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CAPÍTULO XIV
DOS MÉDIUNS
(De O Livro dos Médiuns - Allan
Kardec)
Todo aquele que
sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é,
por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui,
portanto, um
privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam
alguns
rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns. Todavia,
usualmente, assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se
mostra
bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que
então
depende de uma organização mais ou menos sensitiva. E de notar-se, além disso,
que
essa faculdade não se revela, da mesma maneira, em todos. Geralmente, os médiuns têm uma aptidão especial para os fenômenos desta, ou daquela ordem,
donde resulta que formam tantas variedades, quantas são as espécies de
manifestações.
As principais são: a dos médiuns de efeitos físicos; a dos médiuns sensitivos,
ou
impressionáveis; a dos audientes; a dos videntes; a dos sonambúlicos; a dos
curadores; a dos pneumatógrafos; a dos escreventes, ou psicógrafos.
1. Médiuns de efeitos físicos
Os médiuns de efeitos físicos são particularmente aptos a produzir
fenômenos materiais, como os movimentos dos corpos inertes, ou ruídos, etc.
Podem
dividir-se em médiuns facultativos e médiuns involuntários. (Veja-se a 2ª parte,
caps. II
e IV.)
Os médiuns facultativos são os que têm consciência do seu poder e que
produzem fenômenos espíritas por ato da própria vontade. Conquanto inerente à
espécie
humana, conforme já dissemos, semelhante faculdade longe está de existir em
todos no
mesmo grau. Porém, se poucas pessoas há em quem ela seja absolutamente nula,
mais
raras ainda são as capazes de produzir os grandes efeitos tais como a suspensão
de
corpos pesados, a translação aérea e, sobretudo, as aparições. Os efeitos mais
simples
são a rotação de um objeto, pancadas produzidas mediante o levantamento desse
objeto,
ou na sua própria substância. Embora não demos importância capital a esses
fenômenos,
recomendamos, contudo, que não sejam desprezados. Podem proporcionar ensejo a
observações interessantes e contribuir para a convicção dos que os observem.
Cumpre,
entretanto, ponderar que a faculdade de produzir efeitos materiais raramente
existe nos
que dispõem de mais perfeitos meios de comunicação, quais a escrita e a palavra.
Em
geral, a faculdade diminui num sentido à proporção que se desenvolve em outro.
Os médiuns involuntários ou naturais são aqueles cuja influência se exerce
a seu mau grado. Nenhuma
consciência têm do poder que possuem e, muitas vezes, o que de anormal se passa
em
torno deles não se lhes afigura de modo algum extraordinário. Isso faz parte
deles,
exatamente como se dá com as pessoas que, sem o suspeitarem, são dotadas de
dupla
vista. São muito dignos de observação esses indivíduos e ninguém deve
descuidar-se de
recolher e estudar os fatos deste gênero que lhe cheguem ao conhecimento. Manifestam-se
em todas as idades e, freqüentemente, em crianças ainda muito novas.
Tal faculdade não constitui, em si mesma, indício de um estado patológico,
porquanto não é incompatível com uma saúde perfeita. Se sofre aquele que a
possui,
esse sofrimento é devido a uma causa estranha, donde se segue que os meios
terapêuticos são impotentes para fazê-la desaparecer. Nalguns casos, pode ser
conseqüente de uma certa fraqueza orgânica, porém, nunca é causa eficiente. Não
seria,
pois, razoável tirar dela um motivo de inquietação, do ponto de vista higiênico.
Só
poderia acarretar inconveniente, se aquele que a possui abusasse dela, depois de
se
haver tornado médium facultativo, porque então se verificaria nele uma emissão
demasiado abundante de fluido vital e, por conseguinte, enfraquecimento dos
órgãos.
A razão se revolta à lembrança das torturas morais e corporais a que a
ciência tem por vezes sujeitado criaturas fracas e delicadas, para se certificar
da
existência de fraude da parte delas. Tais experimentações, amiúde feitas maldosamente,
são sempre prejudiciais às organizações sensitivas, podendo mesmo dar lugar a
graves
desordens na economia orgânica. Fazer semelhantes experiências é brincar com a
vida.
O observador de boa-fé não precisa lançar mão desses meios. Aquele que está
familiarizado com os fenômenos desta espécie sabe, aliás, que eles são mais de
ordem
moral, do que de ordem física e que será inútil procurar-lhes uma solução nas
nossas
ciências exatas.
Por isso mesmo que tais fenômenos são mais de ordem moral, deve-se evitar
com escrupuloso cuidado tudo o que possa sobreexcitar a imaginação. Sabe-se que
de
acidentes pode o medo ocasionar e muito menos imprudências se cometiam, se se conhecessem todos os casos de loucura e de epilepsia, cuja origem se encontra
nos contos de lobisomens e papões. Que não será, se se generalizar a persuasão de
que o
agente dos aludidos fenômenos é o diabo? Os que espelham semelhantes idéias não
sabem a responsabilidade que assumem: podem matar. Ora, o perigo não existe
apenas
para o paciente, mas também para os que o cercam, os quais podem ficar
aterrorizados,
ao pensarem que a casa onde moram se tornou um covil de demônios. Esta crença
funesta é que foi causa de tantos atos de atrocidade nos tempos de ignorância.
