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1 - PLURALIDADE
DOS MUNDOS
2 - DA ALMA
3 - O HOMEM DURANTE A VIDA TERRENA
4 - O HOMEM DEPOIS DA MORTE
5 - MÉDIUNS E FEITICEIROS
PLURALIDADE DOS MUNDOS
105. Os diferentes mundos que circulam no espaço, terão habitantes como a
Terra?
Todos os Espíritos o afirmam e a razão diz que assim deve ser. A Terra não
ocupa no Universo nenhuma posição especial, nem por sua colocação, nem
pelo seu volume, e nada justificaria o privilégio exclusivo de ser
habitada. Além disso, Deus não teria criado milhares de globos, com o fim
único de recrear-nos a vista, tanto mais que o maior número deles se acha
fora de nosso alcance. (O Livro dos Espíritos, nº 55. — Revue Spirite,
1858, pág. 65: Pluralité des mondes, por Flammarion.)
106. Se os mundos são povoados, serão seus habitantes, em tudo,
semelhantes aos da Terra? Em uma palavra, poderiam eles viver entre nós, e
nós entre eles?
A forma geral poderia ser, mais ou menos, a mesma, mas o organismo deve
ser adaptado ao meio em que eles têm de viver, como os peixes são feitos
para viver na água e as aves no ar.
Se o meio for diverso, como tudo leva a crê-lo e como parece demonstrá-lo
as observações astronômicas, a organização deve ser diferente; não é,
pois, provável que, em seu estado normal, eles possam mudar de mundo com
os mesmos corpos. Isto é confirmado por todos os Espíritos.
107. Admitindo que esses mundos sejam povoados, estarão na mesma colocação
que o nosso, sob o ponto de vista intelectual e moral?
Segundo o ensino dos Espíritos, os mundos se acham em graus de
adiantamento muito diferentes; alguns estão no mesmo ponto que o nosso;
outros são mais atrasados, sendo sua humanidade mais bruta, mais material
e mais propensa ao mal. Pelo contrário, outros são muito mais adiantados
moral, intelectual e fisicamente; neles, o mal moral é desconhecido, as
artes e as ciências já atingiram um grau de perfeição que foge à nossa
apreciação; a organização física, menos material, não está sujeita aos
sofrimentos, moléstias e enfermidades; aí os homens vivem em paz, sem
buscar o prejuízo uns dos outros, isentos dos desgostos, cuidados,
aflições e necessidades que os apoquentam na Terra. Há, finalmente, outros
ainda mais adiantados, onde o invólucro corporal, quase fluídico, se
aproxima cada vez mais da natureza dos anjos.
Na série progressiva dos mundos, o nosso nem ocupa o primeiro nem o último
lugar, mas é um dos mais materializados e atrasados. (Revue Spirite, 1858,
págs. 67, 108 e 223. — Idem, 1860, págs. 318 e 320. — O Evangelho segundo
o Espiritismo, cap. III.)
TOPO
DA ALMA
108. Qual a sede da alma?
A alma não está, como geralmente se crê, localizada num ponto particular
do corpo; ela forma com o perispírito um conjunto fluídico, penetrável,
assimilando-se ao corpo inteiro, com o qual ela constitui um ser complexo,
do qual a morte não é, de alguma sorte, mais que um desdobramento. Podemos
figuradamente supor dois corpos semelhantes na forma, um encaixado no
outro,
confundidos durante a vida e separados depois da morte. Nessa ocasião um
deles é destruído, ao passo que o outro subsiste.
Durante a vida a alma age mais especialmente sobre os órgãos do pensamento
e do sentimento. Ela é, ao mesmo tempo, interna e externa, isto é, irradia
exteriormente, podendo mesmo isolar-se do corpo, transportar-se ao longe e
aí manifestar sua presença, como o provam a observação e os fenômenos
sonambúlicos.
109. Será a alma criada ao mesmo tempo que o corpo, ou anteriormente a
este?
Depois da questão da existência da alma, é esta uma das questões mais
capitais, porque de sua solução dimanam as mais importantes conseqüências;
ela é a única capaz de explicar uma multidão de problemas até hoje
insolúveis, por não se ter nela acreditado.
De duas uma: ou a alma existia, ou não existia antes da formação do corpo;
não pode haver meio-termo.
Com a preexistência da alma tudo se explica lógica e naturalmente; sem
ela, encontram-se tropeços a cada passo, e, mesmo, certos dogmas da Igreja
ficam sem justificação, o que tem conduzido muitos pensadores à
incredulidade.
Os Espíritos resolveram a questão afirmativamente, e os fatos, como a
lógica, não podem deixar dúvidas a esse respeito.
Admita-se, ao menos como hipótese, a preexistência da alma, e veremos
aplainar-se a maioria das dificuldades. 110. Se a alma já existia, antes da sua união com o corpo tinha ela sua
individualidade e consciência de si?
Sem individualidade e sem consciência de si mesma, seria como se não
existisse. 111. Antes da sua união com o corpo, já tinha a alma feito algum
progresso, ou estava estacionária?
O progresso anterior da alma é simultaneamente demonstrado pela observação
dos fatos e pelo ensino dos Espíritos. 112. Criou Deus as almas iguais moral e intelectualmente, ou fê-las mais
perfeitas e inteligentes umas que as outras?
Se Deus as houvesse feito umas mais perfeitas que as outras, não
conciliaria essa preferência com a justiça.
Sendo todas as criaturas obra sua, por que dispensaria ele do trabalho
umas, quando o impõe a outras para alcançarem a felicidade eterna?
A desigualdade das almas em sua origem seria a negação da justiça de Deus.
113. Se as almas são criadas iguais, como explicar a diversidade de
aptidões e predisposições naturais que notamos entre os homens, na Terra?
Essa diversidade é a conseqüência do progresso feito pela alma, antes da
sua união ao corpo.
As almas mais adiantadas, em inteligência e moralidade, são as que têm
vivido mais e mais progredido antes de sua encarnação.
114. Qual o estado da alma em sua origem?
As almas são criadas simples e ignorantes, isto é, sem ciência e sem
conhecimento do bem e do mal, mas com igual aptidão para tudo. A
princípio, encontram-se numa espécie de infância, sem vontade própria e
sem consciência perfeita de sua existência. Pouco a pouco o livre-arbítrio
se desenvolve, ao mesmo tempo que as idéias. (O Livro dos Espíritos, nºs
114 e seguintes.) 115. Fez a alma esse progresso anterior, no estado de alma propriamente
dita, ou em precedente existência corporal?
