Ah, meus amigos, no dia em que aprendermos a falar menos de nós e a escutar mais o nosso próximo, almas solitárias e angustiadas não alçarão vôos prematuros, tangidas por sofrimentos íntimos que talvez ninguém desejou ouvir...
No dia em que o "eu" ceder lugar ao "você", em que o egoísmo trocar o "eu preciso" pelo "o que você precisa?", menos irmãos abandonarão a tarefa em meio, pressionados por angústias que não conseguiram ou não puderam verbalizar...
No dia em que olharmos nossos filhos, nossos pais, nossos irmãos, amigos e companheiros como seres com contas próprias perante a Lei, não mais exigiremos que sejam diferentes do que são, empurrando-os para o abismo com nossa incompreensão e nosso descaso...
No dia em amarmos, de verdade, cada semelhante nosso, não os veremos partindo dilacerados e desditosos, para encontrar, mais além, muito maior dilaceração e dor...
No dia em a vida for mais que aparência física, no dia em que ela valer mais que estereótipos*, no dia em que o valor do ser humano for medido pelo o que ele é e não pelo que aparenta ser ou ter, as tardes não serão tão tristes, a chuva do sofrimento não cairá na alma com essa força de torrente rude e incontrolável...
Neste dia, ninguém mais partirá abruptamente porque mãos amigas, ainda que anônimas, estenderão carinho e calor, doçura e atenção, substituindo as sombras pela luz, a dor pela alegria, o abandono pela amizade, a intolerância pela compreensão e a morte pela vida...
No dia em que amarmos mais, eles voltarão para recomeçar. (Instituto André Luiz)

SUICÍDIO

No suicídio intencional, sem as atenuantes da moléstia ou da ignorância, há que considerar não somente o problema da infração ante as Leis Divinas, mas também o ato de violência que a criatura comete contra si mesma, através da premeditação mais profunda, com remorso mais amplo.
Atormentada de dor, a consciência desperta no nível de sombra a que se precipitou, suportando compulsoriamente as companhias que elegeu para si própria, pelo tempo indispensável à justa renovação.
Contudo, os resultados não se circunscrevem aos fenômenos de sofrimento intimo, porque surgem os desequilíbrios conseqüentes nas sinergias do corpo espiritual, com impositivos de reajuste em existências próximas.
É assim que após determinado tempo de reeducação, nos círculos de trabalho fronteiriços da Terra, os suicidas são habitualmente reintegrados no plano carnal, em regime de hospitalização na cela física, que lhes reflete as penas e angústias na forma de enfermidades e inibições.
Ser-nos-á fácil, desse modo, identificá-los, no berço em que repontam, entremostrando a expiação a que se acolhem.
Os que se envenenaram, conforme os tóxicos de que se valeram, renascem trazendo as afecções valvulares, os achaques do aparelho digestivo, as doenças do sangue e as disfunções endocrínicas, tanto quanto outros males de etiologia obscura; os que incendiaram a própria carne amargam as agruras da ictiose ou do pênfigo; os que se asfixiaram, seja no leito das águas ou nas correntes de gás, exibem os processos mórbidos das vias respiratórias, como no caso do enfisema ou dos cistos pulmonares; os que se enforcaram carreiam consigo os dolorosos distúrbios do sistema nervoso, como sejam as neoplasias diversas e a paralisia cerebral infantil; os que estilhaçaram o crânio ou deitaram a própria cabeça sob rodas destruidoras, experimentam desarmonias da mesma espécie, notadamente as que se relacionam com o cretinismo, e os que se atiraram de grande altura reaparecem portando os padecimentos da distrofia muscular progressiva ou da osteíte difusa.
Segundo o tipo de suicídio, direto ou indireto, surgem as distonias orgânicas derivadas, que correspondem a diversas calamidades congênitas, inclusive a mutilação e o câncer, a surdez e a mudez, a cegueira e a loucura, a representarem terapêutica providencial na cura da alma.
Junto de semelhantes quadros de provação regenerativa, funciona a ciência médica por missionária da redenção, conseguindo ajudar e melhorar os enfermos de conformidade com os créditos morais que atingiram ou segundo o merecimento de que disponham.
Guarda, pois, a existência como dom inefável, porque teu corpo é sempre instrumento divino, para que nele aprendas a crescer para a luz e a viver para o amor, ante a glória de Deus

EMMANUEL
(Religião dos Espíritos, 48, FCXavier, FEB)
Reunião pública de 3/7/59
Questão nº 957

* aquilo que é falto de originalidade; banalidade, lugar-comum, modelo, padrão básico.

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