Entretanto, se houvesse um pouco mais de discernimento, teria ocorrido aos que
os
praticaram que não queimavam o diabo, por queimarem o corpo que supunham
possesso do diabo. Desde que do diabo é que queriam livrar-se, ao diabo é que
era
preciso matassem. Esclarecendo-nos sobre a verdadeira causa de todos esses
fenômenos, a Doutrina Espírita lhe dá o golpe de misericórdia. Longe, pois, de
concorrer para que tal idéia se forme, todos devem, e este é um dever de
moralidade e
de humanidade, combatê-la onde exista.
O que há a fazer-se, quando uma faculdade dessa natureza se desenvolve
espontaneamente num indivíduo, é deixar que o fenômeno siga o seu curso natural:
a
Natureza é mais prudente do que os homens. Acresce que a Providência tem seus
desígnios e aos maiores destes pode servir de instrumento a mais pequenina das
criaturas. Porém, forçoso é convir, o fenômeno assume por vezes proporções
fatigantes
e importunas para toda gente (1).
__________
(1) Um dos fatos mais extraordinários desta natureza, pela variedade e
singularidade dos
fenômenos, é, sem contestação, o que ocorreu em 1852, no Palatinado (Baviera
renana), em
Bergzabern, perto de Wissemburg. É tanto mais notável, quanto denota, reunidos
no mesmo indivíduo,
quase todos os gêneros de manifestações espontâneas: estrondos de abalar a casa, derribamento dos móveis, arremesso
de objetos ao longe
por mãos invisíveis, visões e aparições, sonambulismo, êxtase, catalepsia,
atração elétrica, gritos e sons
aéreos, instrumentos tocando sem contacto, comunicações inteligentes, etc. e, o
que não é de somenos
importância, a comprovação destes fatos, durante quase dois anos, por inúmeras
testemunhas oculares,
dignas de crédito pelo saber e pelas posições sociais que ocupavam. A narração
autêntica dos aludidos
fenômenos foi publicada, naquela época, em muitos jornais alemães e,
especialmente, numa brochura
hoje esgotada e raríssima. Na Revue Spirite de 1858 se encontra a tradução
completa dessa brochura,
com os comentários e explicações indispensáveis. Essa, que saibamos, é a única
publicação feita em
francês do folheto a que nos referimos. Além do empolgante interesse que tais
fenômenos despertam,
eles são eminentemente instrutivos, do ponto de vista do estudo prático do
Espiritismo.
Os seres invisíveis, que revelam sua presença por efeitos sensíveis, são, em
geral,
Espíritos de ordem inferior e que podem ser dominados pelo ascendente moral. A
aquisição deste ascendente é o que se deve procurar.
Para alcançá-lo, preciso é que o indivíduo passe do estado de médium natural ao
de médium voluntário. Produz-se, então, efeito análogo ao que se observa no
sonambulismo. Como se sabe, o sonambulismo natural cessa geralmente, quando
substituído pelo sonambulismo magnético. Não se suprime a faculdade, que tem a
alma,
de emancipar-se; dá-se-lhe outra diretriz. O mesmo acontece com a faculdade
mediúnica. Para isso, em vez de pôr óbices ao fenômeno, coisa que raramente se consegue e que nem sempre deixa de ser perigosa, o que se tem de fazer é
concitar o
médium a produzi-los à sua vontade, impondo-se ao Espírito. Por esse meio, chega
o
médium
a sobrepujá-lo e, de um dominador às vezes tirânico, faz um ser submisso e, não
raro,
dócil. Fato digno de nota e que a experiência confirma é que, em tal caso, uma
criança
tem tanta e, por vezes, mais autoridade que um adulto: mais uma prova a favor
deste
ponto capital da Doutrina, que o Espírito só é criança pelo corpo; que tem por
si mesmo
um desenvolvimento necessariamente anterior à sua encarnação atual,
desenvolvimento
que lhe pode dar ascendente sobre Espíritos que lhe são inferiores.
A moralização de um Espírito, pelos conselhos de uma terceira pessoa influente
e experiente, não estando o médium em estado de o fazer, constitui
freqüentemente
meio muito eficaz. Mais tarde voltaremos a tratar dele.
Nesta categoria parece, à primeira vista, se deviam incluir as pessoas
dotadas de certa dose de eletricidade natural, verdadeiros torpedoshumanos,
a
produzirem, por simples contacto, todos os efeitos de atração e repulsão.
Errado,
porém, fora considerá-las médiuns, porquanto a vera mediunidade supõe a
intervenção
direta de um Espírito. Ora, no caso de que falamos, concludentes experiências
hão
provado que a eletricidade é o agente único desses fenômenos. Esta estranha
faculdade,
que quase se poderia considerar uma enfermidade, pode às vezes estar aliada à
mediunidade, como é fácil de verificar-se na história do Espírito batedor de
Bergzabern.
Porém, as mais das vezes, de todo independe de qualquer faculdade mediúnica.
Conforme já dissemos, a única prova da intervenção dos Espíritos é o caráter
inteligente
das manifestações. Desde que este caráter não exista, fundamento há para serem
atribuídas a causas puramente físicas. A questão é saber se as pessoas elétricas
estarão
ou não mais aptas, do que quaisquer outras, a tornar-se médiuns de efeitos
físicos. Cremos que sim, mas só a experiência poderia demonstrá-lo.