Além do ensino dos Espíritos sobre esse ponto, o estudo dos diferentes
graus de adiantamento do homem, na Terra, prova que o progresso anterior
da alma deve
fazer-se em uma série de existências corporais, mais ou menos numerosas,
segundo o grau a que ele chegou; a prova disto está na observação dos
fatos que diariamente estão sob os nossos olhos. (O Livro dos Espíritos,
nºs 166 a 222. — Revue Spirite, abril, 1862, páginas 97 a 106.) TOPO
O HOMEM DURANTE A VIDA TERRENA
116. Como e em que momento se opera a união da alma ao corpo?
Desde a concepção, o Espírito, ainda que errante, está, por um cordão
fluídico, preso ao corpo com o qual se deve unir. Este laço se estreita
cada vez mais, à medida que o corpo se vai desenvolvendo. Desde esse
momento, o Espírito sente uma perturbação que cresce sempre; ao
aproximar-se do nascimento, ocasião em que ela se torna completa, o
Espírito perde a consciência de si e não recobra as idéias senão
gradualmente, a partir do momento em que a criança começa a respirar; a
união então é completa e definitiva. 117. Qual o estado intelectual da alma da criança no momento de nascer?
Seu estado intelectual e moral é o que tinha antes da união ao corpo, isto
é, a alma possui todas as idéias anteriormente adquiridas; mas, em razão
da perturbação que acompanha a mudança de estado, suas idéias se acham
momentaneamente em estado latente. Elas se vão esclarecendo aos poucos,
mas não se podem manifestar senão proporcionalmente ao desenvolvimento dos
órgãos. 118. Qual a origem das idéias inatas, das disposições precoces, das
aptidões instintivas para uma arte ou ciência, abstração feita da
instrução?
As idéias inatas não podem ter senão duas fontes:
a criação das almas mais perfeitas umas que as outras, no caso de serem
criadas ao mesmo tempo que o corpo, ou um progresso por elas adquirido
anteriormente à encarnação.
Sendo a primeira hipótese incompatível com a justiça de Deus, só fica de
pé a segunda.
As idéias inatas são o resultado dos conhecimentos adquiridos nas
existências anteriores, são idéias que se conservaram no estado de
intuição, para servirem de base à aquisição de outras novas.
119. Como se podem revelar gênios nas classes da sociedade inteiramente
privadas de cultura intelectual?
É um fato que prova serem as idéias inatas Independentes do meio em que o
homem foi educado, O ambiente e a educação desenvolvem as idéias inatas,
mas não no-las podem dar. O homem de gênio é a encarnação de um Espírito
adiantado que muito houvera já progredido. A educação pode fornecer a
instrução que falta, mas não o gênio, quando este não exista.
120. Por que encontramos crianças instintivamente boas em um meio
perverso, apesar dos maus exemplos que colhem, ao passo que outras são
instintivamente viciosas em um meio bom, apesar dos bons conselhos que
recebem?
É o resultado do progresso moral adquirido, como as idéias inatas são o
resultado do progresso intelectual. 121. Por que de dois filhos do mesmo pai, educados nas mesmas condições,
um é às vezes inteligente e o outro estúpido, um bom e o outro mau? Por
que o filho de um homem de gênio é, algumas vezes, um tolo, e o de um
tolo, um homem de gênio?
É um fato esse que vem em abono da origem das idéias inatas; prova, além
disso, que a alma do filho não procede, de sorte alguma, da dos pais; se
assim não fosse, em virtude do axioma que a parte é da mesma natureza que
o todo, os pais transmitiriam aos filhos as suas qualidades e defeitos
próprios, como lhes transmitem o princípio das qualidades corporais. Na
geração, somente o
corpo procede do corpo, mas as almas são independentes umas das outras.
122. Se as almas são independentes umas das outras, donde vem o amor dos
pais pelos filhos e o destes por aqueles?
Os Espíritos se ligam por simpatia, e o nascimento em tal ou tal família
não é um efeito do acaso, mas depende muitas vezes da escolha feita pelo
Espírito, que vem juntar-se àqueles a quem amou no mundo espiritual ou em
suas precedentes existências. Por outro lado, os pais têm por missão
ajudar o progresso dos Espíritos que encarnam como seus filhos, e, para
excitá-los a isso, Deus lhes inspira uma afeição mútua; muitos, porém,
faltam a essa missão, sendo por isso punidos. (O Livro dos Espíritos, nº
379, Da infância.) 123. Por que há maus pais e maus filhos?
São Espíritos que não se ligaram na mesma família por simpatia, mas com o
fim de servirem de instrumentos de provas uns aos outros e, muitas vezes,
para punição do que foram em existência anterior; a um é dado um mau
filho, porque também ele o foi; a outro, um mau pai, pelo mesmo motivo, a
fim de que sofram a pena de talião. (Revue Spirite, 1861, pág. 270: La
Peine du talion.) 124. Por que encontramos em certas pessoas, nascidas em condição servil,
instintos de dignidade e grandeza, enquanto outras, nascidas nas classes
superiores, só apresentam instintos de baixeza?
É uma reminiscência intuitiva da posição social que o Espírito já ocupou,
e do seu caráter na existência precedente. 125. Qual a causa das simpatias e antipatias que se manifestam entre
pessoas que se vêem pela primeira vez?
São quase sempre entes que se conheceram e, algumas vezes, se amaram em
uma existência anterior, e que, encontrando-se nesta, são atraídos um para
o outro. As antipatias instintivas provêm também, muitas vezes, de
relações anteriores.
Esses dois sentimentos podem ainda ter uma outra causa, O perispírito
irradia ao redor do corpo, formando uma espécie de atmosfera impregnada
das qualidades boas ou más do Espírito encarnado. Duas pessoas que se
encontram, experimentam, pelo contacto desses fluidos, a impressão
sensitiva, impressão que pode ser agradável ou desagradável; os fluidos
tendem a confundir-se ou a repelir-se, segundo sua natureza semelhante ou
dessemelhante. Ë assim que se pode explicar o fenômeno da transmissão de
pensamento. Pelo contacto desses fluidos, duas almas, de algum modo, lêem
uma na outra; elas se adivinham e compreendem, sem se falarem.
126. Por que não conserva o homem a lembrança de suas anteriores
existências? Não será ela necessária ao seu progresso futuro? (Vede a
parte que trata do Esquecimento do passado).
Esquecimento do passado:
V. — Não consigo explicar a mim mesmo como pode o homem aproveitar da
experiência adquirida em suas anteriores existências, quando não se lembra
delas, pois que, desde que lhe falta essa reminiscência, cada existência é
para ele qual se fora a primeira; deste modo, está sempre a recomeçar.
Suponhamos que cada dia, ao despertar, perdemos a memória de tudo quanto
fizemos no dia anterior; quando chegássemos aos setenta anos, não
estaríamos mais adiantados do que aos dez; ao passo que recordando as
nossas faltas, inaptidões e punições que disso nos provieram,
esforçar-nos-emos por evitá-las.
Para me servir da comparação que fizestes do homem, na Terra, com o aluno
de um colégio, eu não compreendo como este poderia aproveitar as lições da
quarta classe, não se lembrando do que aprendeu na anterior.
Essas soluções de continuidade na vida do Espírito interrompem todas as
relações e fazem dele, de alguma sorte, uma entidade nova; do que podemos
concluir que os nossos pensamentos morrem com cada uma das nossas
existências, para renascer em outra, sem consciência do que fomos; é uma
espécie de aniquilamento.
