
orgulho e o egoísmo o dominarem, o homem se servirá da sua inteligência e
dos
seus conhecimentos para satisfazer às suas paixões e aos seus interesses
pessoais, razão por que os aplica em aperfeiçoar os meios de prejudicar os
seus semelhantes e de os destruir.
- Somente o progresso moral pode assegurar aos homens a
felicidade na Terra, refreando as paixões más; somente esse progresso pode
fazer que entre os homens reinem a concórdia, a paz, a fraternidade.
Será ele que deitará por terra as barreiras que separam os povos, que
fará caiam os preconceitos de casta e se calem os antagonismos de seitas,
ensinando os homens a se considerarem irmãos que têm por dever
auxiliarem-se
mutuamente e não destinados a viver à custa uns dos outros.
Será ainda o progresso moral que, secundado então pelo da inteligência,
confundirá os homens numa mesma crença fundada nas verdades eternas, não
sujeitas a controvérsias e, em consequência, aceitáveis por todos.
A unidade de crença será o laço mais forte, o fundamento mais sólido da
fraternidade universal, obstada,
desde todos os tempos pelos antagonismos religiosos que dividem os povos e
as famílias, que fazem sejam uns, os dissidentes, vistos, pelos outros,
como
inimigos a serem evitados, combatidos, exterminados, em vez de irmãos a
serem amados.
- Semelhante estado de coisas pressupõe uma mudança radical no
sentimento das massas, um progresso geral que não se podia realizar senão
fora do círculo das idéias acanhadas e corriqueiras que fomentam o
egoísmo.
Em diversas épocas, homens de escol procuraram impelir a Humanidade por
esse caminho; mas, ainda muito jovem, ela se conservou surda e os
ensinamentos que eles ministraram foram como a boa semente caída no
pedregulho.
Hoje, a Humanidade está madura para lançar o olhar a alturas que nunca
tentou divisar, a fim de nutrir-se de idéias mais amplas e compreender o
que
antes não compreendia.
A geração que desaparece levará consigo seus erros e prejuízos; a
geração que surge, retemperada em fonte mais pura, imbuída de idéias mais
sãs, imprimirá ao mundo ascensional movimento, no sentido do progresso
moral
que assinalará a nova fase da evolução humana.
- Essa fase já se revela por sinais inequívocos, por tentativas de
reformas úteis e que começam a encontrar eco. Assim é que vemos fundar-se
uma imensidade de instituições protetoras, civilizadoras e emancipadoras,
sob o
influxo e por iniciativa de homens evidentemente predestinados à obra da
regeneração; que as leis penais se vão apresentando dia a dia impregnadas
de
sentimentos mais humanos. Enfraquecem-se os preconceitos de raça, os povos
entram a considerar-se membros de uma grande família; pela uniformidade e
facilidade dos meios de realizarem suas transações, eles suprimem as
barreiras
que os separavam e de todos os pontos do mundo reúnem-se em comícios
universais, para as justas pacificas da inteligência.
Falta, porém, a essas reformas uma base que permita se desenvolvam,
completem e consolidem; falta uma predisposição moral mais generalizada,
para fazer que elas frutifiquem e que as massas as acolham. Ainda aí há um
sinal característico da época, porque há o prelúdio do que se efetuará em
mais
larga escala, à proporção que o terreno se for tornando mais favorável.
- Outro sinal não menos característico do período em que entramos
encontra-se na reação que se opera no sentido das idéias espiritualistas;
na
repulsão instintiva que se manifesta contra as idéias materialistas. O
espírito de
incredulidade, que se apoderara das massas, ignorantes ou esclarecidas, e
as
levava a rejeitar com a forma a substância mesma de toda crença, parece
ter
sido um sono, a cujo despertar se sente a necessidade de respirar um ar
mais
vivificante. Involuntariamente, lá onde o vácuo se fizera, procura-se
alguma
coisa, um ponto de apoio.
- Se supusermos possuída desses sentimentos a maioria dos
homens, poderemos facilmente imaginar as modificações que dai decorrerão
para as relações sociais; todos terão por divisa: caridade, fraternidade,
benevolência para com todos, tolerância para todas as crenças. É a meta
para
que tende evidentemente a Humanidade; esse o objeto de suas aspirações, de
seus desejos, sem que, entretanto, ela perceba claramente por que meio as
há
de realizar. Ensaia, tateia, mas é detida por muitas resistências ativas,
ou pela
força de inércia dos preconceitos, das crenças estacionárias e refratárias
ao
progresso. Faz-se-lhe mister vencer tais resistências e essa será a obra
da nova
geração. Quem acompanhar o curso atual das coisas reconhecerá que tudo
parece predestinado a lhe abrir caminho. Ela terá por si a dupla força do
número
e das idéias e, de acréscimo, a experiência do passado.
- A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as idéias
humanitárias compatíveis com o
grau de adiantamento a que houver chegado. Avançando para o mesmo alvo e
realizando seus objetivos, o Espiritismo se encontrará com ela no mesmo
terreno. Aos homens progressistas se deparará nas idéias espíritas
poderosa
alavanca e o Espiritismo achará, nos novos homens, espíritos inteiramente
dispostos a acolhê-lo. Dado esse estado de coisas, que poderão fazer os
que
entendam de opor-se-lhe? (A GÊNESE, OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O
ESPIRITISMO, Allan Kardec, Cap. XVII, Juízo Final, Cap. XVIII, São
chegados os tempos. - Sinais dos tempos)
__________
(1) Esta expressão: a abominação da desolação não só carece de sentido,
como se
presta ao ridículo. A tradução de Ostervald diz: "A abominação que causa a
desolação", o que é
muito diferente. O sentido então se torna perfeitamente claro, porquanto
se compreende que as abominações hajam de acarretar a desolação, como
castigo.
Quando a abominação, diz Jesus, se instalar no lugar santo, também a
desolação para aí virá e
isso constituirá um sinal de que estão próximos os tempos.
(1) Extrato de duas comunicações dadas na
Sociedade de Paris e publicadas na Revue
Spirite de outubro de 1868, pág. 313. São corolários das de Galileu,
reproduzidas no capítulo VI,
e complementares do capítulo IX, sobre as revoluções do globo.
(1) A terrível epidemia que, de 1866 a 1868, dizimou a população da Ilha
Maurícia, teve a
precedê-la tão extraordinária e tão abundante chuva de estrelas cadentes,
em novembro de
1866, que aterrorizou os habitantes daquela ilha. A partir desse momento,
a doença, que reinava
desde alguns meses de forma muito benigna, se transformou em verdadeiro
flagelo devastador.
Aquele fora bem um sinal no céu e talvez nesse sentido é que se deva
entender a frase -
estrelas caindo do céu, de que fala o Evangelho, como sendo um dos sinais
dos tempos.
(Pormenores sobre a epidemia da ilha Maurícia: Revue Spirite, de julho de
1867, pág. 208, e
novembro de 1868, pág. 321.)
Mais ALLAN KARDEC:
1.
Espiritismo Em Sua Expressão Mais Simples
2.
Noções Elementares de Espiritismo
3.
Soluções de Alguns Problemas Pela Doutrina Espírita
4.
Nova Tática Dos Adversários do Espiritismo
5. O
Comando Espírita
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