2. Médiuns sensitivos, ou impressionáveis
Chamam-se assim às pessoas suscetíveis de sentir a presença dos Espíritos
por uma impressão vaga, por uma espécie de leve roçadura sobre todos os seus
membros, sensação que elas não podem explicar. Esta variedade não apresenta
caráter
bem definido. Todos os médiuns são necessariamente impressionáveis, sendo assim
a
impressionabilidade mais uma qualidade geral do que especial. É a faculdade
rudimentar
indispensável ao desenvolvimento de todas as outras. Difere da
impressionabilidade
puramente física e nervosa, com a qual preciso é não seja confundida, porquanto,
pessoas há que não têm nervos delicados e que sentem mais ou menos o efeito da
presença dos Espíritos, do mesmo modo que outras, muito irritáveis,
absolutamente não
os pressentem.
Esta faculdade se desenvolve pelo hábito e pode adquirir tal sutileza, que
aquele
que a possui reconhece, pela impressão que experimenta, não só a natureza, boa
ou má,
do Espírito que lhe está ao lado, mas até a sua individualidade, como o cego
reconhece,
por um certo não sei quê, a aproximação de tal ou tal pessoa. Torna-se, com
relação aos
Espíritos, verdadeiro sensitivo. Um bom Espírito produz sempre uma impressão
suave e
agradável; a de um mau Espírito, ao contrário, é penosa, angustiosa,
desagradável. Há
como que um cheiro de impureza.
3. Médiuns audientes
Estes ouvem a voz dos Espíritos. É, como dissemos ao falar da
pneumatofonia, algumas vezes uma voz interior, que se faz ouvir no foro íntimo;
doutras vezes, é uma voz exterior, clara e distinta, qual a de uma pessoa viva.
Os
médiuns audientes podem, assim, travar conversação com os Espíritos. Quando têm
o
hábitode se comunicar com determinados Espíritos, eles os reconhecem imediatamente
pela
natureza da voz. Quem não seja dotado desta faculdade pode, igualmente,
comunicar
com um Espírito, se tiver, a auxiliá-lo, um médium audiente, que desempenhe a
função
de intérprete.
Esta faculdade é muito agradável, quando o médium só ouve Espíritos bons, ou
unicamente aqueles por quem chama. Assim, entretanto, já não é, quando um
Espírito
mau se lhe agarra, fazendo-lhe ouvir a cada instante as coisas mais
desagradáveis e não
raro as mais inconvenientes. Cumpre-lhe, então, procurar livrar-se desses
Espíritos,
pelos meios que indicaremos no capítulo da Obsessão.
4. Médiuns falantes (Psicofônicos - nota
nossa)
Os médiuns audientes, que apenas transmitem o que ouvem, não são,
a bem dizer, médiuns falantes. Estes últimos, as mais das vezes, nada ouvem.
Neles, o
Espírito atua sobre os órgãos da palavra, como atua sobre a mão dos médiuns
escreventes. Querendo comunicar-se, o Espírito se serve do órgão que se lhe
depara
mais flexível no médium. A um, toma da mão; a outro, da palavra; a um terceiro,
do
ouvido. O médium falante geralmente se exprime sem ter consciência do que diz e
muitas vezes diz coisas completamente estranhas às suas idéias habituais, aos
seus
conhecimentos e, até, fora do alcance de sua inteligência. Embora se ache
perfeitamente
acordado e em estado normal, raramente guarda lembrança do que diz. Em suma,
nele, a
palavra é um instrumento de que se serve o Espírito, com o qual uma terceira
pessoa
pode comunicar-se, como pode com o auxilio de um médium audiente.
Nem sempre, porém, é tão completa a passividade do médium falante. Alguns há
que têm a intuição do que dizem, no momento mesmo em que pronunciam as palavras.
Voltaremos a ocupar-nos com esta espécie de médiuns, quando tratarmos dos
médiuns
intuitivos.
5. Médiuns videntes
Os médiuns videntes são dotados da faculdade de ver os Espíritos. Alguns
gozam dessa faculdade em estado normal, quando perfeitamente acordados, e
conservam lembrança precisa do que viram. Outros só a possuem em estado
sonambúlico, ou próximo do sonambulismo. Raro é que esta faculdade se mostre
permanente; quase sempre é efeito de uma crise passageira. Na categoria dos
médiuns
videntes se podem incluir todas as pessoas dotadas de dupla vista. A
possibilidade de
ver em sonho os Espíritos resulta, sem contestação, de uma espécie de
mediunidade,
mas não constitui, propriamente falando, o que se chama médium vidente.
Explicamos
esse fenômeno em o capítulo VI - Das manifestações visuais.
O médium vidente julga ver com os olhos, como os que são dotados de dupla
vista; mas, na realidade, é a alma quem vê e por isso é que eles tanto vêem com
os olhos
fechados, como com os olhos abertos; donde se conclui que um cego pode ver os
Espíritos, do mesmo modo que qualquer outro que tem perfeita a vista. Sobre este
último ponto caberia fazer-se interessante estudo, o de saber se a faculdade de
que
tratamos é mais freqüente nos cegos. Espíritos que na Terra foram cegos nos
disseram
que, quando vivos, tinham, pela alma, a percepção de certos objetos e que não se
encontravam imersos em negra escuridão.
Cumpre distinguir as aparições acidentais e espontâneas da faculdade
propriamente dita de ver os Espíritos. As primeiras são freqüentes, sobretudo no
momento da morte das pessoas que aquele que vê amou ou conheceu e que o vêm
prevenir de que já não são deste mundo. Há inúmeros exemplos de fatos deste
gênero,
sem falar das visões durante o sono. Doutras vezes, são, do mesmo modo,
parentes, ou
amigos que, conquanto mortos há mais ou menos tempo, aparecem, ou para avisar de
um perigo, ou para dar um conselho, ou, ainda, para pedir um serviço.