A. K. — De pergunta em pergunta, levar-me-eis a fazer um curso completo de
Espiritismo; todas as objeções que apresentais são naturais em quem ainda
nada conhece, mas que, mediante estudo sério, pode encontrar-lhes
respostas muito mais explícitas do que as que posso dar em sumária
explicação que, por certo, deve sempre ir provocando novas questões.
Tudo se encadeia no Espiritismo, e, quando se toma o conjunto, vê-se que
seus princípios emanam uns dos outros, servindo-se mutuamente de apoio; e,
então, o que parecia uma anomalia, contrária à justiça e à sabedoria de
Deus, se torna natural e vem confirmar essa justiça e essa sabedoria. Tal
é o problema do esquecimento do passado, que se prende a outras questões
de não menor importância e, por isso, não farei aqui senão tocar levemente
o assunto.
Se em cada uma de suas existências um véu esconde o passado do Espírito,
com isso nada perde ele das suas aquisições, apenas esquece o modo por que
as conquistou.
Servindo-me ainda da comparação supra com o aluno, direi que pouco importa
saber onde, como, com que professores ele estudou as matérias de uma
classe, uma vez que as saiba, quando passa para a classe seguinte. Se os
castigos o tornaram laborioso e dócil, que lhe importa saber quando foi
castigado por preguiçoso e insubordinado?
É assim que, reencarnando, o homem traz por intuição e como idéias inatas,
o que adquiriu em ciência e moralidade. Digo em moralidade porque, se no
curso de uma existência ele se melhorou, se soube tirar proveito das
lições da experiência, se tornará melhor quando voltar; seu Espírito,
amadurecido na escola do sofrimento e do trabalho, terá mais firmeza;
longe de ter de recomeçar tudo, ele possui um fundo que vai sempre
crescendo e sobre o qual se apóia para fazer maiores conquistas.
A segunda parte da vossa objeção, relativa ao aniquilamento do pensamento,
não tem base mais segura, porque esse olvido só se dá durante a vida
corporal; uma vez terminada ela, o Espírito recobra a lembrança do seu
passado; então poderá julgar do caminho que seguiu e do que lhe resta
ainda fazer; de modo que não há essa solução de continuidade em sua vida
espiritual, que é a vida normal do Espírito. Esse esquecimento temporário
é um benefício da Providência; a experiência só se adquire, muitas vezes,
por provas rudes e terríveis expiações, cuja recordação seria muito penosa
e viria aumentar as angústias e tribulações da vida presente.
Se os sofrimentos da vida parecem longos, que seria se a ele se juntasse a
lembrança do passado?
Vós, por exemplo, meu amigo, sois hoje um homem de bem, mas talvez devais
isso aos rudes castigos que recebestes pelos malefícios que hoje vos
repugnariam à consciência; ser-vos-ia agradável a lembrança de ter sido
outrora enforcado por vossa maldade? Não vos perseguiria a vergonha de
saber que o mundo não ignorava o mal que tínheis feito? Que vos importa o
que fizestes e o que sofrestes para expiar, quando hoje sois um homem
estimável? Aos olhos do mundo, sois um homem novo, e aos olhos de Deus um
Espírito reabilitado. Livre da reminiscência de um passado importuno,
viveis com mais liberdade; é para vós um novo ponto de partida; vossas
dívidas anteriores estão pagas, cumprindo-vos ter cuidado de não contrair
outras.
Quantos homens desejariam assim poder, durante a vida, lançar um véu sobre
os seus primeiros anos! Quantos, ao chegar ao termo de sua carreira, não
têm dito: “Se eu tivesse de recomeçar, não faria mais o que fiz!” Pois
bem, o que eles não podem fazer nesta mesma
vida, fá-lo-ão em outra; em uma nova existência, seu Espírito trará, em
estado de intuição, as boas resoluções que tiver tomado. É assim que se
efetua gradualmente o progresso da humanidade.
Suponhamos ainda — o que é um caso muito comum — que, em vossas relações,
em vossa família mesmo se encontre um indivíduo que vos deu outrora muitos
motivos de queixa, que talvez vos arruinou, ou desonrou em outra
existência, e que, Espírito arrependido, veio encarnar-se em vosso meio,
ligar-se a vós pelos laços de família, a fim de reparar suas faltas para
convosco, por
seu devotamento e afeição; não vos acharíeis mutuamente na mais embaraçosa
posição, se ambos vos lembrásseis de vossas passadas inimizades? Em vez de
se extinguirem, os ódios se eternizariam.
Disso resulta que a reminiscência do passado perturbaria as relações
sociais e seria um tropeço ao progresso. Quereis uma prova?
Supondo que um indivíduo condenado às galés tome a firme resolução de
tomar-se um homem de bem, que acontece quando ele termina o cumprimento da
pena? A sociedade o repele, e essa repulsa o lança de novo nos braços do
vício. Se, porém, todos desconhecessem os seus antecedentes, ele seria bem
acolhido; e, se ele mesmo os esquecesse, poderia ser honesto e andar de
cabeça erguida, em vez de ser obrigado a curvá-la sob o peso da vergonha
do que não pode olvidar.
Isto está em perfeita concordância com a doutrina dos Espíritos, a
respeito dos mundos superiores ao nosso planeta, nos quais, só reinando o
bem, a lembrança do passado nada tem de penosa; eis por que seus
habitantes se recordam da sua existência precedente, como nós nos
recordamos hoje do que ontem fizemos.
Quanto à lembrança do que fizeram em mundos inferiores, ela produz neles a
impressão de um mau sonho. (1ª parte, cap. 19) 127. Qual a origem do sentimento a que chamamos consciência?
É uma recordação intuitiva do progresso feito nas precedentes existências
e das resoluções tomadas pelo Espírito antes de encarnar, resoluções que
ele, muitas vezes, esquece como homem. 128. Tem o homem o livre-arbítrio, ou está sujeito à fatalidade?
Se a conduta do homem fosse sujeita à fatalidade, não haveria para ele nem
responsabilidade do mal, nem mérito do bem que pratica. Toda punição seria
uma injustiça, toda recompensa um contra-senso, O livre-arbítrio do homem
é uma conseqüência da justiça de Deus, é o atributo que a divindade
imprime àquele e o eleva acima de todas as outras criaturas. É isto tão
real que a estima dos homens, uns pelos outros, baseia-se na admissão
desse livre-arbítrio; quem, por uma enfermidade, loucura, embriaguez ou
idiotismo, perde acidentalmente essa faculdade, é lastimado ou desprezado.
O materialista que faz todas as faculdades morais e intelectuais
dependerem do organismo, reduz o homem ao estado de máquina, sem
livre-arbítrio e, por conseqüência, sem responsabilidade do mal e sem
mérito do bem que pratica. (Revue Spirite, 1861, pág. 76; La tête de
Garibaldi — Idem, 1862, pág. 97: Phrénologie spiritualiste.)
129. Será Deus o criador do mal?
Deus não criou o mal; Ele estabeleceu leis, e estas
são sempre boas, porque Ele é soberanamente bom; aquele que as observasse
fielmente, seria perfeitamente feliz; porém, os Espíritos, tendo seu
livre-arbítrio, nem sempre as observam, e é dessa infração que provém o
mal. 130. O homem já nasce bom ou mau?
