2. - Se o mal estivesse nas atribuições de um ser especial, quer se lhe chame Arimane, quer Satanás, ou ele seria igual a Deus, e, por conseguinte, tão poderoso quanto este, e de toda a eternidade como ele, ou lhe seria inferior. No primeiro caso, haveria duas potências rivais, incessantemente em luta, procurando cada uma desfazer o que fizesse a outra,contrariando-se mutuamente, hipótese esta inconciliável com a unidade de vistas que se revela na estrutura do Universo. No segundo caso, sendo inferior a Deus, aquele ser lhe estaria subordinado. Não podendo existir de toda a eternidade como Deus, sem ser igual a este, teria tido um começo. Se fora criado, só o poderia ter sido por Deus, que, então, houvera criado o Espírito do mal, o que implicaria negação da bondade infinita. (Veja-se: O Céu e o Inferno, cap. X: «Os demônios».)
3. - Entretanto, o mal existe e tem uma causa.
4. - O homem recebeu em partilha uma inteligência com cujo auxílio lhe é
possível conjurar, ou, pelo menos, atenuar os efeitos de todos os flagelos
naturais. Quanto mais saber ele adquire e mais se adianta em civilização,
tanto menos desastrosos se tornam os flagelos. Com uma organização sábia e
previdente, chegará mesmo a lhes neutralizar as conseqüências, quando não
possam ser inteiramente evitados. Assim, com referência, até, aos flagelos
que têm certa utilidade para a ordem geral da Natureza e para o futuro,
mas que, no presente, causam danos, facultou Deus ao homem os meios de
lhes paralisar os efeitos. 5. - Tendo o homem que progredir, os males a que se acha exposto são um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades físicas e morais, incitando-o a procurar os meios de evitá-los. Se ele nada houvesse de temer, nenhuma necessidade o induziria a procurar o melhor; o espírito se lhe entorpeceria na inatividade; nada inventaria, nem descobriria. A dor é o aguilhão que o impede para a frente, na senda do progresso. 6. - Porém, os males mais numerosos são os que o homem cria pelos seus vícios, os que provêm do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambição, da sua cupidez, de seus excessos em tudo. Aí a causa das guerras e das calamidades que estas acarretam, das dissenções, das injustiças, da opressão do fraco pelo forte, da maior parte, afinal, das enfermidades. Deus promulgou leis plenas de sabedoria, tendo por único objetivo o bem. Em si mesmo encontra o homem tudo o que lhe é necessário para cumpri-las. A consciência lhe traça a rota, a lei divina lhe está gravada no coração e, ao demais, Deus lha lembra constantemente por intermédio de seus messias e profetas, de todos os Espíritos encarnados que trazem a missão de o esclarecer, moralizar e melhorar e, nestes últimos tempos, pela multidão dos Espíritos desencarnados que se manifestam em toda parte. Se o homem se conformasse rigorosamente com as leis divinas, não há duvidar de que se pouparia aos mais agudos males e viveria ditoso na Terra. Se assim procede, é por virtude do seu livre-arbítrio: sofre então as conseqüências do seu proceder. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, nos 4, 5, 6 e seguintes.) 7. - Entretanto, Deus, todo bondade, Pôs o remédio ao lado do mal, isto é, faz que do próprio mal saia o remédio. Um momento chega em que o excesso do mal moral se torna intolerável e impõe ao homem a necessidade de mudar de vida. Instruído pela experiência, ele se sente compelido a procurar no bem o remédio, sempre por efeito do seu livre-arbítrio. Quando toma melhor caminho, é por sua vontade e porque reconheceu os inconvenientes do outro. A necessidade, pois, o constrange a melhorar-se moralmente, para ser mais feliz, do mesmo modo que o constrangeu a melhorar as condições materiais da sua existência (nº 5).
8. - Pode dizer-se que o mal é a ausência do bem, como o frio é a ausência
do calor. Assim como o frio não é um fluido especial, também o mal não é
atributo distinto; um é o negativo do outro. Onde não existe o bem,
forçosamente existe o mal. Não praticar o mal, já é um princípio do bem.
Deus somente quer o bem; só do homem procede o mal. Se na criação houvesse
um ser preposto ao mal, ninguém o poderia evitar; mas, tendo o homem a
causa do mal em SI MESMO, tendo simultaneamente o livre-arbítrio e por
guia as leis divinas, evitá-lo-á sempre que o queira.
9. - Decorrendo, o mal, das imperfeições do homem e tendo sido este criado
por Deus, dir-se-á, Deus não deixa de ter criado, se não o mal, pelo
menos, a causa do mal; se houvesse criado perfeito o homem, o mal não
existiria.
10. - Estudando-se todas as paixões e, mesmo, todos os vícios, vê-se que
as raízes de umas e outros se acham no instinto de conservação, instinto
que se encontra em toda a pujança nos animais e nos seres primitivos mais
próximos da animalidade, nos quais ele exclusivamente domina, sem o
contrapeso do senso moral, por não ter ainda o ser nascido para a vida
intelectual. O instinto se enfraquece, à medida que a inteligência se
desenvolve, porque esta domina a matéria. O Espírito tem por destino a
vida espiritual, porém, nas primeiras fases da sua existência corpórea,
somente a exigências materiais lhe cumpre satisfazer e, para tal, o
exercício das paixões constitui uma necessidade para o efeito da
conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Mas, uma
vez saído desse período, outras necessidades se lhe apresentam, a
princípio semimorais e semimateriais, depois exclusivamente morais. É
então que o Espírito exerce domínio sobre a matéria, sacode-lhe o jugo,
avança pela senda providencial que se lhe acha traçada e se aproxima do
seu destino final. Se, ao contrário, ele se deixa dominar pela matéria,
atrasa-se e se identifica com o bruto. Nessa situação, o que era outrora
um bem, porque era uma necessidade da sua natureza, transforma-se num mal,
não só porque já não constitui uma necessidade, como porque se torna
prejudicial à espiritualização do ser. Muita coisa, que é qualidade na
criança, torna-se defeito no adulto. O mal e, pois, relativo e a
responsabilidade é proporcionada ao grau de adiantamento.
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