O serviço que o Espírito pode solicitar é, em geral, a execução de uma coisa que
lhe não
foi possível fazer em vida, ou o auxílio das preces. Estas aparições constituem
fatos
isolados, que apresentam sempre um caráter individual e pessoal, e não efeito de
uma
faculdade propriamente dita. A faculdade consiste na possibilidade, senão
permanente,
pelo menos muito freqüente de ver qualquer Espírito que se apresente, ainda que
seja
absolutamente estranho ao vidente. A posse desta faculdade é o que constitui,
propriamente falando, o médium vidente.
Entre esses médiuns, alguns há que só vêem os Espíritos evocados e cuja
descrição podem fazer com exatidão minuciosa. Descrevem-lhes, com as menores
particularidades, os gestos, a expressão da fisionomia, os traços do semblante,
as vestes
e, até, os sentimentos de que parecem animados. Outros há em quem a faculdade da
vidência é ainda mais ampla: vêem toda a população espírita ambiente, a se mover
em
todos os sentidos, cuidando, poder-se-ia dizer, de seus afazeres.
Assistimos uma noite à representação da ópera Oberon, em companhia de
um médium vidente muito bom. Havia na sala grande número de lugares vazios,
muitos
dos quais, no entanto, estavam ocupados por Espíritos, que pareciam
interessar-se pelo
espetáculo. Alguns se colocavam junto de certos espectadores, como que a lhes
escutar
a conversação. Cena diversa se desenrolava no palco: por detrás dos atores
muitos
Espíritos, de humor jovial, se divertiam em arremedá-los, imitando-lhes os
gestos de
modo grotesco; outros, mais sérios, pareciam inspirar os cantores e fazer
esforços por
lhes dar energia. Um deles se conservava sempre junto de uma das principais
cantoras.
Julgando-o animado de intenções um tanto levianas e tendo-o evocado após a
terminação do ato, ele acudiu ao nosso chamado e nos reprochou, com severidade,
o
temerário juízo: "Não sou o que julgas, disse; sou o seu guia e seu Espírito
protetor; sou
encarregado de dirigi-la." Depois de alguns minutos de uma palestra muito séria,
deixou-nos, dizendo: "Adeus; ela está em seu camarim; é preciso que vá vigiá-la." Em
seguida,
evocamos o Espírito Weber, autor da ópera, e lhe perguntamos o que pensava da
execução da sua obra. "Não de todo má; porém, frouxa; os atores cantam, eis
tudo. Não
há inspiração. Espera, acrescentou, vou tentar dar-lhes um pouco do fogo
sagrado." Foi
visto, daí a nada, no palco, pairando acima dos atores. Partindo dele, um como
eflúvio
se derramava sobre os intérpretes. Houve, então, nestes, visível recrudescência
de
energia.
Outro fato que prova a influência que os Espíritos exercem sobre os
homens, à revelia destes: Assistíamos, como nessa noite, a uma representação
teatral,
com outro médium vidente. Travando conversação com um Espírito espectador,
disse-nos
ele: "Vês aquelas duas damas sós, naquele camarote da primeira ordem? Pois bem,
estou esforçando-me por fazer que deixem a sala." Dizendo isso, o médium o viu
ir
colocar-se no camarote em questão e falar às duas. De súbito, estas, que se
mostravam
muito atentas ao espetáculo, se entreolharam, parecendo consultar-se mutuamente.
Depois, vão-se e não mais voltam. O Espírito nos fez então um gesto cômico,
querendo
significar que cumprira o que dissera. Não o tornamos a ver, para pedir-lhe
explicações
mais amplas. assim que muitas vezes fomos testemunha do papel que os Espíritos
desempenham entre os vivos. Observamo-los em diversos lugares de reunião, em
bailes,
concertos, sermões, funerais, casamentos, etc., e por toda parte os encontramos
atiçando paixões más, soprando discórdias, provocando rixas e rejubilando-se com
suas
proezas. Outros, ao contrário, combatiam essas influências perniciosas, porém,
raramente eram atendidos.
A faculdade de ver os Espíritos pode, sem dúvida, desenvolver-se, mas é
uma das de que convém esperar o desenvolvimento natural, sem o provocar, em não
se
querendo ser joguete da própria imaginação. Quando
o gérmen de uma faculdade existe, ela se manifesta de si mesma. Em princípio,
devemos
contentar-nos com as que Deus nos outorgou, sem procurarmos o impossível, por
isso
que, pretendendo ter muito, corremos o risco de perder o que possuímos.
Quando dissemos serem freqüentes os casos de aparições espontâneas (n. 107),
não quisemos dizer que são muito comuns. Quanto aos médiuns videntes,
propriamente
ditos, ainda são mais raros e há muito que desconfiar dos que se inculcam
possuidores
dessa faculdade. E prudente não se lhes dar crédito, senão diante de provas
positivas.
Não aludimos sequer aos que se dão à ilusão ridícula de ver os Espíritos
glóbulos, que
descrevemos no n. 108; falamos apenas dos que dizem ver os Espíritos de modo
racional. E fora de dúvida que algumas pessoas podem enganar-se de boa-fé,
porém,
outras podem também simular esta faculdade por amor-próprio, ou por interesse.