É preciso fazermos uma distinção entre a alma e o homem. A alma é criada
simples e ignorante, isto é, nem boa nem má, porém suscetível, em razão do
seu livre-arbítrio, de seguir o bom ou o mau caminho, ou, por outra, de
observar ou infringir as leis de Deus. O homem nasce bom ou mau, segundo
seja ele a encarnação de um Espírito adiantado ou atrasado.
131. Qual a origem do bem e do mal na Terra e por que este predomina?
A imperfeição dos Espíritos que aqui se encarnam, é a origem do mal na
Terra; quanto à predominância deste, provém da inferioridade do planeta,
cujos habitantes são, na maioria, Espíritos inferiores ou que pouco têm
progredido. Em mundos mais adiantados, onde só encarnam Espíritos
depurados, o mal não existe ou está em minoria. 132. Qual a causa dos males que afligem a
humanidade?
O nosso mundo pode ser considerado, ao mesmo tempo, como escola de
Espíritos pouco adiantados e cárcere de Espíritos criminosos. Os males da
nossa humanidade são a conseqüência da inferioridade moral da maioria dos
Espíritos que a formam. Pelo contato de seus vícios, eles se infelicitam
reciprocamente e punem-se uns aos outros. 133. Por que vemos tantas vezes o mau prosperar, enquanto o homem de bem
vive em aflição?
Para aquele cujo pensamento não transpõe as raias da vida presente, para
quem a acredita única, isto deve parecer clamorosa injustiça. Não se dá,
porém, o mesmo com quem admite a pluralidade das existências e pensa na
brevidade de cada uma delas, em relação à eternidade.
O estudo do Espiritismo prova que a prosperidade do mau tem terríveis
conseqüências em suas seguintes existências; que as aflições do homem de
bem são, pelo contrário, seguidas de uma felicidade, tanto maior e
duradoura, quanto mais resignadamente ele soube suportá-las; não lhe será
mais que um dia mau em uma existência próspera. 134. Por que nascem alguns na indigência e outros na opulência? Por que
vemos tantas pessoas nascerem cegas, surdas, mudas ou afetadas de
moléstias incuráveis, enquanto outros possuem todas as vantagens físicas?
Será um efeito do acaso, ou um ato da Providência?
Se fosse do acaso, a Providência não existiria. Admitida, porém, a
Providência, perguntamos como se conciliam esses fatos com a sua bondade e
justiça? É por falta de compreensão da causa de tais males que muitos se
arrojam a acusar Deus.
Compreende-se que quem se torna miserável ou enfermo, por suas
imprudências ou por excessos, seja punido por onde pecou: porém, se a alma
é criada ao mesmo tempo que o corpo, que fez ela para merecer tais
aflições, desde o seu nascimento, ou para ficar isenta delas?
Se admitimos a justiça de Deus, não podemos deixar de admitir que esse
efeito tem uma causa; e se esta causa não se encontra na vida presente,
deve achar-se antes desta, porque em todas as coisas a causa deve preceder
ao efeito; há, pois, necessidade de a alma já ter vivido, para que possa
merecer uma expiação.
Os estudos espíritas nos mostram, de fato, que mais de um homem, nascido
na miséria, foi rico e considerado em uma existência anterior, na qual fez
mau uso da fortuna que Deus o encarregara de gerir; que mais de um,
nascido na abjeção, foi anteriormente orgulhoso e prepotente, abusou do
poder para oprimir os fracos. Esses estudos no-los fazem ver, muitas
vezes, sujeitos àqueles a quem trataram com dureza, entregues aos
maus-tratos e à humilhação a que submeteram os outros.
Nem sempre uma vida penosa é expiação; muitas vezes é prova escolhida pelo
Espírito, que vê um meio de avançar mais rapidamente, conforme a coragem
com que saiba suportá-la.
A riqueza é também uma prova, mas muito mais perigosa que a miséria, pelas
tentações que dá e pelos abusos que enseja; também o exemplo dos que
viveram, demonstra ser ela uma prova em que a vitória é mais difícil. A
diferença das posições sociais seria a maior das injustiças — quando não
seja o resultado da conduta atual — se ela não tivesse uma compensação. A
convicção que dessa verdade adquirimos, pelo Espiritismo, nos dá força
para suportarmos as vicissitudes da vida e aceitarmos a nossa sorte, sem
invejar a dos outros. 135. Por que há homens idiotas e imbecis?
(No sentido de deficiência, termo médico, não pejorativo - nota
nossa)
A posição dos idiotas e dos imbecis seria a menos conciliável com a
justiça de Deus, na hipótese da unicidade da existência. Por miserável que
seja a condição em que o homem nasça, ele poderá sair dela por sua
inteligência e trabalho; o idiota e o imbecil, porém, são votados, desde o
nascimento até a morte, ao embrutecimento e ao desprezo; para eles não há
compensação possível. Por que foi, então, sua alma criada idiota?
Os estudos espíritas, feitos acerca dos imbecis e idiotas, provam que suas
almas são tão inteligentes como as dos outros homens; que essa enfermidade
é uma expiação infligida a Espíritos que abusaram da inteligência, e
sofrem cruelmente por se sentirem presos, em laços que não podem quebrar,
e pelo desprezo de que se vêem objeto, quando, talvez, tenham sido tão
considerados em encarnação precedente. (Revue Spirite, 1860, pág. 173; L’Esprit
d’um idiot. — Idem, 1861, pág. 311: Les crétins.) 136. Qual o estado da alma durante o sono?
No sono é só o corpo que repousa, mas o Espírito não dorme. As observações
práticas provam que, nessas condições, o Espírito goza de toda a liberdade
e da plenitude das suas faculdades; aproveita-se do repouso do corpo, dos
momentos em que este lhe dispensa a presença, para agir separadamente e ir
aonde quer. Durante a vida, qualquer que seja a distância a que se
transporte, o Espírito fica sempre preso ao corpo por um cordão fluídico,
que serve para chamá-lo, quando a sua presença se torna necessária. Só a
morte rompe esse laço. 137. Qual a causa dos sonhos?
Os sonhos são o resultado da liberdade do Espírito durante o sono; às
vezes, são a recordação dos lugares e das pessoas que o Espírito viu ou
visitou nesse estado. (O Livro dos Espíritos: Emancipação da alma, sono,
sonhos, sonambulismo, vista dupla, letargia, etc., nºs 400 e seguintes. —
O Livro dos Médiuns: Evocação das pessoas vivas nº 284. — Revue Spirite,
1860, pág. 11: L’Esprit d’um côté et Le corps de l’autre. — Idem, 1860,
pág. 81: étude sur l’Esprit des persomnes vivantes.) 138. Donde vêm os pressentimentos?
São recordações vagas e intuitivas do que o Espírito aprendeu em seus
momentos de liberdade e algumas vezes avisos ocultos dados por Espíritos
benévolos. 139. Por que há na Terra selvagens e homens civilizados?