Neste
caso, é preciso, muito especialmente, levarem conta o caráter, a moralidade e a
sinceridade habituais; todavia, nas particularidades, sobretudo, é que se
encontram
meios de mais segura verificação, porquanto algumas há que não podem deixar
suspeita,
como, por exemplo, a exatidão no retratar Espíritos que o médium jamais conheceu
quando encamados. Pertence a esta categoria o fato seguinte:
Uma senhora, viúva, cujo marido se comunica freqüentemente com ela, estava
certa vez em companhia de um médium vidente, que não a conhecia, como não lhe
conhecia a família. Disse-lhe o médium, em dado momento: - Vejo um Espírito
perto da
senhora. - Ah! disse esta por sua vez: E com certeza meu marido, que quase nunca
me
deixa. - Não, respondeu o médium, é uma mulher de certa idade; está penteada de
modo
singular; traz um bandó branco sobre a fronte.
Por essa particularidade e outros detalhes descritos, a senhora reconheceu, sem
haver possibilidade de engano, sua avó, em quem naquele instante absolutamente
não
pensava.
Se o médium houvesse querido simular a faculdade, fácil lhe fora acompanhar o pensamento da dama. Entretanto, em vez do
marido,
com quem ela se achava preocupada, ele vê uma mulher, com uma particularidade no
penteado, da qual coisa alguma lhe podia dar idéia. Este fato prova também que a
vidência, no médium, não era reflexo de qualquer pensamento estranho.
6. Médiuns sonambúlicos
Pode considerar-se o sonambulismo uma variedade da faculdade mediúnica,
ou, melhor, são duas ordens de fenômenos que freqüentemente se acham reunidos. O
sonâmbulo age sob a influência do seu próprio Espírito; é sua alma que, nos
momentos
de emancipação, vê, ouve e percebe, fora dos limites dos sentidos. O que ele
externa
tira-o de si mesmo; suas idéias são, em geral, mais justas do que no estado
normal, seus
conhecimentos mais dilatados, porque tem livre a alma. Numa palavra, ele vive
antecipadamente a vida dos Espíritos. O médium, ao contrário, é instrumento de
uma
inteligência estranha; é passivo e o que diz não vem de si Em resumo, o
sonâmbulo
exprime o seu próprio pensamento, enquanto que o médium exprime o de outrem.
Mas,
o Espírito que se comunica com um médium comum também o pode fazer com um
sonâmbulo; dá-se mesmo que, muitas vezes, o estado de emancipação da alma
facilita
essa comunicação. Muitos sonâmbulos vêem perfeitamente os Espíritos e os
descrevem
com tanta precisão, como os médiuns videntes. Podem confabular com eles e
transmitir-nos
seus pensamentos. O que dizem, fora do âmbito de seus conhecimentos pessoais,
lhes é com freqüência sugerido por outros Espíritos. Aqui está um exemplo
notável, em
que a dupla ação do Espírito do sonâmbulo e de outro Espírito se revela e de
modo inequívoco.
Um de nossos amigos tinha como sonâmbulo um rapaz de 14 a 15 anos, de
inteligência muito vulgar
e instrução extremamente escassa. Entretanto, no estado de sonambulismo, deu
provas
de lucidez extraordinária e de grande perspicácia. Excedia, sobretudo, no
tratamento das
enfermidades e operou grande número de curas consideradas impossíveis. Certo
dia,
dando consulta a um doente, descreveu a enfermidade com absoluta exatidão. Não
basta, disseram-lhe, agora é preciso que indiques o remédio. Não posso,
respondeu, meu
anjo doutor não está aqui. Quem é esse anjo doutor de quem falas? - O que dita
os
remédios. - Não és tu, então, que vês os remédios? - Oh! não; estou a dizer que
é o meu
anjo doutor quem mos dita.
Assim, nesse sonâmbulo, a ação de ver o mal era do seu próprio Espírito que,
para isso, não precisava de assistência alguma; a indicação, porém, dos remédios
lhe era
dada por outro. Não estando presente esse outro, ele nada podia dizer. Quando
só, era
apenas sonâmbulo; assistido por aquele a quem chamava seu anjo doutor, era
sonâmbulo-médium.
A lucidez sonambúlica é uma faculdade que se radica no organismo e que
independe, em absoluto, da elevação, do adiantamento e mesmo do estado moral do
indivíduo. Pode, pois, um sonâmbulo ser muito lúcido e ao mesmo tempo incapaz de
resolver certas questões, desde que seu Espírito seja pouco adiantado. O que
fala por si
próprio pode, portanto, dizer coisas boas ou más, exatas ou falsas, demonstrar
mais ou
menos delicadeza e escrúpulo nos processos de que use, conforme o grau de
elevação,
ou de inferioridade do seu próprio Espírito. A assistência então de outro
Espírito pode
suprir-lhe as deficiências. Mas, um sonâmbulo, tanto como os médiuns, pode ser
assistido por um Espírito mentiroso, leviano, ou mesmo mau. AI, sobretudo, é que
as
qualidades morais exercem grande influência, para atraírem os bons Espíritos.
(Veja-se:
O Livro dos Espíritos, "Sonambulismo", n. 425, e, aqui, adiante, o capítulo
sobre a
"Influência moral do médium".)
7. Médiuns curadores
Unicamente para não deixar de mencioná-la, falaremos aqui desta espécie
de médiuns, porquanto o assunto exigiria desenvolvimento excessivo para os
limites em
que precisamos ater-nos. Sabemos, ao demais, que um de nossos amigos, médico, se
propõe a tratá-lo em obra especial sobre a medicina intuitiva. Diremos apenas
que este
gênero de mediunidade consiste, principalmente, no dom que possuem certas
pessoas de
curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de
qualquer
medicação. Dir-se-á, sem dúvida, que isso mais não é do que magnetismo.
Evidentemente, o fluido magnético desempenha aí importante papel; porém, quem
examina cuidadosamente o fenômeno sem dificuldade reconhece que há mais alguma
coisa. A magnetização ordinária é um verdadeiro tratamento seguido, regular e
metódico; no caso que apreciamos, as coisas se passam de modo inteiramente
diverso.
Todos os magnetizadores são mais ou menos aptos a curar, desde que saibam
conduzir-se
convenientemente, ao passo que nos médiuns curadores a faculdade é espontânea e
alguns até a possuem sem jamais terem ouvido falar de magnetismo. A intervenção
de
uma potência oculta, que é o que constitui a mediunidade, se faz manifesta, em
certas
circunstâncias, sobretudo se considerarmos que a maioria das pessoas que podem,
com
razão, ser qualificadas de médiuns curadores recorre à prece, que é uma
verdadeira evocação.
Eis aqui as respostas que nos deram os Espíritos às perguntas que lhes
dirigimos sobre este assunto:
1ª - Podem considerar-se as pessoas dotadas de força magnética como formando
uma variedade de médiuns?
"Não há que duvidar."
2ª - Entretanto, o médium é um intermediário entre os Espíritos e o homem; ora, o
magnetizador, haurindo
em si mesmo a força de que se utiliza, não parece que seja intermediário de
nenhuma
potência estranha.
"É um erro; a força magnética reside, sem dúvida, no homem, mas é aumentada
pela ação dos Espíritos que ele chama em seu auxilio. Se magnetizas com o
propósito de
curar, por exemplo, e invocas um bom Espírito que se interessa por ti e pelo teu
doente,
ele aumenta a tua força e a tua vontade, dirige o teu fluido e lhe dá as
qualidades
necessárias."
3ª - Há, entretanto, bons magnetizadores que não crêem nos Espíritos?
"Pensas então que os Espíritos só atuam nos que crêem neles? Os que
magnetizam para o bem são auxiliados por bons Espíritos. Todo homem que nutre o
desejo do bem os chama, sem dar por isso, do mesmo modo que, pelo desejo do mal
e
pelas más intenções, chama os maus."
4ª - Agiria com maior eficácia aquele que, tendo a força magnética, acreditasse na
intervenção dos Espíritos?
"Faria coisas que consideraríeis milagre."
5ª - Há pessoas que verdadeiramente possuem o dom de curar pelo simples
contacto, sem o emprego dos passes magnéticos?
"Certamente; não tens disso múltiplos exemplos?"
6ª- Nesse caso, há também ação magnética, ou apenas influência dos Espíritos?
"Uma e outra coisa. Essas pessoas são verdadeiros médiuns, pois que atuam sob
a influência dos Espíritos; isso, porém, não quer dizer que sejam quais médiuns
curadores, conforme o entendes."
7ª- Pode transmitir-se esse poder?
"O poder, não; mas o conhecimento de que necessita, para exercê-lo, quem o
possua. Não falta quem não suspeite sequer de que tem esse poder, se não
acreditar que
lhe foi transmitido."
8ª - Podem obter-se curas unicamente por meio da prece?
"Sim, desde que Deus o permita; pode dar-se, no entanto, que o bem do doente
esteja em sofrer por mais tempo e então julgais que a vossa prece não foi
ouvida."
9ª - Haverá para isso algumas fórmulas de prece mais eficazes do que outras?
"Somente a superstição pode emprestar virtudes quaisquer a certas palavras e
somente Espíritos ignorantes, ou mentirosos podem alimentar semelhantes idéias,
prescrevendo fórmulas. Pode, entretanto, acontecer que, em se tratando de
pessoas
pouco esclarecidas e incapazes de compreender as coisas puramente espirituais, o
uso
de determinada fórmula contribua para lhes infundir confiança. Neste caso,
porém, não é
na fórmula que está a eficácia, mas na fé, que aumenta por efeito da idéia
ligada ao uso
da fórmula."
8. Médiuns pneumatógrafos
Dá-se este nome aos médiuns que têm aptidão para obter a escrita direta, o
que não é possível a todos os médiuns escreventes. Esta faculdade, até agora, se
mostra
muito rara. Desenvolve-se, provavelmente, pelo exercício; mas, como dissemos,
sua
utilidade prática se limita a uma comprovação patente da intervenção de uma
força
oculta nas manifestações. Só a experiência é capaz de dar a ver a qualquer
pessoa se a
possui. Pode-se, portanto, experimentar, como também se pode inquirir a respeito
um
Espírito protetor, pelos outros meios de comunicação. Conforme seja maior ou
menor o
poder do médium, obtêm-se simples traços, sinais, letras, palavras, frases e
mesmo
páginas inteiras. Basta de ordinário colocar uma folha de papel dobrada num
lugar
qualquer, ou indicado pelo Espírito, durante dez minutos, ou um quarto de hora,
às
vezes mais. A prece e o recolhimento são condições essenciais; é por isso que se
pode
considerar impossível a obtenção de coisa alguma, numa reunião de pessoas pouco
sérias, ou não animadas de sentimentos de simpatia e benevolência. (Veja-se a teoria da escrita direta, capítulo VIII, Laboratório do mundo
invisível,
n. 127 e seguintes, e capítulo XII, Pneumatografia.)