Sem a preexistência da alma, esta questão é insolúvel, a menos que
admitamos tenha Deus criado almas selvagens e almas civilizadas, o que
seria a negação da sua justiça. Além disso, a razão recusa admitir que,
depois da morte, a alma do selvagem fique perpetuamente em estado de
inferioridade, bem como se ache na mesma elevação que a do homem
esclarecido.
Admitindo para as almas um mesmo ponto de partida — única doutrina
compatível com a justiça de Deus —, a presença simultânea da selvageria e
da civilização, na Terra, é um fato material que prova o progresso que uns
já fizeram e que os outros têm de fazer.
A alma do selvagem atingirá, pois, com o tempo, o mesmo grau da alma
esclarecida; mas, como todos os dias morrem selvagens, essa alma não pode
atingir esse grau senão em encarnações sucessivas, cada vez mais
aperfeiçoadas e apropriadas ao seu adiantamento, seguindo todos os graus
intermediários a esses dois extremos. 140. Não será admissível,
segundo pensam algumas pessoas, que a alma, não
encarnando mais que uma vez, faça o seu progresso no estado de Espírito ou
em outras esferas?
Esta proposição seria admissível, se todos os habitantes da Terra se
achassem no mesmo nível moral e intelectual; caso em que se poderia dizer
ser a Terra destinada a determinado grau; ora, quantas vezes temos diante
de nós a prova do contrário!
Com efeito, não é compreensível que o selvagem não pudesse conseguir
civilizar-se aqui na Terra, quando vemos almas mais adiantadas encarnadas
ao lado dele; do que resulta a possibilidade da pluralidade das
existências terrenas, demonstrada por exemplos que temos à vista.
Se fosse de outro modo, era preciso explicar: por que só a Terra teria o
monopólio das encarnações; 2º, por que, tendo esse monopólio, nela se
apresentam almas encarnadas de todos os graus. 141. Por que, no meio das sociedades civilizadas, se mostram seres de
ferocidade comparável à dos mais bárbaros selvagens?
São Espíritos muito inferiores, saídos das raças bárbaras, que
experimentam reencarnar em meio que não é o seu, e onde estão deslocados,
como estaria um rústico colocado de repente numa cidade adiantada.
OBSERVAÇÃO — Não é possível admitir-se, sem negar a Deus os atributos de
bondade e justiça, que a alma do criminoso endurecido tenha, na vida
atual, o mesmo ponto de partida que a de um homem cheio de virtudes.
Se a alma não é anterior ao corpo, a do criminoso e a do homem de bem são
tão novas uma como a outra; por que razão, então, uma delas é boa e a
outra má? 142. Donde vem o caráter distintivo dos povos?
São Espíritos que têm mais ou menos os mesmos gostos e inclinações, que
encarnam em um meio simpático e, muitas vezes, no mesmo meio em que podem
satisfazer as suas inclinações. 143. Como progridem e como degeneram os povos?
Se a alma é criada juntamente com o corpo, as dos homens de hoje são tão
novas, tão primitivas, como a dos homens da Idade Média, e, desde então,
pergunta-se por que têm elas costumes mais brandos e inteligência mais
desenvolvida?
Se na morte do corpo a alma deixa definitivamente a Terra, pergunta-se,
ainda, qual seria o fruto do trabalho feito para melhoramento de um povo,
se este tivesse de ser recomeçado com as almas novas que diariamente
chegam?
Os Espíritos encarnam em um meio simpático e em relação com o grau do seu
adiantamento.
Um chinês, por exemplo, que progredisse suficientemente e não encontrasse
mais na sua raça um meio correspondente ao grau que atingiu, encarnará
entre um povo mais adiantado. À medida que uma geração dá um passo para
frente, atrai por simpatia Espíritos mais avançados, os quais são, talvez,
os mesmos que já haviam vivido no mesmo país e que, por seu progresso,
dele se tinham afastado; é assim que, passo a passo, uma nação avança. Se
a maioria dos seus novos habitantes fosse de natureza inferior e os
antigos emigrassem diariamente e não mais descessem a um meio inferior, o
povo acabaria por degenerar, e, afinal, por extinguir-se.
OBSERVAÇÃO — Essas questões provocam outras que encontram solução no mesmo
principio; por exemplo, donde vem a diversidade de raças, na Terra? — Há
raças rebeldes ao progresso? — A raça negra é suscetível de subir ao nível
das raças européias?* — A escravidão é útil ao progresso das raças
inferiores? — Como se pode operar a transformação da Humanidade? — (O
Livro dos Espíritos: Lei de progresso, nºs 776 e seguintes. — Revue
Spirite, 1862, pág. 1: Doctrine des anges déchus. — Idem, 1862, pág. 97:
Perfectibilité de la rase négre.) TOPO
O HOMEM DEPOIS DA MORTE
144. Como se opera a separação da alma e do corpo? É brusca ou gradual?
O desprendimento opera-se gradualmente e com lentidão variável, segundo os
indivíduos e as circunstâncias da morte.
Os laços que prendem a alma ao corpo não se rompem senão aos poucos, e
tanto menos rapidamente quanto mais a vida foi material e sensual. (O
Livro dos Espíritos, nº 155.) 145. Qual a situação da alma imediatamente depois da morte do corpo? Tem
ela instantaneamente a consciência de si? Em uma palavra, que vê? Que
experimenta ela?
No momento da morte, tudo se apresenta confuso; é-lhe preciso algum tempo
para se reconhecer; ela conserva-se tonta, no estado do homem que sai de
profundo sono e que procura compreender a sua situação. A lucidez das
idéias e a memória do passado Lhe voltam, à medida que se destrói a
influência da matéria de que ela acaba de separar-se, e que se dissipa o
nevoeiro que lhe obscurece os pensamentos.
O tempo da perturbação, seqüente à morte, é muito variável; pode ser de
algumas horas somente, como de muitos dias, meses ou, mesmo, de muitos
anos. Ë menos longa, entretanto, para aqueles que, enquanto vivos, se
identificaram com o seu estado futuro, porque esses compreendem
imediatamente a sua situação; porém, é tanto mais longa quanto mais
materialmente o indivíduo viveu.
A sensação que a alma experimenta nesse momento é também muito variável; a
perturbação, seqüente à morte, nada tem de penosa para o homem de bem;
é calma e em tudo semelhante à que acompanha um despertar plácido.
Para aquele cuja consciência não é pura e amou mais a vida corporal que a
espiritual, esse momento é cheio de ansiedade e de angústias, que vão
aumentando à medida que ele se reconhece, porque então sente medo e certo
terror diante do que vê e sobretudo do que entrevê. A sensação a que
podemos chamar física, é a de grande alívio e de imenso bem-estar, fica-se
como que livre de um fardo, e o Espírito sente-se feliz por não mais
experimentar as dores corporais que o atormentavam alguns instantes antes;
sente-se livre, desembaraçado, como aquele a quem tirassem as cadeias que
o prendiam.
Em sua nova situação, a alma vê e ouve ainda outras coisas que escapam à
grosseria dos órgãos corporais. Tem, então, sensações e percepções que nos
são desconhecidas. (Revue Spirite, 1859, pág. 244: Mort d’un Spirite. —
Idem, 1860, pág. 332: Le réveil de l’Esprit. — Idem, idem, 1862, págs. 129
e 171: Obsêques de M. Sanson.)
OBSERVAÇÃO — Estas respostas e todas as relativas à situação da alma
depois da morte ou durante a vida, não são o resultado de uma teoria ou de
um sistema, mas de estudos diretos feitos sobre milhares de indivíduos,
observados em todas as fases e períodos da sua existência espiritual,
desde o mais baixo ao mais alto grau da escala, segundo seus hábitos
durante a vida terrena, gênero de morte, etc.
Muitas vezes diz-se, falando da vida futura, que não se sabe o que nela se
passa, porque ninguém no-lo veio contar; é um erro, pois são precisamente
os que nela já se acham, que, a respeito, nos vêm Instruir, e Deus o
permite hoje, mais que em nenhuma outra época, como Último aviso à
incredulidade e ao materialismo. 146. A alma que deixa o corpo, pode ver a Deus?
As faculdades perceptivas da alma são proporcionais à sua purificação: só
as de escol podem gozar da presença de Deus. 147. Se Deus está em toda parte, por que nem todos os Espíritos podem
vê-lo?
Deus está em toda parte, porque em toda parte Ele irradia, podendo
dizer-se que o Universo está mergulhado na divindade, como nós o estamos
na luz solar; os Espíritos atrasados, porém, estão envolvidos numa espécie
de nevoeiro que O oculta a seus olhos, e que se não dissipa senão à medida
que eles se desmaterializam e se purificam. Os Espíritos inferiores são,
pela vista, em relação a Deus, o que os encarnados são, em relação aos
Espíritos: verdadeiros cegos. 148. Depois da morte, tem a alma consciência de sua individualidade? Como
a constata e como podemos constatá-la?
Se as almas não tivessem sua individualidade depois da morte, isto, para
elas, como para nós, seria o mesmo que não existirem; não teriam caráter
algum distintivo; a do criminoso estaria na mesma altura que a do homem de
bem, donde resultaria não haver interesse algum em fazermos o bem.
A individualidade da alma é mostrada de modo material, por assim dizer,
nas manifestações espíritas, pela linguagem e qualidades próprias de cada
qual; uma vez que elas pensam e agem de modo diferente, umas são boas e
outras más, umas sábias e outras ignorantes, querendo umas o que outras
não querem, o que prova evidentemente não estarem confundidas em um todo
homogêneo, isso sem falar das provas patentes que nos dão, de terem
animado tal ou tal indivíduo na Terra. Graças ao Espiritismo experimental,
a individualidade da alma não é mais uma coisa vaga, porém o resultado da
observação.
A própria alma reconhece sua individualidade, porque tem pensamento e
volição próprios, que distinguem umas das outras; verificando ainda a sua
individualidade por seu invólucro fluídico ou perispírito, espécie de
corpo limitado, que faz dela um ser distinto.
OBSERVAÇÃO — Há quem pense poder fugir à pecha de materialista por admitir
um principio Inteligente universal, do qual uma parte absorveríamos ao
nascermos, formando dela a nossa alma e restituindo-a depois da morte &
massa comum, onde com outras se confundiria, tal como gotas dágua no
oceano.
Este sistema, espécie de transição, não merece mesmo o nome de
Espiritualismo, pois é tão desolador quanto o materialismo.
O reservatório comum do conjunto universal equivaleria ao aniquilamento,
porquanto ali não haveria mais individualidades. 149. O gênero de morte influi no estado da alma?
O estado da alma varia consideravelmente segundo o gênero de morte, mas,
sobretudo, segundo a natureza dos hábitos durante a vida.
Na morte natural, o desprendimento se opera gradualmente e sem abalo,
começando mesmo antes que a vida esteja extinta. Na morte violenta, por
suplício, suicídio ou acidente, os laços são partidos bruscamente; o
Espírito, surpreendido, fica como que tonto com a mudança nele efetuada, e
não acha explicação para a sua situação.
Um fenômeno, mais ou menos constante em tal caso, é a persuasão em que ele
se conserva de não estar morto, podendo essa ilusão durar muitos meses e
mesmo muitos anos. Neste estado, ele se locomove, julga ocupar-se dos seus
negócios, como se ainda estivesse no mundo, e mostra-se espantado de não
lhe responderem, quando fala.
Essa ilusão também se nota, fora dos casos de morte violenta, em muitos
indivíduos, cuja vida foi absorvida pelos gozos e interesses materiais. (O
Livro dos Espíritos, nº 165. — Revue Spirite, 1858, pág. 166: Le suicidé
de la Samaritaine. — Idem, 1858, pág. 326: Un Estprit au convoi de son
corps; idem, 1859, pág. 184: Le Zowave de Magenta; idem, 1859, pág. 319;
Un Esprit qui ne se croit pas mort. — Idem, 1863, pág. 97: Franço,s Simon
Louvet.) 150. Para onde vai a alma depois de deixar o corpo?
Ela não vai perder-se na imensidade do infinito, como geralmente se supõe;
erra no espaço e, o mais das vezes, no meio daqueles que conheceu e,
sobretudo, que amou, podendo instantaneamente transportar-se a distâncias
imensas. 151. Conserva a alma as afeições que tinha na vida terrena?
Guarda todas as afeições morais e só esquece as materiais, que já não são
de sua essência; por isso vem satisfeita ver os parentes e amigos e
sente-se feliz com a lembrança deles. (Revue Spirite, 1860, pág. 341: Les
amis ne nous oublient pas dons l’autre monde. — Idem, 1862, pág. 132.)
152. Conserva a alma a lembrança do que fez na Terra? Tem ela ainda
interesse pelos trabalhos que não pôde completar?
Depende da sua elevação e da natureza desses trabalhos. Os Espíritos
desmaterializados pouco se preocupam com as coisas materiais, de que se
julgam felizes por estar livres. Quanto aos trabalhos que começaram,
segundo sua importância e utilidade, inspiram a outros o desejo de
terminá-los. 153. Encontra a alma no mundo dos Espíritos os parentes que ali a
precederam?
Não só os encontra, como também a outros muitos, seus conhecidos de outras
existências.
Geralmente, aqueles que mais a amam vêm recebê-la à sua chegada no mundo
espiritual, e ajudam-na a desprender-se dos laços terrenos.
Entretanto, a privação de ver as almas mais caras é, algumas vezes,
punição para os culpados. 154. Qual, na outra vida, o estado intelectual e moral da alma da criança
morta em tenra idade? Suas faculdades conservam -se na infância, como
durante a vida?
O incompleto desenvolvimento dos órgãos da criança não dava ao Espírito a
liberdade de se manifestar completamente; livre desse invólucro, suas
faculdades são o que eram antes da sua encarnação. O Espírito, não tendo
feito mais que passar alguns instantes na vida, não sofre modificação nas
faculdades.
OBSERVAÇÃO — Nas comunicações espíritas, o Espírito de um menino pode,
pois, falar como adulto, porque pode ser Espírito adiantado.