Trataremos de modo especial dos médiuns escreventes nos capítulos que se
seguem.
DOS MÉDIUNS ESCREVENTES OU
PSICÓGRAFOS
Médiuns mecânicos, intuitivos, semimecânicos, inspirados ou involuntários; de
pressentimentos.
De todos os meios de comunicação, a escrita manual é o mais simples,
mais cômodo e, sobretudo, mais completo. Para ele devem tender todos os
esforços,
porquanto permite se estabeleçam, com os Espíritos, relações tão continuadas e
regulares, como as que existem entre nós. Com tanto mais afinco deve ser
empregado,
quanto é por ele que os Espíritos revelam melhor sua natureza e o grau do seu
aperfeiçoamento, ou da sua inferioridade. Pela facilidade que encontram em
exprimir-se
por esse meio, eles nos revelam seus mais íntimos pensamentos e nos facultam
julgá-los
e apreciar-lhes o valor. Para o médium, a faculdade de escrever é, além disso, a
mais
suscetível de desenvolver-se pelo exercício.
Médiuns mecânicos
Quem examinar certos efeitos que se produzem nos movimentos da mesa,
da cesta, ou da prancheta que escreve não poderá duvidar de uma ação diretamente
exercida pelo Espírito sobre esses objetos. A cesta se agita por vezes com tanta
violência, que escapa das mãos do médium e não raro se dirige a certas pessoas
da
assistência para nelas bater. Outras vezes, seus movimentos dão mostra de um
sentimento afetuoso. O mesmo ocorre quando o lápis está colocado na mão do
médium;
freqüentemente é atirado longe com força, ou, então, a mão, bem como a cesta, se
agitam convulsivamente e batem na mesa de modo colérico, ainda quando o médium
está possuído da maior calma e se admira de não ser senhor de si Digamos, de
passagem, que tais efeitos demonstram sempre a presença de Espíritos
imperfeitos; os
Espíritos superiores são constantemente calmos, dignos e benévolos; se não são
escutados convenientemente, retiram-se e outros lhes tomam o lugar. Pode, pois,
o
Espírito exprimir diretamente suas idéias, quer movimentando um objeto a que a
mão do
médium serve de simples ponto de apoio, quer acionando a própria mão.
Quando atua diretamente sobre a mão, o Espírito lhe dá uma impulsão de todo
independente da vontade deste último. Ela se move sem interrupção e sem embargo
do
médium, enquanto o Espírito tem alguma coisa que dizer, e pára, assim ele acaba.
Nesta circunstância, o que caracteriza o fenômeno é que o médium não tem a
menor consciência do que escreve. Quando se dá, no caso, a inconsciência
absoluta;
têm-se os médiuns chamados passivos ou mecânicos. E preciosa esta faculdade, por
não
permitir dúvida alguma sobre a independência do pensamento daquele que escreve.
Médiuns intuitivos
A transmissão do pensamento também se dá por meio do Espírito do
médium, ou, melhor, de sua alma,
pois que por este nome designamos o Espírito encarnado. O Espírito livre, neste
caso,
não atua sobre a mão, para fazê-la escrever; não a toma, não a guia. Atua sobre
a alma,
com a qual se identifica. A alma, sob esse impulso, dirige a mão e esta dirige o
lápis.
Notemos aqui uma coisa importante: é que o Espírito livre não se substitui à
alma, visto
que não a pode deslocar. Domina-a, mau grado seu, e lhe imprime a sua vontade.
Em tal
circunstância, o papel da alma não é o de inteira passividade; ela recebe o
pensamento
do Espírito livre e o transmite. Nessa situação, o médium tem consciência do que
escreve, embora não exprima o seu próprio pensamento. E o que se chama médium
intuitivo.
Mas, sendo assim, dir-se-á, nada prova seja um Espírito estranho quem escreve e
não o do médium. Efetivamente, a distinção é às vezes difícil de fazer-se,
porém, pode
acontecer que isso pouca importância apresente. Todavia, é possível
reconhecer-se o
pensamento sugerido, por não ser nunca preconcebido; nasce à medida que a
escrita vai
sendo traçada e, amiúde, é contrário à idéia que antecipadamente se formara.
Pode
mesmo estar fora dos limites dos conhecimentos e capacidades do médium.
O papel do médium mecânico é o de uma máquina; o médium intuitivo age como
o faria um intérprete. Este, de fato, para transmitir o pensamento, precisa
compreendê-lo,
apropriar-se dele, de certo modo, para traduzi-lo fielmente e, no entanto, esse
pensamento não é seu, apenas lhe atravessa o cérebro. Tal precisamente o papel
do
médium intuitivo.
Médiuns semi-mecânicos
No médium puramente mecânico, o movimento da mão independe da
vontade; no médium intuitivo, o movimento é voluntário e facultativo. O médium
semi-mecânico participa de ambos esses gêneros. Sente que à sua mão uma impulsão
é
dada, mau grado seu, mas, ao mesmo tempo, tem consciência do que escreve, à
medida
que as palavras se formam. No primeiro o pensamento vem
depois do ato da escrita; no segundo, precede-o; no terceiro, acompanha-o. Estes
últimos médiuns são os mais numerosos.