Se, algumas vezes, adota a linguagem infantil, é para não tirar à mãe o
encanto que sempre está ligado à afeição de um ente frágil, delicado e
adornado com as graças da inocência. (Revue Spirite, 1858, pág. 17: Mère!
Je suis là.)
Podendo a mesma questão ser formulada acerca do estado intelectual da alma
doa imbecis, idiotas e loucos depois da morte, encontra-se a solução no
que precede. 155. Que diferença há, depois da morte, entre a alma do sábio e a do
ignorante, entre a do selvagem e a do homem civilizado?
A mesma, pouco mais ou menos, que existia entre elas durante a vida;
porque a entrada no mundo dos Espíritos não dá à alma todos os
conhecimentos que lhe faltavam na Terra. 156. Progridem as, almas, intelectualmente, depois da morte?
Progridem mais ou menos, segundo sua vontade, e
algumas se adiantam muito; porém, têm necessidade de pôr em prática,
durante a vida corporal, o que adquiriram em ciência e moralidade. As que
ficaram estacionárias, recomeçam uma existência análoga à que deixaram; as
que progrediram, alcançam uma encarnação de ordem mais elevada.
Sendo o progresso proporcionado à vontade do Espírito, há muitos que, por
longo tempo, conservam os gostos e as inclinações que tinham durante a
vida, e prosseguem nas mesmas idéias. (Revue Spirite, 1858, pág. 82: La
reine d’Oude; idem, pág. 142; L’Esprit et les héritiers; idem, pág. 186;
Le tambour de la Bérésina; idem, 1859, pág. 344: Un ancien charretier;
idem, 1860, pág. 383: Progrès des Esprits; idem, 1861, pág. 126: Progrès
d’un Esprit pervers.) 157. A sorte do homem, na vida futura, está irrevogavelmente fixada depois
da morte?
A fixação irrevogável da sorte do homem, depois
da morte, seria a negação absoluta da justiça e da bondade de Deus, porque
há muitos que não puderam esclarecer-se suficientemente na existência
terrena, sem falar dos idiotas, imbecis, selvagens e de elevado número de
crianças que morrem sem ter entrevisto a vida.
Mesmo entre os homens esclarecidos, há muitos que, julgando-se assaz
perfeitos, crêem-se dispensados de estudar e trabalhar mais, e não é isto
prova que Deus nos dá de sua bondade, o permitir que o homem faça amanhã o
que não pode fazer hoje?
Se a sorte é irrevogavelmente fixada, por que morrem os homens em idades
diferentes, e por que, em sua justiça, não concede Deus a todos o tempo de
produzir a maior soma de bem e reparar o mal que fizeram?
Quem sabe se o criminoso que morre aos trinta anos, não se teria tornado
um homem de bem, se vivesse até aos sessenta?
Por que Deus lhe tira assim os meios que concede a outros?
Só o fato da diversidade das durações da vida e do estado moral da grande
maioria dos homens, prova a impossibilidade, admitida a justiça divina, de
ser a sorte da alma irrevogavelmente fixada depois da morte.
158. Qual, na vida futura, a sorte das crianças que morrem em tenra idade?
Esta questão é uma das que melhor provam a justiça e a necessidade da
pluralidade das existências. Uma alma que só tiver vivido alguns
instantes, sem fazer nem bem nem mal, não pode merecer prêmio nem castigo,
pois, segundo a máxima do Cristo — cada um é punido ou recompensado
conforme suas obras — é tão ilógico como contrário à justiça de Deus
admitir-se que, sem trabalho, essa alma seja chamada a gozar da
bem-aventurança dos anjos, ou que desta se veja privada; entretanto, ela
deve ter ‘um. destino qualquer. Um estado misto, por toda a eternidade,
seria igualmente uma injustiça. Uma existência logo em começo
interrompida, não podendo, pois, ter conseqüência alguma para a alma, tem
por sorte atual o que mereceu da existência anterior, e futuramente o que
vier a merecer em suas existências ulteriores. 159. Têm as almas ocupações na outra vida? Pensam elas em outra coisa, a
não ser em suas alegrias e sofrimentos?
Se as almas não fizessem mais que tratar de si durante a eternidade, seria
egoísmo, e Deus, que condena essa falta na vida corporal, não poderia
aprová-la na espiritual. As almas, ou Espíritos, têm ocupações em relação
com o seu grau de adiantamento, ao mesmo tempo que procuram instruir-se e
melhorar-se. (O Livro dos Espíritos, nº 558: Ocupações e missões dos
Espíritos.) 160. Em que consistem os sofrimentos da alma depois da morte? Irão as
almas criminosas ser torturadas em chamas materiais?
A Igreja reconhece perfeitamente, hoje, que o fogo do inferno é todo moral
e não material; porém, não define a natureza dos sofrimentos. As
comunicações espíritas colocam os sofrimentos sob os nossos olhos, e, por
esse meio, podemos apreciá-los e convencer-nos de que, apesar de não serem
o resultado de um fogo material, que efetivamente não poderia queimar
almas imateriais, eles, nem por isso, deixam de ser mais terríveis, em
certos casos.
Essas penas não são uniformes: variam infinitamente, segundo a natureza e
o grau das faltas cometidas, sendo quase sempre essas mesmas faltas o
instrumento do seu castigo; é assim que certos assassinos são obrigados a
conservarem-se no próprio lugar do crime e a contemplar suas vítimas
incessantemente; que o homem de gostos sensuais e materiais conserva esses
pendores juntamente com a impossibilidade de satisfazê-los, o que lhe é
uma tortura; que certos avarentos julgam sofrer o frio e as privações que
suportaram na vida por sua avareza; outros se conservam junto aos tesouros
que enterraram, em transes perpétuos, com medo que os roubem; em uma
palavra, não há um defeito, uma imperfeição moral, um ato mau, que não
tenha, no mundo espiritual, seu reverso e suas conseqüências naturais; e,
para isso, não há necessidade de um lugar determinado e circunscrito. Onde
quer que se ache o Espírito perverso, o inferno estará com ele.
Além dos sofrimentos espirituais, há as penas e provas materiais que o
Espírito, se não está depurado, experimenta numa nova encarnação, na qual
é colocado em condições de sofrer o que fez a outrem sofrer; de ser
humilhado, se foi orgulhoso; miserável, se avarento; infeliz com seus
filhos, se foi mau filho, etc.
Como dissemos, a Terra é um dos lugares de exílio e de expiação, um
purgatório, para os Espíritos dessa natureza, do qual cada um se pode
libertar, melhorando-se suficientemente para merecer habitação em mundo
melhor. (O Livro dos Espíritos, nº 237: Percepções, sensações e
sofrimentos dos Espíritos; idem, Parte 4. Esperanças e consolações, cap.