Médiuns inspirados
Todo aquele que, tanto no estado normal, como no de êxtase, recebe, pelo
pensamento, comunicações estranhas às suas idéias preconcebidas, pode ser
incluído na
categoria dos médiuns inspirados. Estes, como se vê, formam uma variedade da
mediunidade intuitiva, com a diferença de que a intervenção de uma força oculta
é aí
muito menos sensível, por isso que, ao inspirado, ainda é mais difícil
distinguir o
pensamento próprio do que lhe é sugerido. A espontaneidade é o que, sobretudo,
caracteriza o pensamento deste último gênero. A inspiração nos vem dos Espíritos
que
nos influenciam para o bem, ou para o mal, porém, procede, principalmente, dos
que
querem o nosso bem e cujos conselhos muito amiúde cometemos o erro de não
seguir.
Ela se aplica, em todas as circunstâncias da vida, às resoluções que devamos
tomar. Sob
esse aspecto, pode dizer-se que todos são médiuns, porquanto não há quem não
tenha
seus Espíritos protetores e familiares, a se esforçarem por sugerir aos
protegidos
salutares idéias. Se todos estivessem bem compenetrados desta verdade, ninguém
deixaria de recorrer com freqüência à inspiração do seu anjo de guarda, nos
momentos
em que se não sabe o que dizer, ou fazer. Que cada um, pois, o invoque com
fervor e
confiança, em caso de necessidade, e muito freqüentemente se admirará das idéias
que
lhe surgem como por encanto, quer se trate de uma resolução a tomar, quer de
alguma
coisa a compor. Se nenhuma idéia surge, é que é preciso esperar. A prova de que
a idéia
que sobrevém é estranha à pessoa de quem se trate esta em que, se tal idéia lhe
existira
na mente, essa pessoa seria senhora de, a qualquer momento, utilizá-la e não
haveria
razão para que ela se não manifestasse à vontade. Quem não é cego nada mais
precisa
fazer do que abrir os olhos, para ver quando quiser. Do mesmo
modo, aquele que possui idéias próprias tem-nas sempre à disposição. Se elas não
lhes
vêm quando quer, é que está obrigado a buscá-las algures, que não no seu intimo.
Também se podem incluir nesta categoria as pessoas que, sem serem dotadas de
inteligência fora do comum e sem saírem do estado normal, têm relâmpagos de uma
lucidez intelectual que lhes dá momentaneamente desabitual facilidade de
concepção e
de elocução e, em certos casos, o pressentimento de coisas futuras. Nesses
momentos,
que com acerto se chamam de inspiração, as idéias abundam, sob um impulso
involuntário e quase febril. Parece que uma inteligência superior nos vem ajudar
e que o
nosso espírito se desembaraçou de um fardo.
Os homens de gênio, de todas as espécies, artistas, sábios, literatos, são
sem dúvida Espíritos adiantados, capazes de compreender por si mesmos e de
conceber
grandes coisas. Ora, precisamente porque os julgam capazes, é que os Espíritos,
quando
querem executar certos trabalhos, lhes sugerem as idéias necessárias e assim é
que eles,
as mais das vezes, são médiuns sem o saberem. Têm, no entanto, vaga intuição de
uma
assistência estranha, visto que todo aquele que apela para a inspiração, mais
não faz do
que uma evocação. Se não esperasse ser atendido, por que exclamaria, tão
freqüentemente: meu bom gênio, vem em meu auxílio?
As respostas seguintes confirmam esta asserção:
a) Qual a causa primária da inspiração?
"O Espírito que se comunica pelo pensamento."
b) A revelação das grandes coisas não é que constitui o objeto único da
inspiração?
"Não, a inspiração se verifica, muitas vezes, com relação às mais comuns
circunstâncias da vida. Por exemplo, queres ir a alguma parte: uma voz secreta
te diz
que não o faças, porque correrás perigo; ou, então, te diz que faças uma coisa
em que
não pensavas. É a inspiração. Poucas pessoas há que não tenham sido mais ou
menos
inspiradas em certos momentos."
c) Um autor, um pintor, um músico, por exemplo, poderiam, nos momentos de
inspiração, ser considerados médiuns?
"Sim, porquanto, nesses momentos, a alma se lhes torna mais livre e como que
desprendida da matéria; recobra uma parte das suas faculdades de Espírito e
recebe mais
facilmente as comunicações dos outros Espíritos que a inspiram."
Médiuns de pressentimentos
O pressentimento é uma intuição vaga das coisas futuras. Algumas pessoas
têm essa faculdade mais ou menos desenvolvida. Pode ser devida a uma espécie de
dupla vista, que lhes permite entrever as conseqüências das coisas atuais e a
filiação dos
acontecimentos. Mas, muitas vezes, também é resultado de comunicações ocultas e,
sobretudo neste caso, é que se pode dar aos que dela são dotados o nome de
médiuns
de pressentimentos, que constituem uma variedade dos médiuns inspirados.
Nota da Editora (FEB) - No original francês está no grifo. "Torpilles humaines”
(Vide página
208). Torpille é um peixe semelhante à raia, ou arraia, que tem órgãos capazes
de emitir descargas
elétricas. É o peixe-torpedo, à seme1hança das denominações que damos, de
"enguia-elétrica" ou
"peixe-elétrico", ao peixe poraquê amazônico.
CONTINUA!...
"A
biblioteca espírita é viveiro de luz." - André Luiz
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