1, Penas e gozos futuros; — Revue Spirite, 1858, pág. 79: L’assassin
Lemaire; idem, pág. 166: Le suicidé de la Sannaritaine; idem, pág. 331:
Sensations des Esprits; idem, 1859, pág. 275: Le pére Crépin; idem, 1860,
pág. 61: Estela Regnier; idem, página 247: Le suicidé de la rue
Quincampoix; idem, pág. 316: Le châtiment; idem, pág. 315: Entrée d’un
coupable dans Le monde des Esprits; idem, pág. 384: châtiment de l’egoïste;
idem, 1861, pág. 53: Suicide d’un athée; idem, página 270: La peine du
talion.) 161. A prece será útil às almas sofredoras?
Todos os bons Espíritos a recomendam e os imperfeitos a pedem como meio de
aliviar os seus sofrimentos. A alma, por quem se pede, experimenta um
consolo, porque vê na prece um testemunho de interesse, e o infeliz é
sempre consolado, quando encontra pessoas que compartilhem de suas dores.
De outro lado, pela prece o exortamos ao arrependimento e ao desejo de
fazer o necessário para ser feliz; é neste sentido que se pode
abreviar-lhe as penas, quando ele, de seu lado, o favorece com a sua
boa-vontade. (O Livro dos Espíritos, nº 664
— Revue Spirite, 1859, pág. 315; Effets de la priêre Sur les Esprits
soufframts.) 162. Em que consistem os gozos das almas
felizes? Passam elas a eternidade em contemplação?
A justiça quer que a recompensa seja proporcional ao mérito, como a
punição à gravidade da falta; há, pois, graus infinitos nos gozos da alma,
desde o instante em que ela entra no caminho do bem, até aquele em que
atinge a perfeição. A felicidade dos bons Espíritos consiste em conhecer
todas as coisas, não sentir ódio, nem
ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que desgraçam os
homens, O amor que os une é, para os bons Espíritos, a fonte de suprema
felicidade, pois não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos, nem
as angústias da vida material.
O estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e
monótona; seria a ventura do egoísta, uma existência interminavelmente
inútil.
A vida espiritual é, ao contrário, de uma atividade incessante pelas
missões que os Espíritos recebem do Ser Supremo, de serem seus agentes no
governo do Universo
— missões essas proporcionadas ao seu adiantamento, e cujo desempenho os
torna felizes, porque lhes fornece ocasiões de serem úteis e de fazerem o
bem. (O Livro dos Espíritos, nº 558: Ocupações e missões dos Espíritos. —
Revue Spirite, 1860, págs. 321 e 322: Les purs Esrprits: Le séjour des
bienheureux; idem, 1861, pág. 179: Madame Gourdon.)
OBSERVAÇÃO — Convidamos os adversários do Espiritismo e os que não admitem
a reencarnação a darem, dos problemas acima apresentados, uma solução mais
lógica, por outro principio qualquer que não seja o da pluralidade das
existências. (TERCEIRA PARTE,
Solução de alguns problemas pela Doutrina Espírita.) TOPO
Cap. 1: Pequena Conferência
Espírita
MÉDIUNS E FEITICEIROS V. — Desde que a
mediunidade não é mais que um meio de entrar em relação com as potências
ocultas, médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma coisa?
A. K. — Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que,
pelo simples fato de produzirem fenômenos insólitos e incompreendidos,
foram qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo; foi
o mesmo que se deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos
acima do vulgar. A ignorância exagerou seu poder e, muitas vezes, eles
mesmos abusaram da credulidade pública, explorando-a; daí a justa
reprovação que os feriu.
Basta-nos comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos
verdadeiros médiuns, para conhecermos a diferença, mas a maioria dos
críticos não se quer dar a esse trabalho.
Longe de fazer reviver a feitiçaria, o Espiritismo a aniquila,
despojando-a do seu pretenso poder sobrenatural, de suas fórmulas, de seus
livros de magia, amuletos e talismãs, e reduzindo a seu justo valor os
fenômenos possíveis, sem sair das leis naturais.
A semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer, provém do erro em
que estão, julgando que os Espíritos estão às ordens dos médiuns; repugna
à sua razão crer que um indivíduo qualquer possa, à vontade, fazer
comparecer o Espírito de tal ou tal personagem, mais ou menos ilustre;
nisto eles estão perfeitamente com a verdade, e, se antes de apedrejarem o
Espiritismo, se tivessem dado ao trabalho de estudá-lo, veriam que ele diz
positivamente que os Espíritos não estão sujeitos aos caprichos de
ninguém, que ninguém pode, à vontade, constrangê-los a responder ao seu
chamado; do que se conclui que os médiuns não são feiticeiros.
V. — Neste caso, todos os efeitos que certos médiuns acreditados obtêm,
à vontade e em público, não são, ao vosso ver, senão charlatanice?
A. K. — Não o digo em absoluto. Tais fenômenos não são impossíveis, porque
há Espíritos de baixa categoria que se podem prestar à sua produção e que
se divertem, talvez por já terem sido prestidigitadores na vida terrena;
também há médiuns especialmente próprios para esse gênero de
manifestações; porém, o vulgar bom-senso repele a idéia de virem os
Espíritos, por menos elevados que sejam, representar palhaçadas e fazer
escamoteações para divertimento dos curiosos. A obtenção desses fenômenos
à vontade, e sobretudo em público, é sempre suspeita; neste caso a
mediunidade e a prestidigitação se tocam tão de perto que é difícil muitas
vezes distingui-las; antes de vermos nisso a ação dos Espíritos, devemos
observar minuciosamente e ter em conta, quer o caráter e os antecedentes
do médium, quer um grande número de circunstâncias que só o estudo da
teoria dos fenômenos espíritas nos pode fazer apreciar.
Deve-se notar que esse gênero de mediunidade, quando mediunidade nisso
exista, limita-se a produzir sempre o mesmo fenômeno, salvo pequenas
variantes, o que não é muito próprio para dissipar dúvidas, O desinteresse
absoluto é a melhor garantia de sinceridade.
Qualquer que seja o grau de veracidade desses fenômenos, como efeitos
mediúnicos, eles produzirão bom resultado, por darem voga à idéia
espírita. A controvérsia que se estabelece a respeito provoca em muitas
pessoas um estudo mais aprofundado.
Não é certamente aí que se deve ir beber instruções sérias sobre o
Espiritismo, nem sobre a filosofia da doutrina; porém, é um meio de chamar
a atenção dos indiferentes e obrigar os recalcitrantes a falarem dele.
TOPO
Do livro "O Que é o Espiritismo", Allan Kardec, 1ª e 3ª parte, edição
FEB. * Por mais que se
acuse Allan Kardec de racismo, a pergunta está isenta de tal sentimento visto ter sido formulada em 1872, quando
ainda vigorava a
escravidão na Terra e a raça negra era socialmente desconsiderada. Allan
Kardec, sem desconsiderá-la também, anota que, apesar do atraso em que
estava inserida (naquela época), ela teria que avançar, visto que o
progresso é Lei de Deus para todos os seres. Antes de mostrar-se racista,
Kardec foi racional, compreendendo e procurando explicar, por palavras
isentas de preconceito ou pieguice, que o mundo é composto por uma gama
imensa de diferenças, cuja explicação apenas é possível ou justa se
respaldada na reencarnação. (Nota do Instituto André Luiz)
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